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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Pharmakon - Bestial Burden

7,9/10
Sacred Bones, 2014

No ano transacto, quando Abandon chegou aos escaparates, já o epíteto Pharmakon havia suscitado a curiosidade de muitos melómanos fora do noise, esse nicho artístico pouco dado a fenómenos com expressão mediática maior do que as fronteiras do género e capazes de chegar a outros públicos. O sobressalto gerado pela música de Margaret Chardiet nem era propriamente resultado de uma fórmula virgem nesse domínio, mas sobretudo de perceber-se quão áspera, crua e gutural conseguia soar uma jovem de apenas vinte e dois anos (à data) e de como, na solidão catártica das suas actuações conseguia veicular, fosse na estridência e rudeza vocais, fosse na toxicidade instrumental, uma energia estranhamente hipnótica e sedutora. A busca da beleza na repulsa, a exploração das tensões e conflitos nesse absurdo paradoxal do indivíduo e, em certo sentido, a exposição visceral da sua própria natureza eram, então, as premissas maiores do assalto sensorial de Chardiet. Daí à proximidade com o radicalismo sonoro a distância era curta e, sem se deter em maniqueísmos, Chardiet colocou-nos perante um dilema de compromisso, talvez até a derradeira demanda existencialista: há na espécie humana um ímpeto de confronto que não se aquieta. Somos como somos porque mora em nós a pulsante chispa da conquista, mascarada nas múltiplas formas da ambição. Em Pharmakon, Chardiet rende-se ao lado mais assombrado e tortuoso da mundanidade: a ambição é um fantasma difícil de exorcizar.

De Abandon para cá, Chardiet viu o abismo. Operada a um tumor quase fatal, teve que conviver com a fragilidade do seu próprio corpo, na lenta convalescença que se seguiu. Bestial Burden é tingido pelo tom testemunhal desse processo de regeneração contra a traição celular e de evidência da vulnerabilidade. Também por isso, e em certo sentido, a música do disco é tão "física" quanto seria expectável, incluindo vómitos, tosse e arfadas, um roteiro cru ao tormento físico vivido por Chardiet. A mente impotente desconecta-se do corpo falido, rebela-se contra ele, quer desprender-se da frágil condição da mortalidade. No resto, a marcha das electrónicas ponderosas, as interferências abrasivas e a métrica quase industrial suportam uma voz ácida, cortante e enfeitiçada. Mas sempre, sempre humana. Porque o medo da morte é uma merda.

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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Pharmakon - Abandon


7,8/10
Sacred Bones, 2013

O grito agudo que inaugura a audição do álbum não deixa dúvidas sobre a expressão artística extrema que se segue. É efectivamente o extremismo noise o terreno sónico em que se move o projecto Pharmakon, espaço sinuoso da nova-iorquina Margaret Chardiet. Isso nem é novidade para quem já conhecia os seus rituais de palco em que, qual fantasma abandonado entre fumos e máquinas, se rende a possessões estranhamente serenas, levando-as para o meio do público, olhos nos olhos, como se buscasse o exílio da demonização que transporta na voz agonizante. É assim mesmo a implosão musical de Chardiet, uma massa densa de diatribes vocais, ruídos em loop e feedback e com aportes claros da música industrial e de ambientes ácidos como os dos Wolf Eyes. Em essência, a proposta não é absolutamente inovadora, tem até tangências estéticas óbvias com o legado power electronics dos pioneiros Whitehouse, mas há em Abandon singularidades que importa esmiuçar.

Ao contrário de muitos produtos da órbita noise, mormente os de feição mais radical em que é comum perceber-se o apoio no improviso e no factor surpresa, Chardiet prefere, mesmo ao vivo, laborar em cima de certezas para firmar a agressão e o choque. O cuidado na temporização dos loops e na sua alternância é prova disso mesmo, assentando num formulismo quase "matemático". Esse trabalho de precisão funciona como um importantíssimo fio-de-prumo para a voz. Se não há surpresa nas texturas - o álbum seria terrivelmente "chato" se fosse instrumental -, é na exploração de um espectro invulgar de registos vocais que Chardiet marca pontos. Em suplício estridente ("Milkweed/It Hangs Heavy" e "Ache"), em preces apocalípticas à Diamanda Galás ("Pitted") ou atrás do Auto-Tune ("Crawling on Bruised Knees"), a voz é invariavelmente um portento de terror sulfúreo, capaz de resistir às montanhas de ruído, apoiada em conteúdos líricos obcecados com a atrofia corporal, a doença e a definhamento físico. Dir-se-ia que Pharmakon (e este Abandon) é produto da "insanidade" explícita de alguém que, aos vinte e dois anos, convive com o desassossego da autodescoberta e da revelação dos demónios que lhe lambem as  feridas. A catarse é tão agressiva e desgastante que se torna um sortilégio de arcanjo negro. Escutai, senti a dor sacrificial e vergai-vos, ó espíritos decadentes!

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