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quarta-feira, 18 de março de 2015

Six Organs of Admittance - Hexadic

7,8/10
Drag City, 2015

Ben Chasny não tem um poiso estético definido, é um errante compulsivo e isso é particularmente notório no seu projecto musical a solo, quase a completar uma recheada década de edições dedicadas a especular sobre as possibilidades sonoras que podem começar nas cordas de uma guitarra. Aparte as suas colaborações regulares em colectivos do etiquetado movimento da New Weird America (a nova folk psicadélica), encabeçado mediaticamente pelo seu amigo Devendra Banhart, o guitarrista fez do conceito Six Organs of Admittance a sua sala de ensaios, em que a liberdade do trabalho individual lhe permite mostrar uma face mais efervescente da sua verve. Nesse espaço criativo, a canção enquanto objecto estruturado é secundária; o que importa é ir atrás de uma ideia e construir qualquer coisa em cima dela, sem formatações ou preconceitos. É também por isso que, na discografia Six Organs of Admittance, não existe sequer uma intenção de continuidade de álbum para álbum, antes o propósito de testar os limites de um instrumento enquanto produtor de sons. Em certo sentido, a obra de Chasny acaba por ser um desembaraçado exercício de musicologia da guitarra e, nesse particular, é um sucesso retumbante a que só o tempo virá a fazer justiça. Com mais ou menos electricidade, com registo vocal ou não, entre a música tradicional e o psicadelismo, entre blues e experimentalismo, com a ajuda pontual de percussão ou de orgãos, Chasny encontrou sempre matéria-prima para a sua demanda.

Hexadic põe termo a um hiato de três anos sem novas gravações e parte das derivações eléctricas inauguradas no antecessor Ascent (2011), levando-as a um extremismo novo no universo Chasny, sobretudo pelo enfoque inopinado na distorção. O resultado é uma implacável - talvez demais para os seguidores habituais de Six Organs of Admittance - e intrincada escalada sónica que desbrava terreno virgem na discografia de Chasny, sem contemplações e bem ao jeito (sem o ser) de uma lunática jam de improviso. Pode não ser o disco mais original do mundo, mas é mais uma oportuníssima achega ao cardápio de invenções de Six Organs of Admittance. Mas fica o aviso: apesar dos pedaços mais contemplativos, que também os há, Hexadic não é para tímpanos frágeis.

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Six Organs of Admittance - Shelter From the Ash

7/10
Drag City
AnAnAnA
2007
www.sixorgans.com



Embora tenha ganho visibilidade como segundo guitarrista dos neo-psicadélicos californianos Comets on Fire, colectivo a que se juntou em 2003, Ben Chasny já antes tinha instituído o bem mais plácido projecto Six Organs of Admittance, aí prestando tributo a inegáveis afinidades com o lado acústico da folk de feição mais progressiva, na linha das inesquecíveis excentricidades dos trovantes da Takoma, desde o mágico fingerpicking de John Fahey, ao virtuosismo técnico de Leo Kottke e às eufonias pastorais de Robbie Basho. Aos ensinamentos dessa trindade "clássica" da folk americana, sobretudo na propensão para colocar a experimentação técnica e as construções progressivas de melodia ao serviço das dimensões mais ambientais da música acústica, Chasny foi sendo capaz de adicionar um misticismo próprio, as mais das vezes alinhando, com a imaterialidade acústica de um som de vocação algo "atmosférica", um paganismo vocal muito próximo da espiritualidade de oração. Aprimorada essa fórmula no antecedente The Sun Awakens, de 2005, por muitos considerada a obra magna do catálogo Six Organs of Admittance, o décimo registo continua a gravitar na mesma órbita, embora desvende uma lógica textural mais polida no psicadelismo e, acima disso, uma ou outra incursão mais apaixonada pelo vanguardismo e, em paralelo, pela afirmação mais eléctrica das guitarras (a esse pormenor não será estranha a recente colaboração com os génios do drone Om). Nesse particular, Shelter From the Ash encerra riscos maiores na composição, essencialmente na definição das porções eléctricas como substrato pendular dos trechos e como elemento crucial para a matriz de crescendo das melodias. E a verdade é que, mesmo sem chegar ao deslumbre que, aqui e ali, se adivinharia, Shelter From the Ash se revela mais uma oportuníssima construção de Ben Chasny e seus pares.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Six Organs of Admittance - The Sun Awakens

Apreciação final: 7/10
Edição: Drag City/AnAnAnA, Junho 2006
Género: Pós-Rock/Folk Experimental
Sítio Oficial: www.sixorgansofadmittance.com








O vínculo de Ben Chasny aos Comets On Fire, projecto paralelo que faz parte dos seus empregos regulares, nunca chegou a imiscuir-se tanto no trabalho a solo do músico como neste The Sun Awakens. Ao conceito folk minimalista que tem sido doutrina de Chasny, normalmente assente no casamento dialogante entre uma guitarra solitária e uma voz subliminal, somam-se neste trabalho dimensões psíquicas do som, à procura do embrulho psicadélico para a pertinência dos elementos acústicos. O som é, por isso, mais vago e ondulante e orienta-se intencionalmente para paisagens sonoras ambíguas, ora em quietude desarmante, ora em insubmissa subversão. Depois, há a voz fantasma. Cativante, apurada e com corpo, o registo vocal, ainda que raro, é uma premissa lógica. Se nos anteriores álbuns do conceito Six Organs of Admittance, as vocalizações eram metade (evidente ou presumida) das harmonias, neste, embora não usufruam de mais espaço, são um veículo para a força espiritual do disco, impondo-se em cores mutantes com a dinâmica de um caleidoscópio. Pontos nos i's. Viscerais como nunca. A aura de The Sun Awakens é escura, é latejante e roça uma inquietação não adivinhada antes nos Six Organs of Admittance. Ao oitavo disco, Chasny confronta os seus demónios?

Estrato sobre estrato, a produção de Tim Green é soberba, reinventando as medidas da folk perturbada de Chasny, rumo a um som sem escola, discurso dominante da nova América esquisita. A folk do tio Sam não é já a mesma, paz à alma dos gloriosos trovadores de banjo e guitarra. Hoje, o púlpito é dos freaks. Gente com cabeça lotada de ideias e talento para lhes dar corpo musical. Sem temor do laboratório. Como na transcendente mantra de 24 minutos que encerra o disco ("River of Transfiguration"). Retiro escapista de Chasny ou (de)composição instrumental urdida com ímans espirituais, a peça é um raro instante zen, a redenção esotérica de Chasny. O busílis: não dá para camuflar a clivagem sonora entre a espiral mística desta faixa e o conformismo das restantes com o costumeiro manual de Chasny, ligado, aqui e ali, à voltagem das tomadas. Dois mundos. Um negro e espiritual, o outro, a casa do costume, apenas mais eléctrica. Em qualquer dos casos, como nas palavras de Octavio Paz que baptizam o disco, o sol desperta. Só mudam as cores da aurora.

quinta-feira, 17 de março de 2005

Six Organs Of Admittance - School Of The Flower

Apreciação final: 7/10
Edição: Drag City, Janeiro 2005
Género: Experimental/Pós-Rock/Indie Rock/Minimalista






Os californianos Six Organs Of Admittance formaram-se em 1998, sob a orientação do guitarrista Ben Chasny, oriundo dos Plague Lounge. A participação do músico nos Comets Of Fire trouxe-o ao conhecimento de um público mais alargado, especialmente depois do aclamado Blue Cathedral.

O registo mais recente pelos Six Organs é um tomo de faixas enigmáticas e atmosféricas, onde a guitarra de Chesny assume protagonismo central na composição de texturas sombrias, serenamente pontuadas pela percussão e pelo trabalho de teclas. O convite é apelativo, quase hipnotizador, feito de sons envolventes e íntimos. As vocalizações reiteram a sugestão, não se insinuam abusivamente, antes se retraiem e cedem as honras centrais aos instrumentos e à pureza da escrita. School Of The Flower expande-se da singeleza poética e emancipa-se como obra graciosa e taciturna. É uma licção de gestos multidimensionais e divagantes, que tocam a ínfima condição humana na candidez do acústico.

School Of The Flower não terá os holofotes da fama, está destinado a passar incógnito para as mentes mais distraídas, mas é uma colecção rara e sublime de música transcendental que merece ser escutada com reverência. Uma viagem fantástica a um mundo de sossego cujo pecado maior reside, após quarenta minutos de hipnose, no termo do disco. Não será um disco inesquecível, a espaços soa um pouco iterativo, mas sucede no fito de aliciar a face mais fantasiosa da mente. School Of The Flower é um suave embalo para aquietar espíritos menos tranquilos. Um recomendável triunfo da ambiguidade musical.