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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Benfica na Champions: a insustentável pequenez


Alguns méritos não podem ser tirados a Jorge Jesus. Desde a sua chegada ao Benfica, a equipa de futebol dos encarnados redimensionou-se, potenciou jogadores e foi capaz de desafiar consistentemente a hegemonia portista. O bom futebol, os activos valorizados e o estádio com boa lotação tornaram-se regra na Luz, o que constituiu - e nisso o mérito é também partilhado com Luís Filipe Vieira - um inequívoco incremento da percepção de valor da marca Benfica. Em termos de eficácia desportiva, ainda assim, o registo interno não é superlativo: 2 campeonatos em 5 anos. Numa análise mais fina, do trio de ligas perdidas para o Porto nesse período, duas foram praticamente "oferecidas", com responsabilidades directas de Jorge Jesus, ora pela gestão negligente do quadro de jogadores e das expectativas emocionais nos momentos de decisão, ora por uma avaliação táctica nem sempre acertada nos momentos-chave da época. Mesmo retendo essas falhas, o balanço junto do universo encarnado é positivo, sobretudo depois de quase vinte décadas de penúria, a ver desfilar a caravana das vitórias azuis e brancas. Internamente, a nação benfiquista revê-se na reaproximação ao F.C. Porto, o que colocou o Benfica na órbita que a sua história impõe. 

Se abrirmos a objectiva à dimensão europeia, mormente à Liga dos Campeões, é difícil disfarçar o incómodo dos fracassos redondos que, no mesmo período de cinco anos, ditaram a eliminação precoce na fase de grupos em quatro ocasiões. É certo que, em duas delas, a migração para a Liga Europa abriu portas para o mediatismo de duas finais (perdidas), mas importa perceber a pequenez competitiva do Benfica no palco maior do futebol europeu de clubes. A Liga Europa é, como o tempo vem provando, uma competição à medida de símbolos de média dimensão, bem ao jeito dos grandes portugueses que, tendo o infortúnio de cair na Champions, logo se tornam favoritos à vitória final. Mas isso é outra questão. Porque falha então sucessivamente o Benfica no confronto com os maiores?

Há vários níveis de análise que importa destrinçar. O primeiro, e mais importante, prende-se com a definição de prioridades desportivas do Benfica e, mais particularmente, do seu treinador. O segundo deriva do discurso institucional sobre esta matéria, também ele acomodatício do insucesso. E, finalmente, o nível de exigência que chega à equipa em dois patamares: vindo da direcção e vindo do exterior, dos adeptos. 

Comecemos pelas prioridades definidas por Jorge Jesus. Desde cedo se percebeu, e bem, que atacar o campeonato seria o leitmotiv do treinador do Benfica. A urgência de devolver ao Benfica a sua identidade de clube ganhador e, mais do que isso, de romper o predomínio portista "obrigavam" a reclamar rapidamente o ceptro nacional. Até aí, tudo bem, um clube só é grande se continuar a ser grande, se o presente fizer jus ao passado. Viver de glórias de antanho era coisa de que o povo benfiquista estava farto. Nada errado, portanto, em focar a preparação competitiva da equipa para a liga doméstica. Conquistado o primeiro campeonato no primeiro ano (2009/10), com uma presença mediana na Liga Europa (saída nos quartos de final, com o Liverpool), estavam lançadas as bases para, nos anos subsequentes, ser solidificado o projecto europeu, a ambição confessada de Luís Filipe Vieira. Mas Jorge Jesus nunca entendeu uma parte nuclear do ADN Benfica. Ganhar internamente é importante, claro, mas não é a meta final. Ganhar ligas em Portugal deve ser o suporte para projectar a equipa no exterior, entre os melhores. A identidade de clube grande é urdida assim. Jesus nunca entendeu isso. Para ele, "o campeonato é a prioridade", tantas vezes se lhe ouviu a expressão. E tantas vezes, no seguimento disso, se percebeu que a gestão dos jogadores e das expectativas da época secundarizou a Liga dos Campeões, em favor do campeonato nacional, como se uma valesse menos do que o outro. Não perceber que um clube com a grandeza do Benfica tem que figurar entre os melhores, tem que ganhar entre os melhores - sobretudo nos anos em que tinha recursos para isso - é passar ao lado da quintessência do clube. E chegar à final da Liga Europa, até ganhá-la, não apaga as sucessivas débâcles na Champions. 11 vitórias em 29 partidas (ainda falta uma deste ano), nas últimas cinco edições da Champions é um pecúlio demasiado curto! Não o admitir e tentar cobrir este facto com a peneira das finais de Liga Europa é uma falácia que só serve a Jesus. 

Depois, há a questão do discurso institucional do clube. Além do treinador que assume abertamente a prioridade no campeonato, o presidente Luís Filipe Vieira tem mantido um estranho silêncio sobre as sucessivas eliminações prematuras na Champions, também se escudando na consolação da Liga Europa. Mas há um contrasenso nisso. Por um lado, fala-se em projecto europeu, em colocar o Benfica entre os melhores, no "sonho" de ganhar a Champions e, depois, nos momentos de fracasso na prova maior, não há uma palavra do presidente. Também ele toma como normal a pequenez competitiva do Benfica europeu? 

E isso entronca no terceiro nível de análise: a cultura de exigência. Depois de duas décadas de capitulação desportiva, a mística benfiquista era, antes da chegada de Luís Filipe Vieira, uma miragem. E se parte significativa dessa mística foi regenerada, sobretudo pela destreza do presidente em comprometer a família benfiquista com o projecto, não é menos verdade que certos sectores do clube, tanto nos corpos sociais, como na falange de adeptos, ainda convivem melhor com a derrota do que os congéneres portistas. Não se trata de copiar modelos desportivos ou de gestão, mas estudar o caso portista é estar em contacto com o mais completo e cabal exercício de construção de uma cultura de vitória, alicerçada em anos sucessivos de exigência, de vontade de ganhar mais. Seria inimaginável acontecerem tantas saídas sem brilho da Champions, no F.C. Porto, sem a reacção indignada da massa adepta e a consequente corroboração presidencial. O desaire não fica impune na Invicta. Ao contrário, ter um discurso fraco na hora de perder, não o assumir frontalmente, não ser capaz de acrescentar o indispensável tom crítico que suporta a cultura de exigência é abrir portas para a repetição do insucesso. E é isso que internamente o clube Benfica ainda não percebeu. A cultura de vitória é uma tarefa de todos os dias, de todos os momentos e de todos os protagonistas. Mais exigência há-de trazer mais vitórias. E Luís Filipe Vieira nunca foi suficientemente veemente quando a equipa e Jesus falharam na Champions. Tudo isto, depois, repercute-se nos adeptos. Eles são, a maior parte das vezes, o espelho do discurso institucional do clube. Se não se alimenta a cultura de vitória, os adeptos não a praticam também. E assim aceitam mais uma eliminação precoce na Champions. 

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Boavista e Chelsea: O anátema do autocarro


 A propósito do mais recente Porto – Boavista, reergueu-se uma discussão que sempre se levanta quando uma equipa grande não consegue desmontar o dispositivo defensivo de uma equipa com menos recursos. Quando as intenções ofensivas dos “ricos” esbarram na timidez táctica dos "pobres", fala-se recorrentemente do autocarro. O rótulo define uma ordenação táctica em bloco baixo, com pouca ambição ofensiva, com linhas muito juntas e que coloca, na maior parte dos casos, nove jogadores a defender, deixando a um, isolado na frente do bloco, a incumbência de fazer a transição. Assente normalmente numa matriz 5-4-1 (ou na variante 4-5-1), é um esquema que acantona o colectivo que defende em 40 metros e disposto em duas linhas perfeitamente definidas e com uma distância mínima entre si. O espaço para circulação de bola é ínfimo, o bloco – quando bem organizado – é cerrado e só desequilíbrios individuais ou acções colectivas muito bem ensaiadas podem criar alguma instabilidade. Foi exactamente perante isto que o Porto jogou. Do outro lado, estava o Boavista menos talentoso que vi, como é compreensível num colectivo que andou desterrado nas divisões secundárias nos últimos anos e tenta agora revitalizar-se.

Dizer que o onze de Lopetegui não ganhou porque o Boavista apostou no autocarro é uma falácia. Qualquer equipa grande tem que preparar-se para resolver enigmas deste género. No caso concreto do Boavista, não é justo esperar-se mais. Não há matéria para muito mais. Formada quase exclusivamente por novos jogadores no clube, a maior parte dos quais sem experiência em níveis competitivos mais exigentes, resta a Petit ir a jogo com os argumentos que tem. O autocarro pode não ser bonito e não beneficia certamente o espectáculo, mas é justo condenar alguém que, perante uma enorme disparidade de forças, se limita a fazer o que é humanamente possível?

Alargando a discussão à generalidade do planeta futebol, quando a relação de virtudes é muito distante, acredito que é tão legítimo defender porfiadamente como querer atacar sem peia. No choque entre as duas filosofias está o cerne da questão e que, afinal, redunda num mesmo objectivo: colocar o adversário perante a maior dificuldade possível, em função dos argumentos técnicos e tácticos de cada um. O Porto não foi capaz de meter o Rossio na Betesga por demérito próprio, é certo, mas sobretudo pela abnegada abordagem dos bravos boavisteiros. Ao Porto de Lopetegui faltou empertigar-se e o basco não está isento de culpas nisso. Ao mudar meia equipa para esta partida, passou ao balneário um sinal de duvidosa eficácia: não eram precisos os melhores para ganhar. E isso deixa sempre reflexos emocionais nos jogadores. Dessa acomodação na superioridade presumida, nasce a letargia. E, depois de ela instalar-se, vem ainda esbarrar na oposição firme de um adversário que, sendo notoriamente mais fraco, se posta muito recuado no terreno, tapando caminhos e fechando espaços. Para tornear isso, o Porto precisaria dos melhores predicados técnicos dos seus futebolistas, de paciência e de uma noite inspirada para desbloquear caminhos. Mas os desequilíbrios individuais não aconteceram e a inspiração colectiva também não. Escamotear isso e desculpar-se na estratégia adversária – a mais eficiente para os recursos disponíveis e nas circunstâncias do jogo – é um argumento sem cabimento.

Mais criticável é quando o recurso ao autocarro acontece numa equipa grande. Aí, com outros pressupostos e condições, não é desculpável o pragmatismo que se tolera a uma equipa pequena. Nesse sentido, as críticas de Pellegrini a Mourinho, no seguimento do recente Man City – Chelsea (1-1) são certeiras. Já nem é a primeira vez que o Happy One recorre ao autocarro. Voltou a fazê-lo, apostando num empate que teoricamente lhe servia e prescindindo quase em absoluto do momento ofensivo do jogo, pelo menos enquanto as equipas estiveram onze contra onze.  Fazer isto com os jogadores que Mourinho tem à disposição é, aí sim, um acto de lesa-futebol. Ter argumentos para discutir o jogo, para olhar o adversário nos olhos e jogar no campo todo e optar por não o fazer, pensando apenas em anular o oponente e na conveniência de um empate, é opção censurável. De uma equipa grande, espera-se mais do que o mero resultadismo; espera-se competência táctica nos quatro momentos dinâmicos do jogo (defesa, ataque, transição defensiva e transição ofensiva) e uma identidade culta nesses princípios. O compromisso com essa identidade, em todos os desafios, obriga a mais do que meramente anular o adversário. A cultura de posse, de gestão de ritmos de jogo, de circulação, de procura de espaços e a dinâmica táctica activa (não apenas reactiva) devem ser pressupostos presentes em todo o tempo. E, depois, a qualidade dos intervenientes ajudará a defender bem e a atacar melhor, com o suporte desse bom desempenho defensivo. Prescindir de parte importante desses definidores de identidade numa equipa grande é deixar de o ser, é pensar pequeno. Foi assim que Mourinho fez contra o City.

Portanto, criticar o recurso ao autocarro por si só e sem esta análise de circunstância é um erro. Numa equipa com limitações técnicas e tácticas e com insuficiente maturação de conceitos, é natural e aceitável a aposta no bloco baixo, no pragmatismo defensivo e rigor posicional quando, do outro lado, está um opositor com valências mais apuradas. Se isso acontece num colectivo de topo, mesmo com adversário da mesma igualha, tem naturalmente outra interpretação crítica e menos aceitação por quem aprecia o fenómeno futebolístico.

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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O regresso de Nani: despromoção ou segunda vida?


O regresso de Nani ao Sporting merece uma reflexão a vários níveis. Para o clube, envolver o internacional português na transferência de Marcos Rojo para o United foi uma jogada inteligente, embora não possa dizer-se que a operação não tem custos, naturalmente. Se Nani custa cinco milhões de euros por ano ao United, como parece constar agora, a sua entrada no negócio Rojo significa que o Sporting, ao invés de encaixar essa verba, preferiu resgatar o jogador. Há um benefício desportivo directo em detrimento de um encaixe financeiro maior. Independentemente disso, a presença mediática que a contratação de Nani transporta vai permitir um claro reforço do estado de graça de Bruno de Carvalho junto dos adeptos. Não só recupera um dos ídolos da torcida, muito antes da idade de reforma, como o faz depois de gerir com sagacidade o dossier Rojo e, com isso, estabelecer uma relação de forças com os fundos de investimento bem diferente da que era habitual para os lados de Alvalade. O braço de ferro pode ter sido mais aparente do que real, mas Bruno de Carvalho ganhou-o, fez um bom negócio com Rojo e ainda traz Nani. Melhor do que isto seria difícil.

Para Nani, a opção de regressar ao clube que o formou é especial, mas parece prematura. Aos 27 anos, o extremo está no auge das suas capacidades físico-atléticas e pode dar ainda muito ao futebol.  Pode argumentar-se que, nesta fase da sua carreira, se esperava que Nani tivesse sido capaz de chegar a outro nível, em face daquilo que os seus predicados técnicos desde cedo anunciavam. Ele próprio, quando instado a pronunciar-se sobre as expectativas para a sua carreira, há cerca de três anos, quando vivia um momento fulgurante no United, sublinhava a intenção de vir a tornar-se um dos melhores do mundo. De então para cá, com alguns problemas físicos de permeio, não foi capaz de manter a constância exibicional que é exigida a um futebolista de topo e perdeu protagonismo. Saiu da primeira linha de Ferguson e não mais foi capaz de regenerar-se. Abandonar Old Trafford, nesta altura, pode funcionar como a faísca emocional para esse ressurgimento, mas voltar a Portugal com vinte e sete anos é uma despromoção competitiva indisfarçável. Quando Nani saiu, a sua dimensão futebolística já não cabia nas medidas do futebol luso. Agora, regressa a casa à procura de uma saída de emergência para a carreira. Vai jogar mais, é óbvio, vai ter futebol de Champions e estará mais próximo da família e amigos. Veremos se isso será suficiente para fazer renascer o melhor Nani. Sobram dúvidas de que, sem o estímulo competitivo de um campeonato mais exigente, ele seja capaz de tocar a plenitude. Acomodar-se na fase descendente anunciada pelos últimos anos ou reerguer-se para uma segunda vida. Esta é a encruzilhada que Nani tem à sua frente e que só ele pode abordar.

Para a equipa, a experiência que Nani traz e a sua habituação a níveis elevados de exigência podem ser aportes importantes numa época de retoma desportiva. Além disso, o facto de exponenciar o entusiasmo dos adeptos funciona como estímulo adicional para os companheiros. Encaixará rapidamente no onze, emprestar-lhe-á desequilíbrio individual e repentismo e imporá o respeito que a nobreza do seu nome futebolístico não pode deixar de suscitar. Se for capaz de juntar consistência a isso, será um jogador decisivo na época leonina. 

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A remodelação do palácio madrileno: os utilitários e os galácticos


A chegada ao Real Madrid de Toni Kroos e James Rodríguez é um desafio táctico para Carlo Ancelotti. Não é nova no clube esta distorção mercantilista da política de contratações, muitas vezes mais voltadas para o mediatismo do que propriamente para as necessidades desportivas pontuais da sua equipa de futebol. O apogeu desta filosofia foi a chamada era dos galácticos, no primeiro consultado de Florentino Pérez na presidência, em que se tornou evidente essa aposta em nomes sonantes, ao invés de serem supridas as carências técnico-tácticas do plantel. O desequilíbrio notório da gestão desportiva e a desproporcional coexistência entre os melhores jogadores do mundo e jovens inexperientes foi simbolicamente posta sob o rótulo  "Zidanes y Pavones". Embora hoje o contexto seja um pouco diferente e a conjuntura interna tenha ditado, nos últimos anos (sobretudo com José Mourinho), uma política desportiva mais equilibrada e preparada para o êxito, não parece ter sido abandonada a ideia de que, em paralelo com o rendimento desportivo, o merchandising e os direitos de imagem pesam muito no incremento de valor da marca Real Madrid. Mais do que recrutar os melhores do mundo, ou tampouco procurar as melhores peças para a engrenagem colectiva funcionar em torno dessas estrelas, o primado do mediatismo é difícil de contornar em cada aquisição. 

James Rodríguez é exemplo acabado disso mesmo. Não teve uma época desportiva fulgurante no Mónaco, é um facto, mas chega a Madrid com o aval galáctico de um campeonato do Mundo em que se fez figura de proa. Kroos, por seu lado, foi pêndulo do Bayern e da selecção campeã do mundo e chega ao Bernabéu com uma aura diferente. Não é um galáctico, nem é um ícone mediático; pode não vender camisolas, pode não ser tão espectacular, mas é de uma utilidade técnico-táctica inquestionável, mesmo na sombra dos outros. Perceber esta dualidade é sinal de que a estrutura Real Madrid soube entender os erros do passado e que, sem abdicar do importantíssimo pendor mediático da chegada de novos jogadores, está mais apetrechada para replicar os êxitos recentes, já sem os suspiros pela Décima que, durante anos a fio, tolheram políticas desportivas, também assombradas pela ascensão interna do Barcelona mágico de Guardiola. Kroos não caberia na era galáctica e, hoje, está em Madrid. Ter este sentido utilitário do jogo e da importância dos equilíbrios colectivos para melhor fazer sobressair o talento, é um saudável passo em frente e que a sensibilidade italiana de Ancelotti interpreta cabalmente. Mourinho iniciou o processo - que veio a ser minado por atritos internos que o próprio alimentou - e Ancelotti solidifica-o.

O desafio será encaixar tantos talentos num onze. O técnico italiano, no rescaldo da vitória de ontem na Supertaça Europeia (2-0 ao Sevilha), fintou habilmente a questão, reportando-se à exigência de manter a equipa sempre a um nível alto, em toda a extensão da época desportiva e que isso só pode ser feito com mais do que onze titulares, promovendo a rotação da equipa. Terá forçosamente que o fazer, não apenas para gerir os estímulos motivacionais de cada jogador, mas também para evitar quebras competitivas do colectivo. 

No encontro de ontem, Ancelotti juntou o trio maravilha (Ronaldo, Bale, James). O colombiano dá os primeiros passos no universo merengue e procura ainda referências e coordenadas tácticas na equipa. Tem tudo para ser uma solução interessante nas dinâmicas posicionais que Ancelotti aprecia, sobretudo por mover-se muito bem atrás da posição nove (como falso dez) e por aparecer inteligentemente nos corredores, quando as trocas posicionais do carrossel madridista baralham as marcações adversárias. Atrás dessa flexibilidade táctica, o equilíbrio de Kroos pode ser decisivo. Melhor como médio de segunda linha e transição, também pode ser pivot (só ou em par) e tem uma noção espacial do jogo apuradíssima. É daqueles jogadores que se diz que está sempre no sítio certo, sabe transportar a bola e entregá-la com critério. Se vier a coexistir com Di María (está de saída?), pode fazer uma segunda linha de meio-campo de grande intensidade, de correctíssima interpretação zonal do jogo e, mais importante que isso, de fulcral equilíbrio para soltar os talentos para a construção. Ontem, foi Modric o companheiro de armas no meio-campo e o esquema esteve mais perto do duplo pivot móvel (em 4-2-3-1) que lhe limita um pouco o raio de acção. Mas já ficaram pistas sobre a sua utilidade para um colectivo que tem, este ano, o melhor grupo de jogadores da última década no Madrid. O palácio está remodelado.

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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O ocaso de Artur Moraes


Quando chegou à Luz para substituir o infeliz Roberto, Artur Moraes era a imagem da serenidade dentro e fora das quatro linhas. Em campo, os desempenhos desportivos, em Braga, mostraram-nos um guarda-redes com predicados de equipa grande: concentração competitiva, capacidade de desequilibrar, versatilidade e consistência emocional. A última tinha ecos no discurso público, sempre sereno e ponderado, com sentido de responsabilidade e a temperança de um homem suportado na experiência e na competência. A carreira no Brasil e nos primeiros tempos na Europa foi pautada por uma intermitência que não fazia adivinhar essas capacidades, reveladas em Braga, em 2010-2011. Mesmo aí, estava na sombra do seu compatriota Filipe até o regresso deste ao Brasil. A partir desse momento, agarrou o lugar, surpreendeu na liga portuguesa e ajudou o clube a chegar a uma improvável final europeia - foi considerado o melhor guarda-redes da prova nesse ano. Nos primeiros tempos no Benfica, não se atrapalhou com a responsabilidade de ser o número um e rapidamente conquistou os adeptos, com uma performance desportiva a vencer cepticismos e a confirmar aptidões. Erguia-se o Rei Artur, para as delícias do Terceiro Anel. O novo herói enterrava definitivamente o fantasma Roberto. E como se explica a queda do anjo?

Ser guarda-redes é ter uma das incumbências mais ingratas e polarizadoras de emoções no mundo do futebol. Se defende, está a cumprir a sua obrigação. Se não defende, não presta. Este simplismo julgador pode ser injusto, é certo, mas vem das bancadas que, à mínima falha, são céleres a apontar as culpas ao alvo mais frágil, àquele que, por ser o último bastião, o defensor do último reduto, não tem margem para falhar. Numa equipa de topo, este extremismo é ainda mais vincado. O guarda-redes é chamado a intervir menos vezes, é menos visto no jogo. Quando a acção chega a si, pode ter estado longos minutos como mero espectador. Também por isso, a perspicácia para "ler" os momentos do jogo e manter os níveis de concentração a todo o tempo é um requisito incontornável. A defesa da baliza de uma equipa pequena, quando se está completamente envolvido no jogo e permanentemente alerta, não deixa espaço para quebras de concentração. E, depois, é-se bom ou não consoante se soluciona bem, sob o ponto de vista técnico, a torrente de solicitações no jogo. Na equipa grande, voltada sistematicamente para o ataque, sobram lapsos consideráveis de tempo sem intervenção no jogo e é nesses momentos que pode diminuir a concentração. Um guarda-redes mentalmente menos preparado para ter níveis de concentração sem quebras, dificilmente não falhará nos poucos lances que chegam ao seu quintal.

A outro nível, a resiliência mental do guarda-redes é posta também à prova no exacto momento em que falha. Todos falham em algum momento da sua carreira, mas os melhores falham muito pouco. Importa sobretudo saber perceber a falha, reagir a ela e reerguer-se da adversidade ainda mais forte do que antes. Ter essa capacidade de regeneração/aprendizagem só está ao alcance dos predestinados.

Acredito que a Artur Moraes aconteceram duas coisas decisivas para o ocaso. A primeira, foi sentir-se confortavelmente pousado nos louros dos primeiros tempos e ter-se deslumbrado com o sucesso imediato. E a efemeridade desse êxito só podia ser invertida com persistência, trabalho e, lá está, muita força mental e abnegação para resistir à crítica e ao desgaste próprios da exposição (desportiva e social).

A segunda causa essencial do apagão de Artur foi a notória impreparação para regenerar-se depois do erro. Enquanto não falhou, foi capaz de manter-se à tona; com os erros, veio a auto-desconfiança e a incapacidade de repôr a crença em si mesmo. Sucederam-se as exibições comprometedoras e o guarda-redes benfiquista enredou-se na espiral depressiva da sua própria mente. Sem reacção, no curto espaço de meses, Artur Moraes tornou-se o contrário de si mesmo: inseguro, desconcentrado e periclitante. A chegada de Oblak agravou uma depressão anunciada, também fomentada por um episódio de tentativa de extorsão, na sua vida pessoal. De então para cá, a linguagem corporal de Artur Moraes - como foi visível na pré-temporada corrente - é a de um homem descrente e derrotado, sem alegria. Os erros repetem-se e nada parece pôr um travão no ciclo vicioso que há-de atirá-lo para fora da Luz. A mudança de ares até pode ser a melhor coisa a acontecer-lhe. Cabe a ele - e a quem houver de o ajudar - mudar este estado de coisas. O guarda-redes de 2011 ainda está lá. Falta recuperá-lo.

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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mundial 2014 : Portugal dos pequenitos


É inquietante perceber que, no rescaldo de uma participação medíocre no Campeonato do Mundo, parecem não haver consequências para ninguém. Mesmo admitindo que a fasquia das expectativas foi elevada acima do que aconselhava o juízo mais ponderado, o saldo apurado nos três jogos é francamente negativo e coloca-nos perante uma reflexão incontornável: como preparar o futuro da selecção? Respaldado no silêncio complacente da F.P.F., Paulo Bento esgueira-se entre os pingos da chuva e sente-se capaz de tomar em mãos o encargo de renovar o grupo e preparar o ciclo seguinte de grandes competições, a começar já em Setembro, com a qualificação para o Euro 2016. Em face do se viu no Brasil, a união do grupo não é mais do que a ruína que a fase de qualificação denunciou e o playoff com a Suécia apenas disfarçou. Ao mesmo tempo, o apagão competitivo de alguns elementos nucleares na equipa e a inacreditável sequência de problemas físicos, puseram a nu as fragilidades de uma preparação deficiente e de uma convocatória questionável. Também nesses domínios, a culpa vai morrer solteira. E espera-se que seja esta mesmíssima estrutura federativa e o actual corpo técnico a revigorarem o grupo, a reinventarem o espaço das selecções nacionais e a prepararem a nova geração para a próxima década dos AA's? Não estará Paulo Bento refém das suas próprias ideias e da fidelidade ao vínculo de gratidão construído com alguns futebolistas nos últimos anos?

Nas circunstâncias actuais, a renovação de quadros na selecção é uma inevitabilidade e não pode ser condicionada por privilégios pessoais que, se nunca se justificaram, agora têm ainda menos sentido. Pior do que isso, os mentideros trazem relatos de episódios de ingerência na escolha da equipa, da interferência de patrocinadores e empresários a vários níveis e, inclusivamente, de algum mal-estar entre jogadores. Com estas condicionantes, não se adivinha um processo pacífico de renovação e é legítimo questionar-se se os actuais protagonistas, tanto directivos como técnicos, são as pessoas certas para o conduzir e levar a bom porto. O espaço dos sub-21 tem que ser aberto paulatinamente aos AA's já na qualificação para o Euro 2016. Não há outra via. Mesmo respeitando o trajecto feito ao serviço da selecção, não pode iludir-se o facto de que urge "refrescar" o ambiente da equipa de todos nós. Chamar à equipa novas caras e novas ambições tem que ser a prioridade, sob pena de perder-se o timing dessa renovação e cavar-se um vazio geracional. E esse caminho de mudança tem que ser suportado num princípio basilar que respeite não outra coisa senão o momento de forma: os melhores para cada posição. No Brasil, ficou clara a capitulação desse princípio. E, aparentemente, o balanço que importava fazer não é feito, passa-se uma esponja sobre os episódios Brasil 2014 e o mundo luso segue no laxismo do costume, como se nada fosse, como se não tivesse existido o Campeonato do Mundo. Fingir que não há um problema é o primeiro passo para o ver crescer.

E depois, a questão de sempre: Cristiano Ronaldo. Ícone aglutinador de paixões, o capitão português é o pólo que agrega quase todas as atenções, numa lógica de subvalorização do colectivo que até os colegas parecem aceitar com bizarra submissão. Primeiro, foi a "novela" em torno da lesão, também embalada pelos companheiros em diversas ocasiões; depois, a sequência desconchavada de declarações públicas, em contradição entre si e sem norte. Finalmente, a pobreza inacreditável das suas prestações desportivas, algo comum a todas as grandes competições de selecções em que participou. Como aqui escrevi, julgava que o capitão português tinha atingido um patamar de maturidade emocional consentâneo com a sua posição no grupo. A realidade dos factos desmente-o categoricamente. Continua mimado, birrento e a considerar-se muito superior à selecção, como se fossem os colegas a causa do insucesso dele. E este estado de coisas tem que ser questionado, não podem permitir-se prima-donas numa representação nacional e alguém tem que ter a frontalidade de o dizer abertamente. A comunicação social nacional continua a embalar o egocentrismo insuportável de CR7 e a alimentar um fenómeno mediático que inibe os próprios colegas, mesmo que eles involuntariamente o aceitem. Ronaldo é um futebolista de eleição, é um facto, mas isso não pode dar-lhe o estatuto de nobre vaidoso entre plebeus. Haja quem afronte essa evidência com mão disciplinadora e sem medos.  Mas isso só será possível se a liderança, a todos os níveis, não estiver conotada com nenhuma cadeia de poder ou interesse paralelo, nem comprometida com outra coisa que não seja uma filosofia de renovação e de vitória. Esse tipo de independência jamais surgirá sem mudanças estruturais. E elas têm que começar na F.P.F., desde o banco de suplentes à hierarquia federativa. Iludir este facto é fingir que não existe um problema. 

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terça-feira, 6 de maio de 2014

O caso Fernando: a conjuntura da transnacionalidade


Por uma questão de princípio, sempre torci o nariz à utilização de jogadores naturalizados nas selecções nacionais. Não se trata de ser um patrioteiro bacoco, mas sobretudo de ter presente a definição estrutural que defendo no enquadramento do que deve ser uma selecção nacional. Além da inevitável visão de circunstância, presa às necessidades pontuais de cada momento, entendo que uma selecção nacional deve ser pensada com horizontes temporais largos e alicerçada em lógicas de renovação que permitam manter qualidade ao longo do tempo, ao invés de sucessos passageiros. E ter esta concepção de gestão de uma selecção nacional não é compaginável com a utilização de jogadores naturalizados que, a despeito de adquirirem os direitos legais de cidadania e, por isso, se tornarem elegíveis para jogar, acabam por tapar alguns dos lugares desse processo de renovação. Convém lembrar que um jogador naturalizado não estará em condições de estrear pela selecção do país acolhedor antes dos 25/26 anos (à luz da legislação sobre nacionalidade). Ao chegar ao espaço dos convocáveis, com essa idade, um futebolista naturalizado estará, no limite, a fechar a vaga aos jovens emergentes (na faixa 19-25) e atrasa a renovação que se imporia normalmente, caso não houvesse a alternativa de recurso aos naturalizados. Em simultâneo,  a convocação de naturalizados quase sempre é uma solução de emergência, no intuito de suprir lacunas de momento. Ora, gerir uma selecção nacional nestas premissas conjunturais não é bom caminho. Pode resultar no momento, é verdade, mas dificilmente alumiará rotas de um futuro consolidado, bem preparado e sustentado para o êxito. Abordar um problema estrutural num prisma de momento é iludir em vez de resolver. Imaginemos que Diego Costa tinha nacionalidade portuguesa e, ao invés de jogar pela selecção espanhola, poderia jogar por Portugal. Seria certamente convocado e prefiguraria uma solução imediata para uma posição historicamente deficitária no futebol português. Mas seria isso um contributo para, em momento futuros, não ressurgir o mesmíssimo problema? Ou camuflaria temporariamente a lacuna, fintando a urgência de encontrar uma solução que melhor defendesse os interesses vindouros da selecção?

Não está em causa a aquisição plena de direitos de cidadania por futebolistas naturalizados. Legalmente, são tão portugueses quanto os outros e devem ser tratados como tal. A minha única reserva prende-se com a defesa de um modelo estrutural, pensado para preparar o sucesso continuado, por oposição à busca de soluções de conjuntura.

Todavia, o caso Fernando suscita também considerações de outro nível. A quem interessou apurar junto da FIFA a possibilidade de o jogador do F.C. Porto jogar por Portugal quando resultava claro dos regulamentos que o não podia fazer? A quem aproveitou o arrastamento desta expectativa, sabendo-se que Fernando havia representado o Brasil em jogos oficiais, sem ter dupla nacionalidade, e, em razão disso, jamais poderia representar outro país? Os únicos casos, no orbe futebolístico, em que um jogador representa mais do que um país acontecem apenas em duas circunstâncias:

- ou o jogador já tinha dupla nacionalidade quando representou uma determinada selecção nos escalões mais jovens e pode, noutro momento e em escalão diferente, optar por outra nacionalidade de que seja titular;

- ou o jogador não tinha dupla nacionalidade no momento em que representou uma determinada selecção e fê-lo apenas em jogos não oficiais (amigáveis), podendo depois jogar pela selecção de outra nacionalidade entretanto adquirida (é este o caso de Diego Costa, por exemplo).

Não há qualquer dúvida de que Fernando não podia jogar por Portugal. Os regulamentos são taxativos e absolutamente claros. Quem pediu o esclarecimento da FIFA e em defesa de que interesses? Paulo Bento não esclareceu a questão em recente entrevista à RTP. E o assunto vai morrer como um não-assunto, sem se saberem a fundo quais as suas verdadeiros motivações e meandros.


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