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terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Jazkamer & Smegma - Endless Coast

7/10
No Fun
AnAnAnA
2007
www.myspace.com/
smegmatheoriginal



Quem acompanhou mais de perto as manifestações recentes do muito efervescente nicho do free jazz vanguardista americano, terá certamente ouvido falar do colectivo Smegma, cujas origens remontam à década de setenta e às fundações da mítica Los Angeles Free Music Society, o espaço de excelência para a afirmação de estetas mais radicais e voltados, sobretudo, para a especulação e/ou o improviso. A banda viria a mudar-se de armas e bagagens para Portland, já na década seguinte, mas, não tendo renegado minimamente o traço genético de experimentalismo e ousadia criativa das suas origens, sobreviveu às recorrentes contaminações que envolveram alguns dos seus parceiros "geracionais" e é, hoje, uma das poucas vozes subsistentes do movimento pioneiro da LAFMS. Orgulhosamente (auto?) proscritos de qualquer demanda de protagonismo mediático ou sequer de qualquer interferência estética exterior aos seus próprios postulados de incondicional libertinagem de estilos e formas, os Smegma foram acumulando uma sólida discografia de confrontação, em casos pontuais aceitando convergências criativas com outros artífices do noise ou da música livre (os casos mais sonantes são os do nipónico Merzbow, dos compatriotas Wolf Eyes ou do emblema do bizarro zappiano Wild Man Fischer).

Não é estranha, portanto, a aproximação ao trio norueguês Jazkamer que, com cerca de uma década de existência a recriar conceitos do noise mais extremista (aí erguendo pontes com alguns padrões estéticos mais próximos dos cânones metal), fez transbordar a expressão das suas competências além da esfera escandinava e é, presentemente, um dos bastiões com mais substância na cena experimentalista europeia. Da joint-venture absolutamente disforme (ou amorfa, se preferirmos) de Endless Coast, nasce um quinteto de peças sem qualquer pejo em prescindir de regras, ainda que partindo de uma essência mais ou menos importada do free jazz - o que é o mesmo que dizer que a única premissa é não haver premissa nenhuma - e marcadamente desafiante. Embora conceptualmente o trabalho não diste muito do património passado dos Smegma - aí ficando esclarecido o papel de regência neste processo - a interferência dos Jazkamer revela-se uma suculenta adição, sobretudo na forma como se interligam texturas instrumentais e ruídos de ocasião ou quando, coisa menos frequente, o disco deriva para ambientes mais "pesados" e concisos. Nada melhor, para rematar o dadaísmo especulativo dos Smegma (nisso eles lideram o escol), do que o glacial determinismo dos Jazkamer. O desfecho é entrópico, é vândalo como não podia deixar de ser, e só peca por, em certos instantes, não desatar irremediavelmente o caos. Mas, vistas bem as coisas, às tantas a explosão não estava nos planos...

Posto de escuta Sítio da Boomkat

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Jazkamer - Metal Music Machine

7/10
Smalltown Supernoise
AnAnAnA
2006
www.jazzkammer.com



Lasse Marhaug e John Hegre, as duas metades do projecto norueguês Jazzkammer (nesta edição grafado apenas com um "z" e um "m"), levam quase uma década de temerária sonda às extremidades do noise digital. Não causa admiração que, na peugada de outros artífices do género (Tim Hecker, por exemplo) que, nos tempos mais recentes, se deram à proximidade com algumas variantes do metal, os dois escandinavos tenham recrutado para este retorno alguns nomes sonantes desse movimento, mormente o guitarista/teclista Ivan Bjornson (Enslaved), o baterista Iver Sandoy e o guitarrista Olav Kristiseter (ambos dos Manngard). O desenlace é um feliz pacto entre o metal negro e extremo, em diversos galopes, e a feição emocional do experimentalismo típico da sigla Jazkamer. Embora a primeira dessas substâncias pareça prevalecer, a ponto de Metal Music Machine ser mais um disco de sons com peso do que propriamente um exercício de experimentação sónica, há nas entrelinhas das cinco peças do alinhamento o quinhão decisivo para destrinçar este álbum de outros: as costuras a noise digital. É também essa a inscrição (indispensável) de Marhaug e Hegre neste monumento de metal depurado nas máquinas, a que assenta como uma luva o título roubado a Lou Reed.