quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Isolée - We Are Monster

Apreciação final: 8/10
Edição: Playhouse/Flur, Junho 2005
Género: IDM/Electrónica Minimalista
Sítio Oficial: www.isolee.de








O alemão Rajko Müller (aka Isolée) já tinha deixado bem claro, quando há cinco anos editou o álbum Rest, que não é homem para perder o sossego (e o norte) mesmo quando o edifício da electrónica ambientalista, como se fez tendência recente, se permite derivar para outras escolas. Para ele, o dogma de Eno continua a ser um ensinamento de utilidade quotidiana, nas métricas, na volatilidade, nos ritmos variáveis, no espaço misterioso de sons digitais. A música torna-se necessariamente um modelo de liberdade criativa, é como um estudo sem palpites formais, indiferente aos argumentos do tempo. O corpo é essencialmente instrumental mas aceita aparições esporádicas da voz, integrando-a num jogo de vectores tridimensionais donde provêm o aprumo minimalista e o charme pelo rigor. E não se trata de rigor feito de precisões, as melodias exibem-se propositadamente desarrumadas, com sons volantes guiados por um encorpado fio de prumo disco que confunde qualquer definição contemporânea de funk. Depois, Müller enfeita este jogo de partículas sintéticas com breves ornamentos orquestrais, conferindo outros pigmentos às paisagens sonoras que We Are Monster vai sugerindo na mente do auditor. Além do mais, Müller até facilita as coisas para os mais preguiçosos: as composições estão subliminarmente mais próximas de servirem no molde de canção.

We Are Monster é um daqueles discos de viciação fácil, tão imediatamente ele captura as graças do sentido auditivo e, com mais presteza ainda, reclama os serviços perceptivos do cérebro e acorda os nervos amorfos do sistema nervoso central. Trocado por miúdos, é um disco profundo que nos faz (querer) dançar mesmo que nem nos levantemos do sofá. Chamam-lhe I.D.M., música de dança inteligente, na língua lusa. Que é intuitivamente dançável, lá isso é. E se inteligência é sinónimo de super-abundância de elementos e subtileza melódica, então We Are Monster é música inteligente. Esquecendo os rótulos, é um álbum indispensável e um dos exercícios electrónicos mais inspirados de 2005.

6 comentários:

membio disse...

já ouvi falar tanta coisa boa deste album que espero não me arrepender... e logo eu que sou amante da electrónica!!!
btw, gostei do pormenor do chapéu do pai natal no apARTES :)

A.C. disse...

Se és amante da electrónica, creio que não te vais arrepender. Mesmo não sendo um disco particularmente inovador, tem um som fresco e cativa do primeiro ao último segundo.

Dá uma escutadela e depois vem cá dizer se te arrependeste.

Um abraço.

A.C. disse...

Um pormenor que me escapou no comentário anterior: podes escutar duas faixas completas ("Enrico" e "Do Re Mi") deste álbum na grafonola do apARTES ou, em alternativa, no sítio oficial do músico, podes ouvir amostras de todas as faixas do alinhamento.

Saudações musicais

membio disse...

hummm, já tive a ouvir na grafonola, e parece-me que tem um certo "feeling" a Metro Area onde os poucos elementos formavam uma palete minimalista que viciava pela sua simplicidade. Parece--me bem!

A.C. disse...

Acertaste na mouche ao sugerires as semelhanças com Metro Area, ainda que eu ache que o novo trabalho de Isolée é um pouquinho menos minimalista que algumas coisas deles. Mas, além disso, We Are Monster também conquista o ouvido à custa de uma simplicidade desarmante e do aprumo do pormenor. Depois, tem uma precisão de laboratório, cada nota (e som) parecem propositadamente pensados para o efeito atingido. E isso sem perder a propensão experimentalista e sem soar aos calculismos cliché.

É caso para dizer que é um disco com óptimo "toque de bola"!

Saudações musicais

tecla-esquerda disse...

Sem toques Glitch nem rasganços retro, um album com uma amplitude de sons bastante maior que o Rest, o seu anterior album. Algumas influencias do minimalismo que se faz sentir na alemanha.
Sem dúvida um grande album.