segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Arizona Amp and Alternator

Apreciação final: 7/10
Edição: Thrill Jockey/Dwitza, Setembro 2005
Género: Indie Rock/Country/Folk Alternativo
Sítio Oficial: www.thrilljockey.com








Escrever sobre Howe Gelb é registar uma mente eremita que leva os desertos do Arizona para todo o lado e fazer prova de um homem que na última década e meia deixou pegadas da sua inventividade como líder dos Giant Sand e depois dos OP8 e que também criou a sua própria editora discográfica, a Ow Om. Reconhecido pelos críticos como um dos mais influentes compositores da folk minimalista americana, Gelb é um escritor de canções incansável e, para o mais recente tomo do seu extenso catálogo, convocou a ajuda de alguns amigos ilustres, como M. Ward, Scout Niblett, John Parish e Jason Lyttle, entre outros. O disco tem qualquer coisa de um country sujo, de grão na orelha, e da escola blues mais tradicional. Mas, mesmo assim, mantém-se um traço indissociável de Gelb: a inconstância intencional dos ritmos, as variações quase deslocadas da estrutura nuclear das composições, as notas intencionalmente fora do padrão. Gelb é tudo menos um ortodoxo, gosta da ironia de confundir o ouvinte, de baralhar-lhe as noções e as ideias preconcebidas. E é nisso que este disco encontra a sua força motriz, nos subterfúgios recorrentes e nas figuras de estilo musical que parodiam consigo mesmas. Arizona Amp and Alternator traz um som fresco e descontraído (tão relaxado que chega a parecer trapalhão), é simultaneamente uma metáfora e uma hipérbole de si mesmo. Não é um álbum arrumado, nem sequer na produção, e é suposto ser consumido como tal. E essa desordem - que na obra de outros músicos seria uma fracção de descrédito - é aqui um intermediário de charme e junta originalidade às canções, sem lhes subtrair a melodia. Mais curioso ainda é perceber que, aqui e ali, surpresa das surpresas, o registo nos faz lembrar Gainsbourg ou mesmo Waits. Ainda há surpresas boas.

As canções de Gelb têm, neste álbum, a abastança de diamantes brutos, deixados num estado natural, como corpos sem moldes. Não vale lapidar estas pedras preciosas. Basta poli-las e deixá-las a um canto. O seu brilho impõe-se no espaço e enche-nos os tímpanos de ressonâncias semelhantes ao ensaio de uma talentosa banda folk-country. E a história evolutiva do tema-título do álbum - com quatro versões diferentes no disco - é a derradeira confirmação daquilo que Gelb e os seus convidados pretendem mostrar-nos: estas composições não se fecham na sua dimensão, podem moldar-se, ganhar senso e crescer. Darwin no country? Não. Apenas um conjunto de improvisadores que se estão a marimbar para o livro de reclamações.

2 comentários:

Spaceboy disse...

Mais um bom disco vindo da mente criativa de Howe Gelb, que já criou belos discos com os Giant Sand.

A.C. disse...

E este faz mesmo lembrar os Giant Sand.

Abraço.