quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Field Music - Tones of Town

8/10
Memphis Industries
2007
www.field-music.co.uk



Pouca gente terá notado, mas estes rapazes editaram um disco em 2005. O azar deles foi a bicefalia desse ano no nordeste britânico, na época em que os suspiros dos melómanos ingleses se fixavam no impacto dos Futureheads ou dos Maximo Park. Para repôr a justiça universal, chega agora o segundo tomo dos Field Music. Se o debute homónimo havia conseguido uma agradável impressão, trazendo à memória ápices de melodias mais amistosas dos XTC, a sequela não se limita a isso, a começar na elasticidade das texturas de revestimento das canções. Os instrumentais são um altar de sons a exaltar o cerne fundamental da equação sónica do colectivo britânico: as cordas. A guitarra é a substância maior, quase sempre em serviço progressivo, mas há outras matérias de adopção, como breves trechos de pop de câmara (embora menos se notem as referências Beach Boys do primeiro disco) ou bosquejos vanguardistas. Tamanha complexidade torna o som dos Field Music menos imediato mas, ainda que com uma ou outra hipérbole pelo meio, resultado do método tentativa-erro que tão bons resultados dá com a filigrana deles, Tones of Town é um manifesto oportuníssimo.

Norah Jones - Not Too Late

6/10
Blue Note
2007
www.norahjones.com



Ao terceiro álbum, Norah Jones decidiu dar-nos o mais pessoal dos seus registos. Ao contrário do par de álbuns antecessores, Not Too Late é inteiramente feito de canções originais, assinadas a meias com o parceiro Lee Alexander e gravadas no seu estúdio caseiro. Volvidos quatro anos da súbita promoção ao estrelato, é mais do que natural esse impulso regenerador de uma jovem protagonista que, chegada aos píncaros, ensaia agora passadas diferentes para o seu trajecto. Sem o amparo do esplêndido contributo do produtor Arif Mardin, falecido no último Verão, as canções de Not Too Late, ainda que conservando o encanto sedoso da voz, parecem estruturalmente menos aconchegantes, em resultado de uma produção mais despojada e voltada para a experiência. Nesse sentido, o álbum revela um certo desprendimento em relação ao passado recente e mostra uma dupla à procura de outros estímulos ("Sinkin' Soon" - pesca nas conjugações Waits - e "My Dear Country" são os exemplos mais notórios) mas que, em última análise e a despeito da utilidade dessa intenção, não se aparta decisivamente dos usos recentes e, pior do que isso, não chega a captar-lhes o fascínio essencial.

Kristin Hersh - Learn to Sing Like a Star

8/10
Yep Roc
2007
www.throwingmusic.com



A gravilha na voz é coisa genética de Kristin Hersh e tem sido, entre outras minudências, uma das armas de arremesso da massa crítica do fenómeno musical, sempre renitente em aceitá-la como cantora na acepção literal da palavra. A fina ironia no baptismo do novo opus é a réplica subtil de Hersh ao cepticismo de quem olha para ela e esquece que já conta mais de duas décadas de gravações, desde os tempos dos consistentes Throwing Muses. Mas a ironia vai mais longe. Os acordes de Learn to Sing Like a Star são um cenário de emoções cruas para as palavras, tão impulsivas quanto a timbre usual de Hersh, assentes numa medula rock gerada no feliz encontro entre a melodia acústica e frágil e o abalo amordaçado da electricidade. Com arranjos resolutos, pianos, violinos e violoncelos. Depois, a simbiose entre os ambientes do disco e o canto inquietante de Hersh é do melhor que se escutou no percurso da autora, confirmando retoques preciosos nas suas aptidões criativas. Por essas e outras, Hersh nem precisa de cantar como uma estrela. Afinal, a voz dela tem mais sumo assim empoeirada.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

The Partisan Seed - Visions of Solitary Branches

8/10
Transporte de Animais Vivos
2007
www.honeysound.com



Quando se soube que, depois de Fantôme Intro das Waltz (2003), um dos mais inspirados trabalhos de estética alternativa alguma vez feitos cá no burgo, o colectivo Kafka se extinguiu, podia adivinhar-se que Filipe Miranda não fecharia aí a loja. Havia (e há) no mentor e vocalista da banda barcelense um talento raro para escrever hinos da melancolia e canções de honestidade arrepiante. Essa faceta é ainda mais sentida em Visions of Solitary Branches, uma colecção de composições espartanas, instrumentalmente frugais e construídas em torno da voz. Os sons que a suportam, sejam do esqueleto de guitarra (amante inescusável de qualquer trovador solitário que se preze), sejam dos apoios sonoros casuais, seguem os tons enleantes do canto, sempre hipnótico e suspenso, portador de um discurso que vai além das palavras. Há alma nestas canções que, sendo despidas de artifícios, se resumem a um minimalismo próprio do género, mas nunca deixam de ser consequentes. Música que nos faz assim recostar e pesar as pequenas coisas da vida é docemente perturbante. E arrepia como Old Jerusalem. Também por isso, é difícil prescindir de Visions of Solitary Branches.

Clap Your Hands Say Yeah - Some Loud Thunder




Foi o burburinho da blogosfera que lhes fez grande parte da reputação e os atirou para os palcos mediáticos da cena nova-iorquina, primeiro, e do mercado americano, depois, em resposta a uma edição de autor homónima que depressa se tornou um dos títulos mais requisitados de 2005. Não sendo um exemplo de originalidade, o disco projectava-se no referencial de coordenadas dos Violent Femmes ou dos Talking Heads, encontrando aí vida própria e uma curiosa (e talentosa) fórmula para a construção de canções de fino recorte. Some Loud Thunder é o sucessor e leva-nos, desde os primeiros acordes, para outras paragens. Decididamente mais experimentais (não necessariamente melhores...) e, por isso, mais errantes, as novas composições parecem enredar-se a si mesmas num novo paradigma de cadências mais lentas, arestas limadas pela produção e texturas menos rock. E diminuir a porção de deliciosa energia e laconismo rock da estreia, afinal o catalisador da sua frescura, é um risco muito penalizador do som dos CYHSY. Fica a esperança de que eles retomem a descoberta de si mesmos (de que o álbum de debute é um manifesto), antes de partirem para a redescoberta experimental do seu som. Ainda é cedo para aparecerem outros Flaming Lips.

Mudança gráfica no apARTES

Está completa a primeira fase da revisão gráfica que tinha previsto fazer no apARTES. A ideia base desta "limpeza" visual foi, antes de mais, tentar agilizar os conteúdos gráficos, permitindo com isso um acesso mais célere ao blog e, consequentemente, uma experiência de utilização mais agradável para o utilizador. Seguir-se-ão, a breve prazo, outras actualizações, especialmente no anexo da Grafonola, espaço que permitia a audição de algumas faixas dos discos apresentados no apARTES. Por ora, essa secção deixou de estar disponível mas espero devolvê-la a este espaço tão rapidamente quanto possível, sem prejuízo de se manterem os costumeiros postos de escuta em cada um dos artigos publicados.

Além da nova cara do blog, a terceira desde o nascimento deste espaço, junta-se também uma lista de hiperligações para outras fontes de informação sobre música e outras artes. Como julgo ser compreensível nesta fase inicial, a lista é necessariamente curta mas não estanque, já que outros links serão gradualmente somados, sempre que tal se justifique. E que o tempo o permita.

De resto, a actividade normal do apARTES seguirá, na devoção crítica sobre a música. E de olho de soslaio sobre as outras manifestações artísticas. Em jeito de balanço, volvidos mais de dois anos desta aventura pela blogosfera, rendo-me a todos os que por cá passaram. O contador diz-me que são já mais de trinta e três mil. A todos, o meu sincero agradecimento pelas visitas, pelas leituras, pelos comentários, pelos emails. Por tudo.

E a ti, S., uma vénia diferente.
Por seres quem és, o apARTES será sempre teu.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Carla Bruni - No Promises

7/10
Naïve/EM
2007
www.carlabruni.com



Um ex-supermanequim a aventurar-se no mundo das canções é coisa bastante para instigar os mais fundos partidarismos e preconceitos da massa crítica do fenómeno da música. Foi nesse ambiente de sobranceria generalizada que apareceu Quelq'un m'a dit, em 2003, o debute nestas lides da italiana Carla Bruni. Olhada de soslaio por antecipação, foi a credulidade das canções que firmou, a posteriori, o cunho de uma cantora/compositora hábil no desenho de melodias plácidas, em composições de pop recatada, voz de cicio e bons arranjos. No segundo trabalho, a divergência mais clara vem dos poemas, ao invés do francês do antecessor, este disco acolhe textos de Emily Dickinson, William Butler Yeats, Walter de Maré ou Christina Rosseti (indicados a Bruni pela amiga Marianne Faithful), necessariamente cantados em inglês. Além da conversão ao britanismo na linguagem, também nas texturas de som se nota uma certa metamorfose, notoriamente a chegá-las aos padrões blues americanos - para trás fica o legado da chanson française), de guitarras dialogantes, mas sem beliscar o minimalismo em que melhor assenta a pedra angular destas canções: a voz.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Alasdair Roberts - The Amber Gatherers

7/10
Drag City
AnAnAnA
2007
www.alasdairroberts.com



Além da inconfundível presença vocal de tons altos e afinação extrema, a música do escocês Alasdair Roberts confunde-se com loas de outras eras, como se fora anacrónica, uma espécie de subterfúgio para um trovador deslocado no tempo. The Amber Gatherers não se arreda da costumeira toada arcaica e minimalista de Roberts, embora se perceba, na estrutura melódica das composições, um compromisso renovado com inspirações mais luminosas, depois da negrura de No Earthly Man (2005), colecção de baladas soturnas sobre a morte. O adorno das canções é mínimo e esse é o paradoxo da imponência quase-silente dos trechos, em torno de um núcleo quintessencial (Roberts, a ciência da música tradicional e a guitarra), com ligeiríssimas infiltrações (o banjo, as palmas ou a percussão contingente). O desfecho é uma lição folk que, por despertar das prateleiras de um antiquário erudito nos usos antigos, pode trazer a aparência de soar imprópria para ouvidos hodiernos. Ou pouco esmaltada para os freak folks. E seguir esse impulso instante seria recusar a estas belas canções a oportunidade que merecem. Sem reservas.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Of Montreal - Hissing Fauna, Are You the Destroyer?


8/10
Polyvynil
2007



Discursar sobre Of Montreal e reduzir o conceito à persona de Kevin Barnes é uma inevitabilidade. Projecto pós-extinção dos Elephant 6, de cujas mesmíssimas ruínas surgiram outros colectivos importantes como os Neutral Milk Hotel, os Beulah ou os Apples in Stereo, só para citar alguns, a sigla Of Montreal é o abrigo da verve de Barnes. Integralmente escrito por ele, Hissing Fauna, Are You the Destroyer? vem na esteira do seminal Satanic Panic in the Attic (2004), obra maior do catálogo de Barnes, e do seu sucessor (Sunlandic Twins, de 2005), na construção daquilo a que o autor chama uma "electro-cinematic avant disco". Psicadélico, é certamente. Os sintetizadores tentam o fausto de uma mistura de sons cheia de sabores, a raiar o surrealismo, o sustentáculo mais oportuno para as melodias. Aí, não há lugar para convenções, Barnes é um rebelde e não perfilha regras, prefere dar corpo a uma pop de doces dislates e mantimentos sintéticos, num galanteio destapado com o legado disco dos oitentas e, porque não dizê-lo, com as luminárias de Bowie (é fantasma repetente no percurso de Barnes), dos Beatles, de Beck ou de Brian Wilson. Com um imaculado gosto a concentrado.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Jazz Iguanas - Jazz Iguanas


7/10
Cobra Records
2006
www.myspace.com/jazziguanas



A nota de lançamento do projecto Jazz Iguanas vale-se de uma máxima do ficcionismo de Phillip K. Dick, controverso novelista americano e pirrónico convicto da espécie humana e seu futuro. Na citação, Dick espia o cepticismo idiossincrático da sua órbita criativa, o mundo dos "falsos humanos" e das objectividades meramente virtuais. Ao escutar Jazz Iguanas, identidade alternativa de Miguel Pedro e António Rafael (músicos dos Mão Morta), percebe-se a correlação com esse orbe futurista de Dick, sob a dominância de caracteres maiuscúlos de som sintético, friamente programados para governar os estímulos orgânicos das composições. É, nesse sentido, um disco maquinal, como se o computador se emancipasse do humano-programador e se fizesse, ele próprio, um "falso humano". Ou um "falso instrumento". E, na ilusão de falsidade, corresse livre no espaço do improviso (como um jazz absurdo), necessariamente quebradiço e desregrado, convulsivo e dinâmico. Seguem-lhe a pisada as cordas do piano, também rendidas ao laço ilusivo, como a guitarra e o contrabaixo, e, juntos, orquestram daguerreótipos apurados de um mundo sem homens reais. Ou onde a carne e o osso são apenas circunstância aparente. E que bem ficariam estes acordes (ou outros que nascessem do mesmo génesis) no recente tributo de Richard Linklater às alucinações de A Scanner Darkly.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

JP Simões - 1970


8/10
NorteSul
2007
www.jpsimoes.com



Para trás ficam as memórias que o aconchegam no património dos Belle Chase Hotel e, mais recentemente, do Quinteto Tati, colectivos que empurrou para os píncaros da música lusa. Agora a solo, JP Simões procura outro conforto: o retorno às fundações da sua adolescência, vivida no Brasil, e rendida a mestre Buarque de Hollanda. 1970 é o travessão que une pautas e harmonias do país irmão, além Atlântico, ao canto em português autóctone. E quem melhor do que JP Simões, poeta vago e confesso admirador da geração setentista da música brasileira, para decorar essa confluência de âncoras bem brasileiras (sambas e bossas), com alentos portugueses. Já lhe chamaram luso-sambismo, num rótulo talvez redutor da fartura de um tomo de canções tão simples quanto sublimes, servidas por textos-retrato de uma geração desencantada (a de 70, ano de nascimento de JP Simões). É esse mesmo despojo a referência contextual (suportada em arranjos de excelência) que faz de 1970 um disco de canções elegantes. E onde até cabe uma revisão para "Inquietação" de José Mário Branco. Com a marca instantânea da brasilidade, este trabalho é, isso sim, um dos mais felizes acasos da lusofonia. Que belo ilusionismo de JP Simões, o de nos fazer crer que Chico podia ter nascido em Coimbra. Ou que o clássico Rio de Janeiro também podia ter raízes nas ribas do Mondego. Como a história seria outra, se o calendário contasse este 1970...

The Good, The Bad & The Queen - The Good, The Bad & The Queen

8/10
Virgin Records
2007
www.thegoodthebad
andthequeen.com



Diz-se que o conceito por detrás deste disco era a gravação de um álbum a solo de Damon Albarn. Verdade ou não, os factos confirmam que o novo projecto tem pedigree, independentemente da luminária do álbum ser Albarn, coisa não indiferente à evidência de ele continuar a granjear o reconhecimento da crítica especializada desde a não assumida suspensão dos Blur à explosão mediática dos Gorillaz. A partilhar os louros da porção instrumental de The Good, The Bad & The Queen está gente de nome feito: o baixista Paul Simonon (Clash), o guitarrista Simon Tong (Verve, Blur, Gorillaz) e o percussionista Tony Allen (Gorillaz, Africa 70). Inteiras na sua urbanidade, as canções demarcam-se das órbitas mais recentes do percurso de Albarn, abeirando-se dos padrões melódicos de uma pop sedada pela melancolia e sem espartilhos estruturais. Canções soltas, com denominador comum na placidez e eloquência sonora (vivas à esplêndida produção de Danger Mouse!), fazem de The Good, The Bad & The Queen uma colecção de melodias volantes, menos tangíveis do que o material costumeiro de Albarn mas, nem por isso, menos sedutoras. Depois, há uma subtil transcendência nos ambientes do disco, confirmando duas coisas: que Albarn era um compositor capaz não havia grandes dúvidas (mudos vão ter que ficar os abutres que lhe auguram a débâcle, ainda não é desta...); só faltava confirmar isso além dos Gorillaz e sem os ornatos orelhudos da britpop dos 90's.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Globos de Ouro da HFPA

Foram atribuídos, na madrugada de ontem, os galardões dos globos de Ouro deste ano, consagrando os protagonistas maiores da sétima arte em diversas categorias. Tidos como a antecâmara mais próxima dos Óscares, os Globos distinguiram, os seguintes filmes/personalidades nas categorias principais:



MELHOR FILME - DRAMA Babel
MELHOR ACTOR - DRAMA Forest Whitaker (The Last King of Scotland)
MELHOR ACTRIZ - DRAMA Helen Mirren (The Queen)
MELHOR FILME - COMÉDIA/MUSICAL Dreamgirls
MELHOR ACTOR - COMÉDIA/MUSICAL Sacha Cohen (Borat)
MELHOR ACTRIZ - COMÉDIA/MUSICAL Meryl Streep (The Devil Wears Prada)
MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO Eddie Murphy (Dreamgirls)
MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA Jennifer Hudson (Dreamgirls)
MELHOR REALIZADOR Martin Scorsese (The Departed)
MELHOR ARGUMENTO Peter Morgan (The Queen)
MELHOR BANDA SONORA ORIGINAL Alexandre Desplat (The Painted Veil)

Surpresas maiores da noite, nos prémios de representação masculina, a distinção de Forest Whitaker, em detrimento do super-favorito Leonardo DiCaprio, e de Eddie Murphy, nos desempenhos de suporte, suplantando Jack Nicholson ou Brad Pitt. Nos demais galardões, nada de especialmente inesperado. Babel de Iñárritu foi agraciado com o título de filme do ano, a sublime performance de Helen Mirren foi muito justamente premiada - só espantará mesmo se não juntar o Óscar ao Globo - e Jennifer Hudson, em Dreamgirls, venceu o sprint com Adriana Barraza para a distinção de actriz secundária. Esperemos pelos Óscares mas algumas pistas estão lançadas. Aceitam-se apostas.

Veja a lista completa de premiados, clicando aqui.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Pere Ubu - Why I Hate Women

7/10
Smog Veil
2006
www.ubuprojex.net



Ele já foi foguete das tumbas (quem não se lembra dos Rockets?), nos tempos em que o punk era ainda um embrião e, já então, ensaiava as primeiras marchas do que se convencionaria chamar de pós-punk. Visionário ou alucinado, David Thomas é um bardo polémico e escarnicador, um homem de caneta fria e convulsiva, alguém que se recompensa na proscrição (auto?) infligida por um mundo que não se esforça por decifrar a sua fina ironia. E ele não faz muito por descalibrar essa tendência no 15.º álbum de um percurso cheio de grãos, servindo-nos um concentrado misógino (ou sardónico?) dos seus elementos quintessenciais: a guitarra impura de Moliné, serpeante e sem cambaleios, o sintetizador em órbitas imprudentes, um theremin de estáticas incontinentes, o ruído alcalino e as percussões com princípios de cacofonia e irregularidade temporal sem aviso. Why I Hate Women é a tradução musical da bricolage amadurecida de Thomas, cheia das dissonâncias típicas da suas provetas loucas - que ele faz questão de não considerar experiências, antes o fruto de um sistema criativo prévio - e é, por isso, mais do que um disco de música experimental, um manifesto de uma das mentes mais turvas e inventivas da moderna música americana.

Toumani Diabaté's Symmetric Orchestra - Boulevard de L'Indépendance

8/10
World Circuit
Megamúsica
2006
www.worldcircuit.co.uk



De Toumani Diabaté conhece-se a divisa de embaixador magno da música maliana, particularmente na divulgação além-fronteiras dos sons da kora, por hoje um dos mais simbólicos instrumentos de cordas do património africano. Depois do Grammy ao lado do malogrado Ali Farka Touré, em 2005, o maestro está de volta às gravações, agora na companhia do ensemble idealizado por si. Esta Symmetric Orchestra soma cinquenta e dois elementos, entre instrumentos e vozes, e propõe-se redimensionar as sonoridades coloridas do Mali, emprestando-lhes uma outra amplidão sónica que deriva da combinação entre os sons rústicos dos costumes seculares do Mali (as cordas da kora e do ngoni, as percussões do dundun, do djembé e do sabar, as notas do balafon) e esquissos de modernidade de outras orquestrações contemporâneas (baixos, metais e percussões). A coisa produzida nesse enlace é um som riquíssimo, amplo em variáveis, e um passo adiante na demanda exploratória de Diabaté rumo a esse esforço libertário da música africana que ele iniciou há anos, em busca de a resgatar das suas amarras (geográficas ou temporais) fulcrais. Uma genuína avenida de independência. Para o mundo espreitar.

Jazkamer - Metal Music Machine

7/10
Smalltown Supernoise
AnAnAnA
2006
www.jazzkammer.com



Lasse Marhaug e John Hegre, as duas metades do projecto norueguês Jazzkammer (nesta edição grafado apenas com um "z" e um "m"), levam quase uma década de temerária sonda às extremidades do noise digital. Não causa admiração que, na peugada de outros artífices do género (Tim Hecker, por exemplo) que, nos tempos mais recentes, se deram à proximidade com algumas variantes do metal, os dois escandinavos tenham recrutado para este retorno alguns nomes sonantes desse movimento, mormente o guitarista/teclista Ivan Bjornson (Enslaved), o baterista Iver Sandoy e o guitarrista Olav Kristiseter (ambos dos Manngard). O desenlace é um feliz pacto entre o metal negro e extremo, em diversos galopes, e a feição emocional do experimentalismo típico da sigla Jazkamer. Embora a primeira dessas substâncias pareça prevalecer, a ponto de Metal Music Machine ser mais um disco de sons com peso do que propriamente um exercício de experimentação sónica, há nas entrelinhas das cinco peças do alinhamento o quinhão decisivo para destrinçar este álbum de outros: as costuras a noise digital. É também essa a inscrição (indispensável) de Marhaug e Hegre neste monumento de metal depurado nas máquinas, a que assenta como uma luva o título roubado a Lou Reed.

sábado, 13 de janeiro de 2007

LCD Soundsystem - 45:33

8/10
iTunes, Outubro 2006
Electrónica
www.lcdsoundsystem.com
www.nike.com/nikeplus



Falar de 45:33 impõe um esclarecimento prévio. A peça foi encomendada a James Murphy pela Nike, no âmbito de um programa desenvolvido em conjunto com a Apple e que combina o célebre iPod com um sensor devidamente instalado nos ténis, para a monitorização do jogging dos utilizadores. Concebido o interface tecnológico para a transmissão dos dados sobre calorias queimadas, distâncias percorridas e afins, faltava juntar música às corridas. Aí entra 45:33. Música para correr, portanto. Não estranha a afinidade rítmica da sigla LCD Soundsystem com esse propósito. Já se conheciam os meneios estéticos e as cadências de Murphy, coisas utílissimas para musicar a dinâmica de uma corrida, e que se juntam peculiarmente neste mix. E a combinação não podia ser mais sumarenta, em sucessivas mutações entre estilos (house, disco, funk), ao jeito de uma caleidoscópica colecção de sons. O cardápio LCD completo, para ajudar a entender a estoiro mediático recente de Murphy. E 45:33 é música singularmente cinética, o propulsor certo para tornar o jogging menos custoso para o praticante ocasional e, ao mesmo tempo, nos mostrar como se faz um set transversal às várias escolas de música dançante, num único trecho, sem soar pretensioso e sem escorregar para a monotonia. Garantia irrevogável: 45:33 é o melhor acompanhamento para uma corridinha solitária e deixa água na boca para o novo LCD Soundsystem que está aí à porta...

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Califone - Roots & Crowns

7/10
Thrill Jockey
2006
www.thrilljockey.com



Os Califone são um dos mais suculentos paradoxos da moderna música americana. Devotos sem beatice da música isenta de regras, o coleccionismo de sons é o seu sustento, ao jeito de uma imprevisível (e anacrónica) parafernália de coordenadas, bem além da esperada filiação aos mais autóctones sons. À falta de melhor definição, dir-se-ia que Roots & Crowns propõe um refinamento das demarcações da folk nativa americana, oferecendo-lhe nacos de audácia experimentalista, o alarde de ruídos acidentais e a esporádica veste da electrónica. Da mescla, sempre adornada com detalhes instrumentais preciosos (pianos, samples, marimbas e cordas), flui uma massa sonora de contrastes, entre a simplicidade e o dédalo, o revivalismo e a mira no amanhã, a transparência e a turvação. Acima disso, Roots & Crowns é música para nos determos a degustar (dá para não parar "A Chinese Actor"?) e, com isso, descobrir a muito consistente maturação estética de um dos mais subestimados colectivos do cardápio da folk moderna. Tão temerária quanto a folk pode ser. Ou, dito doutra forma, Roots & Crowns, mesmo com o pecadilho mínimo de uma certa discórdia estrutural entre algumas faixas, é música folk para quem não vai muito à bola com o género.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Peter Bjorn and John - Writer's Block

8/10
Wichita
V2
2006
www.peterbjornandjohn.com



Eles são três moços suecos e chegam (finalmente) a alguma notoriedade, depois de dois álbuns subvalorizados pelos circuitos da música indie. Tal promoção deve-se, em grande parte, ao hype crescente que foi, paulatinamente, conquistado pelo terceiro registo do trio. Dir-se-ia que, numa penada, estes escandinavos abraçam um espectro sonoro de alcance histórico lato. Na primeira linha das influências, como se percebe logo nas primeiras audições, está a pop limpa e jovial dos 60's, de simplicidade estética e alguma exuberância vocal. A par dessa evidência, o disco parece acatar outras coordenadas: as guitarras simbólicas do shoegaze são substância sóbria e dominante, sempre reverberantes e melódicas; depois, a translucidez casual de pozinhos de electrónica minimalista alude a paisagens sónicas mais delicadas. Tudo junto, umas vezes com mais originalidade ("Young Folks" é eixo decisivo para comparações, com a voz convidada de Victoria Bergsman, dos conterrâneos Concretes) do que noutras, Writer's Block está muito bem escrito e arrumado. Por isso, além do rótulo de ode ao amor, também lhe assentam bem as vestes de um dos melhores produtos pop de 2006.

KTL - KTL




A junção de Peter Rehberg (aka Pita), artífice da electrónica extremista, ao cada vez mais influente mestre do doom Steven O'Malley (dos Sunn O))) e Khanate) não era coisa para assentar nas conjecturas mais imediatas da comunidade melómana. Contudo, apesar das evidentes distâncias entre os estratos noise doom cultivados por ambos, há em KTL uma estranha simetria de princípios: de um lado, os enunciados de electrónica aguda e de baixa frequência de Rehberg, de decibel pungente e penetrante; do outro, os fraseados estridentes da guitarra de O'Malley, ora colados ao registo drone típico do músico, ora diluídos em inscrições mais pontuais e elásticas, sem prejuízo do peso dramático e dos tons lancinantes. Um nadinha mais próximo da órbita de corrosão lenta de O'Malley, é todavia, reconhecível, em KTL, o experimentalismo digital do seu parceiro austríaco, matéria essa que sugere outros ângulos às tendências monocórdicas da guitarra, somando-lhe quebras e indecisões. Estruturalmente impressivo, este tomo testa caminhos diferentes para o doom e, nesse sentido é, mais do que uma colaboração esporádica entre dois músicos relevantes, uma escuta recomendada para vanguardistas e adeptos de produtos musicais híbridos.

Beach House - Beach House

6/10
Carpark Records
Sabotage
2006
www.beachhousemusic.net



O debute em disco da dupla Alex Scally (guitarrista) e Victoria Legrand (organista e voz) é, acima de tudo, um desafio esotérico. A guitarra volante leva-nos a um universo de ficções e assombros precários, de pulso errante e formas vagas, ao jeito dos mais primários assomos de exaltação do incorpóreo. Depois, a voz e o orgão alinham-se na mesma órbita, divagantes e numa (metafórica) languidez que, se a mais não serve, reforça a feição nostálgica de valsas subliminarmente barrocas (no estilo e no modelo) a que apenas se contrapõe o relativo formulismo, coisa penalizadora da experiência de escutar o disco de uma ponta à outra. Esquecido esse detalhe (importante), ainda assim se descobrem afeições com Beach House, mormente no mágico escapismo das flutuações melódicas vocais de Legrand, afinal o activo maior do álbum, e na cativante letargia de uma pop pouco assumida e que se alimenta da modéstia instrumental e da alvura. Quietude e sonho de mãos dadas, num disco místico e que, a despeito da importunidade de uma certa constância formal, consegue dar-nos um ou outro instante de aprazimento. Esperam-se novos capítulos da dupla de Baltimore.

domingo, 7 de janeiro de 2007

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Bernardo Sassetti - Unreal: Sidewalk Cartoon

8/10
Clean Feed
2006
www.cleanfeed-records.com



Ao segundo capítulo de uma trilogia consagrada à feição imagética da música (o primeiro havia sido Ascent, lançado em 2005), o pianista Bernardo Sassetti fez algo mais do que uma mera obra discográfica. Unreal é um conceito pensado em dimensões várias, além do óbvio estímulo da arte principal (a música), a edição contém um livro e foi pensada para apresentação pública em formato multimédia, com projecção de vídeos. Ora, de música cogitada sob estas premissas é de esperar um envolvimento simbólico expressivo e a colagem às sugestões de órbita que derivam do texto humorado e surrealista de suporte; é através da música de Sassetti que melhor se reproduzem as imensas possibilidades de concretização da narrativa, insinuadas em simultâneo na mente e nas sucessões rítmicas dos trechos. Aí, é oportuníssimo o subsídio da percussão dos Drumming, das marimbas e vibrafones, a dividir o palanque com os acordes precisos da verve de Sassetti, precioso como sempre, e dos costumeiros Alexandre Frazão e José Salgueiro. E ainda há o saxofone de Perico Sambeat. E duas faixas emprestadas, de Monk e de Félix Reina. Música para ouvir e pensar. E, já agora, espreitar a apresentação ao vivo de um dos mais estimulantes momentos do jazz(?) português dos últimos tempos, pela mão de um dos seus mais insignes embaixadores.

Bonobo - Days to Come

6/10
Ninja Tune
2006
www.bonobomusic.com



Ele despontou para o mediatismo em plena era de afirmação das sonoridades chill out e, desde a edição de Animal Magic (2001) tem estado na berra do pelotão nu jazz. Embora hoje se tenha esbatido um pouco a relevância de um género musical que, consumida a auréola da novidade, poucos abalos tem trazido à cena discográfica além da moda de animar ambientes de bar, Simon Green é um dos escassos exemplos de inventores desta estirpe de som que ainda conseguem produtos válidos. Days to Come é um disco leve, guarnecido com sabores jazzy de várias origens e beats pouco agitadas, coisa comum ao catálogo Ninja Tune; é notório que, ao terceiro trabalho, Green juntou mais voz à sua matriz (as entoações soul de Bajka são uma ajuda preciosa) e isso reforça os predicados estruturais das composições. A despeito disso e do equilíbrio da soma final, Days to Come raramente se acerca da transcendência e, talvez injustamente para Green, as suas debilidades são as mesmas que decorrem do desgaste de uma sonoridade que é mais útil a ambientar espaços insonoros (nisso, sai-se a contento) do que a espicaçar melómanos sequiosos de novos estímulos.