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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A cínica moralização da austeridade



O posicionamento estratégico do Estado português face à crise grega é qualquer coisa de inquietante. Perceber que a inflexibilidade maior, em pleno Eurogrupo, parece ter partido precisamente daqueles estados que, como Portugal, em razão das circunstâncias, menos terão a ganhar com ela merece uma reflexão mais profunda sobre aquilo em que veio a tornar-se a União Europeia e suas repercussões políticas. É hoje claro o afastamento do processo de construção europeia face aos ideais originais e a sua subversão a escalonamentos político-estratégicos que clivam distâncias entre estados-membros teoricamente tidos como iguais. Nem se trata tão-somente das óbvias (e inultrapassáveis) diferenças de peso político e de dimensão económico-financeira que, afinal, foram firmadas pelo curso da história e estariam sempre presentes, independentemente da direcção tomada pela evolução da Europa enquanto comunidade. O debate está, agora, centrado na divisão "moral" dos estados, o perverso maniqueísmo que isola a Grécia e que, antes disso, já permitira, por exemplo, a banalização (na opinião publicada) do epíteto P.I.G.S., sob o qual se arrumaram infamemente os países com problemas mais profundos de dívida externa. Essa compartimentação moral do espaço europeu conheceu novo episódio quando Maria Luís Albuquerque, com servilismo bobo, se deixou mostrar como símbolo da boa conduta austeritária. Wolfgang Schäuble sabia o que estava a fazer, ao jeito de um sinistro professor que exibia à turma europeia a sua mais obediente aluna, isolando ainda mais o "mau aluno" grego. A moralização da austeridade que Schäuble queria promover só serviu, em último caso, para a agudização de posições que se viu nos dias seguintes. Maria Luís Albuquerque inflou-se de jactância e pugnou, qual títere alemão, pelo endurecimento da negociação com as autoridades gregas, em plena reunião do mesmo Eurogrupo que, umas dezenas de meses antes, olhava para Portugal do mesmo soslaio que agora vira para a Grécia. E ver o estado português, agrilhoado por uma situação sócio-económica que todos os dias põe pontos de interrogação no horizonte, a alinhar convictamente com o cinismo desta tentativa de moralização da austeridade é perturbador. 

Moralizar a austeridade é, a meu ver, um erro de percepção das suas consequências e do actual momento europeu. É perigoso considerar um sucesso o que se passou em Portugal nos últimos anos. Os juros da dívida caíram, mas a dívida não. O garrote financeiro deixou serviços públicos à beira do colapso e atirou para o limiar de pobreza milhares de famílias. O desemprego subiu acima dos dois dígitos e tarda em regredir. Passar ao lado destes (e outros) factos, aqui, na Grécia, em Espanha, na Itália e onde quer que seja, é intelectualmente desonesto. Esquecer que a construção europeia não pode deixar de ser uma caminhada humanista, orientada para as pessoas e para o bem comum é perder o seu desígnio último. 

Há também quem venha ensaiando uma bizarra moralização política do recente plebiscito grego. Bem ou mal, e isso é sempre discutível, os gregos fizeram a escolha democrática de repudiar a estratégia que os empurrou para um caos arrepiante. E, também aqui, no domínio das opções democráticas, não há lugar para moralizações. A democracia faz-se de escolhas de uma comunidade e de como elas, reunidas em maioria, se tornam a sua representação legítima. Isto é inquestionável. Confundir, depois, a escolha dos gregos com renúncia ao pagamento da dívida é uma falácia mal-intencionada que serve a muitos, cá dentro e lá fora. Numa discussão séria, talvez seja chegada a hora de procurar, no mais saudável espírito humanista e de cooperação, a solução equilibrada para os países devedores conseguirem pagar aquilo que parece impagável. E isto não isenta de culpas a governação irresponsável que acumulou dívidas, nem significa o perdão destas. Significa, isso sim, a assunção responsável de um problema sério e que, a bem da sobrevivência do ideal europeu, só pode ser resolvido em sintonia. 


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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O prurido ideológico de Passos Coelho

É claro que ver o governo de Passos Coelho, comprometido com a obsessão austeritária que tomou de assalto a Europa nos últimos anos, na da crise das dívidas soberanas,  alinhar com o posicionamento do novo governo grego seria imaginar um impensável casamento entre a social-democracia mais mercantilista e o esquerdismo radicalizado (e humanista) que lhe está nos antípodas. Aí, não haveria lugar a ilusões. Portugal cumpriu, com zelo obediente, o programa de assistência financeira dos últimos anos e, ainda que a custo de uma das crises sócio-financeiras mais onerosas da sua história, puxa desses galões e mostra-se à Europa com a fátua prosápia de um país "recuperado" e que avança ufanamente para a antecipação de amortizações da dívida aos parceiros da troika. A Alemanha gosta, a Europa consente e o mundo segue. Mas pensar que Portugal está a cobro de problemas maiores e que, mais do que isso, passará imune por uma eventual saída grega do Euro é um erro estratégico que pode custar muito caro. Num momento tão crítico para a Europa, marcar distâncias para a posição grega e contribuir para o isolamento de um estado membro, é não perceber que as diferenças entre Portugal e Grécia são sobretudo de escala. A Grécia tem o monstro à sua frente, Portugal conseguiu apenas esquivar-se dele, mas não está a salvo. 
A encruzilhada financeira em que a Grécia se pôs, multiplicando imparavelmente a sua dívida, criou uma clivagem com o resto da Europa que parece irremediável. Isolada pelo peso dessa dívida aparentemente incobrável e, agora, também pelo preconceito ideológico das potências dominantes, à Grécia resta uma de duas vias: ou alinha com a estratégia comum europeia e prossegue as políticas dos últimos anos que não tiraram o país do abismo financeiro, ou deserta do Euro. A primeira hipótese é liminarmente rejeitada pela equipa governativa de Tsipras. A segunda pode ser o início do fim do processo de integração europeia. É por isso que a escolha por qualquer dos caminhos da bifurcação estratégica grega é, também, um problema europeu, primeiro, e português, depois. Passos Coelho não quis perceber que uma eventual saída da Grécia do Euro arrastará Portugal. Um Estado-membro deixar a União é um cataclismo político-financeiro de tal ordem que fará disparar o cepticismo dos mercados quanto à viabilidade de todo o edifício da Europa unida. E esse fantasma da dúvida, assim que a Grécia renuncie, assombrará imediatamente Portugal, ou não fossemos nós aqueles com maiores problemas de dívida externa depois dos gregos. A escalada dos juros dos países em situação mais periclitante (Portugal, Espanha, Itália, por exemplo) seguir-se-á à saída grega e, com ela, o desabamento dos equilíbrios tremidos conseguidos nos últimos anos. Passos Coelho e o seu governo, também o Presidente da República, não quiseram ainda perceber que a eventual exclusão da Grécia determinará, senão no imediato e sem outras medidas de emergência, a necessidade de um novo resgate para Portugal. Mais dívida e mais austeridade. É este ciclo vicioso que importa parar. E pará-lo implica evitar, até ao limite, a saída da Grécia.

Não ver que esta questão só pode ser um imperativo nacional é um erro estratégico gravíssimo de Portugal. O prurido ideológico não pode ultrapassar o interesse do país. Portugal e Grécia têm governos ideologicamente muito distantes, mas interesses comuns nestas matérias. A questão não é ideológica, já nem é puramente financeira. Não perceber que as ondas de contágio de uma deserção grega podem precipitar Portugal para o terrível ostracismo que agora impende sobre os gregos, não entender que podemos ser os seguintes da depuração financeira da zona Euro, é uma cegueira incomportável para o país.

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