domingo, 15 de maio de 2005

A vida é um milagre

Apreciação final: 7/10
Realizador: Emir Kusturica (2004)
Actores: Slavko Stimac, Natasa Solak, Vesna Trivalic e Vuk Kostic
Género: Drama/Comédia
Duração: 155 mins.









A mais recente alegoria do esdrúxulo Emir Kusturica é uma fita repleta das costumeiras intenções ideológicas do cineasta bósnio, onde não faltam as alusões inevitáveis ao conflito bélico que assolou a Bósnia na década de 90, tema que cruza transversalmente a obra do cineasta. Desta vez, a acção decorre numa comunidade rural das montanhas daquela república dos Balcãs, durante o ano de 1992, no pleno dealbar da disputa. O afável Luka (Slavko Stimac), o chefe da estação de caminhos-de-ferro, simultaneamente idealizador da recém-criada rede ferroviária da rústica comunidade, é casado com a volúvel Jadranka (Vesna Trivalic), uma deprimida cantora lírica que, apartada da ribalta por força do matrimónio, teima em adestrar-se no trecho primaz de Anna Karenina, conservando a esperança de um regresso irrelizável aos palcos.A eclosão da guerra e a frenética sucessão de eventos subsequentes, entre os quais a incorporação no exército do filho do casal, Milos (Vuk Kostic), vai sacudir a pequena aldeia e abalar o conformismo dos seus habitantes. O ónus do conflito e a chegada da bela muçulmana Sabaha (Natasa Solak), uma prisioneira de guerra, vão pôr à prova as utopias de Luka.

A Vida é um Milagre é um filme que incorpora os excessos que habitualmente (e habilmente) condimentam a obra de Kusturica: a bizarria hiperbólica das personagens, dos cenários e do enredo, o recurso quase contínuo à música de metais (escrita pelo próprio) como parte da equação de completude de cada cena e, não menos idiossincrático, o emprego de subterfúgios surrealistas a tocar as raias da verosimilhança. Como sempre, Kusturica convoca um bestiário ironicamente simbólico e activamente participativo que ajuda à definição de ritmos do filme e à construção de um traço satírico incomum. A título de exemplo, há uma jumenta suicida que, qual Karenina, ferida de amores, espera pacientemente na linha por um comboio que ponha termo à sua existência infeliz.

Se a primeira parte do filme apresenta os protagonistas e contextualiza a sua vivência despojada, a segunda parte, em simultâneo com sopros de ódio da guerra, expõe o paradoxo de uma história de amor e amantes amaldiçoados, uma réstia de fulgor incandescente e sensual a sobreviver por entre as ruínas e a negrura. O epílogo de A Vida é um Milagre perfaz um desfecho clássico, digno de uma ópera de Puccini, numa cena que não enjeita a propriedade da combinação do absurdo do universo complexo de Kusturica e a fantasiosa condição do amor concretizado.

Em A Vida é um Milagre a saturação poética de Kusturica dá sentido a uma narrativa ágil, bem construída e suportada em bons desempenhos de representação. Com engenho metafórico, o realizador bósnio arquitecta uma sólida celebração da vida, mostrando sem acanhamento o rídiculo e a farsa da guerra. A Vida é um Milagre é um retalho shakespeariano do universo grotesco e caótico de Kusturica que, parecendo absurdo e inverosímil, se assemelha a um retrato sarcástico do mundo real.

1 comentário:

Monstros disse...

não discordando de muita coisa dita, continuo a achar que é talvez o filme mais fraco dele. o repetir sempre da mesma fórmula torna-o previsível e ate por vezes chato. o nonsense tem limites.