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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Björk - Vulnicura

8,8/10
One Little Indian, 2015

Se há coisa que não pode dizer-se sobre Björk é que seja uma artista acomodada. Desde os primeiros passos da sua já extensa caminhada musical, se percebeu um fôlego criativo absolutamente invulgar e sempre em demanda por coisas novas, por cruzamentos improváveis de géneros e até por alargar fronteiras do que deve ser um produto musical. Se não bastasse, para percebermos a revolução paulatina de Björk, o seu recorrente aprofundamento da mistura entre electrónicas e elementos acústicos, a caminho de uma visão ímpar e que envolve um detalhismo quase microscópico (mesmo científico) e, ao mesmo tempo, a amplitude de uma verdadeira obra orquestral, o inovador Biophilia, de 2011, inquietava ainda mais: buscava a união entre tecnologia e mundo natural. Depois de uma empreitada com esse peso, com reacções díspares de crítica e de admiradores, e sobretudo na sequência da separação do seu companheiro de treze anos, mesmo o mais inconvencional (e inquieto) dos espíritos, há-de sentir-se irremediavelmente mundano.

No caso de Björk, a chapada da vida foi um chamamento de realismo que não mudou a essência da sua música. Vulnicura, com a colaboração de dois novatos muito requisitados na electrónica hodierna - a saber, o venezuelano Arca e o britânico Bobby Krlic (The Haxan Cloak) -, repisa a mistura entre electrónica e orquestração, com a sedução vulcânica do costume. Desenganem-se aqueles que esperam um registo de genuíno intimismo, como seria "normal" num disco com a aura de uma separação, em que a música tende a converter-se numa expressão de formas mínimas, mais assertivas e emocionais. Em Vulnicura, a emoção não deixa de ter essa vulnerabilidade, mesmo a tonalidade obscura e ambígua, mas ajusta-a ao devaneio hiper-musical que fez de Björk um ícone da excentricidade elegante. Aqui, só mudou a palete de cores e, do garrido para o pardo, nasceu um dos melhores discos que ela deu ao mundo.

PODE LER ESTE E OUTROS CONTEÚDOS EM WWW.ACPINTO.COM

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Björk - Volta

7/10
One Little Indian
Universal
2007
www.bjork.com



Conhecida (e apreciada) pela camaleónica e nada ortodoxa capacidade de se reinventar a todo o momento, a islandesa Björk tornou-se, nos anos mais recentes, um dos ícones mais reverenciados da pop. Divisora de opiniões, ela integra, afinal, o restrito lote de artesãos a que poucos ficam indiferentes, não sendo de espantar a expectativa que o seu décimo álbum de estúdio (descontando a parceria com o marido Matthew Barney no filme Drawing Restraint 9, de 2005) suscitou na comunidade melómana. Depois de ter testado, com a elegância costumeira, a elástica potência da sua voz nas quase-canções de Medúlla, há três anos, Björk retoma alguns dos pressupostos da sua identidade musical, pontuados aqui pelo reencontro com a electrónica e um certo formalismo (se é que isso é possível com Björk...) e pela reconciliação com a versatilidade estética dos melhores instantes da sua carreira. Nesse particular, Volta convoca passados e futuros na forma de sons com pressupostos e latitudes bem diversas, propondo-nos o devaneio da conjugação do puro tribalismo (sabor transversal ao álbum) com a electrónica extrovertida (o single "Earth Intruders", com a percussão dos Konono n.º 1, é exemplo), ou da fragilidade do experimentalismo com ciências asiáticas (escutem-se "I See Who You Are" e "My Juvenile", com a chinesa Min Xiao-Fen); no caldeirão cabem ainda a oportunidade do jazz vanguardista (como na cinematográfica "Vertebrae by Vertebrae" ou na plácida "Pneumonia"), a exaltação do noise (no festim de "Declare Independence", ao lado de Brian Chippendale, dos Lightning Bolt), o flirt com África ("Hope", com a inconfundível kora do maliano Toumani Diabaté) ou o cortante e soturno romantismo ("The Dull Flame of Desire", com os vocais andróginos de Antony Hegarty). Os delírios electrónicos têm a mão de Marc Bell (repetente nestas andanças) e a arrumação da casa é do ubíquo Timbaland. No global, a despeito de um punhado de adições oportuníssimas ao já preenchido ideário de Björk e da dimensão "fresca" que a islandesa sempre põe no que faz, Volta deixa a impressão de que as construções provindas dessas ideias raramente são tão consequentes como se imporia e, por isso, se assemelham a bosquejos inacabados das canções que podiam ter sido. O que, sendo uma deformidade indisfarçável, no caso de Björk, é traço típico (às vezes, com medidas de mérito) e, também neste caso, não potenciador de unanimidade.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Björk

Hoje trago-vos uma canção da islandesa Björk. Integrada no álbum Homogenic, lançado em 1997, "Jóga" é, ainda hoje, reconhecida como um dos mais sublimes contributos de Björk para a pop nas suas vertentes mais eruditas.


Senhora de uma visão artística ímpar e de uma criatividade a toda a prova, a nórdica deposita nesta composição uma carga emotiva intensa e escreve, a dada altura: "You don't have to speak, I feel". Apetece escutar esta "Jóga" e retorquir a esse desafio com um simples "Nós também".





Para ouvir esta canção clique aqui.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

Björk - Medúlla (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Björk está de regresso. Só esta frase seria bastante para motivar sobressaltos inopinados à inumerável legião de sequazes da cantora islandesa. O percurso da cantora fala por si, o inconformismo e a incessante superação de si mesma são a meta. Neste trabalho, a produção é absolutamente faustosa, mesmo arrebatada, centrada na voz da cantora islandesa. Nada aqui é pautado pelo mainstream, o álbum é maioritariamente composto por vocalizações, arrastando Björk para exigências não antes previstas. O instrumento primaz é a voz, Björk maneja-a habilmente, tentando docemente o ouvinte de Medúlla, mostrando-lhe a medula da canção, o tutano cândido da música, a voz.

Por entre os catorze temas do disco, existem alguns cantados em islandês, um idioma que encaixa na feição musical de Björk e no conceito basilar de Medúlla. A lista de convidados é de luxo e inclui Mike Patton e Robert Wyatt, os programadores Matmos, Mark Bell e Mark Stent, e os beatboxers Rahzel e Dokaka.

Este é o disco mais intimo da cantora islandesa, o seu brado doce, cálido e sensual viola-nos os tímpanos com uma pujança inata, espia as fraquezas da mente e reduz-nos ao encargo ambivalente de reclusos livres. Não é um disco imediato, o seu enlevo reside na descoberta da musicalidade intáctil da voz, na essência estreme do canto, no perfume do éter extasiante de Björk.