terça-feira, 15 de abril de 2008

Dead Combo - Lusitânia Playboys

8/10
Dead & Company
Universal
2008
www.deadcombo.net



Chega a ser um paradoxo que um conceito musical tão robusto quanto é o Dead Combo tenha nascido de uma casualidade. Nem mesmo Tó Trips e Pedro Gonçalves teriam fantasiado que a coisa assumiria as proporções que hoje tem, a ponto de a crítica especializada muitas vezes os considerar como um dos projectos com maior potencial exportador da música lusa. É preciso recuar quatro ou cinco anos no calendário para recordar as primeiras aparições públicas da parelha lisboeta na Zé dos Bois e o burburinho crescente que lhes sucedeu, "impondo" a necessidade de passar à forma de disco uma fórmula musical inicialmente pensada para escalas pequenas. No fundo, Tó Trips e Pedro Gonçalves, ambos oriundos das esferas rock da praça, viam a entidade Dead Combo como um espaço exploratório de sonoridades pouco usuais cá no burgo e tê-lo-iam pensado nessa reduzida dimensão de laboratório que, poucas vezes, chega aos focos da fama. Todavia, aos poucos, os públicos foram descobrindo (e deixando-se render a) um som incomum, um misto de portugalidade nostálgica, importada dos filões clássicos da guitarra portuguesa (e, por inerência, de Carlos Paredes e do fado), e de sabores "morriconianos" de spaghetti-western ou de um qualquer deprimido desert blues. Guitarra, contrabaixo e genuinidade definiram, então, o início de um trajecto consequente a cruzar latitudes musicais, sem perder o tino e a raiz portuguesa.

Lusitânia Playboys, terceiro longa-duração da dupla, destaca-se organicamente dos anteriores, sobretudo pelo cuidado nos arranjos. Se até aqui, os produtos dos Dead Combo respiravam um minimalismo quase claustrofóbico e nascido das exóticas depressões e do cosmopolitismo da Lisboa moderna, invocando as faces menos iluminadas da alma lusa (a tal alusão pouco purista ao fado como inspiração), o novo opus parece apostado em somar luz aos ambientes. Não é que o disco modifique substancialmente as premissas musicais dos Dead Combo, mas sente-se nestas composições um fôlego optimista e festivo. Nesta pele mais ditosa, Tó Trips e Pedro Gonçalves redescobrem-se e sugerem-se novas coordenadas para ressarcir a melancolia e a desolação. Ao invés de lânguidas e arrastadas ressacas, aqui há lugar para a perspicácia de deixar entrar a luz, sem perder o conforto do escuro. E os sépias poeirentos fazem-se amarelos com impurezas, as guitarras do deserto viram coros de bar e os graves do contrabaixo chamam o horizonte. Venham os violinos, os acórdeões, as flautas e os sopros; venham o Howe Gelb (em "Manobras de Maio 06"), os Kid Congo Powers (na magnífica "Cuba 1970", um genuíno "fado habanero"), o Carlos Bica ("Lisbon Berlin Flight 1001"), a Ana Quintans ou o Alexandre Frazão, juntem-se todos ao repasto e bebam um copo com estes dois alfacinhas. Lusitânia Playboys está aí para provar que um pouco de boémia é o melhor expediente para afugentar sombras da alma e merece ser celebrado por isso. E por ser a melhor colecção de composições dos Dead Combo.

Posto de escuta MySpace

Sem comentários: