terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Jenny Lewis and The Watson Twins - Rabbit Fur Coat

Apreciação final: 6/10
Edição: Team Love, Janeiro 2006
Género: Indie Pop/Country
Sítio Oficial: www.jennylewis.com








Jenny Lewis foi uma das fundadoras do projecto Rilo Kiley, colectivo californiano a que emprestou a voz em três álbuns que, mesmo não sendo enaltecidos como obras primas, valeram ao colectivo americano a deferência da comunidade pop alternativa. Na sua iniciação a solo, Lewis enche os pulmões de ar patriótico, pede a ajuda ao gospel das manas Watson (e alguns amigos como M. Ward, Ben Gibbard ou Conor Obert dão uma mãozinha) e apronta um caldo de fazer as delícias do Tio Sam. Dentro do mesmo caldeirão, comandados pela voz afectuosa e frágil de Lewis, estão os ingredientes clássicos da música americana: as reminiscências country, a nostalgia da folk genuína, o sentimentalismo confessional e até uma pitadinha de a capella, logo na abertura do alinhamento. Decididamente, Rabbit Fur Coat faz uso dos ensinamentos clássicos da country, ao jeito do disco de estreia dos Rilo Kiley, ainda que se exprima com um balanço mais mainstream. Ultrapassadas as primeiras impressões - em que o brilho da voz de Lewis (inteligentemente sublinhado pela produção) ofusca os demais elementos - o disco vai revelando, imergido entre as texturas instrumentais, um certo pragmatismo lírico que, bem vistas as coisas, contagia a face instrumental em certos momentos. Como se Lewis sentasse, ao redor de uma fogueira, os seus convidados ilustres e, ao jeito de um acampamento de escuteiros, registassem uma serenata nocturna sem destinatário. Tão americano que até cabe uma versão dos míticos Travelling Willburys (colectivo que o ex-Beatle George Harrison criou com Bob Dylan, Tom Petty e Roy Orbison, no final da década de 80), a canção "Handle With Care".

Não surpreende que os genes indie de Lewis se sintam como peixe na água nesta mirada retrospectiva, afinal as fórmulas clássicas estiveram sempre presentes na música dos Rilo Kiley. Todavia, apesar de as canções de Rabbit Fur Coat deixarem a ressonância refrescante de remexer memórias dos vinis de Dylan, não afastam uma dúvida existencial: será que esta ex-actriz teenager não era convidada para dançar pelos rapazes? Vendo as fotografias da moça, ou Rabbit Fur Coat não é autobiográfico, ou é um embuste...Em qualquer dos casos, musicalmente o álbum é competente, mas não passa a fasquia da mediania.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

Alexandre Rodrigues em Cidade de Deus (2002)

Beth Orton - Comfort of Strangers

Apreciação final: 7/10
Edição: Astralwerks, Fevereiro 2006
Género: Folk/Cantautor/Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.bethorton.mu








Vai no quarto disco, tem um pé na folk acústica e outro na country (ela até nem é americana), foi quase-emblema da comunidade indie britânica e faz canções pejadas de delicadeza intimista. Chama-se Beth Orton e o seu mais recente trabalho marca um saudado retrocesso às ideias basilares do seu disco mais bem sucedido, o singular Central Reservation (1999). Depois dos devaneios de Daybreaker (2002), a compositora repesca os conceitos que melhor servem o desígnio de cantautora. Está aqui tudo: as guitarras acústicas, os enfeites do piano (e outras teclas), o ajuste da percussão e um registo vocal espesso e afectivo (às vezes, puxa-nos a memória para Fiona Apple). A produção é assinada por Jim O'Rourke (ex-Sonic Youth) e reduz as composições à simplicidade que a introspecção mental de Orton reclama. Daí sobrevém a personalidade nua destas canções, sem auxílio de artifícios de estúdio e muito coração. Ora cáustica, ora doce, Orton soa sempre autêntica. Como numa complexa sessão de terapia musical à procura da esperança. E aí, nesse concurso de alentos, nas intersecções dos vários planos meditativos da vida, reside a chave das melodias deste Comfort of Strangers.

Estas canções não foram feitas para parecer bem, nem sequer são especialmente amigas do FM. Orton é uma nómada sem destino, orgulha-se de conquistar mundos desconhecidos, empunhando a arma do sentimento, também da confissão, e a mais recente aventura do seu percurso é apenas e só um episódio mais. Não importa o rumo quando se redescobrem as raízes e se convergem energias para construir algo que, sendo mundano, não é transitório. E é isso que Orton (e O'Rourke) fez. Comfort of Strangers até pode ser um pouco aliterante, mas não deixa de ser um retrato da alma de Orton. E quando um músico consegue tal ímpeto de individualidade e se expõe deste jeito, ficamos a dever-lhe gratidão. Pela música e por nos abrir o seu cofre de segredos.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: New Order

O movimento electro-pop nunca teria existido sem os New Order. Depois do suicídio do carismático Ian Curtis, os restantes membros dos extintos Joy Division formaram, no início da década de 80, os New Order. O guitarrista Bernard Sumner (que viria a tornar-se o vocalista do novo agrupamento), o baixista Peter Hook e o baterista Stephen Morris recrutaram a teclista Gillian Gilbert e, juntos, haveriam de revolucionar a pop de raíz electrónica, criando uma estética pioneira de fusão da música de dança com as estruturas das sonoridades mais mainstream. Os sintetizadores impuseram-se como instrumento dominante das texturas sonoras do grupo e ajudaram à definição de uma estética inconfundível e que, além de marcar uma geração, deixaria pistas para as tendências mais recentes da música electrónica.

A faixa que aqui apresento ("Blue Monday") foi editada em 1983 e é a canção mais emblemática da carreira dos New Order, sendo ainda hoje um dos singles mais vendidos da história da música britânica. Integrada no álbum Power, Corruption & Lies, capítulo emancipador do ensemble em relação à sombra dos Joy Division, a canção definiu uma nova identidade musical e é uma peça excelsa da música electrónica, digna de figurar em qualquer colecção do género.

Para ouvir esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Coldcut - Sound Mirrors

Apreciação final: 7/10
Edição: Ninja Tune/Symbiose, Janeiro 2006
Género: Electrónica/Trip-Hop
Sítio Oficial: www.coldcut.net








Eles não são nenhuns novatos, andam pelo underground britânico há tempo suficiente (duas décadas) para merecerem a admiração da electrónica de inclinação dançarina. Muitos remixes, colaborações e criação de selos (entre eles, a Ninja Tune) depois, as lendas Jonathan More e Matt Black estão de regresso às gravações de estúdio, nove anos volvidos do último registo. Para Sound Mirrors, a dupla convocou um rol extenso de músicos célebres e oriundos de vários cenários musicais, concebendo a mais ecléctica opus do seu catálogo. Dos convidados ilustres ressaltam os nomes do roqueiro americano Jon Spencer, do rapper Mike Ladd, do underground rapper Roots Manuva, do Dj Robert Owens e do projecto experimentalista Fog. Como está bom de ver, o disco é um ajuntamento de géneros, percorrendo classes distintas da música electrónica, umas mais contemporâneas do que outras, mas sempre tentando convergências com as atmosferas progressivas do trip-hop. E, embora a estrutura das composições não aponte rumos novos (parece tentar acomodar os códigos antigos à linguagem actual) e, pior do que isso, se assemelhe a um amontoado de peças esparsas, a produção é cuidada e destaca um som profundamente urbano. Urbano demais, dir-se-à, já que o disco não envolve convincentemente o ouvinte na empatia sugerida pelos ambientes sonoros, deixando-o no frívolo meio-termo entre o apetite de descobrir mais ou, ao invés disso, preterir a sugestão.

Sound Mirrors é um caleidoscópio de vistas largas sobre as várias concepções da electrónica (e misturas audazes com outros formatos) e, por isso, é também uma obra fragmentada. Ainda assim, a vitalidade palpável de composições como o explosivo single "Everything Is Out of Control", a deliciosamente retro "Just For The Kick", a mecânica digital do tema-título ou o vangardismo experimental de "A Whistle and a Prayer", confirma que, se Sound Mirrors resulta algo desconjuntado, também funda porções suficientemente iluminadas que, a par da produção, bastam para o não fazer um disco inferior. Até porque é a prova provada de que nem todos os dinossauros estão extintos. Estes, prosseguem as suas jornadas exploratórias e continuam a jogar habilmente com o pulsar electrónico. Nem a erosão do tempo os demove da satisfação de criar a bel-prazer .

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Robert Pollard - From a Compound Eye

Apreciação final: 7/10
Edição: Merge, Janeiro 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: http://robertpollard.net








O mais recente trabalho a solo do maestro criativo dos extintos Guided by Voices é já o oitavo exercício individual mas parece o primeiro. E assim é porque o músico busca em From a Compound Eye a definitiva consolidação de um estatuto próprio, descolado das configurações da banda que liderou durante quase duas décadas. Não é que o som seja tão declaradamente diverso mas deixa um lastro de nova iniciação, como se Pollard aspirasse a um outro baptismo musical, um renascimento. De parte foram deixados os caracteres experimentalistas que nortearam os anteriores trabalhos a solo - não eram mais do que provas de um tirocínio fora das fronteiras do GBV - e trocados por um som mais completo e mais musculado, em aparente contraste com o lo-fi dos GBV, e vizinho de estruturas pouco respeitadoras de géneros. A atmosfera maioritariamente art-rock do duplo álbum é perfumada por aromas The Who e, nas palavras do próprio Pollard, o disco resume-se a quatro P's: pop, punk, psicadélico e progressivo. O tom prosaico da definição tem paralelo no disco, num rol de composições em que convivem algumas das criações mais oportunas de Pollard e outras tantas peças despiciendas. Dessa incongruência deriva a sensação de que esta colecção de canções é extensa demais (26 faixas) e acaba por embaciar o brilho de faixas como "Love Is Stronger Than Witchcraft" ou "Lightshow".

Não estão em causa os dotes criativos de Pollard (já estavam certificados há muito tempo), tampouco a indulgência de tentar uma mímica musical mais introspectiva com a mesma linguagem abstracta que emprestou aos GBV, mas From a Compound Eye não indicia qualquer evolução musical e, ao fim de algumas audições, faz-se notar, sem surpresa, a similitude com pedaços dos vastos ambientes sonoros dos GBV. No fundo, à procura de um génio que não se revela, mais do mesmo: algumas boas canções e alguns pontapés no ar. From a Compound Eye é um gourmet de iguarias várias, ou não fosse um disco de Pollard, mas que deve ser consumido com uma regra de cepticismo. Como quem espeta o garfo no bife tártaro e torce o nariz às alcaparras na borda do prato.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Liars - Drum's Not Dead

Apreciação final: 8/10
Edição: Mute Records/EMI, Fevereiro 2006
Género: Pós-Rock/Vanguardista/Experimental
Sítio Oficial: www.liarsliarsliars.com








A formação académica nas artes dos nova-iorquinos Angus Andrew e Aaron Hemphill não passa despercebida às fundações do projecto Liars, uma aventura que iniciaram há meia dúzia de anos e que, chegada ao terceiro longa-duração, ainda evidencia a salutar indecisão do escultor no exacto momento de gravar a pedra a cinzel. Talvez fruto dessa incerteza, ou do interesse em firmar um estilo pouco dado a praxes, os Liars mudam de pele em cada álbum, adquirem formas e tonalidades musicais diferentes, ao ponto de pouco se descortinarem laivos de uma identidade sonora. Eles fazem questão de ser mesmo assim e encontrar estímulos criativos nas metamorfoses a que se obrigam e que os remetem para territórios musicais originais. Em Drum's Not Dead há um conceito de surrealismo futurista (sublinhado pelo DVD de suporte do álbum), em torno de duas personagens ficcionais, emblemas das duas metades do processo criativo: o genuíno Drum, o símbolo da firmeza e da criação, representado na dinâmica propulsora de percussões que é regra no disco (as convulsões rítmicas das batidas assumem-se como o instrumento-mãe), e o reticente Mount Heart Attack, o reagente da dúvida e do stress, subliminarmente exposto nas texturas menos sinfónicas dos elementos digitais.

Distantes parecem os tempos em que o corpo musical dos Liars era um formulário de guitarras desvairadas e de composições feitas para perturbar. Definitivamente mais próximo do ideário experimentalista (também mais pacífico para os ouvidos...), o som dos Liars tem, neste disco, qualquer coisa de tribal, ao jeito de rock inculto, com suposições melódicas interessantes (as faixas do sr. Drum) e ligeiras cambiantes industriais (com o sr. Heart Attack). Mais do que isso, o álbum consegue um raro feito: troca as voltas do tempo, tocando planos vanguardistas com percussões primitivas. Aos Liars, pouco importa o anacronismo ou a lógica; interessa-lhes prosseguir a sua expedição exploratória e fazer música espontânea e de impulsos. Mais do que um álbum superior, Drum's Not Dead é um tratado psíquico. E uma fantasia musical tão única e verosímil que parece sempre ter estado alojada num cantinho escuro da memória. A música dos Liars trouxe a luz.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Joy Division

Os Joy Division afirmaram-se no apogeu da era punk britânica, quando a energia irreverente dos niilistas Sex Pistols extasiava os mais jovens e chocava a fleumática sociedade inglesa. Ao invés do vigor e da raiva, o colectivo liderado pelo malogrado Ian Curtis afirmou-se num registo menos explícito, mais fechado e, sobretudo, mais melancólico e reflexivo. A curta carreira discográfica do grupo - apenas editaram dois álbuns de estúdio - deixou um lastro de angústia emocional, ao ponto de, no final da década de 70, os Joy Division se terem tornado os ícones de uma geração desorientada, orfã de gurus e que se revia nas confissões parabólicas de Curtis, com um som quase industrial, tortuoso e profundamente pessoal.

Lançado pouco tempo depois do suicídio de Curtis, o álbum Closer (1980) é a obra mais ecléctica dos Joy Division e é considerado por muitos como uma das peças documentais mais importantes da história recente da música britânica. O tema "Heart and Soul" é um dos exercícios de apocalipse pessoal mais bem conseguidos do ensemble inglês e integrou o alinhamento da edição original do disco. Uma canção taciturna e algo misteriosa, tão problemática quanto a doente mente de Curtis (o músico era epiléptico).

Para escutar esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de sete dias.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

Bengt Ekerot e Max von Sydow em Det Sjunde Inseglet (O Sétimo Selo, 1957)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Ursula Rucker - Ma' At Mama

Apreciação final: 7/10
Edição: K7, Janeiro 2006
Género: Spoken Word/Downtempo
Sítio Oficial: www.ursula-rucker.com








A música da norte-americana Ursula Rucker não é música, é palavra. Ela está de volta com Ma' At Mama e assume, cada vez mais, o estatuto de figura de proa do formato spoken word. Para quem não está familiarizado com o anglicismo, trata-se de uma família musical próxima das raízes do hip-hop, em que se articulam discursos sobre um fundo musical moderno e urbano e que é feito, grosso modo, de partes iguais de soul, funk e jazz, como convém à genealogia afro-americana. No caso de Rucker, o tom é assertivo; ela não faz caso de trivialidades, dá prioridade aos sentimentos mais viscerais. Foi à custa deles que formou uma identidade musical com contextos autobiográficos, experiências relatadas na primeira pessoa e, por isso, mais cruas e cáusticas. Mas a exposição pessoal não é feita de borla, o auditor fica sujeito a sermões ácidos, a orações sem pudor de ferir explicitamente as mais puristas decências instaladas. Parental Advisory: Explicit Lyrics. Autora de poesia quase cantada e que verseja sobre problemáticas mundanas ou solicitações divinas, Rucker é uma espécie de profeta esconjuradora e soldado de doutrinas da cultura negra. Para ela, as guerras não têm nada de santas. E a palavra é a espingarda mais mortal, à procura da verdade entre as ruínas invisíveis do confronto civilizacional.

Ma' At Mama é o terceiro álbum da anti-diva e é o equivalente musical de um sumo concentrado. Aqui, ao invés do sumo e da polpa de um fruto, acumula-se paixão e revolta. Junte-se-lhe controvérsia q.b., competência no uso da palavra como arma de arremesso e uma postura intrépida e aí está a sinopse artística do disco. Invocando o princípio universal da verdade, do equílibrio e ordem da cultura egípcia (Ma'at), Rucker assina um trabalho que se propõe ser o catalisador da mudança social e do despertar de consciências. A esse nível, talvez não faça mossa a grande escala mas, ao ritmo do solene dardejar das composições, há-de fazer-nos corar de vergonha do nosso tacanho egoísmo. Ou não.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Tiga - Sexor

Apreciação final: 8/10
Edição: PIAS/Different, Fevereiro 2006
Género: Techno/House/Dance-Club
Sítio Oficial: www.tiga.ca








O planeta Sexor é um produto da mente do conceituado produtor e DJ canadiano Tiga. Mais do que parte integrante de uma galáxia imaginária, o primeiro disco de Tiga é um casulo de ritmos que rimam com dança; lá dentro há puro fogo de artifício das pistas de danças dos 80's, numa intoxicação melódica excitante e pejada de boas vibrações . Sexor ataca declaradamente todos os dancefloors mas fá-lo com alma e fito e com uma sensualidade que mistura matrizes techno e house. No fundo, a proposta é pop mascarada de música de discoteca (chamam-lhe electro-pop), mas a sua versatilidade deriva das feições intemporais - até chegam a sentir-se alguns mimetismos Depeche Mode ou Kraftwerk - de composições inteligentes e aprimoradas com requinte. Trocado por miúdos, Sexor tem as prováveis medidas de um clássico electro-pop que recupera a idade de ouro dos sintetizadores, acrescentando-lhes substâncias modernas. E consegue isso sem soar datado, antes produzindo ambientes sonoros frescos, muito por conta da excelência da produção, a cargo do próprio Tiga, dos irmãos Dewaele (dos projectos Soulwax e 2 Many Dj's) e do mago techno sueco, o ilustre Jesper Dahlback. A engrossar a lista de convidados célebres, Jake Shears (Scissor Sisters) empresta a voz ao single de apresentação, "You Gonna Want Me".

A reputação de Tiga antecede-o: atrás desta edição, está um arsenal de produções na área da música de dança e diversos remixes de gente conhecida (LCD Soundsystem, Felix da Housecat, Fisherspooner, Mylo e Scissor Sisters, entre outros). Com uma longa gestação de cerca de cinco anos na fase de produção, o álbum de estreia do canadiano prova as suas aptidões como compositor. É uma colecção extasiante de convites irrecusáveis para dançar e, não obstante os momentos menos felizes - que até nem são escritos por Tiga - como as covers de "Down in It" (Nine Inch Nails) e "Burnin' Down the House" (Talking Heads), o disco tem uma vitalidade incansável. Sexor é um dos momentos mais bem conseguidos da cena electro-pop dos últimos anos e não estranhará se, daqui por uns tempos, se virem uns corpos jovens e desnorteados a bambolearem-se com este som numa qualquer discoteca deste país.

Postal Musicado: Velvet Underground

Inspirada no livro homónimo de Leopold von Sacher-Masoch - publicação que está na génese do conceito de masoquismo - esta canção escrita por Lou Reed integra o alinhamento de um dos álbuns mais significativos da história da música. Velvet Underground & Nico, editado originalmente em 1967, é um disco essencial para qualquer melómano que se preze e foi um dos capítulos mais influenciadores de décadas de gerações musicais seguintes, sendo ainda hoje aceite como um marco da música independente. Com ilustração de capa e produção do artista plástico Andy Warhol, o disco inclui alguns êxitos inesquecíveis do legado dos míticos Velvet Underground.

"Venus in Furs" conta-nos a história de Severin, o alter-ego literário de Leopold von Sacher-Masoch, e da forma como, em tenra idade, construiu o simbolismo sexual do prazer no sofrimento, a partir das sevícias de uma tia que, trajada com peles, gradualmente se converteu, na mente solitária do jovem Severin, de severo algoz a objecto de idolatria sexual. Ou de como, do tormento físico nasceu o prazer. A caneta de Reed captou na perfeição a volúpia descritiva de "Venus in Furs".

Para ouvir esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

The Weatherman - Cruisin' Alaska

Apreciação final: 7/10
Edição: Mono''cromatica, Fevereiro 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.monocromatica.com








O sítio oficial da etiqueta Mono''cromatica apresenta o gaiense Alexandre Monteiro como um personagem fechado, alguém que passou uma mocidade algo isolada do mundo exterior e que encontrou na música a fuga mental para a misantropia. Desses estímulos musicais redentores, ressaltam os Beatles ou os Beach Boys, como o próprio admitiu em entrevistas recentes. As alusões são óbvias e cruzam, de uma ponta à outra, o alinhamento de Cruisin' Alaska, o seu disco de estreia, um exercício pop retrospectivo que se deixa guiar por coordenadas nostálgicas da década de 60 e que, sem as privar do imediatismo e simplicidade, as transpõe para o universo zeloso da pop contemporânea. Cruisin' Alaska é, de certa forma, um disco inocente e de validade caseira, primorosamente desviado das certezas; Alexandre Monteiro prefere as contingências côr-de-rosa dos sonhos, e passa-as a melodias copiadas a papel químico. Porque, lá fora no mundo real, nem tudo tem as cores da ficção. A música de Weatherman é, portanto, uma pop retro luminosa, de colorações vivas que não se rebaixam por, aqui e ali, se disfarçarem de preto e branco. Nesse tabuleiro de emoções do álbum, ainda que tenham lugar partículas de melancolia, o optimismo ganha por margem mínima e faz alarde de si em coros harmoniosos, vozes múltiplas e orquestrações de estio que só se desprendem do acanho ao fim de algumas audições. Mas, em tempo algum, arreda pé dos ambientes sonoros o vestígio de melancolia que, afinal, não deixa que o disco resvale para o tom de felicidade parvinha. À prova de tontices, portanto.

Alexandre Monteiro não é fingidor como os poetas nem precisa de rimar para versejar. Basta-lhe adorar Wilson e Lennon e cozinhar (bem) a sua música. Se para tal precisa de escapulir-se para o Alaska (ou para um sucedâneo mais próximo: a estância de esqui de Sierra del Sol...), dêem-lhe asas para imaginar. Depois, junte-se-lhe a perspicácia solitária de um eremita musical, a espontaneidade e o risco dos momentos pouco ponderados e o resultado é Cruisin' Alaska. Nem sempre os peritos da meteorologia acertam nas previsões mas, ao escutar o álbum de estreia deste homem do tempo gaiense, dá vontade de apostar que, para os tempos mais próximos, se esperam dias de sol com o céu ligeiramente nublado. Como a música de Weatherman.

Posto de escutaPeople Get Lazy
Descarregue o single de apresentação (mp3)
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Edward Hopper, Nighthawks, 1942

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Don McLean

A canção que hoje proponho foi editada originalmente em 1971 no álbum American Pie do músico nova-iorquino Don McLean. Com mais de oito minutos de duração, a canção viria a tornar-se um dos mais improváveis êxitos da história do rock, tornando-se o ícone incontornável de uma geração, por força do simbolismo de fazer menção a uma tragédia que marcou o final da década de 50: o célebre acidente de aviação que haveria de pôr prematuramente fim à vida de Buddy Holly e Ritchie Vallens, figuras de proa da afirmação do rock'n'roll. Holly tinha 22 anos e Vallens apenas 17 (tinha acabado de lançar o seu êxito intemporal, "La Bamba"). Aconteceu no dia 3 de Fevereiro de 1959 o dia em que, segundo a letra de McLean, a música morreu.

Para escutar esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Loosers - Bully Bones of Belgie

Apreciação final: 7/10
Edição: Qbico Records, Janeiro 2006 (Vinil)
Género: Experimental/Fusão/Tribal
Sítio Oficial: www.loosersarefree.com








Depois de terem inquietado os circuitos mais independentes da música lisboeta com o inspirado álbum For All The Round Suns, editado em 2005, os Loosers abrem-nos a porta do seu quarto escuro. Em Bully Bones of Belgie, uma edição única em vinil, não se repetem a voracidade e a fricção do longa-duração e troca-se o suor musculado das distorções e o psicadelismo vocal por planos de transcendência. O noise rock não mora aqui, os compassos são pesados, arrastam-se indefinidamente para o infinito da mente, como num ritual pagão, quase endemoninhado, feito de mantras tétricos e cismas de ruídos desprendidos. A pulsação é tribal, toma fôlegos de uma espécie de cerimonial mórbido de adulação a criaturas ímpias. O lado A de Bully Bones of Belgie podia muito bem ser o fundo musical de uma missa negra de exaltação do transe ou o requiem de um clã índio perdido nos confins da periferia da civilização e rendido a politeísmos anárquicos. É assim também a música dos Loosers, intencionalmente desordenada, minimalista na expressão e extrema na sugestão espiritual.

Do outro lado do mesmo vinil verde, a proposta tem outras curvas. As composições são mais urgentes, também mais empanturradas de sons. O embalo tribal esbate-se e dá lugar a abstracções mais próprias do pós-rock, verdadeiros malabarismos onde a guitarra adulterada esboça ângulos alucinogénios, de espectro multicolor. A dinâmica torna-se menos ritualista e mais experimental, mas não se corrompe a empatia das manobras hipnotizantes. A dada altura, já não conseguem os sentidos opor-se à vastidão de impulsos que a música serve. Restarão, no espírito, os ecos improvisados e imagens sonoras das acrobacias. Bully Bones of Belgie não é música para ouvir, é para sentir. Não entra pelos tímpanos, é um vapor que se cheira, se inala e nos invade as narinas, direito ao cérebro, impondo alegorias de ritos obscuros e desconhecidos, figurações fantasmais de universos paralelos e dogmas pagãos, bruxarias e sacríficios, prestidigitações e equilibrismos. A tundra e o circo.

Em contraste com o primeiro longa-duração, os Loosers exprimem-se em fraseados musicais mais experimentais e dir-se-ia que desponta de Bully Bones of Belgie um elemento místico não proposto noutros trabalhos. Ou não traçado assim. Conclusão óbvia: Tiago Miranda e seus pares são alquimistas. Não sabem a pedra filosofal mas, neste disco, só mudam de palco: ora no papel de sacerdotes tribais de ocasião (lado A), ora na incumbência de saltimbancos de feira (lado B), saem-se a preceito. Entre as paredes do quarto escuro, eles não são os mesmos, são tão livres como no endereço do sítio oficial.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Postal Musicado : Tom Waits

Instrumentalizações pouco comuns a tenderem para a cacofonia, uma voz cavernosa inconfundível, conteúdos surrealistas nas letras e um caos sonoro anti-convenções são alguns dos atributos que marcaram a carreira de Tom Waits. Reconhecido como um dos mais inventivos criadores da sua geração, Waits é um mercador de emoções, molda-as como poucos em códigos musicais variados. Difícil mesmo é fechar o seu trabalho num rótulo único.

A composição que hoje proponho é um dos momentos mais melancólicos da carreira do músico americano, a inesquecível balada "Tom Traubert's Blues", do álbum Small Change (1976). Os tricotados do piano são completados por arranjos orquestrais sublimes, destacando a voz pesarosa e grave de Waits.

Para escutar esta canção, clique aqui.
As canções do Postal Musicado estão disponíveis por um período máximo de 7 dias.

Sparks - Hello Young Lovers

Apreciação final: 7/10
Edição: Gut/Edel, Fevereiro 2006
Género: Pop Erudita/Opera Rock/New Wave
Sítio Oficial: www.allsparks.com








Excêntrico. No dicionário da língua portuguesa, o adjectivo significa fora do centro, com centro diferente, extravagante, original, esquisito, caprichoso. Qualquer um desses sinónimos é atributo da música que os irmãos Mael (Ron e Russell) fazem há cerca de três décadas e meia, conservando as alegorias que fizeram deles um dos mais inventivos conceitos musicais do universo marginal do rock. E os Sparks orgulham-se dessa marginalização, ou não fosse ela decretada pelas suas composições, declaradamente desafiadoras da irrefutabilidade das regras e assumidamente provocadoras. A estratégia está montada: compôr uma bizarra amálgama de sons, sem relação com coisa alguma, com teclas liderantes e cordas assertivas, flutuações rítmicas em esquemas de altos e baixos, um corpo instrumental perto das estruturas clássicas da música de câmara, construções vocais com o peso dramático de uma ópera-rock. O repto ao ouvinte repete os mesmos extremos que haviam sido elogiados no esplêndido Lil' Beethoven e, quatro anos volvidos, não estão ainda esgotadas as sombras desse disco. Ao escutá-lo, apossa-se do intelecto uma leve desilusão por perceber que Hello Young Lovers falha dois tiros tentados: nem é o álbum de continuidade possível nem propõe planos não estreados antes. É, antes, um disco de replays do antecessor e limita-se a repescar equações de Lil' Beethoven. E deixá-las em piloto automático.

Hello Young Lovers não é um disco nocivo. Longe disso. O seu defeito maior é ser a sequela de uma obra magna e, por isso, ficar ofuscado por um fulgor que dificilmente alcançaria. Para quem é habitué em cortes radicais com o convencionalismo que elevam as fasquias da exigência a níveis imensos, os Sparks ficam aquém de si mesmos. Ainda assim, há aqui peças com dons indesmentiveis, como a vaidosa "Metaphors", a sóbria "Waterproof", a imaginativa "There's No Such Thing As Aliens" ou a efusiva e irónica "(Baby Baby) Can I Invade Your Country?". Com mais momentos assim, Hello Young Lovers teria sido uma rapsódia em paridade com os instantes mais inspirados da discografia dos Sparks.

Posto de escutaCravo e Canela(Baby Baby) Can I Invade Your Country?
Para ouvir estas amostras precisa do Real Player. Descarregue-o aqui.
Clique na imagem para ampliar

Frantisek Kupka, Planes By Colors - Large Nude, 1909-10

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

The Elected - Sun, Sun, Sun

Apreciação final: 6/10
Edição: SubPop/Musicactiva, Janeiro 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.theelected.com








A fotografia que ilustra as páginas centrais do booklet do novo trabalho dos The Elected - o projecto paralelo de Blake Sennett, guitarrista dos Rilo Kiley - é uma apresentação gráfica eloquente do som fornecido pelo quarteto californiano neste Sun, Sun, Sun. Nela, dois dos elementos do grupo (o próprio Sennett e Mike Bloom) parecem dividir uma serenata ocasional a duas moçoilas, numa toalha de picnic, num areal à beira-mar, com a bruma clandestina de Los Angeles a servir de testemunha. Assim é a música registada no fonograma: romântica, bela pela franqueza e sensibilidade mas simultaneamente introspectiva dos reflexos ambíguos do amor. Nestes retratos musicados há, também, alguma coisa de genuíno da Califórnia, seja nas melodias poeirentas do Oeste (ao jeito de Neil Young ou Gram Parson), seja na pop que tributa o Pacífico (de que Brian Wilson é o pupilo mais relevante). No fundo, Sun, Sun, Sun é uma colagem de fragmentos de um universo idílico, um mundo de ficções soft rock que resultam de combinações expeditas de guitarras (acústicas e eléctricas), banjos, um outro instrumento de sopro e a voz (às vezes exageradamente) murmurante de Bennett. As composições não fazem um logro, são mesmo ensolaradas e lembram repetidamente, em trejeitos harmónicos cativantes, o sentimento que melhor serve de sinopse ao disco: o relaxe (moleza?) depois de uma tarde soalheira de praia. Depois, as histórias versadas nas letras são poéticas e humoradas, desde o episódio do pequeno pássaro que, mesmo com a asa quebrada, ainda é capaz de cantar ("Clouds Parting"), ao parzinho de namorados que vão caçar apenas para usar os bonés de caça ("Would You Come With Me"), por exemplo.

Sun, Sun, Sun é uma ode ao sol e aos amores que sob o seu amparo se cultivam e vibra tão naturalmente quanto os improvisos musicais espontâneos de uma reunião de escuteiros. Não se deduza daqui que o som revela amadorismo; o quarteto mostra índices de coesão superiores ao trabalho de estreia, a escrita é do melhor da carreira de Bennett e seus pares e a produção é cristalina. O busílis deste sol: o primor técnico é nota dominante de tal jeito que a matemática dos preciosismos chega a roubar alma a canções que só teriam a ganhar em se expôrem com mais autenticidade. E isso é o que impede este Sun, Sun, Sun de ser o disco magno que podia ter sido.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

John Hurt em The Elephant Man (O Homem Elefante, 1980)

Postal Musicado: David Bowie

O camaleão é uma referência intemporal. Prestes a celebrar os quarenta anos de carreira nas lides discográficas, o britânico David Bowie escreveu algumas das mais memoráveis canções da pop dos anos 70 e 80. À irreverência visual dos vários alter-egos que criou - com o celebérrimo Ziggy Stardust à cabeça - Bowie soma um traço de criatividade ímpar, dando enfoque ao recurso a tons vocais menos comuns e à integração de instrumentalizações que, a despeito de subliminares pitadas de psicadelismo, serviram de base àquilo que, mais tarde, se convencionaria chamar de glam rock.

A proposta que aqui deixo é uma repescagem do grande clássico "Heroes", co-escrito por Brian Eno e parte integrante do alinhamento do álbum homónimo lançado em 1977. A guitarra de Robert Fripp (King Crimson) também andava por aqui nesta altura. Indiscutivelmente, uma das grandes canções da segunda metada dos anos 70 e um marco inesquecível na carreira de Bowie.

Para escutar esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Electric Masada - At the Mountains of Madness

Apreciação final: 8/10
Edição: Tzadik, Novembro 2005
Género: Free Jazz-Rock/Improviso/Fusão
Sítio Oficial: www.tzadik.com








O que se pode esperar de um ensemble que reúne, além do saxofone do poliglota musical e maestro /compositor John Zorn, as aptidões reconhecidas do percussionista brasileiro Cyro Baptista, dos bateristas Joey Baron e Kenny Wollesen, do baixista Trevor Dunn (colaborador regular de Mike Patton no projecto Fantômas), do guitarrista Mark Ribot (líder do colectivo Los Cubanos Postizos), do teclista Jamie Saft e do improvisador digital japonês Ikue Mori? Certamente pode esperar-se tudo o que é a antítese da convenção. O paradigma desta ilustre Electric Masada é, como decorre dos manuais inventivos de Zorn, virar a música do avesso, remisturar conceitos numa linguagem musical universal, carregada de referências transversais que percorrem uma multitude de géneros, desde o misticismo dos ritmos orientais a um certo ritualismo pagão da música africana, do tempero acalorado das cadências latinas ao colorido inesgotável do klezmer, da elasticidade do jazz ao laconismo dos blues, do psicadelismo do noise rock ao pulsar confortável do funk, das alucinações do free jazz à precisão da composição regrada. Deste aparente caos não resulta um jogo babélico, antes se afirma uma impressão musical autónoma cuja lei maior é a transgressão de normas. O produto da Electric Masada, aqui registando em disco duplo alguns momentos de actuações ao vivo do octeto (Moscovo e Ljubliana), é uma massa sonora de incomum intensidade e de acutilância electrizante, jogando habilmente com as alternâncias que os diálogos de instrumentos propõem e que as derivações de ritmo suportam. Depois, nenhum dos músicos se sobrepõe aos demais: o sax alto de Zorn é gracioso, a guitarra de Ribot é tão cabalmente hostil como amistosa, o baixo de Dunn faz marcação cerrada à vibração das percussões e, para fechar o conjunto com chave dourada, as interferências digitais de Mori e as ramificações analógicas de Saft acrescentam ingredientes preciosos a esta genuína recreação de várias longitudes culturais.

At the Mountains of Madness é uma excursão musical sem rédeas e sem limites. Expede-nos, entre as alusões bem-vindas à identidade musical de Miles Davis, dos saudosos Naked City (de Zorn) ou do lendário Frank Zappa, para o songbook que Zorn encetou no dealbar da década de 90, a ilustre série Masada, supostamente um conjunto de peças (mais de 200!) passíveis de serem tocadas em qualquer género musical. Tal como o melhor material da Masada, a matriz melódica é, aqui, ecléctica e alterna entre os instantes mais atmosféricos e os jams mais furiosos de improviso jazz, com os indissociáveis adereços rock. Única reclamação: com tantas composições para escolher porquê repetir - mesmo sabendo-se que o improviso torna cada interpretação uma peça única - seis delas nos dois discos desta edição? Esquecendo esse pormenor, At the Mountains of Madness é um documento imprescindível e tem um discurso tão multilingue que dispensa tradução. A música como linguagem universal.

Posto de escutaMetal TovKaraimTekufah

Postal musicado: Stan Getz

De uma assentada, o postal musicado rende hoje merecida homenagem a três nomes consagrados do jazz e que gravaram para a etiqueta Verve, na edição de 1963 que aqui se recorda, algumas das principais pérolas do património musical do grande António Carlos Jobim. O compositor brasileiro foi convidado, a par do guitarrista e intérprete João Gilberto, para as míticas sessões de gravação imaginadas pelo sublime saxofonista Stan Getz, num dos périplos que este realizou pela América do Sul, em plena década de 60. A voz aveludada de João Gilberto e os acordes românticos da sua guitarra casam magistralmente com o tom inconfundível do saxofone de Getz e as teclas intervenientes de mestre Jobim. O tema aqui apresentado é "Só Danço Samba".

Para escutar esta canção, clique aqui.
As canções do Postal Musicado só estarão disponíveis num prazo máximo de sete dias.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Björk

Hoje trago-vos uma canção da islandesa Björk. Integrada no álbum Homogenic, lançado em 1997, "Jóga" é, ainda hoje, reconhecida como um dos mais sublimes contributos de Björk para a pop nas suas vertentes mais eruditas.


Senhora de uma visão artística ímpar e de uma criatividade a toda a prova, a nórdica deposita nesta composição uma carga emotiva intensa e escreve, a dada altura: "You don't have to speak, I feel". Apetece escutar esta "Jóga" e retorquir a esse desafio com um simples "Nós também".





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