sábado, 29 de setembro de 2007

Supermayer - Save the World

7/10
Kompakt
Flur
2007
www.myspace.com/
supermayer



Sempre que figuras de primeira grandeza de um qualquer nicho artístico se juntam para concentrarem as suas ideias num trabalho único, dificilmente deixa de existir um massivo coro de rendições "instantâneas", como se uma obra dessa natureza ganhasse, no mero protagonismo dos intérpretes, uma dimensão quase mitológica. Assim aconteceu também com o burburinho que antecedeu o projecto Supermayer, espaço de convergências entre Superpitcher e Michael Mayer (artesãos insignes da cena de Colónia e do selo Kompakt - Mayer até é o boss), consagrado a priori como um dos mais originais manifestos anti-marasmo da música electrónica contemporânea. Como se eles não tivessem já assinado, a dois, (com classe, diga-se) alguns remixes de Gui Boratto ou Gabriel Ananda. Adiante.

Mesmo não sendo esta união um facto "novo" (e só aí a consagração prévia pecou por exagero), isso não impede que estejamos perante um opus à altura da vaga de expectativas anteriores ao seu lançamento. Artisticamente urdido em volta de uma narrativa ilustrada ao jeito de um comic book - o que acaba por assentar na definição de álbum conceptual - Save the World rebusca várias graduações da música techno minimalista. É, de resto, o impulso mutante e auto-regenerador das composições que lhes revela uma identidade sem pejo de ensaiar algumas derivas de aproximação a outras escolas estéticas e interferências sonoras (xilofones, palmas, cowbells). Nesse particular, trata-se de um álbum organicamente muito bem calibrado e revelador de potencialidades experimentais nem sempre bem exploradas no orbe electrónico. O leque é largo e demonstrativo de versatilidade: da espantosa pedra de toque "The Art of Letting Go" (demarcadora das afinidades com a pop) aos viciantes rendilhados da esdrúxula "Us and Them", da weird folk de "The Lonesome King" às convencionais sequências de "Two of Us" ou à transformação R&B de "Cocktails For Two". Save the World pode não ser o mais monolítico dos exercícios electrónicos dos últimos tempos (aí perdendo, num registo diferente, para o último de Gui Boratto, por exemplo), nem vai certamente salvar o mundo, mas tem substância bastante para agitar consciências adormecidas sobre os cânones. E é, em última análise, um belíssimo exemplo de uma soma de partes cujo apuro é genuinamente simbiótico.

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