terça-feira, 31 de maio de 2005

Stephen Malkmus - Face The Truth

Apreciação final: 8/10
Edição: Matador, Maio 2005
Género: Indie Rock/Cantautor







Terceiro álbum a solo do ex-líder dos Pavement, Face The Truth é um depoimento de maturação criativa. Se é verdade que o semblante das composições é comparável ao do anterior projecto do músico (dos três títulos a solo do músico este é o que mais se aproxima desse registo), graças à força interventiva das guitarras e ao fino travo nostálgico que atravessou horizontalmente o percurso dos Pavement, um fenómeno recente parece locupletar o registo sonoro de Malkmus: a atracção pela electrónica. Da versatilidade de um certo experimentalismo nessa área, resulta um disco confiante que revivifica o compositor americano e lhe permite desvarios inventivos não percebidos antes. E esses passos de reinvenção são firmes, conferindo a Face The Truth um eclectismo ímpar, uma dimensão de aventura sónica sem fronteiras e preconceitos. Os arranjos instrumentais são de nível superior, propiciando a definição de texturas sonoras intrincadas e aparentemente densas da mais pura folk psicadélica mas que seduzem o ouvinte aos poucos, audição após audição. Decifrada a cortina críptica que envolve o disco, sobeja a música mais iluminada do percurso de Malkmus a solo. Estranha certamente, mas brilhante.

Face The Truth é o trabalho mais ambicioso do trajecto solitário de Malkmus e domina com sobriedade o confronto de estilos musicais distintos, aqui moldados com erudição na forma de uma massa sónica heterogénea, também paradoxalmente monolítica porque vinculada a um fio condutor ubíquo. Essa linha orientadora não é mais do que a impressão idiossincrática de Malkmus (e dos Pavement?) que, afinal, se vê confirmada neste Face The Truth como uma das mais válidas assinaturas de compositor do momento. Cabe-nos desmontar o disco, aceitar a comunicação das suas peças e divagar sem cismas, com a recordação do ómega dos Pavement, pela descoberta, duas tentativas falhadas depois, de um novo alfa para Malkmus.

Bald Eagle


Título: Bald Eagle
Autor: Tony Mathews
Fonte: Site

segunda-feira, 30 de maio de 2005

O desfiladeiro de Vaqueros

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Josef Bakos,Vaqueros Canyon, 1919

Sleater-Kinney - The Woods

Apreciação final: 8/10
Edição: Sub Pop, Maio 2005
Género: Indie Rock







Trio feminino natural de Washington, as Sleater-Kinney são fidedignas especuladoras rock, não porque a sua música soe a ardil mas porque se aventuram arrojadamente a refinar repetidamente o seu traço distintivo. The Woods é o mais recente trabalho das irreverentes americanas e se aparenta atributos mais experimentais do que os registos anteriores, não deixa de fazer justiça ao património rock do grupo: é acérbico q.b. e assaz ruidoso - as guitarras são graves e as percussões jactantes. O resto é uma demonstração inequívoca da maturidade criativa da banda, talvez aqui elevada ao ponto mais alto do seu percurso, a que acresce a captação em disco da esfuziante e ígnea energia das actuações em palco. Assim, The Woods é uma vigorosa injecção de adrenalina que, além de marcar uma etapa inédita no grupo (é o primeiro disco gravado para a Sub Pop), se revela um tomo irresistível do melhor rock que se produz hoje em dia. Além disso, o disco encerra um compromisso de coesão que não era notado em outros trabalhos das Sleater-Kinney, amparado numa produção de eleição e em composições que interceptam o espírito nostálgico dos tumultuosos 70's e o esmero diabólico de renovação das medidas do rock.

The Woods pode não ser um álbum de consumo imediato mas, com audições repetidas, torna-se um cerimonial rock purificado, uma massa sónica improvável e paradoxalmente urdida numa teia de caos e elegância, afinal, o axioma máximo das Sleater-Kinney. Um disco imperdível que cruza a ambiguidade do suicídio, das relações humanas e da política com a rectidão assertiva do rock. Uma excursão open-minded a estes fecundos bosques das Sleater-Kinney pode muito bem vir a ser uma viagem para não mais voltar.

Sem título

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Título: Sem título
Autor: Rita Silva
Fonte: 1000Imagens

domingo, 29 de maio de 2005

:')

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Título: :')
Autor: Ricardo Tavares
Fonte: 1000Imagens

sexta-feira, 27 de maio de 2005

Banhantes no rio

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Henri Matisse, 1909-16

Sam Prekop - Who's Your New Professor

Apreciação final: 7/10
Edição: Thrill Jockey, Março 2005
Género: Indie Pop-Rock







Sam Prekop é mais conhecido como vocalista do projecto pós-rock Sea and Cake, oriundo da cidade norte-americana de Chicago. A proposta individual do músico é menos experimental e atmosférica, materializa-se em formas menos ambíguas e envolve fluxos inspiradores da soul e da bossa nova, reconvertidos num timbre com a flutuante sedução do jazz. A elasticidade das composições varia do conforto da ventura dos pequenos instantes para a sinceridade opulenta de outros momentos. Essa condição é sublinhada pelo requinte das canções, confirmando Prekop como artesão de retratos musicais de estados de espírito profundamente humanos e que descrevem, com a suprema subtileza dos acordes e dos arranjos uma caprichosa fantasia. Who's Your New Professor? é um disco recatado, um prodígio de virtudes tímidas. Ouvi-lo repetidamente é desvendar o discurso eficiente de um crooner ímpar e de um escritor de canções que, sem reclamar nada em troca, nos oferece vínculos invisíveis para a destilação da sua arte.

Urdido com a precisão das grandes obras, Who's Your New Professor é um registo concorde a que só falta uma propensão maior para escapar à previsibilidade que discorre da similitude das composições. Ainda assim, trata-se de um disco notoriamente estimulante e que renova as descobertas a cada audição. Se os Sea and Cake já tinham o seu cantinho no universo indie, Sam Prekop faz neste trabalho a asserção propícia a reter o interesse dos adeptos do grupo - Archer Prewitt, também membro do colectivo americano, já havia feito o mesmo com Wilderness. E, com Who's Your New Professor, o músico não desilude.

Posto de escutaSomethingDot EyeC+F

Bombordo


Título: Bombordo
Autor: Victor Melo
Fonte: 1000Imagens

quarta-feira, 25 de maio de 2005

Árvore Morta

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Max Weber, 1928

Mark Mulcahy - In Pursuit of Your Happiness

Apreciação final: 7/10
Edição: Mezzotint, Março 2005
Género: Cantautor/Pop-Rock Alternativo







In Pursuit of Your Happiness é o terceiro disco de Mulcahy a solo, depois de ter liderado os Miracle Legion durante mais de uma década. Para este trabalho, o músico convidou J Mascis (ex-Dinousaur Jr.) para a bateria e Joey Santiago (ex-Pixies) para os metais. O tom do disco percorre com mestria as insondáveis fronteiras da pop experimental, cruzada com um cunho subliminar de fino rock. Na ilustração da capa, Mulcahy, qual pegureiro, orienta um grupo de bácoros...a caminho da felicidade? Estas canções sugerem esse caminho, são cicerones na busca da felicidade do auditor, sublinhando a sua condição sentimental, em detrimento de valorizações superficiais. Nesses sentimentos encaixam a ventura do isolamento e a contemplação de mundos sem rosto. A orgânica musical de In Pursuit of Your Happiness é suficientemente volúvel para complicar a tipificação do disco. Ainda assim, é um álbum de momentos urdidos com a serena perseverança de um artesão misantropo e niilista.

O espectro emocional do disco move-se da rigidez sumptuosa das baladas de piano/voz para uma miragem dos Velvet Underground. Depois, a coexistência pacífica de vibrações melódicas e do rock outorga a In Pursuit of Your Happiness um travo requintado e adulto, confirmando Mulcahy na postura de um destro cantautor. Thom Yorke (Radiohead) é um admirador dele. Será In Pursuit of Your Happiness ensejo concludente para a ratificação de Mulcahy junto de públicos mais vastos?

Ben Folds - Songs for Silverman

Apreciação final: 5/10
Edição: Epic, Abril 2005
Género: Pop-Rock Alternativo







Ele tornou-se mais célebre por ser a voz dos extintos Ben Folds Five, reconhecido trio da pop americana, mas conta já com dez anos de percurso individual em paralelo com o grupo. Nesta edição, o músico conjuga o domínio das baladas com a formatação do rigor criativo. A junção roça a mediania e, embora o enfoque seja intimista e mais personalizado do que os trabalhos anteriores de Folds, não se exime da vulgarização e, pior do que isso, não escapa à teimosa repetitividade de uma fórmula enfadonha. A doutrina de Songs for Silverman é o apelo à emoção fácil através do recurso ao balanço das baladas lentas, ainda que demonstre sinais de maturidade de Folds que, não sendo detectáveis em outros registos, fazem a prova da meia-idade do músico, aqui convertida a canções sentidas e honestas mas a que falta um traço vinculador mais assumido. Assim, o alinhamento descomprometido e solto torna-se perigosamente redundante e maçudo.

Songs for Silverman é um disco de pop ligeira e é indicado para fãs de Ben Folds. Aos outros, que não estimam especialmente o seu trabalho, o registo provoca um efeito secundário incómodo: uma série de bocejos.

Posto de escutaBastardJesuslandLate

Janela

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Título: Janela
Autor: Maurício Matos
Fonte: www.mauriciomatos.com

terça-feira, 24 de maio de 2005

Blind Zero - The Night Before and The New Day

Apreciação final: 7/10
Edição: Universal, Abril 2005
Género: Indie Pop-Rock







Os tripeiros Blind Zero, agora sem o guitarrista Marco Nunes (recrutado pelos Demitidos, banda de suporte de Jorge Palma) estão de volta com um álbum menos sombrio e onde o sublinhado na psicose é menos acentuado. Quinto registo da carreira do ensemble do Porto, The Night Before and The New Day é uma declaração de emancipação definitiva, não abandonando a matriz do passado mas embarcando em destemidas incursões por outros caminhos. A exposição emocional é sensível e as composições de Miguel Guedes resultam mais luzentes e melodiosas. A produção, mais uma vez a cargo de Mário Barreiros, destaca a condição despojada das canções, onde a voz se despega do mero repisar das peugadas das guitarras. Os conteúdos líricos do disco, também a cargo de Guedes, são menos determinísticos ou fatalistas, abrem espaço a desfechos não tão destrutivos para as personagens que desenham um imaginário de amores e solidões.

The Night Before and The New Day marca uma viragem no percurso dos Blind Zero e deixa sinais claros de maturidade criativa. O som do grupo é menos fechado, menos denso; é como se um feixe de brilho tivesse subjugado as sombras dos discos anteriores e uma janela aberta permitisse a invasão de uma brusca corrente de ar fresco. A inevitável reinvenção da orgânica do som é bem-vinda, até pela introdução de elementos electrónicos, e revigora a orientação musical de uns rapazes com dez anos disto. A esse propósito, o título é infalível: o novo trabalho dos Blind Zero é um novo dia (com margem para algum experimentalismo), sem esquecer a noite da véspera, em que a negrura e o rock cru eram o leitmotif. The Night Before and The New Day, obra-maior dos Blind Zero, é a confirmação definitiva da melhor banda rock nacional.

segunda-feira, 23 de maio de 2005

O Bom, o Mau e o Feio


Título: O Bom, O Mau e o Feio
Autor: Fernando Quintino Estevão
Fonte: 1000 Imagens

The Mountain Goats - The Sunset Tree

Apreciação final: 7/10
Edição: 4A, Abril 2005
Género: Indie Rock/Cantautor







Embora sem o arroubo da exposição mediática, o projecto The Mountain Goats, liderado pelo vocalista e principal mentor, John Darnielle, conta já com cerca de uma década de gravações. Num tom autobiográfico e escarninho, The Sunset Tree é dedicado ao padrasto de Darnielle, um irremediável alcoólico e uma esperança gorada na existência do compositor. As histórias são relatadas na forma de pequenos trechos musicais alimentados por uma omnipresente sensação de fragilidade e medo, tocando com rara sensibilidade a violência doméstica e um vago sentimento de romantismo misógino. A componente instrumental das composições é reduzida ao minimalismo lo-fi: presença destacada da guitarra acústica, arranjos de cordas oportunos e vocalizações sentidas. A visão perifrásica de Darnielle permite-lhe uma franca e tocante catarse dos reveses da infância, em sintonia com os seus melhores trabalhos, ainda que em The Sunset Tree a toada confessional endureça a densidade emocional do disco, sacudindo as representações pictóricas do imaginário do ouvinte. A quase tangibilidade da comoção vertida nas composições, a par dos arranjos excelsos, ajuda a agrupar um disco espesso e consistente, uma imperdível amostra do engenho de um dos mais prolíficos songwriters.

The Sunset Tree é uma crível narrativa de vida, recheada com composições fortes e vibrantes, também subtis e artisticamente urdidas. A estas, parece apenas faltar uma certa ousadia criativa que lhes dê a emancipação definitiva do jeito monocórdico do disco. Mas as confissões não podem ser integralmente feitas em surdina?

Angels of Light - Sing "Other People"

Apreciação final: 6/10
Edição: Young God, Março 2005
Género: Indie Rock/Folk







Michael Gira, depois da aventura vanguardista dos The Swans, parece ter encontrado o seu porto seguro. A voz serenou, é mais sóbria e menos assombrada. Ele é a alma dos Angels of Light. O som do grupo é intimista e integra com propriedade instrumentalizações ricas (o banjo, o orgão e as cordas estão por aqui...), numa orgânica sonora opulenta na sua simplicidade. Depois, o laconismo do registo barítono de Gira - a semelhança com Johnny Cash é arrepiante em certos momentos - acrescenta a porção certeira de aquietação, pautando os ritmos de composições folk psicasténicas. As histórias musicadas de Gira, pequenas vinhetas de tensões serenas, são absorventes e imergem num sentido compromisso com o auditor. A poesia de Gira nasce da vulgaridade e poisada sobre a gentilidade da sua música compõe um carácter sónico que, ficando aquém do estatuto das grandes obras, expõe com acuidade a mascarada pungência das cicatrizes da alma humana.

Sing Other People faz o tributo do sujeito anónimo e sem voz, rende-lhe uma homenagem lúgubre e inquietante. Existencialista q.b., o disco apresenta personagens da vida real, pinta-as com a verosimilhança da urbanidade e encaixa-as nas gavetas de uma memória visionária. A dado momento do disco, num vértice de pessimismo humanista, Gira escreve: "Some people are a waste of life". Escutar este Sing Other People talvez não o seja.

sexta-feira, 20 de maio de 2005

5 rapidinhas


Ivy - In The Clear (7/10)
Projecto nova-iorquino apresenta o seu primeiro álbum em quatro anos e percorre, sem especial criatividade ou inovação, o universo relaxante da dream pop. Vocalizações etéreas e encantadoras e interjeições subtis da electrónica que se resumem em texturas melodiosas, simultaneamente inquietantes e pacificadoras.
(Nettwerk, Março 2005)






The Boy Least Likely To - Best Party Ever (7/10)
Disco sólido e dissimuladamente pueril que partilha do imaginário das crianças e usa-o na construção de um som invulgar, com protagonismo das vocalizações em coro e de instrumentalizações pouco habituais. Canções revigorantes que destapam um mundo nem sempre percebido pelos mais crescidos.
(Too Young To Die, Maio 2005)





Kathleen Edwards - Back to Me (6/10)
Canadiana de origem, espírito feminino, voz determinada, canções emocionais e sinceras e fragilidade no sentimento são os condimentos de Edwards. Neste registo, a cantora solidifica a sua afirmação como compositora e, no choro de uma guitarra, faz a catarse das suas próprias decepções amorosas, em histórias musicadas com o detalhe de um disco tocante de baladas.
(Zoe, Março 2005)






Caribou - The Milk of Human Kindness (7/10)
Pop enriquecida com arranjos orquestrais e orgânica electrónica psicadélica. Dan Snaith (mentor do projecto Manitoba) renasceu com o epíteto Caribou e produz um fluxo sonoro transcendental e não-linear, hipérbólico nas ideias e detalhado nos arranjos .
(Domino, Abril 2005)







Red Sparowes - At the Soundless Dawn (7/10)
Membros dos Neurosis e dos Isis juntam-se num álbum que acolhe o traço idiossincrático de ambos os projectos e segue numa excursão imaginativa pela versatilidade da guitarra, em registo menos cru do que o esperado, esticando os acordes até as fronteiras do rock progressivo. Ambiental e introspectivo.
(Neurot, Abril 2005)

quinta-feira, 19 de maio de 2005

O aguadeiro de Sevilha

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Diego Velasquez, 1620

13 & God

Apreciação final: 7/10
Edição: Anticon/Alien Transistor, Maio 2005
Género: Electrónica/Rap Alternativo







Quando o formato hip-hop se cruza com a axiomática da electrónica, renova a escala do seu som e adquire outros tons. E se a fusão é entre a prolífica dupla Mc Doseone/Jel (dos Themselves) e os membros dos germânicos Notwist, a semente do disco é prometedora. Ainda que as respectivas gamas sonoras pudessem parecer a priori perfeitamente imiscíveis, os dois projectos fizeram uma digressão conjunta em 2004. Desse feliz encontro haveria de nascer o projecto 13 & God. Talvez o disco não seja tão electrizante quanto seria de esperar, é marcado por uma fino low-profile e por um tom simultaneamente directo e vanguardista. Por isso, não se trata de um registo de consumo imediato, o mérito das canções só sobrevem com audições repetidas. Indisfarçável mesmo é o talento dos músicos envolvidos, provado nas simetrias simbióticas que se arquitectam no tecido das composições e na fusão engenhosa da evocação claustrofóbica do industrial dos Themselves e do romantismo espacial da pop dos Notwist. Se a união era improvável, o desfecho é um mutante único, cheio de vividez e de detalhes mistos. A síntese vai além do expectável, é invulgar e sombria, igualmente original e imprevisível.

13 & God é o fruto de um ensemble que aprova com distinção um rifão que nem sempre é honrado no mundo da música: o todo é mais do que a mera soma das partes. Da adição dos intervenientes, nasceu um som novo. Ganham os adeptos da música derrubadora de fronteiras. Esperam-se os próximos capítulos.

Azul

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Título: Azul
Autor: Ana Pinto
Fonte: Olhares

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Eels - Blinking Lights and Other Revelations

Apreciação final: 8/10
Edição: Vagrant, Abril 2005
Género: Cantautor/Indie Rock/Indie Pop







Os Eels são Mark Oliver Everett. Cantor, compositor e intérprete, E - como é conhecido - é o mentor deste singular projecto, apesar de os Eels se apresentarem colectivamente. A exposição mediática do grupo (ou de E?) foi amplificada com a recente participação em diversas bandas sonoras para a sétima arte que serviram de cartão de visita para a imagem de marca do som dos Eels: produção hiperbólica, voz frágil e contextos líricos iconoclastas. A isso, acresce um espectro sónico ecléctico e versátil, particularmente sensível neste duplo-álbum Blinking Lights and Other Revelations. O disco acolhe as cordas, os metais e outras texturas sonoras organicamente faustosas e, partindo dessa gama de simetrias multicoloridas, aventura-se em incursões prudentes por registos variegados, sob uma matriz comum de composição. E aí reside o mérito maior: a música de E tece uma graciosa e unida teia de sentimentos melancólicos, ataviados com mestria em canções honestas e urdidas com elegância.

O detalhe de Blinking Lights and Other Revelations sublima a constatação inegável de que Everett é um dos melhores compositores da música americana no tempo corrente. Será redundante dizer que o disco é intimista e sombrio, são-no também os restantes títulos dos Eels, mas tais atributos ganham outras medidas nesta edição. Blinking Lights and Other Revelations é uma colecção indispensável de canções que, concebido com o fito de ser obra magna, apenas não goza esse privilégio por perder alguma coesão ao longo de trinta e três faixas(!). Fossem escolhidas as melhores dos dois discos que compõe Blinking Lights and Other Revelations e reunidas num só tomo e estaríamos perante o mais que provável disco do ano. Ainda assim, há aqui trechos excelsos, verdadeiras lições de vida que nos fazem apartar do tempo e do espaço e partir numa excursão introspectiva e ambivalente, de ironia e sinceridade, pelas porções indecifráveis do eu que E nos subtrai engenhosamente e devolve, depois, na forma de música.

Mary Timony - Ex Hex

Apreciação final: 7/10
Edição: Lookout!, Abril 2005
Género: Indie Rock







A ex-vocalista dos Helium retoma, no seu último trabalho, o enfoque da fórmula rock, puxando para a primeira linha do registo a intervenção da guitarra devidamente adornada por percussões enérgicas. A esse nível não é indiferente a produção de Brendan Canty, baterista dos Fugazi. Os ritmos do disco são entrelaçados e aceitam uma harmonia angular e incisiva, em profícuo contraste com a voz frágil de Timony. O imaginário oblíquo da cantora encaixa num som de arpejos quase medievais que não sucumbem numa formatação mais contemporânea e progressiva. Ex Hex é, por isso, um tomo de delgadas trovas de rock cru e invocativo. Além disso, o álbum centra os intuitos de Timony, voltando costas ao anacronismo dos registos anteriores e trazendo-a a um registo moderno.

Aparentemente dissonante, Ex Hex é um disco denso e agitadamente taciturno, também hipnótico. A pecha maior que a produção não disfarça completamente: falta-lhe a integridade de som de uma banda completa. Ainda assim, Ex Hex é uma escuta obrigatória para os partidários de um estilo rock que, bebendo da fonte Sonic Youth, tem um cunho próprio bem definido.

Fences

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Título: Fences
Autor: Vasco Casquilho
Fonte: Mindlooks

terça-feira, 17 de maio de 2005

Estudo para o nu agachado

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Francis Bacon, 1952

The Go-Betweens - Oceans Apart

Apreciação final: 8/10
Edição: Yep Roc Records, Maio 2005
Género: Indie Pop







Os australianos The Go-Betweens há muito tomaram um posto privilegiado na quintessência do universo da pop alternativa, especialmente à custa do sublime 16 Lovers Lane (1988), obra incontornável da carreira do ensemble de Brisbane. Curiosamente, foi depois da edição desse mítico disco que o grupo se desmembrou, defraudando o culto de uma numerosa legião de séquitos. O reencontro viria inevitavelmente a acontecer em 2000 com The Friends Of Rachel Worth. Oceans Apart é o terceiro lançamento da segunda vida dos The Go-Betweens e facilmente se distingue dos irmãos mais recentes, simbolizando os momentos mais inspirados desde 1988.

A produção do disco - a cargo de Mark Wallis que havia produzido 16 Lovers Lane - é soberba, elevando o som do grupo a uma limpidez imaculada, nem sempre audível noutros álbuns. Desta vez, os arranjos de cordas foram sensatamente trocados por sápidos instantes de sopros e metais que, aqui e ali, pontuam notas de inovação. Depois, as composições melódicas de Forster e McLennan são iridescentes e polidas, como que buriladas até ao mais ínfimo pormenor da delicadeza romântica da sua medula.

Oceans Apart revigora a energia do colectivo australiano, captando a substância originária de antanho e acrescentando-lhe, na simbiose musical ingénita de Forster e McLennan, o privilégio rigoroso da unidade, mediante a integração assisada da melodia, dos coros vocais harmónicos e das instrumentais sedutoras. Oceans Apart propõe um interessante axioma: é a consagração definitiva da segunda encarnação dos The Go-Betweens. Cabe-nos usufruir do momento.

Festa no céu

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Título: Festa no Céu
Autor: José Eduardo
Fonte: 1000Imagens

segunda-feira, 16 de maio de 2005

7 rapidinhas


Boom Bip - Blue Eyed in the Red Room (5/10)
Paisagens sonoras feitas de melodias electrónicas e ritmos pausados, a afrouxar as fronteiras do hip-hop e recheadas de melancolia instrumental mas sem rasgos significativos de inventividade.
(Lex, Março 2005)







Built Like Alaska - Autumnland (6/10)
Orgânicamente elaborado e assente em toadas lentas, o mais recente trabalho dos Built Like Alaska remexe na sensibilidade folk e percorre com minúcia o espectro da nostalgia, piscando hipnoticamente o olho a uma certa pop quase barroca e à fórmula do rock independente.
(Future Farmer/Sweat of the Alps, Fevereiro 2005)








The A-Frames - Black Forest (6/10)
Trio de Seattle, os The A-Frames são artesanos de um rock preguiçoso, um som irreverentemente cru e caótico, com laivos de psicadelismo, e cuja mecânica essencial encaixa numa reinvenção única das raízes do punk.
(Sub Pop, Março 2005)







Adrian Belew - Side One (7/10)
Um guitarrista de primeira água apresenta um rock desregrado e com tendência experimental, onde cabem influências da fórmula progressiva e de Zappa.
(Sanctuary, Janeiro 2005)







Julian Cope - Citizen Cain'd (6/10)
Edição dupla de rock directo e instrumentalmente incisivo, com vocalizações dissimuladas entre as distorções e ruídos típicos de uma gravação rudimentar que invoca a matriz da tradição blues e lhe infunde uma esquizofrénica miscelânea de ingredientes. O desfecho: um álbum psicadélico de garagem, saído da mente de um engenhoso druida cujo filão de criatividade mais original parece ter-se esgotado no passado.
(Head Heritage, Janeiro 2005)





Vic Chesnutt - Ghetto Bells (7/10)
Pleno de urbanidade e sentido de proporção, o mais recente trabalho do compositor paraplégico da Geórgia é um disco sem medo do risco, de emoções fortes e contrastantes que recebe com agrado o númen da soul e do blues, moldando-o à mistura fina da voz cava de Chesnutt com o talento de músicos de eleição como o guitarrista Bill Frissell, o teclista Van Dyke Parks e o baterista Don Heffington.
(New West, Março 2005)







Akron/Family (7/10)
Desafio pós-rock místico e experimental com vocalizações invulgares e sons atípicos que compõem uma orgânica atmosférica e sedutora, de momentos com beleza transcendental e que merecem uma escuta veneradora. Primeiro disco de um projecto que promete vingar e que cruza destramente o universo folk com a grandeza etérea de outros mundos.
(Young God, Março 2005)

domingo, 15 de maio de 2005

A vida é um milagre

Apreciação final: 7/10
Realizador: Emir Kusturica (2004)
Actores: Slavko Stimac, Natasa Solak, Vesna Trivalic e Vuk Kostic
Género: Drama/Comédia
Duração: 155 mins.









A mais recente alegoria do esdrúxulo Emir Kusturica é uma fita repleta das costumeiras intenções ideológicas do cineasta bósnio, onde não faltam as alusões inevitáveis ao conflito bélico que assolou a Bósnia na década de 90, tema que cruza transversalmente a obra do cineasta. Desta vez, a acção decorre numa comunidade rural das montanhas daquela república dos Balcãs, durante o ano de 1992, no pleno dealbar da disputa. O afável Luka (Slavko Stimac), o chefe da estação de caminhos-de-ferro, simultaneamente idealizador da recém-criada rede ferroviária da rústica comunidade, é casado com a volúvel Jadranka (Vesna Trivalic), uma deprimida cantora lírica que, apartada da ribalta por força do matrimónio, teima em adestrar-se no trecho primaz de Anna Karenina, conservando a esperança de um regresso irrelizável aos palcos.A eclosão da guerra e a frenética sucessão de eventos subsequentes, entre os quais a incorporação no exército do filho do casal, Milos (Vuk Kostic), vai sacudir a pequena aldeia e abalar o conformismo dos seus habitantes. O ónus do conflito e a chegada da bela muçulmana Sabaha (Natasa Solak), uma prisioneira de guerra, vão pôr à prova as utopias de Luka.

A Vida é um Milagre é um filme que incorpora os excessos que habitualmente (e habilmente) condimentam a obra de Kusturica: a bizarria hiperbólica das personagens, dos cenários e do enredo, o recurso quase contínuo à música de metais (escrita pelo próprio) como parte da equação de completude de cada cena e, não menos idiossincrático, o emprego de subterfúgios surrealistas a tocar as raias da verosimilhança. Como sempre, Kusturica convoca um bestiário ironicamente simbólico e activamente participativo que ajuda à definição de ritmos do filme e à construção de um traço satírico incomum. A título de exemplo, há uma jumenta suicida que, qual Karenina, ferida de amores, espera pacientemente na linha por um comboio que ponha termo à sua existência infeliz.

Se a primeira parte do filme apresenta os protagonistas e contextualiza a sua vivência despojada, a segunda parte, em simultâneo com sopros de ódio da guerra, expõe o paradoxo de uma história de amor e amantes amaldiçoados, uma réstia de fulgor incandescente e sensual a sobreviver por entre as ruínas e a negrura. O epílogo de A Vida é um Milagre perfaz um desfecho clássico, digno de uma ópera de Puccini, numa cena que não enjeita a propriedade da combinação do absurdo do universo complexo de Kusturica e a fantasiosa condição do amor concretizado.

Em A Vida é um Milagre a saturação poética de Kusturica dá sentido a uma narrativa ágil, bem construída e suportada em bons desempenhos de representação. Com engenho metafórico, o realizador bósnio arquitecta uma sólida celebração da vida, mostrando sem acanhamento o rídiculo e a farsa da guerra. A Vida é um Milagre é um retalho shakespeariano do universo grotesco e caótico de Kusturica que, parecendo absurdo e inverosímil, se assemelha a um retrato sarcástico do mundo real.

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Nudez ao fim do dia


Título: Nudez ao fim do dia
Autor: Aguinaldo C. Vera-Cruz
Fonte: 1000Imagens

Mariza - Transparente

Apreciação final: 8/10
Edição: EMI, Abril 2005
Género: Fado







A produção do brasileiro Jacques Morelenbaum para o mais recente trabalho de Mariza faria adivinhar a concertação do seu fado com as sonoridades do outro lado do Atlântico. De resto, as insistentes confidências públicas da cantora pelo desejo em render uma homenagem a outros sons da lusofonia, como as mornas e a bossa nova, deram azo à expectativa de que Transparente fosse o primeiro produto desse intento. Contudo, não é imediatamente sensível esse propósito. A nota dominante da intervenção do director artístico de Caetano Veloso é a transmutação das eufonias de Mariza em momentos musicais de nobreza maior, graças à inclusão de trechos de cordas que cumprem cabalmente a função de alindamento das texturas da incontornável guitarra portuguesa. Neste registo, a voz harmoniosa de Mariza soa cristalina como nunca, as composições desfilam exibindo ostensivamente a magnificiência da sua simplicidade. A esse propósito, os méritos da fadista e de Morelenbaum fazem jus ao título do disco, formando um tomo de canções transparentes e respeitadoras da tradição musical portuguesa e que, sem beliscar a pureza do seu legado, a enriquecem oportunamente com a intercessão de instrumentos estranhos ao universo do fado como o acórdeão, a flauta e o violoncelo.

As palavras são de Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Alexandre O'Neill, entre outros, e acrescentam retalhos de alma portuguesa ao embalo melancólico do fado alfacinha. Transparente é um trabalho excelso e que traz vestígios de um devir inventivo para Mariza, em que o balanço de outros ritmos virá a matizar o fado com cores híbridas e dar-lhe uma dimensão universal. "Fado Português de Nós", uma deliciosa combinação fado-samba, é um sinal dessa metamorfose que, se descontenta puristas, faz o encanto dos melómanos mais audazes. Profundamente portuguesa e orgulhosamente do mundo, Mariza (e o quase imaculado Transparente) devem ser convidados de honra de qualquer amante de música de qualidade.

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Cavalos de Corrida


Edgar Degas, 1866-68

Aimee Mann - The Forgotten Arm

Apreciação final: 7/10
Edição: Superego, Maio 2005
Género: Cantautor/Pop-Rock Alternativo







Aimee Mann dispensa apresentações, especialmente desde que musicou o filme Magnolia (1999) de Paul Thomas Anderson. Depois disso, o belíssimo Bachelor N.º 2 (2000) lançou-a definitivamente para o estrelato. The Forgotten Arm é o quinto álbum de estúdio e avoca a fórmula típica da autora: uma voz inconfundível e composições pop-rock adultas. Neste trabalho, a cantora esquadrinha a vulnerabilidade e a insignificância do ser humano, incorporadas habilmente no relato (numa dúzia de composições) da relação ambígua entre o boxeur John (um ex-combatente do Vietname) e a sua amada Caroline. As utopias do casal desmoronam-se na acareação com a realidade, as promessas sumem-se no tempo e as drogas são o veículo catártico das frustrações.

The Forgotten Arm é um álbum conceptual, também o mais complexo de Mann. A coesão do registo é assegurada pelas sinergias entre canções, pequenos quinhões de uma história comum cujo significado primaz só pode ser entendido no todo monolítico. Depois, as melodias cativantes e a voz doce engalanam o desastre da narrativa, compondo um paradoxo de beleza única. A futilidade das adições e as cicatrizes da desilusão são expostas com franqueza e com o toque subtil das grandes obras. The Forgotten Arm embevece pelo realismo do enredo e pela tangibilidade da mágoa através dos acordes do piano ou da guitarra. Escutar o mais recente trabalho de Aimee Mann é perscrutar a essência da vida humana e o insustentável ónus do sonho. Tocante.

Okkervil River - Black Sheep Boy

Apreciação final: 7/10
Edição: Jagjaguwar, Abril 2005
Género: Indie Rock







Texanos de origem, os Okkervil River são capazes de juntar um certo garbo instrumental a textos profundos que se movem gentilmente entre as fracturas da emoção humana e a intimidade da confissão. De resto, Black Sheep Boy aceita esse preceito, serve-se de uma toada taciturna que, em simultâneo, é o catalisador do turbilhão de sentimentos que preenche o espaço sónico do disco e, com semelhante destreza, é a panaceia para as convulsões internas do processo. Nessa medida, Black Sheep Boy é paradoxal como um conflito que apazigua. Os arranjos são augustos e secundam agilmente o discurso quase histérico de Will Sheff. Não se pense que o disco destila raivas cadentes. Puro engano. Os contextos são outros: filhos desaparecidos e/ou abusados, amigos perdidos, amores desencontrados e relações humanas frustradas. A meditação altruísta assenta em canções melódicas e cuidadosamente urdidas, divididas entre o galanteio à atmosfera mexida do rock e o secretismo íntimo da balada indie. Em ambos os formatos, os Okkervil River têm êxito e dão a Black Sheep Boy a ambivalência de um vigor terno e de uma fragilidade tocante.

Contendo alguns dos melhores temas da carreira do grupo texano ("For Real", por exemplo), Black Sheep Boy parte do tema homónimo que Tim Hardin escreveu em 1967 e segue numa expedição contemplativa pela dor da espécie humana. A única mácula: não se percebe uma evolução no som do grupo. Ainda assim, o charme rústico deste trabalho e o traço idiossincrásico do ensemble texano são garantia de entretenimento.

Flower


Título: flowerjpg
Autor: Kevin Oke
Fonte: Travel Photography

quarta-feira, 11 de maio de 2005

Retrato de Natasha Nesterova


Mikhail Nesterov, 1906

Architecture in Helsinki - In Case We Die

Apreciação final: 8/10
Edição: Bar/None, Março 2005
Género: Electrónica Alternativa/Pop Alternativa







Não se deixe enganar pelo nome, os Architecture in Helsinki são um octeto australiano (de Melbourne). Normalmente reconhecidos pela completude invulgar do seu som, especialmente em virtude do recurso a um vasto arsenal de instrumentos - entre eles estão a tuba e o clarinete - os músicos tecem protótipos sónicos que misturam com engenho a orgânica electrónica e o imaginário da pop naïf. Neste In Case We Die, o registo é multidimensional e corta transversalmente uma miríade de influências, resultando numa massa acústica inédita e marcada por oscilações contínuas no alinhamento do disco e variações em frenesi nas faixas. A produção cristalina é o pedestal acertado para a condição vibrante da face instrumental, a que se juntam espectros vocais diversificados (os oito elementos do grupo dão um contributo). Tudo junto, In Case We Die assemelha-se a um ponderado laboratório de experiências sonoras, confirmando os Architecture in Helsinki como artesãos na primeira linha da reinvenção das estruturas da música. A indefinição e o caos do espaço criativo do grupo é, neste caso, o mérito maior do disco.

Versatilidade a rodos, talento à larga e uma noção de liberdade criativa nos limites da sensatez são os condimentos essenciais de In Case We Die. Encaixá-lo no escaparate ordenado de um género musical na loja de discos do quarteirão? Impossível. Ouvi-lo? Obrigatório.

British Sea Power - Open Season

Apreciação final: 7/10
Edição: Rough Trade, Abril 2005
Género: Indie Pop-Rock







Oriundos de Brighton, os British Sea Power trazem-nos o segundo longa duração da sua existência, depois do bem sucedido The Decline of British Sea Power (2003). Neste trabalho, a regra é símil: o colectivo britânico já desenhou um estilo próprio, feito de vocalizações diáfanas, arranjos de cordas coadjuvantes e de um pacto sinergético entre as guitarras acústicas e eléctricas. É verdade que os rapazes tocam, aqui e ali, a exuberância dos The Cure e dos Pixies e também visitam as ruínas dos Joy Division, mas é transgressão estimar tão ilustres númenes? A essas referências, os British Sea Power acrescentam o carimbo da sua estética, graças a uma escrita atmosférica, com tiques pop cada vez mais convidativos.

Repleto de urbanidade e de contemplação sombria da vida moderna, Open Season é um corpo vivo de boas canções, inventadas com a probidade das composições despojadas. A junção comedida de texturas sónicas com as guitarras acústicas e o piano compõe uma lição pomposa que ajuda a aprofundar a grandeza conceptual dos British Sea Power, aqui renovada com sensibilidade acrescida. Profusamente emocional e imune a chichés, Open Season é um tomo intrigante e belo, a que só parece faltar um rasgo de imprevisibilidade que lhe rompa a coesão monolítica. Ainda assim, Open Season é uma edição meritória e favorece a promoção dos British Sea Power a um estatuto relevante.

Umbrellas at the Night Market, Laos


Título: Umbrellas at the Night Market, Laos
Autor: Kevin Oke
Fonte: Travel Photography