sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Benfica na Champions: a insustentável pequenez


Alguns méritos não podem ser tirados a Jorge Jesus. Desde a sua chegada ao Benfica, a equipa de futebol dos encarnados redimensionou-se, potenciou jogadores e foi capaz de desafiar consistentemente a hegemonia portista. O bom futebol, os activos valorizados e o estádio com boa lotação tornaram-se regra na Luz, o que constituiu - e nisso o mérito é também partilhado com Luís Filipe Vieira - um inequívoco incremento da percepção de valor da marca Benfica. Em termos de eficácia desportiva, ainda assim, o registo interno não é superlativo: 2 campeonatos em 5 anos. Numa análise mais fina, do trio de ligas perdidas para o Porto nesse período, duas foram praticamente "oferecidas", com responsabilidades directas de Jorge Jesus, ora pela gestão negligente do quadro de jogadores e das expectativas emocionais nos momentos de decisão, ora por uma avaliação táctica nem sempre acertada nos momentos-chave da época. Mesmo retendo essas falhas, o balanço junto do universo encarnado é positivo, sobretudo depois de quase vinte décadas de penúria, a ver desfilar a caravana das vitórias azuis e brancas. Internamente, a nação benfiquista revê-se na reaproximação ao F.C. Porto, o que colocou o Benfica na órbita que a sua história impõe. 

Se abrirmos a objectiva à dimensão europeia, mormente à Liga dos Campeões, é difícil disfarçar o incómodo dos fracassos redondos que, no mesmo período de cinco anos, ditaram a eliminação precoce na fase de grupos em quatro ocasiões. É certo que, em duas delas, a migração para a Liga Europa abriu portas para o mediatismo de duas finais (perdidas), mas importa perceber a pequenez competitiva do Benfica no palco maior do futebol europeu de clubes. A Liga Europa é, como o tempo vem provando, uma competição à medida de símbolos de média dimensão, bem ao jeito dos grandes portugueses que, tendo o infortúnio de cair na Champions, logo se tornam favoritos à vitória final. Mas isso é outra questão. Porque falha então sucessivamente o Benfica no confronto com os maiores?

Há vários níveis de análise que importa destrinçar. O primeiro, e mais importante, prende-se com a definição de prioridades desportivas do Benfica e, mais particularmente, do seu treinador. O segundo deriva do discurso institucional sobre esta matéria, também ele acomodatício do insucesso. E, finalmente, o nível de exigência que chega à equipa em dois patamares: vindo da direcção e vindo do exterior, dos adeptos. 

Comecemos pelas prioridades definidas por Jorge Jesus. Desde cedo se percebeu, e bem, que atacar o campeonato seria o leitmotiv do treinador do Benfica. A urgência de devolver ao Benfica a sua identidade de clube ganhador e, mais do que isso, de romper o predomínio portista "obrigavam" a reclamar rapidamente o ceptro nacional. Até aí, tudo bem, um clube só é grande se continuar a ser grande, se o presente fizer jus ao passado. Viver de glórias de antanho era coisa de que o povo benfiquista estava farto. Nada errado, portanto, em focar a preparação competitiva da equipa para a liga doméstica. Conquistado o primeiro campeonato no primeiro ano (2009/10), com uma presença mediana na Liga Europa (saída nos quartos de final, com o Liverpool), estavam lançadas as bases para, nos anos subsequentes, ser solidificado o projecto europeu, a ambição confessada de Luís Filipe Vieira. Mas Jorge Jesus nunca entendeu uma parte nuclear do ADN Benfica. Ganhar internamente é importante, claro, mas não é a meta final. Ganhar ligas em Portugal deve ser o suporte para projectar a equipa no exterior, entre os melhores. A identidade de clube grande é urdida assim. Jesus nunca entendeu isso. Para ele, "o campeonato é a prioridade", tantas vezes se lhe ouviu a expressão. E tantas vezes, no seguimento disso, se percebeu que a gestão dos jogadores e das expectativas da época secundarizou a Liga dos Campeões, em favor do campeonato nacional, como se uma valesse menos do que o outro. Não perceber que um clube com a grandeza do Benfica tem que figurar entre os melhores, tem que ganhar entre os melhores - sobretudo nos anos em que tinha recursos para isso - é passar ao lado da quintessência do clube. E chegar à final da Liga Europa, até ganhá-la, não apaga as sucessivas débâcles na Champions. 11 vitórias em 29 partidas (ainda falta uma deste ano), nas últimas cinco edições da Champions é um pecúlio demasiado curto! Não o admitir e tentar cobrir este facto com a peneira das finais de Liga Europa é uma falácia que só serve a Jesus. 

Depois, há a questão do discurso institucional do clube. Além do treinador que assume abertamente a prioridade no campeonato, o presidente Luís Filipe Vieira tem mantido um estranho silêncio sobre as sucessivas eliminações prematuras na Champions, também se escudando na consolação da Liga Europa. Mas há um contrasenso nisso. Por um lado, fala-se em projecto europeu, em colocar o Benfica entre os melhores, no "sonho" de ganhar a Champions e, depois, nos momentos de fracasso na prova maior, não há uma palavra do presidente. Também ele toma como normal a pequenez competitiva do Benfica europeu? 

E isso entronca no terceiro nível de análise: a cultura de exigência. Depois de duas décadas de capitulação desportiva, a mística benfiquista era, antes da chegada de Luís Filipe Vieira, uma miragem. E se parte significativa dessa mística foi regenerada, sobretudo pela destreza do presidente em comprometer a família benfiquista com o projecto, não é menos verdade que certos sectores do clube, tanto nos corpos sociais, como na falange de adeptos, ainda convivem melhor com a derrota do que os congéneres portistas. Não se trata de copiar modelos desportivos ou de gestão, mas estudar o caso portista é estar em contacto com o mais completo e cabal exercício de construção de uma cultura de vitória, alicerçada em anos sucessivos de exigência, de vontade de ganhar mais. Seria inimaginável acontecerem tantas saídas sem brilho da Champions, no F.C. Porto, sem a reacção indignada da massa adepta e a consequente corroboração presidencial. O desaire não fica impune na Invicta. Ao contrário, ter um discurso fraco na hora de perder, não o assumir frontalmente, não ser capaz de acrescentar o indispensável tom crítico que suporta a cultura de exigência é abrir portas para a repetição do insucesso. E é isso que internamente o clube Benfica ainda não percebeu. A cultura de vitória é uma tarefa de todos os dias, de todos os momentos e de todos os protagonistas. Mais exigência há-de trazer mais vitórias. E Luís Filipe Vieira nunca foi suficientemente veemente quando a equipa e Jesus falharam na Champions. Tudo isto, depois, repercute-se nos adeptos. Eles são, a maior parte das vezes, o espelho do discurso institucional do clube. Se não se alimenta a cultura de vitória, os adeptos não a praticam também. E assim aceitam mais uma eliminação precoce na Champions. 

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Pharmakon - Bestial Burden

7,9/10
Sacred Bones, 2014

No ano transacto, quando Abandon chegou aos escaparates, já o epíteto Pharmakon havia suscitado a curiosidade de muitos melómanos fora do noise, esse nicho artístico pouco dado a fenómenos com expressão mediática maior do que as fronteiras do género e capazes de chegar a outros públicos. O sobressalto gerado pela música de Margaret Chardiet nem era propriamente resultado de uma fórmula virgem nesse domínio, mas sobretudo de perceber-se quão áspera, crua e gutural conseguia soar uma jovem de apenas vinte e dois anos (à data) e de como, na solidão catártica das suas actuações conseguia veicular, fosse na estridência e rudeza vocais, fosse na toxicidade instrumental, uma energia estranhamente hipnótica e sedutora. A busca da beleza na repulsa, a exploração das tensões e conflitos nesse absurdo paradoxal do indivíduo e, em certo sentido, a exposição visceral da sua própria natureza eram, então, as premissas maiores do assalto sensorial de Chardiet. Daí à proximidade com o radicalismo sonoro a distância era curta e, sem se deter em maniqueísmos, Chardiet colocou-nos perante um dilema de compromisso, talvez até a derradeira demanda existencialista: há na espécie humana um ímpeto de confronto que não se aquieta. Somos como somos porque mora em nós a pulsante chispa da conquista, mascarada nas múltiplas formas da ambição. Em Pharmakon, Chardiet rende-se ao lado mais assombrado e tortuoso da mundanidade: a ambição é um fantasma difícil de exorcizar.

De Abandon para cá, Chardiet viu o abismo. Operada a um tumor quase fatal, teve que conviver com a fragilidade do seu próprio corpo, na lenta convalescença que se seguiu. Bestial Burden é tingido pelo tom testemunhal desse processo de regeneração contra a traição celular e de evidência da vulnerabilidade. Também por isso, e em certo sentido, a música do disco é tão "física" quanto seria expectável, incluindo vómitos, tosse e arfadas, um roteiro cru ao tormento físico vivido por Chardiet. A mente impotente desconecta-se do corpo falido, rebela-se contra ele, quer desprender-se da frágil condição da mortalidade. No resto, a marcha das electrónicas ponderosas, as interferências abrasivas e a métrica quase industrial suportam uma voz ácida, cortante e enfeitiçada. Mas sempre, sempre humana. Porque o medo da morte é uma merda.

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Bailarico no Bairro

Mário Eloy
Bailarico no Bairro
1936

Observação de jogadores: Karlo Lulic

 Karlo Lulic (Sampdoria)

Transferido recentemente para a Sampdoria, depois de um diferendo com o seu clube de formação (desde 2010) quanto à renovação de contrato, é um dos talentos emergentes do futebol croata. Com dezassete anos, debutou na principal liga do seu país pelo Osijek, depois de ter despontado no modesto Mladost Cernik, da Slavonia, de onde é natural. É internacional sub-19 pela Croácia.

É um médio de construção, apto a jogar numa segunda linha de meio-campo, com derivações pontuais para os corredores laterais. Tem iniciativa e gosta de ter a bola nos pés, o que lhe permite fazer uso dos recursos técnicos. Porque conduz bem a bola, tem um bom drible e faz uma leitura espacial correcta do jogo, consegue boas chegadas à zona de finalização, ora assistindo, ora marcando alguns golos. É um improvisador elegante e hábil com os dois pés (embora dê primazia ao direito). Esta saída prematura para o futebol italiano pode permitir-lhe alguma evolução táctica e, se for capaz de redimensionar fisicamente o seu futebol (mais rotação e mais pique), tem tudo para tornar-se um centrocampista completo.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Boavista e Chelsea: O anátema do autocarro


 A propósito do mais recente Porto – Boavista, reergueu-se uma discussão que sempre se levanta quando uma equipa grande não consegue desmontar o dispositivo defensivo de uma equipa com menos recursos. Quando as intenções ofensivas dos “ricos” esbarram na timidez táctica dos "pobres", fala-se recorrentemente do autocarro. O rótulo define uma ordenação táctica em bloco baixo, com pouca ambição ofensiva, com linhas muito juntas e que coloca, na maior parte dos casos, nove jogadores a defender, deixando a um, isolado na frente do bloco, a incumbência de fazer a transição. Assente normalmente numa matriz 5-4-1 (ou na variante 4-5-1), é um esquema que acantona o colectivo que defende em 40 metros e disposto em duas linhas perfeitamente definidas e com uma distância mínima entre si. O espaço para circulação de bola é ínfimo, o bloco – quando bem organizado – é cerrado e só desequilíbrios individuais ou acções colectivas muito bem ensaiadas podem criar alguma instabilidade. Foi exactamente perante isto que o Porto jogou. Do outro lado, estava o Boavista menos talentoso que vi, como é compreensível num colectivo que andou desterrado nas divisões secundárias nos últimos anos e tenta agora revitalizar-se.

Dizer que o onze de Lopetegui não ganhou porque o Boavista apostou no autocarro é uma falácia. Qualquer equipa grande tem que preparar-se para resolver enigmas deste género. No caso concreto do Boavista, não é justo esperar-se mais. Não há matéria para muito mais. Formada quase exclusivamente por novos jogadores no clube, a maior parte dos quais sem experiência em níveis competitivos mais exigentes, resta a Petit ir a jogo com os argumentos que tem. O autocarro pode não ser bonito e não beneficia certamente o espectáculo, mas é justo condenar alguém que, perante uma enorme disparidade de forças, se limita a fazer o que é humanamente possível?

Alargando a discussão à generalidade do planeta futebol, quando a relação de virtudes é muito distante, acredito que é tão legítimo defender porfiadamente como querer atacar sem peia. No choque entre as duas filosofias está o cerne da questão e que, afinal, redunda num mesmo objectivo: colocar o adversário perante a maior dificuldade possível, em função dos argumentos técnicos e tácticos de cada um. O Porto não foi capaz de meter o Rossio na Betesga por demérito próprio, é certo, mas sobretudo pela abnegada abordagem dos bravos boavisteiros. Ao Porto de Lopetegui faltou empertigar-se e o basco não está isento de culpas nisso. Ao mudar meia equipa para esta partida, passou ao balneário um sinal de duvidosa eficácia: não eram precisos os melhores para ganhar. E isso deixa sempre reflexos emocionais nos jogadores. Dessa acomodação na superioridade presumida, nasce a letargia. E, depois de ela instalar-se, vem ainda esbarrar na oposição firme de um adversário que, sendo notoriamente mais fraco, se posta muito recuado no terreno, tapando caminhos e fechando espaços. Para tornear isso, o Porto precisaria dos melhores predicados técnicos dos seus futebolistas, de paciência e de uma noite inspirada para desbloquear caminhos. Mas os desequilíbrios individuais não aconteceram e a inspiração colectiva também não. Escamotear isso e desculpar-se na estratégia adversária – a mais eficiente para os recursos disponíveis e nas circunstâncias do jogo – é um argumento sem cabimento.

Mais criticável é quando o recurso ao autocarro acontece numa equipa grande. Aí, com outros pressupostos e condições, não é desculpável o pragmatismo que se tolera a uma equipa pequena. Nesse sentido, as críticas de Pellegrini a Mourinho, no seguimento do recente Man City – Chelsea (1-1) são certeiras. Já nem é a primeira vez que o Happy One recorre ao autocarro. Voltou a fazê-lo, apostando num empate que teoricamente lhe servia e prescindindo quase em absoluto do momento ofensivo do jogo, pelo menos enquanto as equipas estiveram onze contra onze.  Fazer isto com os jogadores que Mourinho tem à disposição é, aí sim, um acto de lesa-futebol. Ter argumentos para discutir o jogo, para olhar o adversário nos olhos e jogar no campo todo e optar por não o fazer, pensando apenas em anular o oponente e na conveniência de um empate, é opção censurável. De uma equipa grande, espera-se mais do que o mero resultadismo; espera-se competência táctica nos quatro momentos dinâmicos do jogo (defesa, ataque, transição defensiva e transição ofensiva) e uma identidade culta nesses princípios. O compromisso com essa identidade, em todos os desafios, obriga a mais do que meramente anular o adversário. A cultura de posse, de gestão de ritmos de jogo, de circulação, de procura de espaços e a dinâmica táctica activa (não apenas reactiva) devem ser pressupostos presentes em todo o tempo. E, depois, a qualidade dos intervenientes ajudará a defender bem e a atacar melhor, com o suporte desse bom desempenho defensivo. Prescindir de parte importante desses definidores de identidade numa equipa grande é deixar de o ser, é pensar pequeno. Foi assim que Mourinho fez contra o City.

Portanto, criticar o recurso ao autocarro por si só e sem esta análise de circunstância é um erro. Numa equipa com limitações técnicas e tácticas e com insuficiente maturação de conceitos, é natural e aceitável a aposta no bloco baixo, no pragmatismo defensivo e rigor posicional quando, do outro lado, está um opositor com valências mais apuradas. Se isso acontece num colectivo de topo, mesmo com adversário da mesma igualha, tem naturalmente outra interpretação crítica e menos aceitação por quem aprecia o fenómeno futebolístico.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

FKA Twigs - LP1

8,2/10
Xl Recordings, 2014

E subitamente o mundo da música acordou para FKA Twigs. Dela, nascida Tahliah Debrett Barnett há vinte e seis anos, apenas se conheciam pontuais aparições como dançarina, em videoclips, e dois EP's que a apresentaram também como criadora musical. Quem a descobriu nessas primeiras manifestações, encontrou uma proposta de desconstrução R&B que não procurava o conforto da ortodoxia. A melodia da voz, quase sempre cândida e contida, mas coerente e linear, poisava então numa massa sonora aparentemente disconexa e especulativa e que, estranha e sedutora consequência, se revelava o verdadeiro indutor de emoções. LP1 é um exercício de continuidade dessas premissas, buscando o mesmíssimo ritmo lento, a cadência espástica (e arrítmica) da máquina digital e levando-a ao encontro de uma voz que é, afinal, pop. Por ser tão elástica, a fórmula acaba por desenhar várias experiências emocionais, com um sublinhado melancólico, é certo, mas nunca vergadas a qualquer mesquinhez depressiva. Os paralelos com James Blake fazem sentido. E essa identidade estética atravessa o disco de uma ponta à outra, compondo um universo de sons com uma incrível harmonia, mesmo quando aposta nos limites da electrónica para desafiar a canção.

É por isso que ver em LP1 um trabalho meramente experimental é ter vistas curtas e não perceber-lhe a essência. Atrás da inventividade de FKA Twigs e da hipérbole digital do disco assume-se um sentido estético, uma linguagem sonora que já não é laboratorial, é antes um produto maturado, consequente e com sentido. Do choque entre o detalhismo robótico das texturas - que pode ser difícil de acomodar para alguns - e o laconismo delicado da voz, sobra uma sensualidade improvável. E a certeza de haver aqui boas canções. Ser capaz de erguer essas certezas na berma do abismo do exagero é obra!

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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O regresso de Nani: despromoção ou segunda vida?


O regresso de Nani ao Sporting merece uma reflexão a vários níveis. Para o clube, envolver o internacional português na transferência de Marcos Rojo para o United foi uma jogada inteligente, embora não possa dizer-se que a operação não tem custos, naturalmente. Se Nani custa cinco milhões de euros por ano ao United, como parece constar agora, a sua entrada no negócio Rojo significa que o Sporting, ao invés de encaixar essa verba, preferiu resgatar o jogador. Há um benefício desportivo directo em detrimento de um encaixe financeiro maior. Independentemente disso, a presença mediática que a contratação de Nani transporta vai permitir um claro reforço do estado de graça de Bruno de Carvalho junto dos adeptos. Não só recupera um dos ídolos da torcida, muito antes da idade de reforma, como o faz depois de gerir com sagacidade o dossier Rojo e, com isso, estabelecer uma relação de forças com os fundos de investimento bem diferente da que era habitual para os lados de Alvalade. O braço de ferro pode ter sido mais aparente do que real, mas Bruno de Carvalho ganhou-o, fez um bom negócio com Rojo e ainda traz Nani. Melhor do que isto seria difícil.

Para Nani, a opção de regressar ao clube que o formou é especial, mas parece prematura. Aos 27 anos, o extremo está no auge das suas capacidades físico-atléticas e pode dar ainda muito ao futebol.  Pode argumentar-se que, nesta fase da sua carreira, se esperava que Nani tivesse sido capaz de chegar a outro nível, em face daquilo que os seus predicados técnicos desde cedo anunciavam. Ele próprio, quando instado a pronunciar-se sobre as expectativas para a sua carreira, há cerca de três anos, quando vivia um momento fulgurante no United, sublinhava a intenção de vir a tornar-se um dos melhores do mundo. De então para cá, com alguns problemas físicos de permeio, não foi capaz de manter a constância exibicional que é exigida a um futebolista de topo e perdeu protagonismo. Saiu da primeira linha de Ferguson e não mais foi capaz de regenerar-se. Abandonar Old Trafford, nesta altura, pode funcionar como a faísca emocional para esse ressurgimento, mas voltar a Portugal com vinte e sete anos é uma despromoção competitiva indisfarçável. Quando Nani saiu, a sua dimensão futebolística já não cabia nas medidas do futebol luso. Agora, regressa a casa à procura de uma saída de emergência para a carreira. Vai jogar mais, é óbvio, vai ter futebol de Champions e estará mais próximo da família e amigos. Veremos se isso será suficiente para fazer renascer o melhor Nani. Sobram dúvidas de que, sem o estímulo competitivo de um campeonato mais exigente, ele seja capaz de tocar a plenitude. Acomodar-se na fase descendente anunciada pelos últimos anos ou reerguer-se para uma segunda vida. Esta é a encruzilhada que Nani tem à sua frente e que só ele pode abordar.

Para a equipa, a experiência que Nani traz e a sua habituação a níveis elevados de exigência podem ser aportes importantes numa época de retoma desportiva. Além disso, o facto de exponenciar o entusiasmo dos adeptos funciona como estímulo adicional para os companheiros. Encaixará rapidamente no onze, emprestar-lhe-á desequilíbrio individual e repentismo e imporá o respeito que a nobreza do seu nome futebolístico não pode deixar de suscitar. Se for capaz de juntar consistência a isso, será um jogador decisivo na época leonina. 

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A remodelação do palácio madrileno: os utilitários e os galácticos


A chegada ao Real Madrid de Toni Kroos e James Rodríguez é um desafio táctico para Carlo Ancelotti. Não é nova no clube esta distorção mercantilista da política de contratações, muitas vezes mais voltadas para o mediatismo do que propriamente para as necessidades desportivas pontuais da sua equipa de futebol. O apogeu desta filosofia foi a chamada era dos galácticos, no primeiro consultado de Florentino Pérez na presidência, em que se tornou evidente essa aposta em nomes sonantes, ao invés de serem supridas as carências técnico-tácticas do plantel. O desequilíbrio notório da gestão desportiva e a desproporcional coexistência entre os melhores jogadores do mundo e jovens inexperientes foi simbolicamente posta sob o rótulo  "Zidanes y Pavones". Embora hoje o contexto seja um pouco diferente e a conjuntura interna tenha ditado, nos últimos anos (sobretudo com José Mourinho), uma política desportiva mais equilibrada e preparada para o êxito, não parece ter sido abandonada a ideia de que, em paralelo com o rendimento desportivo, o merchandising e os direitos de imagem pesam muito no incremento de valor da marca Real Madrid. Mais do que recrutar os melhores do mundo, ou tampouco procurar as melhores peças para a engrenagem colectiva funcionar em torno dessas estrelas, o primado do mediatismo é difícil de contornar em cada aquisição. 

James Rodríguez é exemplo acabado disso mesmo. Não teve uma época desportiva fulgurante no Mónaco, é um facto, mas chega a Madrid com o aval galáctico de um campeonato do Mundo em que se fez figura de proa. Kroos, por seu lado, foi pêndulo do Bayern e da selecção campeã do mundo e chega ao Bernabéu com uma aura diferente. Não é um galáctico, nem é um ícone mediático; pode não vender camisolas, pode não ser tão espectacular, mas é de uma utilidade técnico-táctica inquestionável, mesmo na sombra dos outros. Perceber esta dualidade é sinal de que a estrutura Real Madrid soube entender os erros do passado e que, sem abdicar do importantíssimo pendor mediático da chegada de novos jogadores, está mais apetrechada para replicar os êxitos recentes, já sem os suspiros pela Décima que, durante anos a fio, tolheram políticas desportivas, também assombradas pela ascensão interna do Barcelona mágico de Guardiola. Kroos não caberia na era galáctica e, hoje, está em Madrid. Ter este sentido utilitário do jogo e da importância dos equilíbrios colectivos para melhor fazer sobressair o talento, é um saudável passo em frente e que a sensibilidade italiana de Ancelotti interpreta cabalmente. Mourinho iniciou o processo - que veio a ser minado por atritos internos que o próprio alimentou - e Ancelotti solidifica-o.

O desafio será encaixar tantos talentos num onze. O técnico italiano, no rescaldo da vitória de ontem na Supertaça Europeia (2-0 ao Sevilha), fintou habilmente a questão, reportando-se à exigência de manter a equipa sempre a um nível alto, em toda a extensão da época desportiva e que isso só pode ser feito com mais do que onze titulares, promovendo a rotação da equipa. Terá forçosamente que o fazer, não apenas para gerir os estímulos motivacionais de cada jogador, mas também para evitar quebras competitivas do colectivo. 

No encontro de ontem, Ancelotti juntou o trio maravilha (Ronaldo, Bale, James). O colombiano dá os primeiros passos no universo merengue e procura ainda referências e coordenadas tácticas na equipa. Tem tudo para ser uma solução interessante nas dinâmicas posicionais que Ancelotti aprecia, sobretudo por mover-se muito bem atrás da posição nove (como falso dez) e por aparecer inteligentemente nos corredores, quando as trocas posicionais do carrossel madridista baralham as marcações adversárias. Atrás dessa flexibilidade táctica, o equilíbrio de Kroos pode ser decisivo. Melhor como médio de segunda linha e transição, também pode ser pivot (só ou em par) e tem uma noção espacial do jogo apuradíssima. É daqueles jogadores que se diz que está sempre no sítio certo, sabe transportar a bola e entregá-la com critério. Se vier a coexistir com Di María (está de saída?), pode fazer uma segunda linha de meio-campo de grande intensidade, de correctíssima interpretação zonal do jogo e, mais importante que isso, de fulcral equilíbrio para soltar os talentos para a construção. Ontem, foi Modric o companheiro de armas no meio-campo e o esquema esteve mais perto do duplo pivot móvel (em 4-2-3-1) que lhe limita um pouco o raio de acção. Mas já ficaram pistas sobre a sua utilidade para um colectivo que tem, este ano, o melhor grupo de jogadores da última década no Madrid. O palácio está remodelado.

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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O ocaso de Artur Moraes


Quando chegou à Luz para substituir o infeliz Roberto, Artur Moraes era a imagem da serenidade dentro e fora das quatro linhas. Em campo, os desempenhos desportivos, em Braga, mostraram-nos um guarda-redes com predicados de equipa grande: concentração competitiva, capacidade de desequilibrar, versatilidade e consistência emocional. A última tinha ecos no discurso público, sempre sereno e ponderado, com sentido de responsabilidade e a temperança de um homem suportado na experiência e na competência. A carreira no Brasil e nos primeiros tempos na Europa foi pautada por uma intermitência que não fazia adivinhar essas capacidades, reveladas em Braga, em 2010-2011. Mesmo aí, estava na sombra do seu compatriota Filipe até o regresso deste ao Brasil. A partir desse momento, agarrou o lugar, surpreendeu na liga portuguesa e ajudou o clube a chegar a uma improvável final europeia - foi considerado o melhor guarda-redes da prova nesse ano. Nos primeiros tempos no Benfica, não se atrapalhou com a responsabilidade de ser o número um e rapidamente conquistou os adeptos, com uma performance desportiva a vencer cepticismos e a confirmar aptidões. Erguia-se o Rei Artur, para as delícias do Terceiro Anel. O novo herói enterrava definitivamente o fantasma Roberto. E como se explica a queda do anjo?

Ser guarda-redes é ter uma das incumbências mais ingratas e polarizadoras de emoções no mundo do futebol. Se defende, está a cumprir a sua obrigação. Se não defende, não presta. Este simplismo julgador pode ser injusto, é certo, mas vem das bancadas que, à mínima falha, são céleres a apontar as culpas ao alvo mais frágil, àquele que, por ser o último bastião, o defensor do último reduto, não tem margem para falhar. Numa equipa de topo, este extremismo é ainda mais vincado. O guarda-redes é chamado a intervir menos vezes, é menos visto no jogo. Quando a acção chega a si, pode ter estado longos minutos como mero espectador. Também por isso, a perspicácia para "ler" os momentos do jogo e manter os níveis de concentração a todo o tempo é um requisito incontornável. A defesa da baliza de uma equipa pequena, quando se está completamente envolvido no jogo e permanentemente alerta, não deixa espaço para quebras de concentração. E, depois, é-se bom ou não consoante se soluciona bem, sob o ponto de vista técnico, a torrente de solicitações no jogo. Na equipa grande, voltada sistematicamente para o ataque, sobram lapsos consideráveis de tempo sem intervenção no jogo e é nesses momentos que pode diminuir a concentração. Um guarda-redes mentalmente menos preparado para ter níveis de concentração sem quebras, dificilmente não falhará nos poucos lances que chegam ao seu quintal.

A outro nível, a resiliência mental do guarda-redes é posta também à prova no exacto momento em que falha. Todos falham em algum momento da sua carreira, mas os melhores falham muito pouco. Importa sobretudo saber perceber a falha, reagir a ela e reerguer-se da adversidade ainda mais forte do que antes. Ter essa capacidade de regeneração/aprendizagem só está ao alcance dos predestinados.

Acredito que a Artur Moraes aconteceram duas coisas decisivas para o ocaso. A primeira, foi sentir-se confortavelmente pousado nos louros dos primeiros tempos e ter-se deslumbrado com o sucesso imediato. E a efemeridade desse êxito só podia ser invertida com persistência, trabalho e, lá está, muita força mental e abnegação para resistir à crítica e ao desgaste próprios da exposição (desportiva e social).

A segunda causa essencial do apagão de Artur foi a notória impreparação para regenerar-se depois do erro. Enquanto não falhou, foi capaz de manter-se à tona; com os erros, veio a auto-desconfiança e a incapacidade de repôr a crença em si mesmo. Sucederam-se as exibições comprometedoras e o guarda-redes benfiquista enredou-se na espiral depressiva da sua própria mente. Sem reacção, no curto espaço de meses, Artur Moraes tornou-se o contrário de si mesmo: inseguro, desconcentrado e periclitante. A chegada de Oblak agravou uma depressão anunciada, também fomentada por um episódio de tentativa de extorsão, na sua vida pessoal. De então para cá, a linguagem corporal de Artur Moraes - como foi visível na pré-temporada corrente - é a de um homem descrente e derrotado, sem alegria. Os erros repetem-se e nada parece pôr um travão no ciclo vicioso que há-de atirá-lo para fora da Luz. A mudança de ares até pode ser a melhor coisa a acontecer-lhe. Cabe a ele - e a quem houver de o ajudar - mudar este estado de coisas. O guarda-redes de 2011 ainda está lá. Falta recuperá-lo.

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sábado, 26 de julho de 2014

Lana del Rey - Ultraviolence

7,0/10
Interscope, 2014

Embora seja repetidamente conotada com o simbolismo próprio dos ícones fabricados "à pressão" pelo orbe musical e tenha o seu nome submerso numa impressionante catadupa de informações erradas (e até mal intencionadas), é importante perceber que o percurso musical de Lana del Rey não foi uma coisa fortuita. Desde muito cedo, a jovem nova-iorquina soube pisar os caminhos certos para levar a sua música onde ela tinha que chegar, pouco importando se, atrás disso, tinha a fortuna pessoal dos pais (que alegadamente não lhe investiram um cêntimo na carreira) ou os benefícios óbvios da sua própria imagem. O coro de maledicentes sempre se pendurou mais nesses dois factos do que propriamente  em tentar perceber se o repentino mediatismo da cantora/compositora tinha substância. E tem sido conveniente a esse coro fazer de conta que, além da menina bonita e abastada, há um produto musical válido e consequente, com uma herança estética definida e muito longe da boçalidade que se fez padrão nos tempos modernos. Ela pode não ser a melhor cantora do mundo - não o é, seguramente... -, nem a mais expressiva performer em palco, mas corporiza uma proposta musical que merece mais do que a mera passagem de circunstância.

Agora que nos chega o terceiro registo (o segundo "oficial"), há poucos segredos por revelar na música de Lana del Rey. Ela romantiza a depressão em linguagens vintage elegantes e melódicas que remontam a eras clássicas da música; a produção de Dan Auerbach - o mentor dos Black Keys - sublinha a ambivalente (e, por isso, tão mais sedutora) vulnerabilidade de uma persona musical cuja singularidade alimenta dois públicos: detractores e fãs. Os primeiros descortinam nela uma fabricação, os segundos rendem-se. Em qualquer circunstância, percebia-se que, desde Born to Die (2012), estávamos em presença de uma figura que polarizaria atenções de todos os quadrantes e agitaria o mundo pop como poucos. Este Ultraviolence segue a peugada autobiográfica do antecessor e, uma vez ultrapassado o impacto primeiro do revestimento sonoro de Auerbach - que funciona melhor em algumas canções do que noutras -, se percebe que Del Rey está igual a si mesma. O compromisso com a melodia está lá, o glamour da fragilidade emocional também. A produção pode ser exagerada, aqui e ali, mas não desfigura o virtuosismo das composições. A inanidade do debate em volta da figura há-de prolongar-se no tempo e passar ao lado do essencial: as canções. E é de boas canções que se trata.

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sábado, 19 de julho de 2014

Buraka Som Sistema - Buraka

6,2/10
Enchufada/Universal, 2014

Não era difícil adivinhar que o colectivo Buraka Som Sistema se veria, num momento qualquer de um percurso de crescimento impressionante, a mãos com um debate filosófico (e até estético) entre a suburbanidade de origens radicadas  nas inúmeras derivações rítmicas da música africana e tropical para pistas de dança, e a tentação pelas sonoridades de escala maior que naturalmente emergiria. De um fenómeno alimentado por essas culturas de nicho até tornar-se marca global foi um curto passo, graças ao reconhecimento generalizado de uma criatividade que, perto do perigoso precipício da banalidade, soube sempre manter-se viva, irreverente e fresca, celebrando afinidades originais entre ritmos (o kuduro, pois claro, e o moombahton, o bondoro, o tuki, o kizomba ou o zouk bass, por exemplo) com o hedonismo próprio de malta que se quer divertir. Esse desprendimento formal era, de resto, um ponto de honra do grupo, não apenas como enquadramento estético, mas como rastilho oportuníssimo da explosão criativa de cada composição. Foi assim que tomaram de surpresa o orbe musical nacional, primeiro, e transbordaram rapidamente para o exterior, depois, na tal internacionalização que se tornou um desafio identitário.

É precisamente nesse contexto que nos chega Buraka, terceiro tomo de um percurso que cresceu até aos grandes festivais e, por isso mesmo, chegou a públicos cada vez maiores e a novas exigências. Desse inevitável redimensionamento, parece ter sobrado a acomodação do colectivo à consagração passada e, com ela, o risco do desleixo desenhava-se no horizonte. Desde o primeiro avanço ("Stoopid"), a léguas do impacto de outros, se prenunciava a estagnação criativa que o álbum veio confirmar. Parecendo mais um recalque mecânico dos antecessores (Komba (2011) à cabeça) do que propriamente um novo capítulo, o fulgor de Buraka esgota-se num ápice, como uma ideia gasta e sem a surpresa de outrora e, aqui e ali, com a simplicidade grosseira de criações em piloto automático ("Bumbum", "Vuvuzela (Carnaval)" ou "Van Damme" são gritantes exemplos). Restam meras sombras do portentoso motor de beats que nos lembrava a feição mais abrasiva da jungle (salva-se "Parede"), ao serviço da panóplia de influência rítmicas do grupo; a hipersensibilidade de levar as electrónicas a raiar a fúria descontrolada e sem perder o norte é  uma miragem. No final, por quererem fazer jus à originalidade que os colocou na linha da frente e ter um som que ninguém tem, os Buraka Som Sistema acabam por soar demais a si mesmos.

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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mundial 2014 : Portugal dos pequenitos


É inquietante perceber que, no rescaldo de uma participação medíocre no Campeonato do Mundo, parecem não haver consequências para ninguém. Mesmo admitindo que a fasquia das expectativas foi elevada acima do que aconselhava o juízo mais ponderado, o saldo apurado nos três jogos é francamente negativo e coloca-nos perante uma reflexão incontornável: como preparar o futuro da selecção? Respaldado no silêncio complacente da F.P.F., Paulo Bento esgueira-se entre os pingos da chuva e sente-se capaz de tomar em mãos o encargo de renovar o grupo e preparar o ciclo seguinte de grandes competições, a começar já em Setembro, com a qualificação para o Euro 2016. Em face do se viu no Brasil, a união do grupo não é mais do que a ruína que a fase de qualificação denunciou e o playoff com a Suécia apenas disfarçou. Ao mesmo tempo, o apagão competitivo de alguns elementos nucleares na equipa e a inacreditável sequência de problemas físicos, puseram a nu as fragilidades de uma preparação deficiente e de uma convocatória questionável. Também nesses domínios, a culpa vai morrer solteira. E espera-se que seja esta mesmíssima estrutura federativa e o actual corpo técnico a revigorarem o grupo, a reinventarem o espaço das selecções nacionais e a prepararem a nova geração para a próxima década dos AA's? Não estará Paulo Bento refém das suas próprias ideias e da fidelidade ao vínculo de gratidão construído com alguns futebolistas nos últimos anos?

Nas circunstâncias actuais, a renovação de quadros na selecção é uma inevitabilidade e não pode ser condicionada por privilégios pessoais que, se nunca se justificaram, agora têm ainda menos sentido. Pior do que isso, os mentideros trazem relatos de episódios de ingerência na escolha da equipa, da interferência de patrocinadores e empresários a vários níveis e, inclusivamente, de algum mal-estar entre jogadores. Com estas condicionantes, não se adivinha um processo pacífico de renovação e é legítimo questionar-se se os actuais protagonistas, tanto directivos como técnicos, são as pessoas certas para o conduzir e levar a bom porto. O espaço dos sub-21 tem que ser aberto paulatinamente aos AA's já na qualificação para o Euro 2016. Não há outra via. Mesmo respeitando o trajecto feito ao serviço da selecção, não pode iludir-se o facto de que urge "refrescar" o ambiente da equipa de todos nós. Chamar à equipa novas caras e novas ambições tem que ser a prioridade, sob pena de perder-se o timing dessa renovação e cavar-se um vazio geracional. E esse caminho de mudança tem que ser suportado num princípio basilar que respeite não outra coisa senão o momento de forma: os melhores para cada posição. No Brasil, ficou clara a capitulação desse princípio. E, aparentemente, o balanço que importava fazer não é feito, passa-se uma esponja sobre os episódios Brasil 2014 e o mundo luso segue no laxismo do costume, como se nada fosse, como se não tivesse existido o Campeonato do Mundo. Fingir que não há um problema é o primeiro passo para o ver crescer.

E depois, a questão de sempre: Cristiano Ronaldo. Ícone aglutinador de paixões, o capitão português é o pólo que agrega quase todas as atenções, numa lógica de subvalorização do colectivo que até os colegas parecem aceitar com bizarra submissão. Primeiro, foi a "novela" em torno da lesão, também embalada pelos companheiros em diversas ocasiões; depois, a sequência desconchavada de declarações públicas, em contradição entre si e sem norte. Finalmente, a pobreza inacreditável das suas prestações desportivas, algo comum a todas as grandes competições de selecções em que participou. Como aqui escrevi, julgava que o capitão português tinha atingido um patamar de maturidade emocional consentâneo com a sua posição no grupo. A realidade dos factos desmente-o categoricamente. Continua mimado, birrento e a considerar-se muito superior à selecção, como se fossem os colegas a causa do insucesso dele. E este estado de coisas tem que ser questionado, não podem permitir-se prima-donas numa representação nacional e alguém tem que ter a frontalidade de o dizer abertamente. A comunicação social nacional continua a embalar o egocentrismo insuportável de CR7 e a alimentar um fenómeno mediático que inibe os próprios colegas, mesmo que eles involuntariamente o aceitem. Ronaldo é um futebolista de eleição, é um facto, mas isso não pode dar-lhe o estatuto de nobre vaidoso entre plebeus. Haja quem afronte essa evidência com mão disciplinadora e sem medos.  Mas isso só será possível se a liderança, a todos os níveis, não estiver conotada com nenhuma cadeia de poder ou interesse paralelo, nem comprometida com outra coisa que não seja uma filosofia de renovação e de vitória. Esse tipo de independência jamais surgirá sem mudanças estruturais. E elas têm que começar na F.P.F., desde o banco de suplentes à hierarquia federativa. Iludir este facto é fingir que não existe um problema. 

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Ben Frost - A U R O R A

8,3/10
Mute/Bedroom Community, 2014

Da indisfarçável devoção do australiano Ben Frost às múltiplas dimensões formais da música ambiente não restam dúvidas. Afinal, ele vem erguendo uma discografia consistente e que, embora seja absolutamente incontornável no género, transbordou fronteiras estéticas e tocou pontos cardeais que não se adivinhavam na origem. A mudança para a Islândia - onde está radicado presentemente - ajudou a esse processo de expansão (e afinidade com os extremos) e à construção de uma linguagem sonora que não conhece paralelo no universo musical. Em certo sentido, esse radicalismo de Frost é transversal à sua obra e confunde habilmente escalas de trabalho: inclina-se, alternadamente e sem atropelos, entre a pequena escala de um detalhismo quase microscópico e as medidas volumosas de um bombardeamento intenso e abrasivo. Seja como for, essa aparente indefinição de escala nunca colocou em cheque a visceralidade da música do australiano, nem a forma como faz do ruído um ornato perverso e imprescindível. Assim acontece neste A U R O R A, quinto capítulo da sua discografia, que leva mais além as premissas desconstrutivas que vêm tomando o laboratório de sons de Frost.

Longe de ser um opus "clássico" de música ambiente, A U R O R A desmonta esse paradigma com noise vanguardista, denso e experimental. A sobreposição de camadas de sintetizadores dá-nos uma massa sonora do mais espesso e asfixiante Frost que ouvimos, ao jeito de uma apocalíptica lavagem cerebral, nem sempre de absorção fácil, mas sublimemente secundada pelas percussões orgânicas de Thorr Harris (Swans) e especialmente Greg Fox (ex-baterista do ensemble black metal nova-iorquino Liturgy, hoje nos Guardian Alien). Mais corpo e mais peso, portanto ("Diphenyl Oxalate" podia ser a abertura de um álbum dos Liturgy). Junte-se-lhe o multi-instrumentalismo de Shahzad Ismaily, que já produziu e tocou com meio mundo (Laurie Anderson, Bonnie "Prince" Billy, Eyvind Kang, Secret Chiefs 3, Martha Wainwright, entre outros), e estão lançadas as premissas para um disco de Ben Frost que tem um inesperado dom: contendo tudo o que faz a sua quintessência, partindo dela, esquadrinhando-a e desmontando-a, não soa a nada que ele já tenha feito. E, ainda assim, semeia no ouvinte a familiaridade própria de um puro Frost, um grandíssimo recontro entre minimalismo e maximalismo. Atrevam-se os tímpanos!

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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Mão Morta - Pelo Meu Relógio São Horas de Matar

8,1/10
Nortesul, 2014

A obra dos bracarenses Mão Morta é transversalmente atravessada pela concepção do indivíduo enquanto parte ínfima de uma imensa (e opressiva) engrenagem universal que é, afinal, a sua mãe original e o seu capataz. Para materializar essa reflexão existencialista, Adolfo Luxúria Canibal e seus pares colocaram-se no centro de um paradigma estilístico muito pessoal, com um pé no surrealismo negro como metáfora da decadência humana e outro na distorcida redenção de um bizarro escapismo hedonista. A mistura deu-nos momentos de ácida descrença no animal humano, servidos em órbitas estéticas que, partindo de um sedimento rock, conheceram algumas derivações pontuais por outras concepções. Em todo o caso, foi precisamente quando as ideias poisaram na distorção incisiva das guitarras que nasceram alguns dos momentos mais inspirados do grupo.

Quis a evolução dos factos que, volvidos trinta anos de carreira, os Mão Morta encontrassem na circunstância da pátria lusa um terreiro apropriado como nunca para desdobrarem o panfleto do seu pessimismo. A crise financeira é aguda, o país agoniza, a contestação subiu a níveis pouco vistos. Voluntariamente, os Mão Morta juntam a sua voz à coluna dos contestatários neste Pelo Meu Relógio São Horas de Matar. Esquecida a desproporção populista do vídeo de promoção do primeiro single ("Horas de Matar") - que, atrás do sensacionalismo inevitável, presta o pior serviço aos propósitos do disco - o álbum é um monólito de coesão rock, com um alcance político em que a poesia de Adolfo Luxúria Canibal é lapidar:  "enxovalhado no trabalho / maltratado na doença / humilhado no salário / aviltado na dignidade/ resta pouco para gostar de mim / e ainda menos para amar" ouve-se na crua "Hipótese de Suícidio".  Depois, em "Nuvens Bárbaras", uma dose par: "o futuro já não é uma fonte de esperança / só nos resta a indigência / ou morrer de morte certa / como heróis de pechisbeque / neste grande fogaréu / de aparato e opulência / em que farra o capital". Palavras assim pesadas para música com músculo não são mais do que canções de intervenção, mas passadas pelo crivo tétrico dos Mão Morta. E no Portugal minguado e acomodado em que vivemos, erguer-se um disco destes tem dois méritos: firmar, em cunho rock, a independência intelectual e o arrojo dos Mão Morta - as traves mestras de um percurso consistente e sem concessões - e, en passant, atirar-nos à cara a incómoda verdade de continuarmos a ser, no melhor e no pior, um povo de brandos costumes.

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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Prins Thomas - III

7,5/10
Full Pupp, 2014

Se há coisa que pode ser imputada a Thomas Moen Hermansen - o sujeito por detrás da alcunha Prins Thomas - é a responsabilidade de ter sido um dos reinventores das temáticas disco de escala europeia. Sozinho, ou com o compincha Lindström, deu visibilidade a um conjunto de produtos musicais que vieram a reposicionar a forma de sentir (e ouvir) a electrónica, cruzando a tal escola disco com inúmeras referências históricas e condimentos especiais que, em conjunto, compunham um conglomerado interessantíssimo e quase sem paralelo. E foi assim mesmo que os radares do mediatismo o descobriram, a mãos com o aprimoramento de um fórmula que tinha tudo para vingar, sobretudo por revelar sinais de consistência e um invulgar sentido de equilíbrio nas arriscadas sobreposições entre o tradicional e a novidade, sem favorecer um ou outra. Chamar-lhe space disco - a referência estética que colaram à ética de trabalho de Prins Thomas -, talvez não lhe fizesse justiça, como resulta evidente da discografia já editada e que dá mostras de uma verve que, acompanhando o pressuposto de remexer no suporte estrutural da disco, não se detém apenas nessas coordenadas.

III vem na sequência do díptico lançado com Lindström e que mereceu ampla aclamação, sobretudo por assentar nessa aliança com o património disco, mas moldando-o a um discurso menos apontado às pistas de dança e mais interessado em aventurar-se nas improváveis convergências com outras dimensões musicais. O pendor progressivo-espacial das composições reforçou, então, a legitimidade do epíteto space disco. Este III, mesmo sem a companhia de Lindström (dá-se a coincidência de também ser o terceiro registo em nome próprio), retoma essa relaxada peregrinação por paragens inexploradas da disco, indo mais além nas abstracções que constroem cada peça ("Arabisk Natt" é uma brincadeira deliciosa) e dando azo a um curiosíssimo contraste: talvez este seja o mais hedonista dos discos de Prins Thomas - no sentido de ser aquele que mais se borrifa em regras - e, ainda assim, será o menos dançável de todos. E cada audição escancara a inevitável evolução de paradigma de Prins Thomas: a disco não é já senão uma luminária distante e difusa, um cicerone de métricas e pouco mais. Tudo o resto é o produto de anos de destilação de uma linguagem que, hoje, tem mais certezas na sua própria especulação pelos sons cósmicos, pelo krautrock, pelo dub e até pelo psicadelismo, acolhendo todos e não destacando nenhum.  Chama-se a isso savoir faire.

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sábado, 24 de maio de 2014

Sugestão musical

Mac DeMarco
Passing Out Pieces
Salad Days (2014)

A Náiade

John William Waterhouse
The Naiad
1893

Observação de jogadores: Youri Tielemans

Youri Tielemans (Anderlecht)

No exigente quadro do futebol moderno, não é comum ver-se um médio defensivo afirmar-se ainda antes da maioridade, mas é isso que tem acontecido com Youri Tielemans. Produto da formação do Anderlecht - único clube que representou até à data - vem firmando o seu espaço no emblema belga, a ponto de ter-se tornado o mais jovem estreante do seu país na Champions, apenas com 16 anos. De então para cá, cresceu nas equipas de jovens do Anderlecht e chegou com naturalidade ao plantel principal. 

Apesar da tenra idade, surpreende a leitura espacial que faz do jogo e a sua maturidade táctica. Tem um comportamento posicional muito evoluído, com a exacta noção de onde tem que estar para garantir os equilíbrios tácticos da sua equipa. Depois, e porque é um centro-campista completo, é apto em todos os momentos do jogo: sabe recuperar a bola, assume a primeira fase de construção com critério e lança bem o momento ofensivo, em razão da excelência do passe e da visão de jogo apurada. Alia capacidade técnica acima da média com potência física, o que faz dele um médio com desembaraço, cultura de posse da bola, inteligência na transição (ofensiva e defensiva) e sentido utilitário do jogo. É comum encontrar a solução de passe mais eficiente para soltar a equipa para a frente, ora ao primeiro toque, ora depois de driblar adversários para libertar-se da zona de pressão e mudar o centro do jogo. Fala-se do interesse de grandes emblemas nele e, se evoluir consistentemente (acabou de completar dezassete anos e já joga nos sub-21 da Bélgica), tem tudo para tornar-se um médio de excelência para os próximos anos do futebol europeu.

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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Observação de jogadores: Karol Linetty

Karol Linetty (Lech Poznan)

Desde os dez anos nos escalões de formação do Lech Poznan, o centro-campista Karol Linetty integrou as várias selecções nacionais do seu país, chegando prematuramente à equipa principal, em virtude do reconhecimento dos seus predicados técnicos e da maturidade táctica que foi capaz de demonstrar desde cedo. Debutou, com 18 anos, em 18 de Janeiro de 2014, na selecção maior da Polónia.

É um médio perfeitamente adaptado às características e exigências do futebol moderno e com a capacidade de, no corredor central, interpretar bem qualquer posição do meio-campo. Embora já tenha sido utilizado como pivot defensivo, é como médio de segunda linha que o seu futebol melhor respira, seja pela apetência inata para construção de jogo, seja pela naturalidade com que solta a equipa para o espaço ofensivo, com excelente controlo de bola, bom drible e a oportuníssima descoberta de soluções desequilibrantes, ora no passe de ruptura, ora recorrendo ao remate de meia distância. Tem bom toque de bola e uma chegada criteriosa à zona de finalização e, se evoluir consistentemente, pode tornar-se um genuíno médio box-to-box. Fala-se do interesse de grandes emblemas europeus no seu concurso. Deverá integrar a esquadra polaca no próximo campeonato do Mundo.

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sábado, 17 de maio de 2014

Observação de jogadores: Matthias Ginter

Matthias Ginter (Freiburg)

Natural de Freiburg, é hoje um dos principais activos do maior clube local, depois dos primeiros anos de formação terem sido passados no SV March. É presença regular na primeira equipa desde a temporada 2012/13 e desde aí tem sido sistematicamente convocado para as selecções jovens do seu país, somando já internacionalizações pela Mannschaft em 2014. 

Com formação de defesa central, pode jogar em qualquer um dos lados do centro da defesa e é aí que vem solidificando o seu estatuto, embora já tenha sido pontualmente utilizado como médio defensivo. É dextro e, mesmo não sendo muito elegante na condução da bola, gosta de sair a jogar. É muito forte na antecipação porque lê bem o jogo, é culto nas movimentações defensivas e tem excelente timing no desarme. Competente no jogo aéreo e com a bola na relva, tem todas as características de um defesa central moderno: agilidade, rapidez e simplicidade de processos e bom sentido posicional. Quando tem oportunidade, gosta de lançar a bola em profundidade, podendo ser uma arma importante num colectivo especializado em transições rápidas. É um dos nomes mais falados da nova geração alemã e está pronto para o salto para um emblema com outra ambição.

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sexta-feira, 16 de maio de 2014

A cigana de Musca

Pablo Picasso
Gypsy in front of Musca
1900

Memórias do cinema

Morgan Freeman, Tim Robbins
The Shawshank Redemption
1994

Swans - To Be Kind


9,0/10
Young God Records, 2014

Quando Michael Gira decidiu ressuscitar os Swans, poucos previriam que aquela que outrora fora uma força ímpar do mais sombrio rock alternativo americano, após uma dúzia de anos de retiro (1998-2010), fosse capaz de motivar a consagração generalizada que veio a agraciar The Seer (2012). Mesmo com Jarboe apenas "emprestada" (a teclista vive a tempo inteiro o seu projecto solo), o colectivo pôs de pé um dos mais ambiciosos opus da sua extensa discografia e mereceu rasgados elogios de todos os quadrantes, recolocando Gira e seus pares em órbita relevante, deixado para trás um esquecimento que não fazia justiça ao quilate da discografia guardada nos armários da memória. Reparada a amnésia e reposto o equilíbrio universal, os Swans reafirmaram uma linguagem musical que domam como poucos e que Gira tinha posto de parte quando aos comandos dos melódicos Angels of Light. Mas a índole esdrúxula do  californiano não se aquietaria facilmente nas canções de sombras mais certinhas dos Angels; a nostalgia do gótico e do experimentalismo mais escuro viriam acima como o azeite em água. E só os Swans para responderem a esse apelo.

Esse disco de há dois anos era uma verdadeira megalomania de especulação rock, tão grande e tentativo (leia-se experimental) quanto equilibrado entre o minimalismo de um poema negro e o épico de uma ópera rock distorcida, situando as expectativas num plano de exigência que vergaria qualquer comum mortal. Mas Gira e companheiros não são gente para se render e investiram neste To Be Kind as mesmas ambições. O cunho grotesco que tão bem servira o antecessor, afinal a sublimação que o tempo trouxe aos sedimentos gótico-industriais da banda, tem sucessão certeira aqui, a ponto de já poder afirmar-se que esta nova vida dos Swans nunca quis ser um mimo nostálgico para fãs, antes a construção de um dialecto sonoro consistente e novo, apoiado no património deixado para trás na primeira vida, é certo, mas sem verdadeiramente se deter nele. Tão emocionalmente inquietantes como os longos mantras apocalípticos de The Seer, as peças deste To Be Kind anunciam uma catarse menos fatalista (o que não quer dizer menos negra, bem entendido). Além do monólito rock que se propunha triturar quase tudo à marretada (como se revê na entrada de "Bring the Sun/Toussaint L'Overture"), há aqui espaço para microscópicos trabalhos de acupunctura e orações. Destruição em golpes mais pequenos e mais fundos e sempre desconcertantes. Oremos.

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Observação de jogadores: Alireza Jahanbakhsh

Alireza Jahanbakhsh (NEC)

Oriundo do país de Médio Oriente que mais talentos deu ao mundo do futebol nos últimos anos, Alireza Jahanbakhsh cedo despertou a atenção de olheiros internacionais, sobretudo quando se estreou, aos dezasseis anos, na selecção sub-19 do seu país, no Campeonato Asiático de 2010. Já aí deixara sinais de uma maturidade ímpar e de qualidades técnicas acima da média da competição. Em 2013,  inaugurou a sua aventura europeia, comprometendo-se por três anos com o NEC Nijmegen e firmando-se quase imediatamente como um dos mais interessantes futebolistas do colectivo holandês, apesar da despromoção nos playoffs de 2013/14. Debutou na selecção principal do Irão, com a chamada de Carlos Queiroz em Outubro de 2013, na qualificação da Asian Cup, poucos dias depois de completar vinte anos.

Embora tenha predisposição natural para jogar na ala direita, pode jogar como segundo avançado ou à esquerda. É um bom transportador da bola, graças a um interessante controlo em velocidade, à iniciativa e ao facto de não temer o risco. Tecnicamente evoluído, apesar da ilusão de desconchavo que a sua passada larga transmite, é apto no 1 para 1 e ensaia o competente remate do seu pé direito sempre que possível. Culto na movimentação ofensiva, tem boa chegada à zona de finalização e, por isso, faz alguns golos e assistências. É criterioso no passe e mentalmente ágil a encontrar a melhor solução para soltar a bola. Se for capaz de elevar o padrão do seu pique e potência, pode tornar-se um caso sério de futebolista de transição, à imagem da definição moderna de jogador de corredor. Não é futebolista para estar perdido na segunda divisão do futebol holandês e certamente mudar-se-á, no próximo verão (e depois do Mundial) para outro emblema.

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terça-feira, 13 de maio de 2014

Sugestão musical

Janelle Monáe
Heroes
(David Bowie)

Observação de jogadores: Morgan Sanson

Morgan Sanson (Montpellier)

Embora tenha tido um percurso praticamente desconhecido até chegar à primeira equipa do Le Mans, em 2012/13 (com 17 anos), passando a justificar presença regular nos sub-19 da França, Morgan Sanson é, hoje, um dos mais cobiçados talentos da nova geração do seu país. Quando chegou ao Montpellier, no ano seguinte, já motivava a atenção dos olheiros por toda a Europa e rapidamente se estabeleceu como um dos regulares em La Paillade

Com uma maturidade táctica invulgar num miúdo de dezanove anos, é um talento inato para descobrir soluções ofensivas,  exemplo de centro-campista moderno e completo: participa na defesa (não sendo um recuperador natural, é capaz de resgatar a posse de bola), é culto na leitura posicional do jogo e nos equilíbrios entre o momento defensivo e ofensivo e apto na construção em posse de bola. É um médio criativo e uma das suas principais virtudes é o passe. Não sendo um futebolista fisicamente rápido, empresta velocidade ao desdobramento ofensivo da equipa através da precisão do passe longo e da inteligência com que arquitecta as transições e as saídas de zona de pressão. Como dextro, tem apetência natural para cair à direita de uma segunda linha interior do meio-campo, embora se sinta muito bem no espaço central ou, menos vezes, na interior esquerda. Temporiza muito bem o momento de soltar a bola, ora usando o passe longo para a fazer chegar rapidamente ao espaço de ataque, ora apelando aos recursos técnicos que possui para aguardar o melhor momento de saída, em função do posicionamento do colectivo. Um dos grandes médios da sua geração e com capacidades para tornar-se, nos próximo anos, um dos melhores futebolistas europeus, assim seja capaz de evoluir.

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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Observação de jogadores: Tonny Vilhena

Tonny Vilhena (Feyenoord)

O apelido vem da ascendência angolana do seu pai. É um produto das escolas de formação do Feyenoord, onde chegou em 2003. Rapidamente escalou as várias etapas das equipas nacionais holandesas, sendo internacional em todos os escalões até aos sub-21. No decurso desse trajecto, foi duas vezes campeão europeu de sub-17 (2011, 2012).

É hoje um titular indiscutível do principal clube de Roterdão e um dos valores seguros da nova geração holandesa. Culto na posição de médio centro, é sobretudo como médio de segunda linha que faz valer os seus créditos: criatividade, excelência no lançamento longo e boa saída de zona de pressão. É um médio moderno, inteligente e elegante, um improvisador e um inventor de oportunidades de golo. Além disso, tem boa chegada à zona de finalização e faz golos com relativa frequência. Respira melhor se não estiver amarrado a uma disciplina táctica muito rígida, no sentido de melhor aproveitar o critério de organização, a noção de distribuição do jogo para zonas com maior fluidez de saída - chama a contento os corredores laterais ao jogo - e a assertividade das suas iniciativas. Não sendo um médio de inato recorte defensivo, compromete-se bem nessa missão quando a ela é chamado e não vira a cara à luta, a despeito de ser um jogador tecnicista e, por natureza, menos dado ao choque e à dimensão física do jogo. Titular dos sub-21 da Holanda, está à porta da selecção principal e de uma transferência para outro emblema no espaço europeu. 

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Robocop