domingo, 27 de fevereiro de 2005

Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos

Apreciação final: 8/10
Edição: 2004
Género: Drama





Três vidas maculadas, três destinos cruzados. Um veterano e solitário treinador de boxe (Eastwood), relegado pela filha, busca indulgência no triunfo dos seus pupilos, temendo a derrota no cotejo consigo mesmo. Um fiel amigo (Freeman), outrora boxeur, derribado pela mágoa de ver sumido um título no combate que nunca fez. Uma mulher intrépida (Swank) que vê no boxe a escapatória para uma vida de privação e insulamento. O nexo entre eles: os destroços das quimeras do passado, o retrato de sonhos vencidos. Desses reveses do pretérito brotam raízes que unem as personagens.

Frankie (Eastwood) é distante, frio, quase inexorável. Maggie (Swank) é rebelde, determinada e genuína. Eddie (Freeman) é ponderado, sereno e honesto. Contra a sua vontade inicial, Frankie aceita treinar Maggie e com ela traça uma relação singular. A probidade intrínseca, a paixão e empenho de ambos unem-nos de um modo inconsciente; Frankie e Maggie, juntos, enfrentam sem medo a utopia, nos ringues e na vida.

O mais recente trabalho de Clint Eastwood é uma tocante reflexão sobre o incomensurável ónus das ilusões perdidas e a consequente remodelagem do sentimento face ao curso da vida. Assente num enredo sem falhas, Eastwood inventou uma fita de caracteres profundos, com uma definição de personagens impressiva, uma realização ímpar e um compasso oportuno. Nada neste filme é intempestivo, até o final polémico é ostensivamente usado para expôr o espectador ao derradeiro murro (na consciência). A depressiva catarse dos protagonistas é convertida numa comovente trama de afectos, sem resvalar para o dramalhão. A performance dos actores é sublime, Hillary Swank, Clint Eastwood e Morgan Freeman rentam o primor. Com ou sem Óscares, Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos é indiscutivelmente um dos filmes do ano.

1 comentário:

Eugenio Rodrigues disse...

Era uma vez uma história sobre Boxe...
O meu comentário a Million Dollar Baby bem poderia começar desta forma. Poderia pensar que este filme era mais um sobre Boxe mas não é...
É uma bonita história de Amor.
É uma teia que nos agarra progressivamente a uma emotiva história de um pai que descobre, no meio de um mundo frio e duro como é o do Boxe, uma filha que nunca teve, um sentido para a vida que vai além de uma caixa repleta de cartas devolvidas ao remetente, dia após dia.
E mergulha-nos de tal forma neste drama, ao ponto de deixarmos de esboçar quaisquer sorrisos, não obstante os inúmeros e hilariantes “gag’s” que se vão sucedendo, mesmo até ao último take.
Mas este filme não é apenas uma bonita história de amor. Não passaríamos disso não fora o elenco de actores que nos é oferecido. Um portento da natureza do calibre de M. Freeman. É um Senhor da 7.ª arte, mesmo num papel secundário, que ainda nos brinda com a narração omnipresente do filme, em voz off, exactamente como António Salieri em Amadeus, de Milos Forman, se bem se lembram, e que então mereceu um Oscar.
Uma Hillary Swank, absolutamente genial, numa interpretação a raiar a perfeição, e que vai do representar da mais entusiasta e enérgica ao comovedor estado vegetativo.
Um Clint Eastwood, no seu melhor, provando que Dirty Harry, detective quase mudo do passado, mais não é do que uma caricatura do monstro do cinema que é hoje este actor. Como o Vinho do Porto, quanto mais velho melhor.
Pois bem, e estes 3 actores são a receita simples do sucesso. Um empregado de ginásio, que é o coração e fiel da balança do seu patrão e treinador de boxe. Este último, alguém irascível, demolido pelas vicissitudes da vida e carcomido pelos remorsos mas capaz de um gesto de amor absoluto.
Uma pugilista, tão rebelde como a vida, “uma vencedora disposta a fazer aquilo que os perdedores nunca fazem”, alguém que quer ter a coragem, o gozo e o prazer de deixar de comer os restos que os outros deixam nos pratos, uma mulher com um coração do tamanho do mundo, tão enternecedora como incompreendida.
O filme é como o mundo do Boxe, cru e nu, ao ponto de ter um tom de verde desbotado e estar desprovido de banda sonora. E no meio desta nortada de sentimentos somos ainda empurrados para o tema da Eutanásia, uma espécie de clímax perturbador, que nos confunde, que nos divide, acabando por partir mesmo aqueles ou aquelas pessoas reputadamente insensíveis.
Meus amigos, poderia este filme, ainda que muito bom, não deixar de ser mais um filme, mas não é...
Realizar no final, que Maggie “respirou fora da tela”, que tudo o que vimos e sentimos é real, traduz-se num choque ainda maior, brutal quase.
Por isso, mais um filme imperdível.

Eugénio