terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Nomeações dos Óscares

Foram anunciadas, há poucos minutos, as nomeações para a 78.ª edição dos Óscares.

A lista de nomeações já divulgadas é a seguinte:

MELHOR FILME
Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)
Capote
Crash (Colisão)
Good Night and Good Luck
Munich (Munique)

Ficaram de fora dos eleitos, o biopic de Johnny Cash, Walk the Line, o mais recente de Woody Allen, Match Point e outro dos filmes mais falados, The Constant Gardener (O Fiel Jardineiro).

MELHOR REALIZADOR
Ang Lee, Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)
Bennet Miller, Capote
Paul Haggis, Crash (Colisão)
George Clooney, <>Good Night and Good Luck
Steven Spielberg, Munich (Munique)

Desta vez, não era de esperar que a Academia ignorasse o trabalho de Spielberg, embora tenham sido desconsiderados os trabalhos de direcção notáveis de Fernando Meirelles (The Constante Gardener (O Fiel Jardineiro)), David Cronenberg (A History of Violence), James Mangold (Walk The Line) e Woody Allen (Match Point).

MELHOR ACTOR PRINCIPAL
Phillip Seymour Hoffman, Capote
Terrence Howard, Hustle and Flow
Heath Ledger, Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)
Joaquin Phoenix, Walk The Line
David Strathairn, Good Night and Good Luck

Sem grandes surpresas, Hoffman, Phoenix e Ledger aparecem na primeira linha para o galardão e, embora se falasse no seu nome nos bastidores, Jeff Daniels não foi distinguido pela Academia pelo seu desempenho em The Squid and the Whale.

MELHOR ACTRIZ PRINCIPAL
Judi Dench, Mrs. Henderson Presents
Felicity Huffman, Transamerica
Keira Knightley, Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito)
Charlize Theron, North Country
Reese Witherspoon, Walk The Line

As nomeações esperadas para um duelo disputado pela estatueta. Na primeira linha estão Felicity Huffman e Reese Witherspoon. Keira Knightley ganhou ao sprint a Joan Allen (The Upside of Anger (O Lado Bom da Fúria)) na corrida para a nomeação.


MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
George Clooney, Syriana
Matt Dillon, Crash (Colisão)
Paul Giamatti, Cinderella Man
Jake Gyllenhaal, Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)
William Hurt, A History of Violence

Empurrado pela pujança do filme, o nome de Gyllenhaal era inevitável, assim como Giamatti que aparece aqui a salvar a honra do convento de Cinderella Man. William Hurt e Matt Dillon surgem na lista com inteira justiça, depois de terem protagonizado duas das melhores performances da sua carreira.

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Amy Adams, Juneburg
Catherine Keener, Capote
Frances McDormand, North Country
Rachel Weisz, The Constant Gardener (O Fiel Jardineiro)
Michelle Williams, Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)

Maria Bello (A History of Violence) e Laura Linney (The Squid and the Whale) eram referências esperadas mas ficaram de fora da derradeira lista. Por outro lado, chegou finalmente o reconhecimento da Academia a Catherine Keener (Capote) e à outsider Amy Adams. Rachel Weisz e Michelle Williams continuam a ser as favoritas.

Veja a lista de nomeados no site oficial do certame, clicando aqui.

Os prémios serão atribuídos no próximo dia 5 de Março.

Belle & Sebastian - The Life Pursuit

Apreciação final: 8/10
Edição: Matador, Janeiro 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.belleandsebastian.com








A música actual dos escoceses Belle & Sebastian é peculiar. Os rasgos de inspiração vêm de origens diversas e acolhem os formatos genéricos da pop, as ondulações verbalistas do rock'n'roll e os propósitos independentes do universo indie. Apesar disso, eles não se grudam a nenhum desses rótulos e, ao sétimo longa-duração, mantêm os mesmos malabarismos que, em início de carreira, lhes renderam o respeito da crítica. Se isso não bastasse, o espectro emocional das canções dá uma ajuda, deixando entrever alguma ambiguidade psíquica: os conteúdos melancólicos das letras são servidos por melodias brilhantes, com cadências rítmicas contagiantes e dignas de embalarem as tardes mais solarengas de dias de Verão. E é também aí que reside a magia dos Belle & Sebastian. O colectivo escocês consegue colorir os desgostos mais profundos, sem lhes subtrair o ónus introspectivo e força-nos ao mais cativante dos exercícios psicanalíticos, seduzindo-nos o ouvido, primeiro, e a mente, de seguida. Depois, há uma viragem decisiva (já tentada em Dear Catastrophe Waitress (2003)): as composições não trazem disfarces, exibem-se em tons de um optimismo tangível, seja pelas sinergias entre músicos, seja pelo primor festivo da produção de Tony Hoffer (lembram-se de Midnite Vultures de Beck?).

Definitivamente há algo diferente em The Life Pursuit. A voz de Stuart Murdoch está mais calorosa e encorpada, como se buscasse uma identidade desconhecida (já ensaiada no disco anterior), nos mesmos trejeitos da música que a embala, além das sombras do passado. O corpo musical é, também ele, uma revelação. O denominador comum às treze faixas do alinhamento é a versatilidade, acomodando o traço tradicional do grupo a uma estética distinta, feita de memórias do rock da década de 70, dos Smiths, dos Beach Boys, de Stevie Wonder, do glam, do funk. No final, The Life Pursuit é pura pop, mesmo que trajada de balada, de surf music ou rock'n'roll. E quando se trata de fazer boa pop - seja ela mais sorumbática ou, como aqui, mais arrebatada - o selo dos Belle & Sebastian continua a surgir à cabeça dos protagonistas de eleição. E The Life Pursuit não passará indiferente por 2006.

Posto de escutaProcure na grafonola as faixas "Another Sunny Day", "White Collar Boy" e "For The Price of a Cup of Tea"

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Postal Musicado: Portishead

Hoje trago aos frequentadores do apARTES a memória de uma canção que me ecoa na mente desde a ocasião da sua publicação. Trata-se, sem dúvida, de uma das canções da minha vida e está integrada num dos grandes álbuns da década de 90, o disco Dummy, primeiro álbum dos britânicos Portishead, chegado às lojas em 1994.

A canção chama-se "Glory Box" e embrulha-se num embalo docemente negro. Os diálogos inquietantes entre a voz trémula de Beth Gibbons e a guitarra caústica de Geoff Barrow desenham ambientes de densidade claustrofóbica, numa musicalidade confessional que rende uma das mais bem conseguidas odes à melancolia.

Uma canção para sempre. Para escutar, clique aqui.

domingo, 29 de janeiro de 2006

Clique na imagem para ampliar
Franz Von Stuck, Fangspiel, 1904

Coltrane e Bassey no Postal Musicado

Foram hoje adicionadas mais duas composições ao Postal Musicado.

A primeira é de John Coltrane, trata-se de uma gravação de 1960, em que o mítico saxofonista se faz acompanhar de intérpretes da mais fina estirpe: McCoy Tiner no piano, Steve Davis no baixo e Elvin Jones na bateria. O tema escolhido é "Mr. Syms", com texturas próprias do jazz-blues e está incluído na colectânea The Very Best of John Coltrane, editada em 2000, pela Rhino.

A segunda proposta é a remistura de Mantronik para a inesquecível interpretação vocal de Shirley Bassey da canção "Diamonds Are Forever", para o filme homónimo de Guy Hamilton (1971), mais um capítulo da saga James Bond, com Sean Connery.

Para escutar estes postais, clique aqui.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Mozart e o Postal Musicado

Comemoram-se hoje os 250 anos do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791).

Em jeito de homenagem ao génio do compositor austríaco, o apARTES inaugura um novo espaço, integrando uma peça do repertório do prodigioso músico. Trata-se do segundo andamento - um adágio - da Sonata para Piano KV576, em Ré Maior, interpretado pela consagrada pianista portuguesa Maria João Pires. A gravação está disponível numa edição da etiqueta Deutsche Grammophon, lançada em 1991.


O novo espaço do apARTES, sugestivamente apelidado de Postal Musicado, servirá como repescador de memórias e nele desfilarão, diariamente, amostras de música que, desta ou daquela forma, nos influencia(ra)m a todos. A escolha é subjectiva, assenta num critério meramente pessoal, sem horizontes temporais e sem limites de género. Uma composição nova será adicionada todos os dias. Ainda em testes, no início desta semana, foram publicadas duas canções que certamente farão as delícias de muitos melómanos: "Hallelujah", um original de Leonard Cohen, aqui na voz do malogrado Jeff Buckley e "Belly of an Architect", peça inconfundível do prolífico maestro belga, Wim Mertens, apresentada numa gravação ao vivo em Portugal.

Pode aceder ao Postal Musicado e escutar estas composições clicando aqui ou na imagem que encontra na coluna direita do apARTES.

Os meus sinceros agradecimentos a todos os que continuam a visitar este espaço e, em virtude disso, a dar-me o estímulo necessário para continuar a melhorá-lo e a dar-lhe vida.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

Arctic Monkeys - Whatever People Say I Am, That's What I'm Not

Apreciação final: 8/10
Edição: Domino/Edel, Janeiro 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: www.arcticmonkeys.com








Os britânicos Arctic Monkeys são filhos do inimigo. Sem a web e as trocas massivas de mp3 (os dois presumíveis adversários da indústria fonográfica) que se seguiram à publicação de gravações de garagem destes quatro rapazes de Sheffield no MySpace, o hype que os rodeia desde o início do ano transacto e que levou à edição do primeiro álbum, na mesma etiqueta dos Franz Ferdinand (Domino), não seria possível. Alguns concertos inflamados (entre eles a participação no prestigiado festival rock de Reading) e duas edições próprias depois, o fenómeno cresceu em múrmurios de boca em boca e, por isso, o álbum chega aos escaparates debaixo de uma copiosa vaga de promessas. E Alex Turner e seus pares não desiludem. O som é, como seria de esperar, mais polido do que as edições que se piratearam a rodos em 2005 mas os sumarentos sublinhados de temperamento punk são conservados por inteiro, com aquele sentido de urgência rebelde de putos a entrar na vintena de anos. Mesmo sem sugerir propensões novas, antes se confinando inteiramente às chicanas recentes do rock, à concisão dos Strokes ou dos Art Brut, ao swing dos Ferdinand, dos Kaiser Chiefs e dos Bloc Party, aos ritmos ska dos Libertines e à rebeldia dos White Stripes - tudo muito contemporâneo e ortodoxo - os Arctic Monkeys têm fibra e fôlego. Pós-mocidade hiperactiva?

Atirados para o ribalta sem tempo para deixar crescer os pêlos de barba na face, os Arctic Monkeys têm nas mãos uma sina antagónica: ou se tornam os benjamins do clã rock do Reino Unido, confirmando a agitação que germinou à sua volta, ou se deixam enredar na prevísivel vaga de maledicências que entretanto há-de aparecer, sob o pretexto de estes putos não serem mais do que outra falácia, ao jeito dos Oasis. Cabe-lhes provar o contrário. Em Whatever People Say I Am, That's What I'm Not eles não deslustram o hiperbólico panegírico que antecedeu a edição do disco. Eles não são (ainda?) os salvadores da pátria; são apenas quatro juvenis com penteados à meliante foleiro, acne na cara, a tossir às primeiras passas num cigarro e com uma tremenda vontade de fazer música com alma. Para já vão vendendo discos à farta, maravilhando fãs e (alguns) críticos. Não importa se serão a revelação maior de 2006 ou apenas a melhor banda da próxima semana. O que apetece pedir é que, uma vez vividos os quinze minutos de fama, estes macacos do Árctico fiquem assim moços por mais do que um quarto de hora.

Posto de escutaMySpace

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Memórias do cinema

Lazar Ristovski e Mirjana Jokovic em Bila Jednom Jedna Zemlja (Underground, 1995)

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Tortoise & Bonnie "Prince" Billy - The Brave and the Bold

Apreciação final: 5/10
Edição: Overcoat Recordings, Janeiro 2006
Género: Indie Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.trts.com / www.bonnieprincebilly.com








Ao princípe já não chegam as colaborações individuais. Depois de, entre outros, ter dividido trabalhos com Matt Sweeney (Superwolf (2005)) e David Berman (no projecto Silver Palace), Will Oldham recrutou os americanos Tortoise - projecto pós-rock vanguardista de Chicago - para fazer um álbum com uma dezena de versões. O repertório escolhido provém de origens diversas, desde Elton John ("Daniel") a Milton Nascimento ("Cravo e Canela"), de Bruce Springsteen ("Thunder Road") a Devo ("That's Pep"), de Richard Thompson ("The Calvary Cross") a Melanie ("(Some Say) I Got Devil"). Da aliança entre os ornatos intrincados e a matemática poeirenta dos Tortoise e a voz dolorosa e vulnerável de Oldham derivam sinergias oportunas, ainda que a fórmula não se ajuste com idênticas virtudes em todos os momentos do álbum: "Cravo e Canela" estava fadada a ser um tiro ao lado, se por mais não fosse sê-lo-ia pelas óbvias barreiras da pronúncia, a despeito das boas ideias instrumentais; "That's Pep" fareja os Devo em equações cacofónicas e algo dissolutas de que resultam insinuações krautrock sem sucesso. No oposto, a versão turva de "Thunder Road" é soberba, repousando nos ambientes enfumarados dos Tortoise, com magníficos dedilhados e torvelinhos de sintetizador a tomar o vazio. O traço imaginativo mantém-se em "Daniel", à custa de moldagens sujas e da formatação psicadélica da voz de Oldham. No resto do álbum, o metrónomo dos Tortoise serve a deferência certa às tendências escapistas de Oldham mas a simbiose não vai além dos serviços mínimos.

As faculdades dos intervenientes e o respectivo estatuto nos circuitos indie da música americana adubou expectativas para este The Brave and the Bold. Contudo, não sendo um disco a desconsiderar, o produto final ficam aquém das promessas e, com as excepções referidas, não há aqui nada que traga algum suplemento alternativo aos admiradores de Tortoise ou de Bonnie "Prince" Billy. The Brave and the Bold é, afinal, uma prova de que a mistura de dois lotes idênticos do mesmo tipo de discurso pode não ser suficiente para dar lugar a outras orações. E que um disco de versões dificilmente se emancipa das sombras do original.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Between the Buried and Me - Alaska

Apreciação final: 8/10
Edição: Victory Recordings/Rastilho, Outubro 2005
Género: Metal Alternativo
Sítio Oficial: http://betweentheburiedandme.com








A doutrina do metalcore é, por definição, um corpo musical de poucas transformações, um género onde as mutações se fazem no repisar de conceitos e na reprodução quase automática de ideias estanques, assentes nas descargas de distorções com perícia técnica e nas vozes guturais. Não deixa, por isso, de ser surpreendente que os americanos Between the Buried and Me derivem desse espaço. A música deles é certamente uma proposta de extremos e acolhe esses padrões estáticos do metalcore como base criativa mas não faz deles regra. Antes, utiliza-os como matéria-prima de uma massa sonora complexa e que une, com competência, uma panóplia de noções metal multifacetadas, a que acrescem, aqui e ali, sons exploratórios do rock progressivo, flutuações melancólicas dignas das estruturas pós-rock, algumas pitadas de free jazz e, bem disfarçados por detrás das guitarras eléctricas, até se anunciam uns breves gestos pop. Estamos a falar de um colectivo versátil e cuja vocação criativa não se esgota no metal, vai além disso, buscando ambientes sonoros que propõem, com idêntica veemência, uma dilacerante sessão de tortura e o glacial prodígio da bonança depois da tempestade. Não há lítio que cure a esquizofrenia dos Between the Buried and Me.

Alaska é o terceiro longa duração da banda e mostra-se o seu exercício mais inventivo, à custa da junção de géneros e da adequação do registo do colectivo a cada uma das diferentes cambiantes. Trata-se, assim, de um disco que re-formata as várias dimensões do metal e que prova que, mesmo num mundo tradicionalmente fechado nos seus próprios limites, podem surgir projectos musicais que socam as convenções com tal agilidade e destreza que nem chegam a parecer-se parte integrante. Há em Alaska um espírito deliberadamente iconoclasta, uma consciência marginal dos estatutos do metal. E tal coisa, num género que raramente surpreende pela novidade, só pode ser sinal de um projecto com qualidades. A descobrir por melómanos de ouvido forte.

domingo, 22 de janeiro de 2006

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Cat Power - The Greatest

Apreciação final: 7/10
Edição: Matador Records, Janeiro 2006
Género: Folk/Pop Alternativo
Sítio Oficial: www.catpowerthegreatest.com








Chan Marshall esconde-se por detrás do pseudónimo Cat Power há trinta e três primaveras e, ao sétimo longa-duração de um trajecto seguro no circuito indie - onde merece honras de reconhecimento generalizado - parece buscar a emancipação desse género músical. Para tal fim, fez uma manobra de risco: rodeou-se de um corpo de músicos de elite (entre eles o guitarrista Mabon Hodges e o baterista Steve Potts, parceiros artísticos de Al Green e Booker T, respectivamente) e cobriu os vazios e os silêncios que frequentemente compunham a sua idiossincrasia musical com nacos da mais fine estirpe instrumental. The Greatest é, portanto, um produto tecnicamente maduro, com um som nutrido e íntegro e que vinca uma reviravolta estética de Marshall. Dos esparsos exercícios solitários em que a voz se confiava apenas aos tricotados de um piano ou aos arpejos de uma guitarra, ficam as sombras. Marshall acolhe, neste álbum, um registo mais orquestral e preenchido, qualquer coisa que a afasta definitivamente das conotações pós-grunge do passado e que assume, de corpo inteiro e formas naturais, um propósito melancólico distinto, algures entre o modelo blues, a incerteza do pop jazz e um traço vago da tradição country americana. Os impulsos contradizem a espontaneidade da introspecção avulsa do belo Moon Pix (1998), ou mesmo de You Are Free (2003), mas a escrita de Marshall retém o charme intimista de sempre, à custa de uma voz de veludo quente - daquelas que geram arrepios pele de galinha - e docemente desarmante. É certo que o traje musical traz medidas não consideradas antes por Marshall e se dissipou um quinhão importante do acanhamento meditativo (desilusão para os adeptos dos primeiros discos?), mas a honestidade no desbravamento da melancolia permanece intocável, como se a pacata musa do underground se tivesse feito, finalmente, a faloa de eleição dos amores perdidos do Memphis.

The Greatest é o (re)encontro de Marshall com as raízes, em ritmos e sabores diferentes, comparáveis aos finais da década de 60 e à mais pura memória da música americana, num jeito que não envergonharia Sam Cooke ou Willie Mitchell e que forja as primícias de outra Cat Power. Afinal, sem os rabiscos indecisos de outros discos, o autógrafo dela mantém-se, mas reveste-se em harmonias diferentes e em canções com mais corpo. Com um discurso diferente, The Greatest é um manifesto de afectos - mesmo para os fãs nostálgicos da catarse misantrópica que Marshall tão bem desenhou noutros momentos - e confirma o crescimento artístico de Cat Power. A menina envergonhada cresceu e já vai sozinha à mercearia...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Festival de Sundance

Arranca hoje na pequena localidade de Park City, no Utah, mais uma edição do festival de cinema independente pensado originalmente pelo actor Robert Redford para dar visibilidade a filmes de baixo orçamento e/ou com temáticas inovadoras e estéticas vanguardistas. O certame contempla, na presente edição, uma secção de curtas metragens e o habitual rol de distinções, com o prestigiado galardão do Grand Jury à cabeça, que, entre outros, já agraciou, em edições anteriores, American Splendor (2003), o sublime biopic de Harvey Pekar, protagonizado por Paul Giamatti.

Saiba tudo sobre a edição deste ano aqui.
Memórias do cinema

Jacques Tati em Mon Oncle (O Meu Tio, 1958)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Loosers - For All The Round Suns

Apreciação final: 7/10
Edição: Ruby Red, Outubro 2005
Género: Noise Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.loosersarefree.com








A música dos Loosers mostra-se, no primeiro longa-duração dos lisboetas, cada vez mais periférica, apartando-se das guias metal e punk do ínico de carreira do trio e acercando-se de um registo cada vez mais inventivo, pejado de usanças experimentalistas e que descrê do formato canção. Ao escutar este For The All the Round Suns percebe-se que os rapazes desintoxicaram a sua escrita da sofreguidão pelo refrão imediato e limparam-na das texturas de álgebra simples que se pressentiam no EP Six Songs (2003). A depuração fez-se sinónimo de maturação criativa. O álbum é percorrido por um fino traço de música livre que projecta os contornos de ambientes sonoros desassossegados, as mais das vezes abrasivos e feitos de ruídos que reclamam urgência com uma genuinidade cortante. Ao bom jeito da doutrina noise rock. E que bem investem neste segmento os Loosers, impondo suor às distorções, extravasando a voz, pintando de psicadelismo os acordes e o galope da bateria, buscando uma química de histeria controlada, afinal, o supremo catalisador da energia surreal do trio. A música deles é, a exemplo da bela ilustração da capa de Tetsunori Tawaraya, um mutante bizarro, sujo, estrábico, disforme, de cores garridas e a sugerir espasmos e convulsões.

Os Loosers fazem alarde da sua condição de detonadores de géneros - até se atrevem a umas equações de world music em alguns ápices do disco - e produzem formas agitadoras inéditas, algo jamais criado no panorama musical luso. For All the Round Suns é por isso, filho único (bastardo?) da cena rock portuguesa e saiu da mente de um colectivo sem paralelo cá no burgo e que, segundo consta por aí, tem merecido alguma aceitação além-fronteiras. Ao primeiro longa-duração, os Loosers afirmam a vitalidade do underground nacional e, ainda que tenham deixado algumas pontas soltas na dobagem deste novelo frenético, sobrevém a assinatura oblíqua de uma aventura musical despudoramente anti-cânones. Rebeldia em ponto de rebuçado.

Posto de escutaMafalala
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terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Vencedores dos Globos de Ouro

Foram atribuídos, na última madrugada, os Globos de Ouro do cinema americano. Nas principais categorias, o destaque para o mais recente trabalho de Ang Lee, Brokeback Mountain, distinguido com as estatuetas para o melhor filme dramático, melhor realizador e melhor argumento. Nos galardões para actores, Philip Seymour Hoffman levou para casa a distinção de melhor actor em desempenho dramático, pela sua interpretação do escritor Truman Capote, no filme Capote de Bennett Miller. Na categoria musical/comédia, o vencedor foi Joaquin Phoenix, pela sua performance no biopic de Johnny Cash, Walk the Line. Nas senhoras, Felicity Huffman, uma das Donas de Casa Desesperadas, mereceu a distinção para actriz dramática e Reese Witherspoon, como June Carter Cash em Walk the Line, venceu na representação em musical/comédia. Nos papéis de suporte - categoria que não é dividida entre musical/comédia e drama - Rachel Weisz em The Constant Gardener e George Clooney em Syriana foram os actores escolhidos. O prémio de carreira distinguiu Anthony Hopkins.

Veja aqui a lista completa dos nomeados e vencedores.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Jana Hunter - Blank Unstaring Heirs of Doom

Apreciação final: 7/10
Edição: Gnomonsong, Outubro 2005
Género: Folk Minimalista/Pop Psicadélico
Sítio Oficial: www.janahunter.tk








Blank Unstaring Heirs of Doom é o produto de uma década de gravações domésticas e oferece-nos uma cópia musical fiel de um espaço folk pouco comum, onde as composições não temem afirmar um certo desprendimento dadaísta, em apelos repetidos ao subconsciente. Essa convocatória enternece na doce ingenuidade e na feição rudimentar do contexto: a voz hipnotizante de Hunter voga como um fantasma, simultaneamente casta e assombradora, sobre paisagens sonoras que abreviam distâncias para a lugubridade, sem menosprezar um simples piscar de olho à tradição mais viva da folk. As canções - se assim se podem chamar - de Hunter não têm fundo, interceptam fracções das mais puras emoções humanas, arrebatam-nas do imaginário colectivo para lhes injectarem a bonança de um resguardo individual. O álbum é esse couto. Nele, à inquietude sucede a calma, fazem folias entre si, em retalhos tão frágeis quanto a intimidade ousa. Tudo muito pessoal, quase misantrópico e ensimesmado. Sem complexos, a voz errante da texana Jana Hunter vagueia despreocupadamente nesse éter não desenhado, em radiações fracturadas e com o fervor intrínseco às frustrações da solidão.

Apadrinhada pela nova editora de Devendra Banhart, com quem dividiu recentemente um álbum conjunto, Hunter não é uma mera discípula. Fazendo uso de um suporte instrumental maioritariamente acústico e assumindo uma impressão mais descolorida (porque mais sorumbática) que a do seu protector, Hunter é uma anarquista, não faz caso de regras melódicas e rabisca combinações de sons com propensão melancólica, em fórmulas indefinidas e que, para confusão do auditor, terminam, na derradeira faixa do álbum, com uma surpresa electrónica. Com tempos diferentes e espaços distintos, Blank Unstaring Heirs of Doom é uma exortação à transcendência. Tudo feito no mais primitivo sentido, ao jeito de uma confissão gravada no quarto ao lado. E quando as coisas se tornam assim tão pessoais e arrepiantes, quase nos atrevemos a considerá-las nossas.


Posto de escutaFarm, Ca.RestlessK

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Skalpel - Konfusion

Apreciação final: 7/10
Edição: Ninja Tune, Novembro 2005
Género: Downbeat/Jazz/Electrónica
Sítio Oficial: http://skalpel.chlip.com








Os polacos Marcin Cichy e Igor Pudlo são embaixadores do jazz moderno da Europa de Leste e, ao segundo trabalho de um percurso artístico que começa a extravasar as fronteiras do seu país, tentam ressuscitar o espírito do jazz da Polónia dos anos 60 e 70 e o simbolismo de liberdade artística e propensão escapista que a música reclamava entre os retalhos políticos da Cortina de Ferro. Mas a repescagem dos Skalpel não propende para o anacronismo, antes se serve habilmente de cores modernistas, ou não fosse já longe o tempo de caloiros destes dois DJ's. E a tarimba sente-se em cada acorde, num exercício dissecador desses ambientes jazzísticos que, alargando o espectro sónico a um certo experimentalismo break beats e a um penetrante balanço funk, os re-inventa com renovadas sensações. A maturação de conceitos é notória - por comparação com o primeiro álbum - na densidade das composições, sustentada à custa de alternâncias instrumentais bem medidas e da colagem astuta dos samples. O produto final assenta como uma luva no catálogo da Ninja Tune, bem ao jeito do downbeat de uns Cinematic Orchestra ou da irreverência funk de Mr. Scruff.

Jazz ou electrónica (há quem acople conceitos e lhe chame jazztronica), a música dos Skalpel oferece uma multiplicidade de ambientes sonoros, recolhidos de um património musical menos conhecido no ocidente europeu e que, mercê desta edição, se exprimem num discurso actual, simultaneamente áspero e doce, sobrecarregado de sensualidade e vapores de tabaco. Música de clube jazz para ouvir no intervalo do café, entenda-se. Konfusion é uma viagem imaginária pelas arcadas poeirentas da velha Varsóvia de outros tempos, pela mão de um contrato musical que é mais jazz e menos electrónico e onde o resoluto jogo de samples quase ilude o sentido auditivo, disfarçando-se de peça musical una. Dá para fazer de conta que, entre os tragos do café e as inalações de nicotina, Konfusion é o som ao vivo de uma qualquer banda jazz. Mas, afinal, é apenas o produto da excelência dos malabarismos digitais de Cichy e Pudlo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Memórias do cinema

Ziyi Zhang e Takeshi Kaneshiro em Shi Mian Mai Fu (O Segredo dos Punhais Voadores, 2004)

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Alex Under - Dispositivos de Mi Granja

Apreciação final: 7/10
Edição: Trapez/Ultima/Matéria Prima, Novembro 2005
Género: Techno Minimalista
Sítio Oficial: www.traumschallplatten.de








Com algumas edições destacadas no panorama da música electrónica de Espanha, Alex Under ganhou o respeito da crítica e solidificou a firme reputação que faz dele, hoje, um dos mais respeitados produtores techno-house do país vizinho. A matemática sónica de Alex Under resume-se à combinação de diversos vectores: o minimalismo nos conceitos, o recurso a estruturas melódicas psicadélicas, a matriz rítmica bem definida, as batidas incisivas e combinadas com uma linha bass de contornos nítidos e o encadeamento (des)construtivo. Este é o longa-duração de estreia do espanhol e divide o seu balanço entre o registo da techno mais magnética e do house mais perturbador, sintetizando uma filosofia minimalista sem pejo de curvar. Em qualquer dos registos, a sobriedade e a sensatez das proporções não são beliscadas e, mesmo nos pedaços em que a paleta de sons se dilata, sobra intuitivamente a noção de que cada parcela é um investimento que beneficia o produto final. Mais do que isso, este álbum é um disco de pulsação veemente e sangue na guelra, mormente na segunda metade do alinhamento onde se sublimam os preparos dançantes das composições e se impõe uma toada galvanizante, como na admirável re-edição de "Las Bicicletas Son Para El Verano", êxito já publicado de Under.

Se o título e a ilustração pastoral da capa do disco sugeriam um edifício sonoro rústico, a verdade é que os artefactos da quinta de Alex Under são tudo menos rudimentares e exibem, por oposição, com uma precisão maquinal, o lancinante vigor da electrónica puxada por um tractor quase tribal. Estas composições alimentam-se, em fórmulas circulares, de um incansável dínamo de forças centrípetas que convertem laconismo mecânico em hipnose impulsiva, em cachos de modernidade. Assim ao jeito de Richard Hawtin, vulgo Plastikman, é dificil não perceber compatibilidades com a filosofia digital deste mestre espanhol. E é raro não bater o pé ou desagrafar o traseiro do sofá ao som elástico desta quinta.

Posto de escutaProcure na grafonola os temas "Las Bicicletas Son Para El Verano", "Balas de Paja Maja", "El Ordenador Personal" e "Una Aguja en el Pajar"

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Arizona Amp and Alternator

Apreciação final: 7/10
Edição: Thrill Jockey/Dwitza, Setembro 2005
Género: Indie Rock/Country/Folk Alternativo
Sítio Oficial: www.thrilljockey.com








Escrever sobre Howe Gelb é registar uma mente eremita que leva os desertos do Arizona para todo o lado e fazer prova de um homem que na última década e meia deixou pegadas da sua inventividade como líder dos Giant Sand e depois dos OP8 e que também criou a sua própria editora discográfica, a Ow Om. Reconhecido pelos críticos como um dos mais influentes compositores da folk minimalista americana, Gelb é um escritor de canções incansável e, para o mais recente tomo do seu extenso catálogo, convocou a ajuda de alguns amigos ilustres, como M. Ward, Scout Niblett, John Parish e Jason Lyttle, entre outros. O disco tem qualquer coisa de um country sujo, de grão na orelha, e da escola blues mais tradicional. Mas, mesmo assim, mantém-se um traço indissociável de Gelb: a inconstância intencional dos ritmos, as variações quase deslocadas da estrutura nuclear das composições, as notas intencionalmente fora do padrão. Gelb é tudo menos um ortodoxo, gosta da ironia de confundir o ouvinte, de baralhar-lhe as noções e as ideias preconcebidas. E é nisso que este disco encontra a sua força motriz, nos subterfúgios recorrentes e nas figuras de estilo musical que parodiam consigo mesmas. Arizona Amp and Alternator traz um som fresco e descontraído (tão relaxado que chega a parecer trapalhão), é simultaneamente uma metáfora e uma hipérbole de si mesmo. Não é um álbum arrumado, nem sequer na produção, e é suposto ser consumido como tal. E essa desordem - que na obra de outros músicos seria uma fracção de descrédito - é aqui um intermediário de charme e junta originalidade às canções, sem lhes subtrair a melodia. Mais curioso ainda é perceber que, aqui e ali, surpresa das surpresas, o registo nos faz lembrar Gainsbourg ou mesmo Waits. Ainda há surpresas boas.

As canções de Gelb têm, neste álbum, a abastança de diamantes brutos, deixados num estado natural, como corpos sem moldes. Não vale lapidar estas pedras preciosas. Basta poli-las e deixá-las a um canto. O seu brilho impõe-se no espaço e enche-nos os tímpanos de ressonâncias semelhantes ao ensaio de uma talentosa banda folk-country. E a história evolutiva do tema-título do álbum - com quatro versões diferentes no disco - é a derradeira confirmação daquilo que Gelb e os seus convidados pretendem mostrar-nos: estas composições não se fecham na sua dimensão, podem moldar-se, ganhar senso e crescer. Darwin no country? Não. Apenas um conjunto de improvisadores que se estão a marimbar para o livro de reclamações.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

10 rapidinhas





John Vanderslice - Pixel Revolt (7/10)
www.johnvanderslice.com/
Senhor de um vocabulário musical essencialmente acústico, o americano John Vanderslice já vai no quinto capítulo de uma discografia plena de subtileza; este é um registo que incorpora guitarras com discrição e aceita o contributo de breves instantes orquestrais, sons ligeiramente manipulados e teclas. Um disco técnico, recheado de boas histórias emolduradas num corpo musical capaz e preenchido com texturas de várias matizes que redundam num discurso profundamente contemplativo.
(Barsuk, Agosto 2005)







Afrirampo - Kora Ga Mayaku Da (7/10)
www.afrirampo.com
Duas irmãs de Osaka juntam-se, pegam na guitarra e amplificador, também na bateria, e fazem um chinfrim imparável, sem afinidades com formalismos. O desfecho é tão libertinamente primário que é quase improvável, tais são os sucessivos picos, a desordem e as viragens inesperadas. Uma excursão ao improviso psicadélico sem bilhete de retorno.
(Tzadik, Junho 2005)







Vashti Bunyan - Lookaftering (8/10)
Dá para acreditar que já lá vão trinta e cinco anos desde a edição do último disco desta senhora? Just Another Diamond Day foi um diamante esquecido na década de 70 (apenas recuperado em 2000) e, desde então, Bunyan retirou-se até ser repescada pelos Animal Collective num EP conjunto (Prospect Hummer (2005)). Neste segundo trabalho mantém-se a toada tímida da folk à descoberta de paisagens sonoras delicadas e de retiro espiritual.
(Fat Cat, Outubro 2005)








The Vicious Five - Up on the Walls (8/10)
http://theviciousfive.com
Se o rock nacional estava refém de um abanão, já temos foras-da-lei para o forçarem. Alma punk, estima pelo motim, doses incontinentes de adrenalina, muito músculo e diversão a rodos são os lemas destes lisboetas. A isso acresce um circo de ângulos rock bem desenhados que, à falta de melhor adjectivo, é nervoso. E quem consegue não bater o pé ao som urgente da juventude eléctrica de Up on the Walls?
(Loop Recordings, Outubro 2005)




Lau Nau - Kuutarha (6/10)
www.locustmusic.com
Álbum de estreia de uma cantora folk finlandesa que subscreve um pacto com a abstracção. E isso, traduzido em linguagem musical, é um som esquivo e meditativo, quase intangível, feito de uma profusão de instrumentos. Contudo, a essa riqueza instrumental não corresponde uma performance vocal ousada, resumindo inevitavelmente as composições a um mero esboço de oração musical padronizada. Ainda assim, uma edição para curiosos.
(Locust, Fevereiro 2005)


Posto de escutaKuulaTulkaa!Hunnun






Buck 65 - Secret House Against the World (6/10)
www.buck65.com
Este canadiano é um daqueles artistas que são difíceis de rotular. É adepto do experimentalismo e é frequentemente associado ao movimento underground rap e parece pouco se importar com isso. Para ele tudo se reduz à autenticidade e isso sente-se neste registo, a despeito de alguns conteúdos líricos menos inspirados. E para o provar está aí esta modesta casinha de segredos contra o mundo e as fronteiras na música.
(Warner International, Julho 2005)








Dakar & Grinser - Triumph of Flesh (7/10)
www.diskob.com
Duo berlinense que alia o charme de vocalizações bem construídas à dinâmica de percussões sintéticas típica da escola da electrónica alemã. A solução é rítmica e luminosa, mesmo nos instantes mais obscuros e envolve o auditor numa atmosfera algures entre o electro-punk, a pop e o house. E o denominador comum é um esqueleto quase rock.
(Disko B, Outubro 2005)






Danae - Condição de Louco (7/10)
Caboverdiana nascida em Cuba, filha de um cubano e de uma caboverdiana, Danae tem uma voz meiga, daquelas que nos afagam no íntimo e não mais nos largam. Depois, canta no cetim açucarado do português do Brasil e escreve porções de um universo que se abeira da moderna música brasileira, temperada por arranjos de excelente nível e que enfeitam canções que se inspiram nos laços musicais mestiços que cruzam o Atlântico e piscam o olho a Cabo Verde.
(Nortesul, Outubro 2005)




Koushik - Be With (5/10)
www.stonesthrow.com
Compilação de três EP's editados em vinil de um produtor musical hábil a fundir um ligeiro sortimento jazz e o rebuliço funk num invólucro pop dançável. Be With é apenas uma razoável audição casual e tem tanto aprazível quanto de enfadonho. Alguns disparos ao lado, outros tantos esboços de composições e, afinal, apenas umas gotinhas de sumo proveitoso.
(Stones Throw, Julho 2005)






Ludovico Einaudi & Ballaké Sissoko - Diario Mali (8/10)
Roteiro musicado da viagem do pianista italiano Ludovico Einaudi ao Mali, acompanhado pelo virtuoso Ballaké Sissoko, tocador do instrumento tradicional da música maliana, a kora. O diálogo entre os instrumentos é sublime, cruzando culturas distintas: o classicismo tonal do piano e o jogo de cores da música africana. Edição imperdível.
(Megamúsica, Setembro 2005)

The Strokes - First Impressions of Earth

Apreciação final: 6/10
Edição: Sony/RCA, Janeiro 2006
Género: Rock Revivalista/Indie Rock
Sítio Oficial: www.thestrokes.com








Pura ilusão. Os primeiros segundos de "You Only Live Once", a composição de abertura de First Impressions of Earth, levam-nos às arrecuas até aos anos 80 e relembram "I Want to Break Free", dos Queen. Mas, logo de seguida, a segunda guitarra e a voz de Julian Casablancas resolvem o enigma. É mesmo um disco dos Strokes, esses rapazes de quem já se disse serem os salvadores da pátria. Do rock, bem entendido. No terceiro longa-duração, os nova-iorquinos vão por diante nos dribles rock, procurando perfumar o som com outros aromas. Numa visão mais superficial, dir-se-ia que First Impressions of Earth pisa com hesitação um outro cosmos, talvez empurrado por uma conjuntura já não tão simpática para os automatismos dos Strokes como o início da década e que, pela recente ascensão de outras bandas (Franz Ferdinand, Bloc Party, Editors ou Bravery), fez o rock escorregar da mera mistura pós-punk para uma química mais dançarina. E os Strokes foram apanhados no meio dessa metamorfose, perdendo de permeio o estatuto de porta-vozes da nova era dourada do rock - se é que ela existiu - e escreveram um disco vegetariano. Não é carne nem peixe. Mesmo assim, First Impressions of Earth não é um mau disco, cativa pela energia magnetizante do refrão atempado e pelo jogo de harmonias de guitarra. Aí, os Strokes conservam créditos. E nas boas canções de pop disfarçado de rock, mais do mesmo: lugares comuns strokianos que, aqui e ali, se aventuram na novidade (nem sempre bem-vinda), como nas musculadas "Juicebox" e "Vision of Division" ou na peça "Ask Me Anything", exclusivamente em orgão e violoncelo.

Em First Impressions of Earth encontramos uns Strokes a dar sinais de entorpecimento criativo. Não é um mau disco, longe disso, mas é um álbum sem o fulgor do passado e tolhido pela insuficiente resposta do quinteto americano à urgência de revolver o paradigma que os lançou. Hoje, o mercado já não consome cegamente a mesma pílula de absorção rápida de rock com potência, velocidade e estridência em partes iguais que fez sucesso em Is This It ou Room on Fire. Mas será que Casablancas tem laringe (e caneta) para mais? É certo que, neste disco, os Strokes procuraram outros rumos mas ficaram-se pelas intenções. E para resgatar o rock (se é que ele precisa disso) é preciso um pouco mais do que simples reticências. Ou isso, ou os Strokes são, agora, uma reticência do que já foram. Pura ilusão?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

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Gino Severini, Train de la croix rouge traversant un village, 1915

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Memórias do cinema

Bibi Anderson, Gunnar Bjornstrand e Liv Ulman em Persona (1966)

If Lucy Fell - You Make Me Nervous

Apreciação final: 7/10
Edição: Rastilho, Novembro 2005
Género: Metalcore/Experimental
Sítio Oficial: www.iflucyfell.tk








O baptismo desta banda lisboeta só pode ter sido um assomo da mais refinada ironia. Retirado da comédia romântica que Eric Schaeffer escreveu, realizou e protagonizou em 1996, o nome destes rapazes é um delicioso enigma. Coincidência sarcástica com o filme? É que o propósito musical que os If Lucy Fell defendem abeira-se mais de um colérico exercício de implosões metalcore, feito de sonoridades cruas e cheias de energia do que propriamente do universo da fita de Schaeffer. Antes de mais, You Make Me Nervous é um disco de competência técnica, sem receio de entornar nos padrões eléctricos uma porção ajustada de experimentalismo e uma lógica de pára-e-arranca à procura de picos que nem sempre respondem com aptidão às suposições que a ebulição das composições faria adivinhar. É certo que estamos a falar de um som pouco pacífico para ouvidos sensíveis, um registo que tenta aglutinar a agressividade e instantes melancólicos - a maior parte das vezes consegue-o eficazmente - mas que não omite certas imprecisões típicas de um primeiro disco. Contudo, esses pecadilhos não apagam os indicadores de um porvir risonho para os If Lucy Fell: a atitude é punk, o universo é o metal, o noise rock é a escola e a criatividade é um teorema. E como todos os teoremas, os matemáticos e os demais, este também carece de demonstração efectiva. You Make Me Nervous é a primeira tentativa para chegar aí, a esse destino onde se cruzam a máquina explosiva de uns Norma Jean ou de uns Converge, o artesanato ecléctico de uns Mars Volta e o sombrio minimalismo de uns Cult of Luna.

Intenso, psicótico e corrosivo, You Make Me Nervous é mais um depoimento da vitalidade recente do movimento underground luso e apresenta um colectivo promissor. Pena é que o álbum não evite, apesar da metamorfose esquizofrénica que percorre o alinhamento, uma certa sensação de repetição. Mesmo assim, You Make Me Nervous é um turbilhão incontinente de boas ideias e uma demonstração do vigor indomável deste quarteto nacional que, assim que conseguir outros enfoques para os seus conceitos, há-de tornar-se um caso sério na música nacional não recomendada a mentes (e ouvidos) sensíveis. Para exportar. Por ora, resta-nos consumir desregradamente o álbum de debute e aceitar o único efeito colateral previsto: a sedução viciante.

Posto de escutaMySpace

domingo, 1 de janeiro de 2006

Balanço de 2005

Com o termo de mais um ano, repete-se a costumeira mirada para trás a percorrer em retrospecção os últimos trezentos e sessenta e cinco dias de edições musicais. Muitos dias, muitos discos, muitas horas de audição depois, é altura de pesar méritos e insuficiências de intérpretes, de recuperar sensações produzidas pela música e encher esta folha de papel com os discos mais tocantes do ano. Escolher de um universo tão vasto de lançamentos é um exercício limitativo e, por consequência, um acto redutor e subjectivo. E dessa subjectividade, apenas dela e dos estímulos pessoais suscitados por cada um dos discos, derivaram as considerações que aqui se deixam expressas. Ao leitor, estou certo de que estas propostas interessarão como pistas, meros alvitres que levem à descoberta do desconhecido ou ao reconhecimento de reputações.

Musicalmente, o ano que agora finda foi como outros: cheio de coisas boas, algumas decepções, outras tantas revelações e muitas horas a ouvir música. A nível internacional, este foi o ano que confirmou o génio megalómano do americano Sufjan Stevens, autor de mais um capítulo da sua saga musical consagrada aos estados americanos e que, no devaneio do músico, há-de dedicar um disco a cada estado. No segundo álbum da colecção, Illinois, Stevens criou uma obra ambiciosa e ecléctica, um verdadeiro cartão de visita musical e a cuja majestade ninguém fica indiferente. Certamente, um disco omnipresente nas listas de melhores do ano. Ainda em terras do tio Sam, este foi também o ano da ambiguidade dos Animal Collective (Feels) e da pujança rock das Sleater-Kinney (The Woods). Enquanto o trio feminino de Washington prosseguiu a virtuosa rotina de escrever grandes álbuns rock, os nova-iorquinos redesenharam o seu intenso espaço de ambiguidade sonora, na verdadeira caixinha de emoções que é o seu sétimo disco. Além desses, num registo mais plácido, sobressaiu o nome de Anthony. O andrógino compositor californiano fixou definitivamente, ao segundo álbum (I Am a Bird Now), o seu espaço na cena musical norte-americana como songwriter do lado negro do amor. Ainda no capítulo das confirmações, nos E.U.A., uma referência aos discos competentes dos sublimes californianos Mars Volta (Frances The Mute), ao terror do novo trabalho do projecto Sunn O))) (Black One), à pop de casta dos The Decemberists (Picaresque), de Amos Lee ou Josh Rouse (Nashville), ao hip-hop de Edan (The Beauty and the Beat), Kanye West (Late Registration) ou Cam'ron (Purple Haze), à folk dos My Morning Jacket (Z) ou de Devendra Banhart (Cripple Crow) e às múltiplias dimensões rock dos White Stripes (Get Behind Me Satan), dos Queens of the Stone Age (Lullabies to Paralyze), dos Lightning Bolt (Hypermagic Mountain), dos Fantômas (Suspended Animation) ou dos System of a Down (Mezmerize/Hypnotize). A encabeçar a lista de debutantes para este ano na música americana, os irreverentes Clap Your Hands Say Yeah que, à custa de um disco em edição de autor e de algumas reviews favoráveis, geraram algum burburinho à sua volta e prometem agitar a cena rock nos tempos mais próximos. A par destes, embora num registo distinto, a electrónica do projecto LCD Soundsystem marcou pontos num disco de estreia convincente e que deixou água na boca. Ainda em matéria de revelações, este ano trouxe-nos, do Canadá, a estreia em disco da exuberância da pop alternativa dos Wolf Parade (Apologies to Queen Mary), da mesma Montreal que vira nascer os Arcade Fire, no ano transacto. Também do Canadá, merecem um apontamento de destaque os regressos esperados dos Broken Social Scene e dos The New Pornographers (Twin Cinema).

Fora do continente americano, num ano particularmente activo no Reino Unido, o ano ficou marcado pelo regresso em força dos escoceses Franz Ferdinand (na mesma linha do primeiro longa-duração), dos ingleses Coldplay (cada vez mais os porta-vozes primeiros da brit pop) e Depeche Mode (um regresso ao passado mais criativo) e pelas revelações dos britânicos Bloc Party, Art Brut e Kaiser Chiefs (novos mensageiros do movimento rock), da pop elaborada dos Clientelle e da electrónica surpreendente de M.I.A.. Uma nota ainda para os discos bem conseguidos de Jamie Lidell (Multiply), em convenções electrónicas precisas, dos Part Chimp (I Am Come), pela combatividade convulsiva do noise rock que defendem, dos Elbow (Leaders of the Free World) e dos Low (The Great Destroyer), pela competência e requinte, e dos Gorillaz (Demon Days), pela versatilidade da boa escrita. Pelo resto da Europa, Pascal Arbéz, sob o pseudónimo Vitalic (Ok Cowboy), e o alemão Rajko Müller (Isolée, We Are Monster), agitaram a electrónica europeia. Os suecos Opeth (Ghost Reveries) recriaram conceitos do metal escandinavo e os islandeses Sigur Rós (Takk) produziram mais uma tocante ode glacial. No resto do Mundo, os australianos Architecture in Helsinki (In Case We Die) deram-nos uma amostra do mais puro e irresistível psicadelismo electrónico, os congoleses Konono n.º 1 (Congotronics) fizeram-nos dançar ao som do likembé e a dupla invisual (do Mali) Amadou & Mariam (Dimanche à Bamako) encantou-nos com um passeio de Domingo às sonoridades africanas.

Mas 2005 foi, também, um ano marcado por alguns regressos sonantes e alguns flops. Rolling Stones, Paul McCartney, Kate Bush, Bruce Springsteen, Madonna, Vashti Bunyan, Nine Inch Nails e Sinnéad O'Connor regressaram às lides discográficas sem medo das sombras do passado e conseguiram, uns mais do que outros, não deslustrar o património que ostentam e até, em alguns casos, acrescentar novos ingredientes ao receituário costumeiro. Nas desilusões, os nomes de Moby, Tori Amos, New Order (outro regresso "histórico") e Liz Phair marcaram edições discográficas menos felizes.

No que toca à música nacional, para além da confirmação dos créditos de compositor de Francisco Silva (Old Jerusalem), do pianista Bernardo Sassetti e dos criativos Blasted Mechanism e D-Mars (sob o pseudónimo Rocky Marsiano), também dos regressos de Sara Tavares, David Fonseca e Rui Veloso, o ano foi particularmente dinâmico para as divas do fado moderno, com discos novos de Mariza, Mísia e Cristina Branco, e deram-se a conhecer em disco alguns conceitos musicais que, até aqui, estavam guardados no anonimato. Nesse grupo incluem-se o guardense Victor Afonso (Kubik), que nos proporcionou um invulgar exercício de bricolage musical, o colectivo lisboeta Ölga, os luso-canadianos Funami, o Complicado Miguel Gomes, os rappers Factor Activo, Serial, Sagas e Preto, os Loosers, os If Lucy Fell e os mirandeses Galandum Galundaina.

Foram estes os nomes que fizeram a melhor música de 2005. Para o ano há mais. Num registo para a história, aqui ficam as listas:

INTERNACIONAL
1.º Sufjan Stevens, Illinois
2.º Broken Social Scene, S/T
3.º Animal Collective, Feels
4.º Clap Your Hands Say Yeah, S/T
5.º The Mars Volta, Frances the Mute
6.º Wolf Parade, Apologies to Queen Mary
7.º Sunn O))), Black One
8.º Anthony and the Johnsons, I Am a Bird Now
9.º Sleater-Kinney, The Woods
10.º The New Pornographers, Twin Cinema

NACIONAL
1.º Kubik, Metamorphosia
2.º Complicado, Haunted
3.º Old Jerusalem, Twice the Humbling Sun
4.º Rocky Marsiano, The Pyramid Sessions
5.º Mariza, Transparente
6.º Serial, Brilhantes Diamantes
7.º Mísia, Drama Box
8.º Carlos Bica, Single
9.º Blasted Mechanism, Avatara
10.º Ölga, What Is