sábado, 29 de abril de 2006

Gregor Samsa - 55:12

Apreciação final: 7/10
Edição: Own Records/AnAnAnA, Abril 2006
Género: Pós-Rock
Sítio Oficial: www.gregorsamsa.com








No universo kafkiano, o nome Gregor Samsa representa a desafortunada personagem d' A Metamorfose que, num claustrofóbico despertar, se descobre transformado numa gigantesca barata. No mundo da música, tal epíteto baptiza um quarteto americano convertido ao pulsar do pós-rock mais delicado e que se esmera por nos remeter para jogos mentais e ambientes sonoros em crescendo, conjugando as confissões matemáticas da guitarra eléctrica, a placidez do piano e o tom clássico das cordas. No fundo, a proposta não se distancia muito dos costumes dos canadianos Godspeed You Black Emperor! e Silver Mt. Zion, talvez até dos islandeses Sigur Rós. Esta é uma corrente musical que se interroga a si mesma, sacudindo a apatia de fórmulas gastas e alvitrando, sem pretensões, composições de música suspensa, como que incorpórea e sustida no ar, vogante e misteriosa, enchendo vácuos mentais e domando inquietudes. Nesse sentido, a música dos Gregor Samsa é uma terapêutica ansiolítica, um indutor de transes quedos. E é-o porque prende o ouvinte com as tramas de ritmos flutuantes, do sossego minimalista, quase ausente, às subidas íngremes, às implosões súbitas que, em breve tempo, se convertem em inscrições que a ressonância crava na mente. A voz, de aparição fantasmática, é imaterial e ensonada; não se arroga além do mínimo, é servente de algo maior, é fracção de um complexo indivisível.

55:12 é um disco cerrado. A música dos Gregor Samsa deflagra-se em compassos lentos, sem urgência de avançar para os remates. Eles preferem consumir o tempo nos processos, manuseando com desembaraço os fragmentos etéreos do som e do silêncio, tentando aderências improváveis para depois, com a mesma presteza, despegar as combinações e começar tudo de novo. Pena é que, nesses ciclos de ensaio, os lances de entendimento mais minimalista fiquem aquém da pompa mágica e do primor dos momentos mais completos. No primeiro longa-duração do quarteto (depois de dois EP), percebe-se que, mesmo sem oferecerem substâncias desconhecidas, os Gregor Samsa têm fôlego para prender a atenção. E para ganhar o seu espaço. Assim eles se acostumem à carcaça de barata com que acordaram numa estranha manhã...

quinta-feira, 27 de abril de 2006

The Legendary Tiger Man - Masquerade

Apreciação final: 7/10
Edição: NorteSul, Março 2006
Género: Blues/Rock
Sítio Oficial: www.legendarytigerman.com








Paulo Furtado (Wray Gunn, ex-Tédo Boys) é um guitarrista talentoso. Disso já não restavam dúvidas. Das outras edições sob o epíteto The Legendary Tiger Man também era fácil perceber a sua faceta de explorador e a propensão quase inata com que o músico se dedica a dissecar as raízes dos mais puros blues ou, num sentido mais lato (e ambicioso), a reinventar as passadas do rock alimentado a trinados hesitantes de guitarra. No fundo, o conceito é o exigente one-man band, embora neste tomo Furtado convoque outros artesãos, seja para incluir desvarios da mesa de mistura (DJ Nel'Assassin), seja para acrescentar outras especiarias de guitarra (Dead Combo), ou mesmo incluir a máscara soul de João Doce. Não só por isso (mas também), a fluência do registo é a prova evidente de que o som de Furtado está menos mecânico, menos previsível e com ritmos mais versáteis. A escrita das composições é também mais precisa e essa condição sai reforçada da cirúrgica produção de Mário Barreiros. De facto, o acondicionamento de estúdio deu outro corpo às canções de Furtado, sem lhes roubar a singularidade esparsa de outros álbuns, mas abrindo outros ângulos.

Masquerade pode muito bem ser a melhor amostra do alter-ego artístico de Paulo Furtado. Mais uma vez, o músico é incrivelmente hábil a construir um recanto sonoro ímpar, recortado pelo picotado de um álbum de sons da América sulista. Sons de estrada, de poeiras, de cactos e serpentes. E mulheres desejadas. Mulheres sem rosto e sem nome, depositadas em altares de veneração. Do lado de cá destas fantasias, o ouvinte assiste a um desfile de canções que não se resignam a regras. E que baralham (elogio!) os blues de outrora com o Furtado de hoje. Ele ou a máscara desse solitário homem tigre que mostra as garras nos intervalos dos Wray Gunn.

terça-feira, 25 de abril de 2006

Black Ox Orkestar - Nisht Azoy

Apreciação final: 7/10
Edição: Constellation, Abril 2006
Género: Tradicional/Klezmer/Música Judaica
Sítio Oficial: www.cstrecords.com








Os primeiros acordes de Nisht Azoy denunciam uma atmosfera densa, algures entre o registo de um requiem judaico, de compassos lentos e sombrios, e o tom de um cerimonial de tribo, com vozes em uníssono a ensaiarem preces. Há qualquer coisa de ancestral neste som, na solenidade do canto, na evocação da transcendência e na formalidade com que desfilam as canções, ao jeito da antiga tradição do klezmer da Europa de Leste. Mas os Black Ox Orkestar são canadianos e injectam nos enredos festivos do folclore klezmer qualquer coisa de consternação, de melancolia, de introspecção. Ao invés do colorido ritmado, eles recorrem a melodias viradas para dentro, com a espessura emocional de um transe deprimido e buscando habilmente ambientes sonoros que cruzam o medieval com o moderno. A ambivalência do disco é sustentada por instrumentais de excelência com uma deliciosa inconstância de feições, partindo da música judaica tradicional e sugerindo uma série de fragmentos colaterais (música árabe, eslava, dos Balcãs e da Ásia), misturados em formatos pós-rock, sem compromisso com as regras de canção. Nisht Azoy é uma liturgia que sonda a carga dramática de várias escolas musicais e, como seria de esperar de músicos que integram os Godspeed You Black Emperor! ou os Silver Mt. Zion, lhe acrescenta ousadias de improviso e originalidade.

Cheio de espiritualidade, Nisht Azoy é um álbum para adeptos da folk sem espartilhos e com pendor para aproveitar os ensinamentos da world music. É também um disco vibrante e uma proposta tecnicamente imaculada de novos ornatos para a música judaica. A tamanho feitiço sob a forma de disco, a tão grandiosa expedição pela história da música, apenas falta soltar definitivamente as âncoras e cortar as últimas amarras. Porque intérpretes e discos deste volume são documentos de todas as eras e testamentos de todas as gentes. E Nisht Azoy é apenas a segunda jornada dos Black Ox Orkestra rumo à magna obra com que, algures no futuro, hão-de presentear os melómanos sequazes do cruzamento de culturas.

Posto de escutaSítio da Boomkat

domingo, 23 de abril de 2006

MoHa! - Raus Aus Stavanger

Apreciação final: 7/10
Edição: Rune Grammophon, Janeiro 2006
Género: Música Improvisada/Noise
Sítio Oficial: www.runegrammofon.com








O guitarrista Anders Hana (Jaga Jazzist) e o baterista Morten J. Olsen formam o duo MoHa!. Oriundos do submundo do jazz moderno norueguês, os dois jovens músicos experimentam nesta edição o devaneio da música improvisada. Arrítmico e irregular como convém a um álbum deste género, Raus Aus Stavanger é também um disco ácido, cru, sem manipulações de estúdio. É essencialmente um jogo de trabalhos manuais, onde a capacidade técnica e o sentido de oportunidade dos músicos se eleva a fasquias altas. As notas impõem-se com precisão; a energia provém da lenta combustão dos riffs lancinantes da guitarra de Hana, a que se juntam percussões sem compromisso harmónico, tão livres quanto os lacónicos pedacinhos de electrónica que condimentam as composições. Dir-se-ia que, ao seu jeito, os MoHa! subscrevem os preceitos do noise rock experimental, com impetuosos diálogos de sons e estruturas propositadamente fracturadas para testar limites, com explosões vulcânicas a suceder à placidez do discurso mais recatado. Essas flexões e contorções são um exercício masturbatório da mente para os MoHa!; eles exercitam-nas até à exaustão num registo físico, corpóreo. E assim é a música deles. Carnal e lasciva.

Raus Aus Stavanger não encaixa nos axiomas da trivialidade, nem sequer é disco aliado de ouvidos desprevenidos. É música de choques e de caos. Sem âncoras. Sôfrega. Suada. Sinistra, indomável, para chocar, quase ferir. Um murro no crânio. Uma agulha na aorta. Raus Aus Stavanger é a senha para redefinir os extremos das convenções musicais. Curioso é saber que um álbum assim monolítico e impressivo é ainda o registo de estreia (já tinham lançado dois CD-R de distribuição limitada) de um par de aventureiros cuja perícia promete um futuro florescente.

Posto de escutaB1C5C7

sábado, 22 de abril de 2006

Band of Horses - Everything All the Time

Apreciação final: 8/10
Edição: Sub Pop, Março 2006
Género: Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.bandofhorses.com








É praticamente insofismável que, com mais ou menos fintas, estes rapazes gostam do mestre Neil Young. E quando uma banda namorisca um ícone de tal nobreza podem ocorrer uma de duas coisas: ou faz uma mera reprodução de conceitos, incorrendo no pior dos riscos para um artista, o mimetismo, ou assume as reminiscências desse legado num jeito moderno e criativo. Foi assim que os My Morning Jacket subiram ao trono do rock alternativo americano, reinventando o coração da música de Young, sem lhe adulterar os princípios essenciais. E é isso que os estreantes Band of Horses (a aventura musical de Ben Bridwell e Matt Brooke começou com o agora extinto projecto Carissa's Wierd) ensaiam neste álbum, conseguindo um irrepreensível exercício do melhor rock independente. Assente em instrumentais de primeira água e na sobriedade da produção, o som dos Band of Horses, não sendo nada de original, é franco e simples e parece concebido para invocar estímulos emocionais. E fá-lo com a distinção das grandes obras, aquelas que nos inspiram desde o primeiro contacto mas que vão além de amores acidentais. Discos destes desenham ecos com corpo, ficam a ressoar no espírito como se sempre tivessem feito parte do nosso âmago.

A escrita dos Band of Horses não tem segredos: o balanço é quase imaculado entre o fraseado melódico aberto pelas guitarras, a figuração recatada da percussão, a pontuação sugerida pelo baixo e, claro, a reverberante voz de Ben Bridwell, mais aguda que grave. As canções variam da quietude dream pop ao rock expansivo, do trivial ao excelso, dos enigmas em elipse às linhas rectas, do singelo ao elaborado. Atestado anti-monotonia, entenda-se. Reduzir esta música à definição de country é ignorar as múltiplas dimensões nela inscritas, mormente o espectro etéreo do disco, aquele quinhão de vital espiritualidade que nos instiga a desvendar este álbum do primeiro ao último segundo. A Everything All the Time faltam apenas fragmentos de novidade mas, esquecendo esse detalhe, a eloquência deste debute é peremptória: os My Morning Jacket que se cuidem, anda aí uma suposta banda de equídeos pronta a usurpar-lhes o reinado.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Howe Gelb - 'Sno Angel Like You

Apreciação final: 8/10
Edição: Thrill Jockey, Março 2006
Género: Folk/Rock/Blues/Gospel
Sítio Oficial: www.giantsand.com








Chega a ser paradoxal que uma mente tão fértil como a de Howe Gelb resida nas paisagens áridas do Arizona. Do mentor dos Giant Sand, uma das bandas da música americana que gerou mais side projects (Calexico, Friends of Dean Martinez, OP8, The Band of Blacky Ranchette, Rainer, Arizona Amp and Alternator), não seria de esperar nada além da fecundidade habitual. Para este homem, transcrever para uma pauta os esquissos de uma canção é um exercício fisiológico natural, quase intuitivo. As composições são profundamente americanas, vão buscar conselhos à velhinha tradição da folk americana dos tempos em que se cantavam os discursos vadios da classe proletária, de Huddie Ledbetter (a.k.a.Leadbelly) a Woody Guthrie. Ora aí, ora perdidas na páginas imemoriais dos blues de Muddy Waters, Willie Dixon, John Lee Hooker ou Howlin' Wolf (particularmente sensíveis neste disco), as referências de Howe Gelb são retratos a preto e branco, da época do pós-Grande Depressão, de intérpretes de espírito livre, músicos que influenciariam uma segunda geração de rebeldes de caneta aguçada, como Bob Dylan ou Joni Mitchell, já nos anos 60. Comum a todos: a guitarra como arma de arremesso. E Gelb junta como poucos estas talhadas da história americana. De tal jeito que 'Sno Angel Like You é mais do que um mero disco, é uma lição de música, um tributo aos símbolos de ontens longínquos. Se isso não bastasse, para este trabalho, Gelb recrutou um coro gospel, os canadianos Voices of Praise, somando matérias espirituais - que nunca soam supérfluas - aos monólogos expressivos que a sua voz salgada entorna graciosamente nos tímpanos.

A música de Gelb é visceral, sentida e vibrante. Também por isso, combina quase na perfeição com a orgânica do gospel; é esse tom místico (não necessariamente religioso) que remata a melancolia seca e o assombro de Gelb (mesmo quando canta sobre coisas ditosas, como é o caso). 'Sno Angel Like You, o quinto exercício individual de Gelb, pode muito bem ser o seu mais sólido trabalho e vem confirmar aquilo que, dele, já se sabia. A Gelb pouco importa o fim; e, neste como noutros discos do músico americano, os expedientes para lá chegar, sejam folk, blues, rock, country ou gospel, num compositor deste calibre, acabam por redundar numa obra essencial.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

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Frank Myers Boggs, Entering the Port of Marseille, 1882

domingo, 16 de abril de 2006

Morrissey - Ringleader of the Tormentors

Apreciação final: 6/10
Edição: Sanctuary, Abril 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.morrisseymusic.com








Qualquer tentativa de arrolamento dos nomes mais carismáticos da música pop do Reino Unido terá de incluir o nome de Morrissey. Desde o tempo em que os Smiths alimentaram o fôlego de Manchester, em plena década de 80, marcando uma viragem decisiva no conceito rock britânico (dos sintetizadores às guitarras), ao seu trajecto individual, Morrissey afirmou-se como um ícone incontornável, um crooner incontestado e um melancólico controverso, com uma imensa legião de fãs devotos. Esse estatuto foi reforçado com o aclamado You Are the Quarry (2004), disco que o trouxe de volta à primeira linha do mediatismo, depois de um período de sete anos sem gravações. Dois anos volvidos, o britânico está de volta, fazendo-se acompanhar do lendário produtor nova-iorquino Tony Visconti, um nome celebérrimo da era glam-rock, e das orquestrações do maestro italiano Ennio Morricone (para a faixa "Dear God Please Help Me"). Musicalmente, Ringleader of the Tormentors é feito das substâncias costumeiras do mito Morrissey, num registo pop quebradiço e obcecado pela auto-comiseração, conduzido por uma voz espessa e crível e pela revelação de novas cores na vida do autor. A recente mudança para Roma, a alegada descoberta do amor e o fim do tão propalado celibato do cantor reservam o seu lugar no imaginário do disco, desviando Morrissey de alguns trejeitos histriónicos (típicos nos Smiths) e trazendo-o a um discurso de indulgências terra-a-terra.

Ringleader of the Tormentors não faz uso das lâminas da denúncia e, ao invés, é o mais romântico dos trabalhos de Morrissey, uma espécie de elegia consagrada às afeições. E essa é a sua maior falha, a omissão da grandiloquência que Morrissey opõe à privação e o esquecimento da sátira social caçadora de consciências dormentes. Dos (des)amores de Ringleader of the Tormentors sobram apenas algumas composições dignas do legado de Morrissey e a constatação de que este veterano da pop se esqueceu do ensinamento precioso que Iggy Pop e David Bowie imortalizaram na canção "Lust for Life". Aí, algures, se dizia: "Something Called Love (...), that's like hypnotizing chickens". E Morrissey já sabe que há muito mais na vida do que hipnotizar galinhas.

sábado, 15 de abril de 2006

Moonspell - Memorial

Apreciação final: 6/10
Edição: SPV/Universal Music, Abril 2006
Género: Metal Gótico
Sítio Oficial: www.moonspell.com








Os portugueses Moonspell estão de volta. Depois da magna edição de Antidote (2003), um dos trabalhos mais substanciosos do percurso da banda, o sucessor Memorial estará nos escaparates no final de Abril. Recuperando a produção de Waldemar Sorychta - já havia misturado os primeiros trabalhos do grupo - os Moonspell cuidam de remexer na geometria do seu som, através do reforço do segmento gótico e dos ambientes negros. A voz de Fernando Ribeiro exprime-se em orações mais guturais, sem o mesmo sossego melódico que adornava algumas das faixas do antecessor. Se tal variação aproxima Memorial dos exercícios mais antigos da mais internacional das bandas lusas, não é menos verdade que, sem a volubilidade vocal que caracterizou os instantes mais inspirados do percurso dos Moonspell, o alinhamento do álbum se torna mais uniforme e, consequentemente, menos chamativo. A produção de Sorychta sublinha a face sombria das composições, apostando na emotividade das teclas e secções rítmicas para desenhar ambientes mais contemplativos do que os de The Antidote mas, a despeito do perfeccionismo técnico, empacota as faixas com a mesma receita, tornando-as demasiado iguais para serem tomadas por dissemelhantes. Nesse aspecto, o pecado é dividido com a escrita complexa dos Moonspell, uns furos abaixo da média que se exige a protagonistas deste quilate.

Memorial é um disco de ambientes requintados, uma espécie de cântico negro que toca na alma e faz vibrar (inquietar) o espírito. Nisso, os Moonspell são mestres. Pena é que a escrita tenha ficado aquém daquilo que eles podem fazer, preferindo repousar no refúgio confortável das ideias já exploradas no passado, recalcando-as com a competência costumeira, mas sem procurar a inovação criativa que os catapultou para a primeira linha do metal gótico. Memorial é certamente gótico e conserva aquela pujança que aprisiona o ouvinte e o tenta a experimentar uma visita aos argumentos mais escuros de si mesmo, sujeitando-se à pungente introspecção dos relatos do seu memorial. Ainda assim, falta-lhe o fragmento de excelência dos Moonspell, algo que poderia abrir-lhe as portas do panteão onde residem as castas de elite do metal gótico. E artesãos da igualha dos gloriosos Moonspell não se podem dar por satisfeitos com menos do que isso.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Destroyer - Destroyer's Rubies

Apreciação final: 8/10
Edição: Merge, Fevereiro 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.mergerecords.com








O ego de Dan Bejar não se enche apenas com o êxito do ensemble The New Pornographers. A par do envolvimento nesse colectivo de celebridades das correntes mais alternativas da música canadiana, onde divide as composições com A.C. Newman, Bejar é o homem por detrás do projecto Destroyer. Com um percurso a solo paralelo ao trajecto dos Pornographers, o músico busca ambientes pop um pouco mais recatados, com enfoque especial na expressividade das canções, orientadas pelo discurso da guitarra, a acomodar o imediatismo dos poemas. O resto é pura diversão, às vezes com réstias daquela dimensão teatral que os Pornographers tão bem subscrevem, no resto do tempo com uma simplicidade desarmante e um peso emocional vincado. E ao conjugar estes ingredientes assim, Bejar recorre ao mesmo imaginário de Bowie, esse legado mágico onde o psicadelismo subliminar alimenta a letra e agarra a música pela mão. Canções com substância, entenda-se. Ao mesmo tempo, as convenções são postas de parte; Bejar prefere assumir uma certa esquizofrenia criativa, algo patente no jeito com que molda as suas canções fazendo uso dos paradigmas da folk e integrando-os com propriedade nas matrizes do rock lo fi. O desfecho é um pouco labiríntico, roçando os limites do (des)entendimento, mas sobeja a inspiração de uma escrita propositadamente densa.

Destroyer's Rubies é uma massa sonora rica de conteúdo. Isso não surpreende em Bejar. Da mesma forma, não é novo que o disco revele uma certa predilecção pela metáfora. Ou pela repetição. Mas com Bejar nem a aliteração é irritante, mesmo quando se encaminha pelo aparente facilitismo dos la la la la las (e há muitos!). É por isso que dele se escreve que está numa encruzilhada pop-folk-qualquer-coisa, entre os lugares despovoados de Dylan, as pradarias coloridas de uns Beatles ou as alucinações espalhafatosas de Bowie. O amparo é ilustre, Bejar aceita-o mas não se resume a isso. É precisamente o pedacinho que ele acrescenta que faz deste Destroyer's Rubies o melhor produto do seu percurso a solo e, em simultâneo, um dos momentos pop mais inspiradores deste ano.

terça-feira, 11 de abril de 2006

The Flaming Lips - At War With the Mystics

Apreciação final: 7/10
Edição: Warner, Abril 2006
Género: Pop-Rock Alternativo/Experimental
Sítio Oficial: www.flaminglips.com








Quanto mais se ouvem os norte-americanos The Flaming Lips mais se lhes acham vestígios de invulgaridade. Considere-se isto pop de elites melómanas ou outra coisa qualquer que rime com música espacial, a verdade é que o som da banda do guitarrista Wayne Coyne parece produto de outra dimensão, com um aparato orquestral e uma mística incomuns. Ao décimo segundo trabalho de um percurso marcado pela irreverência criativa e pelo apetite recorrente pela reinvenção, os Lips conservam intactos os argumentos que lhes asseguraram o estatuto de bem-amados da música alternativa dos E.U.A.. Está aqui tudo: melodias que nos abraçam, arranjos psicadélicos a virar-nos do avesso, uma produção cheia de tiques e minudências suculentas e tramas sonoras pautadas pelo experimentalismo. Além disso, At War With the Mystics é um álbum conciso, exorciza habilmente a tentação dispersiva que este tipo de som sugere e aí reside a sua força motriz. As canções continuam a ser um veículo privilegiado para cruzar emoções (e estilos), embora fiquem aquém das duas edições anteriores do grupo.

At War With the Mystics é um disco com conotação política clara. O destinatário: George W. Bush. Ou o seu alter-ego num espaço sideral imaginado por Coyne. E quando se trata destas aventuras de faz-de-conta-que-és-astronauta-mas-afinal-és-um-músico com metáforas porreiras não há melhor do que Coyne e seus pares. Eles avistam, focam, assentam arraiais e exploram, sondam e pesquisam. E não se dão por satisfeitos. Só faltou alcançar a mesma centelha que iluminou The Soft Bulletin (1999) ou Yoshimi Battles the Pink Robot (2002). Mas isso talvez fosse pedir de mais. Ainda assim, esta expedita quadrilha de salteadores do espaço continua a tirar o véu a segredos universais proibidos. Pois que nos deixem continuar a testemunhar estes pedaços raros de música de uma galáxia desconhecida.

domingo, 9 de abril de 2006

sábado, 8 de abril de 2006

Graham Coxon - Love Travels at Illegal Speeds

Apreciação final: 6/10
Edição: Parlophone/EMI, Março 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.grahamcoxon.co.uk








Já se sabe que Graham Coxon se sente bem no resguardo da música convencional. Do seu percurso a solo este é já o sexto rebento e vem confirmar, na linha dos antecessores, que o ex-guitarrista dos Blur, é transparente. Se ele fosse um mero caixeiro-viajante, de passagem por uma qualquer localidade perdida nos mapas, usaria o gasto pregão: "Não estou aqui para enganar ninguém!". E não está, de facto. A sua música é isto. Pode-se-lhe imputar alguma simplicidade seguidora dos manuais do pós-punk - com combinações pouco polidas de acordes - e um perfil irresoluto no andamento das canções. Esse é, de resto, um dos embaraços deste Love Travels at Illegal Speeds cujo rol de composições se divide entre duas extremidades: uma face mais rock, com mais chama e nervo (um mix da festividade 80's com o embalo dos 60's) e, outra, recatada e lo-fi, com as meditações a ajustarem-se às medidas de balada. O outro óbice é estratégico. Se nos primeiros discos a solo ele se entreteve a sondar as camadas mais experimentais da pop, tentando demarcar-se da sombra dos Blur e buscando outra identidade musical, agora parece mudar a agulha e fazer uma fuga para a frente, com tantos mimetismos Blur que a dúvida nasce. Ele está com saudades? Peculiar mesmo é descobrir, depois de algumas audições, que as alavancas do disco estão na herança dos Blur. Falta a lima de Damon Albarn.

Love Travels at Illegal Speeds é um álbum generoso e, mesmo não contendo nada de especialmente inovador, merece uma escuta. Quanto mais não seja porque o seu mentor foi foco criativo de um dos mais estimulantes ensembles da britpop dos anos 90. Claro que Love Travels at Illegal Speeds não é um disco dos Blur. Coxon, sozinho, não chega a tanto. Mas é, ainda assim, um exercício pop de boa casta, revelador de um músico maduro e com vistas largas o suficiente para urdir um disco com um som moderno (e fresco), sem pejo de espreitar por cima do ombro e aproveitar umas pistas do passado. E Coxon tem orgulho (saudade) das fotos no álbum de fotografias.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Ben Harper - Both Sides of the Gun

Apreciação final: 5/10
Edição: Virgin, Março 2006
Género: Pop-Rock
Sítio Oficial: www.benharper.net








Ben Harper é rapaz para andar nestas coisas da música há uma dúzia de anos e despertou para o estrelato com o álbum Fight For Your Mind (1995). Nessa edição, Harper afirmou-se como um trovador de emoções, um escritor de canções singelas e um contador de histórias com protagonismo (e talento) suficiente para se impôr nos circuitos da pop menos comprometida com o mainstream. Num registo que guardava a alma negra da soul, a misantropia da folk quintessencial, o canto interventivo da tradição gospel e os princípios básicos da canção pop, Ben Harper estabeleceu um padrão diferente para as camadas espirituais da música comercial, alargando as fronteiras de um género musical muito pouco dado a mexidas. Instrumentista de créditos firmados, Harper foi gradualmente erigindo um património musical sólido e uma assinatura credível como compositor. O que Harper terá esquecido é que, por mais que seja virado do avesso, o mundo pop acaba por voltar ao ponto de partida, rejeitando no decurso os ensaios de transformação. Assim o tempo engoliu Harper. E lhe fechou as mesmas portas que ele meritoriamente escancarara.

Both Sides of the Gun é a sua mais recente tentativa de reabilitação, pegando nas mesmas ideias de sempre e enfeitando-as de canções novas. O azar de Harper é que a fórmula dele (que há quem considere única...) se esgotou e não há muito a fazer pelas composições que enchem este CD duplo. O primeiro disco é um arrastado bocejo de baladas, ao jeito de um jovem escuteiro em galanteio das miúdas do acampamento. O outro tomo, decididamente mais vivo (e mais merecedor do espaço nos escaparates das discotecas) não consegue, mesmo imitando alguns trejeitos engraçados da academia funk, superar em muito a mediocridade criativa do seu parceiro de caixa. É por isso que Both Sides of the Gun se resume a duas mensagens. Uma delas, é de que Ben Harper esgaravata para se manter à tona do turbilhão das suas próprias ideias. A outra é de que ele é, hoje, à custa de discos como este, apenas uma pálida reminiscência de outros tempos. Qualquer que seja o lado da arma, estes tiros conseguem a rara deformidade de apontar a tudo e a nada ao mesmo tempo. Também por isso, soam tão inócuos como alguns disparos de pólvora seca.

terça-feira, 4 de abril de 2006

Yeah Yeah Yeahs - Show Your Bones

Apreciação final: 6/10
Edição: Interscope, Março 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.yeahyeahyeahs.com








Três anos depois do estrondo com o ardente Fever to Tell, documento musical que integrou o pelotão da frente de um movimento revivalista do rock de garagem, o trio nova-iorquino Yeah Yeah Yeahs está de volta, com o segundo álbum de originais. Desengane-se quem buscar em Show Your Bones a mesma doutrina do antecessor. É certo que as máximas criativas estão cá, mas surgem moldadas a um formato menos cru, distante das improbabilidades celestiais de Fever to Tell. A competência com que os Yeah Yeah Yeahs mantinham, no álbum anterior, o equilíbrio no arriscado limbo da exequibilidade, recreando-se em fintas improváveis a três e desenhando canções quase impossíveis, esvaziou-se para dar lugar a construções melódicas lavradas com mais pormenor e que reforçam o flanco artístico do grupo. Nesse sentido, este disco é uma declaração de amadurecimento, mais art-rock-pop do que outra coisa qualquer, e procura trajectos distintos, sugerindo música com outras soluções e mais polpa. As referências reportam-nos para coisas estranhas, um híbrido de PJ Harvey antes do café da manhã, com uns Sonic Youth aparafusados, uns White Stripes sem anfetaminas, o espírito de um Josh Homme em mulher e uns Souxsie and the Banshees em afogamento. Misturando isto tudo, tem-se um álbum nervoso (e indefinido?), no mínimo.

Show Your Bones sonda terrenos novos para os Yeah Yeah Yeahs e, como todas as missões exploratórias, esquece o Norte em alguns instantes. Pior do que isso, o disco hipoteca a força motriz do grupo, aquela pujança rebelde e sentido de urgência que haviam catapultado Fever to Tell para os píncaros do êxito na comunidade indie. Karen O é um retrato a preto e branco dela mesma, refugiando-se em registos vocais menos expansivos. As guitarras de Nick Zinner são reproduções micro machines do álbum anterior. Os enigmas da percussão de Brian Chase assinam o livro de presenças, mas ficam no canto da sala. A Show Your Bones falta corpo, suor, energia. E os Yeah Yeah Yeahs tinham-na na mão. Não perceberam que, às vezes, melhor do que tentar agarrar outros pássaros (leia-se, avançar no tempo), é resguardar aquele que vem comer à nossa mão. Mesmo que ele seja destrambelhado. Como brilhantemente era Fever to Tell.

domingo, 2 de abril de 2006

Erro! - Isto é o quê, mãe?

Apreciação final: 7/10
Edição: Cobra, Fevereiro 2006
Género: Experimental
Sítio Oficial: http://erro.planetaclix.pt/








"Outra vez aquele som que se prende à parte de trás da tua mente". Assim escreve (e diz em jeito ressonante) João Palma na primeira frase do seu disco de estreia. Profecia ou petulância? O arquitecto lisboeta não é um músico de vocação, entregou-se a estas lides ao descobrir os favores do computador para fazer música, depois de ter sido instrumentista em alguns projectos locais da capital nacional. Em boa verdade, Isto é o quê, mãe? é música com uma forte componente experimental e onde se encaixam monólogos de reflexão existencialista. Não há palavras cantadas, elas cruzam-se com as texturas sonoras, em orações que retratam o quotidiano de um homem e de uma cidade. É, por isso, um álbum profundamente urbano, de sons polidos e de invenções progressistas. Depois, há qualquer coisa de maquinal, na intencionalidade com que os sons colados olham para dentro, mirando a face mais introspectiva do músico (e do cidadão) e buscando, com retóricas ironias, a purgação de impurezas do espírito. A música torna-se inevitavelmente convulsa, ora inquietante ora pacificadora, sublinhando os ecos agrestes que se libertam das palavras. Musicalmente, Isto é o quê, Mãe? pode não trazer conceitos revolucionários, nem a tal se candidata; é, antes de mais, um disco que resgata os esqueletos do armário, dá-lhes liberdade e margens dilatadas, a vogar algures entre os propósitos mais recentes da música electrónica de vanguarda (qualquer coisinha de Steve Reich), um cheirinho de rock com um lastro Joy Division ou Sonic Youth e qualquer coisa que só tem lugar nos imensos buracos negros do universo musical. Ou aí, ou nos cromos fugidios do álbum da vida de João Palma.

Isto é o quê, Mãe? é um disco ambivalente e com os tons cinzentos de uma Lisboa com arco-íris. Comove na mesma medida que perturba. É música fria e visceral, de temperamento orgânico, como se fôra o discurso de um mecanismo artificial à procura do sentimento. E, a despeito de instantes menos felizes, João Palma faz do seu Erro! uma criatura digital com vida. E, aqui e ali, nesta edição com a chancela da editora de Adolfo Luxúria Canibal, o músico faz-nos crer que, de moto próprio, alguns sons conseguem mesmo prender-se à parte de trás da nossa mente.

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