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segunda-feira, 24 de março de 2014

Dead Combo
A Bunch of Meninos



7,8/10
Universal, 2014

Se há mérito reconhecível nos Dead Combo, ele é o de terem erguido, com solidez e consistência, um discurso musical muito pessoal. A música de Pedro Gonçalves e Tó Trips é um planeta de sons deles e que nem as sucessivas imiscuições registadas por vários convidados, numa discografia que abraça sensivelmente uma década, vieram deturpar. E isso nem sequer é sinónimo de imobilismo, já que, nesse caminho, foi tornando-se óbvio o pulsar nómada de uma música que começou por ser genuinamente portuguesa na alma e que cresceu bem além da formatação emocional que lhe esteve na origem. A Bunch of Meninos, quinto registo de estúdio da dupla, segue o rasto dos que o antecederam e fá-lo sob as certezas de uma linguagem que o tempo aprimorou e que, mesmo não contendo novidades na estrutura, é sempre capaz de insinuar uma sensualidade renovada.

Como não podia deixar de ser num disco dos Dead Combo, A Bunch of Meninos acata a mesma súmula de legados musicais que abençoou o casamento da guitarra de Tó Trips com o contrabaixo de Pedro Gonçalves (e todas as demais matérias que a eles se juntam...) e que vão da cultura poeirenta dos westerns ao desalento fadista, da  rusticidade rock ao saracoteio latino. A mistura é, como se suspeitava, equilibradíssima e só tem cabimento no universo sem par dos Dead Combo, com composições que colhem inspiração na diversidade e que, também por isso, são incrivelmente férteis a conceber ambientes e cenários. Música com este calibre cenográfico não se faz todos os dias, sobretudo cá no burgo. E entreter-se com as tradições lusas, ir buscar coisas a toda a parte do mundo e, no final, soar tão naturalmente português, não é coisa para ser feita por meninos...

PODE LER ESTE E OUTROS CONTEÚDOS EM WWW.ACPINTO.COM

terça-feira, 15 de abril de 2008

Dead Combo - Lusitânia Playboys

8/10
Dead & Company
Universal
2008
www.deadcombo.net



Chega a ser um paradoxo que um conceito musical tão robusto quanto é o Dead Combo tenha nascido de uma casualidade. Nem mesmo Tó Trips e Pedro Gonçalves teriam fantasiado que a coisa assumiria as proporções que hoje tem, a ponto de a crítica especializada muitas vezes os considerar como um dos projectos com maior potencial exportador da música lusa. É preciso recuar quatro ou cinco anos no calendário para recordar as primeiras aparições públicas da parelha lisboeta na Zé dos Bois e o burburinho crescente que lhes sucedeu, "impondo" a necessidade de passar à forma de disco uma fórmula musical inicialmente pensada para escalas pequenas. No fundo, Tó Trips e Pedro Gonçalves, ambos oriundos das esferas rock da praça, viam a entidade Dead Combo como um espaço exploratório de sonoridades pouco usuais cá no burgo e tê-lo-iam pensado nessa reduzida dimensão de laboratório que, poucas vezes, chega aos focos da fama. Todavia, aos poucos, os públicos foram descobrindo (e deixando-se render a) um som incomum, um misto de portugalidade nostálgica, importada dos filões clássicos da guitarra portuguesa (e, por inerência, de Carlos Paredes e do fado), e de sabores "morriconianos" de spaghetti-western ou de um qualquer deprimido desert blues. Guitarra, contrabaixo e genuinidade definiram, então, o início de um trajecto consequente a cruzar latitudes musicais, sem perder o tino e a raiz portuguesa.

Lusitânia Playboys, terceiro longa-duração da dupla, destaca-se organicamente dos anteriores, sobretudo pelo cuidado nos arranjos. Se até aqui, os produtos dos Dead Combo respiravam um minimalismo quase claustrofóbico e nascido das exóticas depressões e do cosmopolitismo da Lisboa moderna, invocando as faces menos iluminadas da alma lusa (a tal alusão pouco purista ao fado como inspiração), o novo opus parece apostado em somar luz aos ambientes. Não é que o disco modifique substancialmente as premissas musicais dos Dead Combo, mas sente-se nestas composições um fôlego optimista e festivo. Nesta pele mais ditosa, Tó Trips e Pedro Gonçalves redescobrem-se e sugerem-se novas coordenadas para ressarcir a melancolia e a desolação. Ao invés de lânguidas e arrastadas ressacas, aqui há lugar para a perspicácia de deixar entrar a luz, sem perder o conforto do escuro. E os sépias poeirentos fazem-se amarelos com impurezas, as guitarras do deserto viram coros de bar e os graves do contrabaixo chamam o horizonte. Venham os violinos, os acórdeões, as flautas e os sopros; venham o Howe Gelb (em "Manobras de Maio 06"), os Kid Congo Powers (na magnífica "Cuba 1970", um genuíno "fado habanero"), o Carlos Bica ("Lisbon Berlin Flight 1001"), a Ana Quintans ou o Alexandre Frazão, juntem-se todos ao repasto e bebam um copo com estes dois alfacinhas. Lusitânia Playboys está aí para provar que um pouco de boémia é o melhor expediente para afugentar sombras da alma e merece ser celebrado por isso. E por ser a melhor colecção de composições dos Dead Combo.

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domingo, 11 de junho de 2006

Dead Combo - Quando a Alma Não é Pequena, Vol. II


Apreciação final: 7/10
Edição: Dead & Company/Universal, Março 2006
Género: Instrumental
Sítio Oficial: www.deadcombo.net








O segundo trabalho dos portugueses Tó Trips e Pedro Gonçalves é uma declaração de maturidade musical. Quatorze faixas da melhor música instrumental (guitarra eléctrica e contrabaixo) que se faz em terras lusas. No primeiro registo, a dupla portuguesa havia desenhado os contornos de um dialecto sonoro pouco comum entre nós, uma espécie de música de western, com especiarias emprestadas pela mais característica tradição musical lusa, o embalo nostálgico e pesaroso do fado. Não surpreendeu, portanto, que, com tais ingredientes, a dupla tenha suscitado a curiosidade da comunidade melómana nacional e, por arrastamento, o reconhecimento da crítica a uma aura musical distinta, urbana, feita com paixão e, acima disso tudo, com uma excelência técnica intocável. Neste segundo álbum, os músicos foram mais além. É certo que persiste a entoação plangente da alma lusa mas, agora, o híbrido dos Dead Combo alarga horizontes a outras referências, não se coibindo de namorar famílias de som de origens desiguais, mormente as sonoridades afro, algumas texturas com insinuações de etnia cigana ou do folclore klezmer, umas pitadinhas tímidas de jazz, das tarantelas do sul de Itália ou até do tango/flamengo latino. E nada disto minora a conformidade do disco com os princípios dos Dead Combo. Pelo contrário, o alargamento do espectro de influências confere-lhes outras medidas (e melodias amplificadas), sem congestionar exageradamente o ambiente único de poesia instrumental do álbum ou a vitalidade minimalista do som.

Quando a Alma Não é Pequena, Vol. II é o segundo passo do percurso deste par de lisboetas que, com a ajuda de um rol extenso de ilustres convidados (Paulo Furtado, Peixe, João Cardoso, Sérgio Nascimento ou Nuno Rafael), concebeu um disco que, sendo português, calha bem em qualquer parte do mundo. Aliás, essa verosímil universalidade, não tão visível no primeiro disco, é o argumento mais consistente de um trabalho coeso. Íntimo e sem traumatismos, Quando a Alma Não é Pequena, Vol. II é um daqueles discos carregados de expressividade e presta uma justa homenagem (não óbvia!) a dois ícones da cultura lusa (Carlos Paredes e Fernando Pessoa) que, não estando gravados no disco, nele flutuam persistentemente. Afinal, os Dead Combo são também mensageiros desse ambivalente alento lusitano: de um lado, a saudade taciturna; do outro, a galharda certeza de que há um bocadinho de nós em cada canto do mundo.