quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Ratatat - Classics

Apreciação final: 6/10
Edição: XL, Agosto 2006
Género: Electrónica/Rock Lo-Fi Instrumental
Sítio Oficial: www.ratatatmusic.com








Chegar ao segundo álbum e ter o atrevimento (petulância?) de o apelidar de Classics não é para todos. A tal se arrojou a dupla norte-americana Ratatat, campo criativo dividido por Evan Mast, programador e multi-instrumentalista, e Mike Stroud, guitarrista. O argumento destes clássicos segue o rasto de Ratatat, debute editado há um par de anos, uma estável emboscada electrónica ao rock isento de estrutura. Em boa verdade, o tecido harmónico de Classics circunscreve-se a ambientes bem próximos da órbita do pós-rock, ainda que com compassos mais expansivos. A essa amplitude não é estranha a autoridade da porção digital do som a matizar os trechos, enchendo o corpo sónico do disco de ornatos vários, nem sempre com a mesma propriedade, é certo, mas servindo de garante às desmultiplicações das composições. Nesse sentido, Classics é um álbum de ascendente electrónico e onde as alusões acústicas (essencialmente guitarras) se mesclam sobriamente com o tom dominante, acrescentando outros pretextos melódicos e insinuando o galanteio com um jogo de contrastes que, se fora tacteado com mais profundidade, facultaria uma aritmética mais espessa ao disco. E isso sem o despir do fôlego optimista. Ao mesmo tempo, a largueza conceptual de Classics consome-lhe subitamente o oxigénio em diversos ápices, arriscando o desabono de alguns recursos estilísticos sublimes em favor do pontual (e incómodo) amontoamento de conceitos, e consequente desordem auditiva, que enferma algumas faixas do alinhamento. Dir-se-ia que Classics tem lances incongruentes, mormente quando exorbita as competências da guitarra sobre a intimidade digital das peças, algo particularmente notório no single "Wildcat" que, embora imponha com destreza o contraste digital/acústico, perde o norte a partir do meio da faixa. Tal desarranjo, por outro lado, não faz eco em "Swisha", um dos zénites do disco, onde a guitarra não ofusca o minimalismo da electrónica e, mais do que isso, as variações rítmicas (ou desconstruções) desviam a peça da vulgaridade.

Classics é um daqueles tomos que reclamam várias audições para que se descortine a miríade de detalhes electrónicos que abrangem. Aí, depois de desmontada a camada superficial de sons, chega-se a um conclusão de duplo sentido: é inegável que a essência do álbum é armada num minúsculo circo da melhor electrónica que se ouviu este ano mas falta-lhe redimensionar o vínculo entre matérias acústicas e sintéticas para trazer mais pragmatismo à excelente colecção de ideias de Mast e Stroud. Classics é, por conseguinte, um produto ambivalente, no sentido de nos trazer recompensas auditivas cheias de encantos ("Lex", "Montanita" e "Swisha") e outros trechos que nos deixam água na boca por não confinarem com a eminência que se adivinhava, à primeira escuta, nas suas entranhas.

Posto de escutaMontanitaLexSwisha

2 comentários:

membio disse...

eu gostei bastante deste album, tanto como o primeiro. dizes q a chama extingue-se rapidamente, hummm... a ver vamos no final do ano :)

A.C. disse...

Eu também gostei de algumas coisas do disco, nomeadamente as faixas que destaquei, mas continuo a achar que, se fossem depuradas algumas das ideias, o produto final podia ter ficado bem melhor. Na minha lista de fim de ano não vai figurar, apesar de eu reconhecer talento aos dois músicos dos Ratatat.