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domingo, 29 de julho de 2007

Bernardo Sassetti - Dúvida

8/10
Trem Azul
2007



Em paralelo com o percurso de escrita "académica" que o sancionou como um pianista jazz de escol e um dos mais talentosos compositores lusos da sua geração, Bernardo Sassetti tem vindo progressivamente a afirmar-se também na incumbência de produzir música de alcance cénico, para povoar ambientes do cinema e/ou do teatro. O acontecimento mais recente é este Dúvida, pensado para musicar a peça homónima de John Patrick Shanley, levada à cena no teatro Maria Matos, com encenação de Ana Luísa Guimarães e com Eunice Muñoz e Diogo Infante a encabeçarem o elenco de autores. Com a companhia oportuníssima da Sinfonietta de Lisboa (sob a direcção de Vasco Pearce de Azevedo), o registo é o mais clássico dos trabalhos do pianista, com o piano a desfiar os fraseados nucleares de cada peça, as mais das vezes numa inquietante oratória de placidez minimalista (nesse particular, as notas esparsas do piano encontram simetrias com a métrica despojada que conhecemos em Alice), a propor um nebuloso jogo coloquial com os acrescentos orquestrais e com o silêncio - aqui usado como sala de respiro onde as composições ganham novos fôlegos e regeneram causas. Nostálgico, nervoso e subliminarmente sombrio, Dúvida deixa-nos tão perto da fantasia romântica quanto do arquejo medroso da incerteza (como no texto original) e isso, com a espantosa noção de proporção de Sassetti, é a iniciação infalível para uma experiência auditiva única.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Bernardo Sassetti - Unreal: Sidewalk Cartoon

8/10
Clean Feed
2006
www.cleanfeed-records.com



Ao segundo capítulo de uma trilogia consagrada à feição imagética da música (o primeiro havia sido Ascent, lançado em 2005), o pianista Bernardo Sassetti fez algo mais do que uma mera obra discográfica. Unreal é um conceito pensado em dimensões várias, além do óbvio estímulo da arte principal (a música), a edição contém um livro e foi pensada para apresentação pública em formato multimédia, com projecção de vídeos. Ora, de música cogitada sob estas premissas é de esperar um envolvimento simbólico expressivo e a colagem às sugestões de órbita que derivam do texto humorado e surrealista de suporte; é através da música de Sassetti que melhor se reproduzem as imensas possibilidades de concretização da narrativa, insinuadas em simultâneo na mente e nas sucessões rítmicas dos trechos. Aí, é oportuníssimo o subsídio da percussão dos Drumming, das marimbas e vibrafones, a dividir o palanque com os acordes precisos da verve de Sassetti, precioso como sempre, e dos costumeiros Alexandre Frazão e José Salgueiro. E ainda há o saxofone de Perico Sambeat. E duas faixas emprestadas, de Monk e de Félix Reina. Música para ouvir e pensar. E, já agora, espreitar a apresentação ao vivo de um dos mais estimulantes momentos do jazz(?) português dos últimos tempos, pela mão de um dos seus mais insignes embaixadores.