segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Jana Hunter - Blank Unstaring Heirs of Doom

Apreciação final: 7/10
Edição: Gnomonsong, Outubro 2005
Género: Folk Minimalista/Pop Psicadélico
Sítio Oficial: www.janahunter.tk








Blank Unstaring Heirs of Doom é o produto de uma década de gravações domésticas e oferece-nos uma cópia musical fiel de um espaço folk pouco comum, onde as composições não temem afirmar um certo desprendimento dadaísta, em apelos repetidos ao subconsciente. Essa convocatória enternece na doce ingenuidade e na feição rudimentar do contexto: a voz hipnotizante de Hunter voga como um fantasma, simultaneamente casta e assombradora, sobre paisagens sonoras que abreviam distâncias para a lugubridade, sem menosprezar um simples piscar de olho à tradição mais viva da folk. As canções - se assim se podem chamar - de Hunter não têm fundo, interceptam fracções das mais puras emoções humanas, arrebatam-nas do imaginário colectivo para lhes injectarem a bonança de um resguardo individual. O álbum é esse couto. Nele, à inquietude sucede a calma, fazem folias entre si, em retalhos tão frágeis quanto a intimidade ousa. Tudo muito pessoal, quase misantrópico e ensimesmado. Sem complexos, a voz errante da texana Jana Hunter vagueia despreocupadamente nesse éter não desenhado, em radiações fracturadas e com o fervor intrínseco às frustrações da solidão.

Apadrinhada pela nova editora de Devendra Banhart, com quem dividiu recentemente um álbum conjunto, Hunter não é uma mera discípula. Fazendo uso de um suporte instrumental maioritariamente acústico e assumindo uma impressão mais descolorida (porque mais sorumbática) que a do seu protector, Hunter é uma anarquista, não faz caso de regras melódicas e rabisca combinações de sons com propensão melancólica, em fórmulas indefinidas e que, para confusão do auditor, terminam, na derradeira faixa do álbum, com uma surpresa electrónica. Com tempos diferentes e espaços distintos, Blank Unstaring Heirs of Doom é uma exortação à transcendência. Tudo feito no mais primitivo sentido, ao jeito de uma confissão gravada no quarto ao lado. E quando as coisas se tornam assim tão pessoais e arrepiantes, quase nos atrevemos a considerá-las nossas.


Posto de escutaFarm, Ca.RestlessK

2 comentários:

Hugo Amaral disse...

parabéns! o teu blog era-me completamente desconhecido ou pelo menos não me lembro de ter passado por ele! De hoje em diante passa a ser uma referência nos meus links!!

abraços

...obrigado pelo comment!!

A.C. disse...

Os votos de parabéns são recíprocos.

Obrigado pelas visitas, esta e as que se seguirão.

Um abraço.