segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Kubik - Metamorphosia

Apreciação final: 8/10
Edição: Zounds, Agosto 2005
Género: Electrónica Vanguardista/Samples
Sítio Oficial: www.zounds.pt/bands/kubik/biog.html








O guardense Victor Afonso regressa às edições discográficas depois do inesperado Oblique Musique, lançado em 2001. Em Metamorphosia é mantido o acento tónico na componente experimental das composições, em rompimento declarado de convenções ou pretensiosismos. A vertente manifestamente vanguardista das orgânicas electrónicas é revigorada e, mediante a assunção de um risco acrescido, a sonoridade é mais minuciosa e dedica um relevo maior ao detalhe, sem medo da excentricidade (sempre controlada...) de repudiar estruturas de canção tradicionais. O som é objecto de alquimias repetidas, de subversões lúdicas, de fragmentações intencionais, de colagens e sobreposições que seguem os princípios criativos da bricolage de Afonso. A manipulação electrónica é o denominador comum do disco e o veio essencial da metamorfose musical do universo de Kubik, um labirinto conceptual e híbrido, um mundo uno e indivisível, um terreno bravio que apetece explorar ao milímetro. Desse espaço sónico provém um fluido musical invulgar, produto misterioso e progressista de um génio tímido cuja assinatura deixa um lastro quase-dadaísta, qual salteador que rouba pedaços de música ao seu habitat e os sobrepõem em encenações imagéticas multi-camadas, de cargas energéticas contrastantes e que remexem, de jeito surreal, o status quo. Victor Afonso tem uma linguagem musical própria, um código agitador de turbas; Metamorphosia é disforme na dimensão caótica das texturas, é ousado na liberdade criativa e revela-se um nicho polimórfico de plenitude musical.

Metamorphosia é, em si mesmo, um compromisso com coisa nenhuma, um documento musical livre e fatalmente cativante, uma nascente incorruptível, um baú de quimeras descerrado. A preencher o imaginário do álbum destacam-se os vultos de Adolfo Luxúria Canibal, Old Jerusalem (dá para o reconhecer em "I'm a Vampire, I'm Disgust"?), Américo Rodrigues (lembram-se do disco Aorta Tocante feito a partir de vegetais?) e César Prata (do projecto Chuchurumel). Aos outros ilustres convivas desta metamorfose, não se lhes vê o corpo...mas a alma diz presente; é como se Patton, Zorn, Ladd, os cLOUDDEAD, Zappa, os Residents e os Neu se houvessem reunido num sarau heterodoxo em serrania da Guarda. Ou no intelecto de Kubik. Candidato a melhor nacional do ano, Metamorphosia é um disco imperdível.


Procure na grafonola os temas "Sound Nest", "Cannibal Vegetables" e "I'm a Vampire, I'm Disgust"

1 comentário:

Likas Meow disse...

Quando escrever assim posso morrer em paz. :X Boa critica e bom artista