quinta-feira, 29 de maio de 2014

Prins Thomas - III

7,5/10
Full Pupp, 2014

Se há coisa que pode ser imputada a Thomas Moen Hermansen - o sujeito por detrás da alcunha Prins Thomas - é a responsabilidade de ter sido um dos reinventores das temáticas disco de escala europeia. Sozinho, ou com o compincha Lindström, deu visibilidade a um conjunto de produtos musicais que vieram a reposicionar a forma de sentir (e ouvir) a electrónica, cruzando a tal escola disco com inúmeras referências históricas e condimentos especiais que, em conjunto, compunham um conglomerado interessantíssimo e quase sem paralelo. E foi assim mesmo que os radares do mediatismo o descobriram, a mãos com o aprimoramento de um fórmula que tinha tudo para vingar, sobretudo por revelar sinais de consistência e um invulgar sentido de equilíbrio nas arriscadas sobreposições entre o tradicional e a novidade, sem favorecer um ou outra. Chamar-lhe space disco - a referência estética que colaram à ética de trabalho de Prins Thomas -, talvez não lhe fizesse justiça, como resulta evidente da discografia já editada e que dá mostras de uma verve que, acompanhando o pressuposto de remexer no suporte estrutural da disco, não se detém apenas nessas coordenadas.

III vem na sequência do díptico lançado com Lindström e que mereceu ampla aclamação, sobretudo por assentar nessa aliança com o património disco, mas moldando-o a um discurso menos apontado às pistas de dança e mais interessado em aventurar-se nas improváveis convergências com outras dimensões musicais. O pendor progressivo-espacial das composições reforçou, então, a legitimidade do epíteto space disco. Este III, mesmo sem a companhia de Lindström (dá-se a coincidência de também ser o terceiro registo em nome próprio), retoma essa relaxada peregrinação por paragens inexploradas da disco, indo mais além nas abstracções que constroem cada peça ("Arabisk Natt" é uma brincadeira deliciosa) e dando azo a um curiosíssimo contraste: talvez este seja o mais hedonista dos discos de Prins Thomas - no sentido de ser aquele que mais se borrifa em regras - e, ainda assim, será o menos dançável de todos. E cada audição escancara a inevitável evolução de paradigma de Prins Thomas: a disco não é já senão uma luminária distante e difusa, um cicerone de métricas e pouco mais. Tudo o resto é o produto de anos de destilação de uma linguagem que, hoje, tem mais certezas na sua própria especulação pelos sons cósmicos, pelo krautrock, pelo dub e até pelo psicadelismo, acolhendo todos e não destacando nenhum.  Chama-se a isso savoir faire.

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sábado, 24 de maio de 2014

Sugestão musical

Mac DeMarco
Passing Out Pieces
Salad Days (2014)

A Náiade

John William Waterhouse
The Naiad
1893

Observação de jogadores: Youri Tielemans

Youri Tielemans (Anderlecht)

No exigente quadro do futebol moderno, não é comum ver-se um médio defensivo afirmar-se ainda antes da maioridade, mas é isso que tem acontecido com Youri Tielemans. Produto da formação do Anderlecht - único clube que representou até à data - vem firmando o seu espaço no emblema belga, a ponto de ter-se tornado o mais jovem estreante do seu país na Champions, apenas com 16 anos. De então para cá, cresceu nas equipas de jovens do Anderlecht e chegou com naturalidade ao plantel principal. 

Apesar da tenra idade, surpreende a leitura espacial que faz do jogo e a sua maturidade táctica. Tem um comportamento posicional muito evoluído, com a exacta noção de onde tem que estar para garantir os equilíbrios tácticos da sua equipa. Depois, e porque é um centro-campista completo, é apto em todos os momentos do jogo: sabe recuperar a bola, assume a primeira fase de construção com critério e lança bem o momento ofensivo, em razão da excelência do passe e da visão de jogo apurada. Alia capacidade técnica acima da média com potência física, o que faz dele um médio com desembaraço, cultura de posse da bola, inteligência na transição (ofensiva e defensiva) e sentido utilitário do jogo. É comum encontrar a solução de passe mais eficiente para soltar a equipa para a frente, ora ao primeiro toque, ora depois de driblar adversários para libertar-se da zona de pressão e mudar o centro do jogo. Fala-se do interesse de grandes emblemas nele e, se evoluir consistentemente (acabou de completar dezassete anos e já joga nos sub-21 da Bélgica), tem tudo para tornar-se um médio de excelência para os próximos anos do futebol europeu.

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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Observação de jogadores: Karol Linetty

Karol Linetty (Lech Poznan)

Desde os dez anos nos escalões de formação do Lech Poznan, o centro-campista Karol Linetty integrou as várias selecções nacionais do seu país, chegando prematuramente à equipa principal, em virtude do reconhecimento dos seus predicados técnicos e da maturidade táctica que foi capaz de demonstrar desde cedo. Debutou, com 18 anos, em 18 de Janeiro de 2014, na selecção maior da Polónia.

É um médio perfeitamente adaptado às características e exigências do futebol moderno e com a capacidade de, no corredor central, interpretar bem qualquer posição do meio-campo. Embora já tenha sido utilizado como pivot defensivo, é como médio de segunda linha que o seu futebol melhor respira, seja pela apetência inata para construção de jogo, seja pela naturalidade com que solta a equipa para o espaço ofensivo, com excelente controlo de bola, bom drible e a oportuníssima descoberta de soluções desequilibrantes, ora no passe de ruptura, ora recorrendo ao remate de meia distância. Tem bom toque de bola e uma chegada criteriosa à zona de finalização e, se evoluir consistentemente, pode tornar-se um genuíno médio box-to-box. Fala-se do interesse de grandes emblemas europeus no seu concurso. Deverá integrar a esquadra polaca no próximo campeonato do Mundo.

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sábado, 17 de maio de 2014

Observação de jogadores: Matthias Ginter

Matthias Ginter (Freiburg)

Natural de Freiburg, é hoje um dos principais activos do maior clube local, depois dos primeiros anos de formação terem sido passados no SV March. É presença regular na primeira equipa desde a temporada 2012/13 e desde aí tem sido sistematicamente convocado para as selecções jovens do seu país, somando já internacionalizações pela Mannschaft em 2014. 

Com formação de defesa central, pode jogar em qualquer um dos lados do centro da defesa e é aí que vem solidificando o seu estatuto, embora já tenha sido pontualmente utilizado como médio defensivo. É dextro e, mesmo não sendo muito elegante na condução da bola, gosta de sair a jogar. É muito forte na antecipação porque lê bem o jogo, é culto nas movimentações defensivas e tem excelente timing no desarme. Competente no jogo aéreo e com a bola na relva, tem todas as características de um defesa central moderno: agilidade, rapidez e simplicidade de processos e bom sentido posicional. Quando tem oportunidade, gosta de lançar a bola em profundidade, podendo ser uma arma importante num colectivo especializado em transições rápidas. É um dos nomes mais falados da nova geração alemã e está pronto para o salto para um emblema com outra ambição.

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sexta-feira, 16 de maio de 2014

A cigana de Musca

Pablo Picasso
Gypsy in front of Musca
1900

Memórias do cinema

Morgan Freeman, Tim Robbins
The Shawshank Redemption
1994

Swans - To Be Kind


9,0/10
Young God Records, 2014

Quando Michael Gira decidiu ressuscitar os Swans, poucos previriam que aquela que outrora fora uma força ímpar do mais sombrio rock alternativo americano, após uma dúzia de anos de retiro (1998-2010), fosse capaz de motivar a consagração generalizada que veio a agraciar The Seer (2012). Mesmo com Jarboe apenas "emprestada" (a teclista vive a tempo inteiro o seu projecto solo), o colectivo pôs de pé um dos mais ambiciosos opus da sua extensa discografia e mereceu rasgados elogios de todos os quadrantes, recolocando Gira e seus pares em órbita relevante, deixado para trás um esquecimento que não fazia justiça ao quilate da discografia guardada nos armários da memória. Reparada a amnésia e reposto o equilíbrio universal, os Swans reafirmaram uma linguagem musical que domam como poucos e que Gira tinha posto de parte quando aos comandos dos melódicos Angels of Light. Mas a índole esdrúxula do  californiano não se aquietaria facilmente nas canções de sombras mais certinhas dos Angels; a nostalgia do gótico e do experimentalismo mais escuro viriam acima como o azeite em água. E só os Swans para responderem a esse apelo.

Esse disco de há dois anos era uma verdadeira megalomania de especulação rock, tão grande e tentativo (leia-se experimental) quanto equilibrado entre o minimalismo de um poema negro e o épico de uma ópera rock distorcida, situando as expectativas num plano de exigência que vergaria qualquer comum mortal. Mas Gira e companheiros não são gente para se render e investiram neste To Be Kind as mesmas ambições. O cunho grotesco que tão bem servira o antecessor, afinal a sublimação que o tempo trouxe aos sedimentos gótico-industriais da banda, tem sucessão certeira aqui, a ponto de já poder afirmar-se que esta nova vida dos Swans nunca quis ser um mimo nostálgico para fãs, antes a construção de um dialecto sonoro consistente e novo, apoiado no património deixado para trás na primeira vida, é certo, mas sem verdadeiramente se deter nele. Tão emocionalmente inquietantes como os longos mantras apocalípticos de The Seer, as peças deste To Be Kind anunciam uma catarse menos fatalista (o que não quer dizer menos negra, bem entendido). Além do monólito rock que se propunha triturar quase tudo à marretada (como se revê na entrada de "Bring the Sun/Toussaint L'Overture"), há aqui espaço para microscópicos trabalhos de acupunctura e orações. Destruição em golpes mais pequenos e mais fundos e sempre desconcertantes. Oremos.

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Observação de jogadores: Alireza Jahanbakhsh

Alireza Jahanbakhsh (NEC)

Oriundo do país de Médio Oriente que mais talentos deu ao mundo do futebol nos últimos anos, Alireza Jahanbakhsh cedo despertou a atenção de olheiros internacionais, sobretudo quando se estreou, aos dezasseis anos, na selecção sub-19 do seu país, no Campeonato Asiático de 2010. Já aí deixara sinais de uma maturidade ímpar e de qualidades técnicas acima da média da competição. Em 2013,  inaugurou a sua aventura europeia, comprometendo-se por três anos com o NEC Nijmegen e firmando-se quase imediatamente como um dos mais interessantes futebolistas do colectivo holandês, apesar da despromoção nos playoffs de 2013/14. Debutou na selecção principal do Irão, com a chamada de Carlos Queiroz em Outubro de 2013, na qualificação da Asian Cup, poucos dias depois de completar vinte anos.

Embora tenha predisposição natural para jogar na ala direita, pode jogar como segundo avançado ou à esquerda. É um bom transportador da bola, graças a um interessante controlo em velocidade, à iniciativa e ao facto de não temer o risco. Tecnicamente evoluído, apesar da ilusão de desconchavo que a sua passada larga transmite, é apto no 1 para 1 e ensaia o competente remate do seu pé direito sempre que possível. Culto na movimentação ofensiva, tem boa chegada à zona de finalização e, por isso, faz alguns golos e assistências. É criterioso no passe e mentalmente ágil a encontrar a melhor solução para soltar a bola. Se for capaz de elevar o padrão do seu pique e potência, pode tornar-se um caso sério de futebolista de transição, à imagem da definição moderna de jogador de corredor. Não é futebolista para estar perdido na segunda divisão do futebol holandês e certamente mudar-se-á, no próximo verão (e depois do Mundial) para outro emblema.

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terça-feira, 13 de maio de 2014

Sugestão musical

Janelle Monáe
Heroes
(David Bowie)

Observação de jogadores: Morgan Sanson

Morgan Sanson (Montpellier)

Embora tenha tido um percurso praticamente desconhecido até chegar à primeira equipa do Le Mans, em 2012/13 (com 17 anos), passando a justificar presença regular nos sub-19 da França, Morgan Sanson é, hoje, um dos mais cobiçados talentos da nova geração do seu país. Quando chegou ao Montpellier, no ano seguinte, já motivava a atenção dos olheiros por toda a Europa e rapidamente se estabeleceu como um dos regulares em La Paillade

Com uma maturidade táctica invulgar num miúdo de dezanove anos, é um talento inato para descobrir soluções ofensivas,  exemplo de centro-campista moderno e completo: participa na defesa (não sendo um recuperador natural, é capaz de resgatar a posse de bola), é culto na leitura posicional do jogo e nos equilíbrios entre o momento defensivo e ofensivo e apto na construção em posse de bola. É um médio criativo e uma das suas principais virtudes é o passe. Não sendo um futebolista fisicamente rápido, empresta velocidade ao desdobramento ofensivo da equipa através da precisão do passe longo e da inteligência com que arquitecta as transições e as saídas de zona de pressão. Como dextro, tem apetência natural para cair à direita de uma segunda linha interior do meio-campo, embora se sinta muito bem no espaço central ou, menos vezes, na interior esquerda. Temporiza muito bem o momento de soltar a bola, ora usando o passe longo para a fazer chegar rapidamente ao espaço de ataque, ora apelando aos recursos técnicos que possui para aguardar o melhor momento de saída, em função do posicionamento do colectivo. Um dos grandes médios da sua geração e com capacidades para tornar-se, nos próximo anos, um dos melhores futebolistas europeus, assim seja capaz de evoluir.

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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Observação de jogadores: Tonny Vilhena

Tonny Vilhena (Feyenoord)

O apelido vem da ascendência angolana do seu pai. É um produto das escolas de formação do Feyenoord, onde chegou em 2003. Rapidamente escalou as várias etapas das equipas nacionais holandesas, sendo internacional em todos os escalões até aos sub-21. No decurso desse trajecto, foi duas vezes campeão europeu de sub-17 (2011, 2012).

É hoje um titular indiscutível do principal clube de Roterdão e um dos valores seguros da nova geração holandesa. Culto na posição de médio centro, é sobretudo como médio de segunda linha que faz valer os seus créditos: criatividade, excelência no lançamento longo e boa saída de zona de pressão. É um médio moderno, inteligente e elegante, um improvisador e um inventor de oportunidades de golo. Além disso, tem boa chegada à zona de finalização e faz golos com relativa frequência. Respira melhor se não estiver amarrado a uma disciplina táctica muito rígida, no sentido de melhor aproveitar o critério de organização, a noção de distribuição do jogo para zonas com maior fluidez de saída - chama a contento os corredores laterais ao jogo - e a assertividade das suas iniciativas. Não sendo um médio de inato recorte defensivo, compromete-se bem nessa missão quando a ela é chamado e não vira a cara à luta, a despeito de ser um jogador tecnicista e, por natureza, menos dado ao choque e à dimensão física do jogo. Titular dos sub-21 da Holanda, está à porta da selecção principal e de uma transferência para outro emblema no espaço europeu. 

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Robocop



terça-feira, 6 de maio de 2014

Eels - The Cautionary Tales of Mark Oliver Everett


7,8/10
E Works, 2014

Quando o êxito tocou os Eels, já Mark Oliver Everett (o sr . "E") era experimentado nas lides musicais a solo, sobretudo em razão de um par de edições razoavelmente bem aceites e que acabaram por constituir o embrião original do que viria a ser uma das mais veneradas (e ubíquas) trupes da música americana, a ponto de cada edição discográfica ser um acontecimento de proporções relevantes. Com a voz chamuscada de E., os conteúdos líricos suficientemente assombrados para encher páginas de qualquer tese de psiquiatria ou até a invulgaridade da mescla sonora que professavam, os Eels reuniam todos os condimentos para se tornarem um quase imediato objecto de culto do rock alternativo. E assim aconteceu, com a crescente massa de seguidores a ver-se recorrentemente surpreendida com cada tomo forjado por E. e seus pares no estúdio de gravações, tornando virtualmente impossível arrumar-lhes a proposta musical num estilo estanque. Eles até deram uma ajuda, por altura do segundo álbum, em 1998, sugerindo no título uma bizarra classificação: electro-shock blues. Na falta de melhor, o universo de sons do grupo tinha sentido sob essa designação, ou não fossem os blues um fio condutor que se tornou transversal à discografia (veja-se em quantos títulos de canções eles utilizam a palavra "blues") e aceitava contaminações oriundas de outras famílias de som, com inventividade nas secções rítmicas e um indisfarçável apreço por apontamentos excêntricos em cima da medula acústica quase sempre presente. Nada de muito convencional, portanto.

A um par de anos de completar vinte de edições discográficas, a música dos Eels é um produto em estado maduro da sua evolução e, ainda assim, retém o pulsar emergente do começo. A deriva de Mark Oliver Everett pelos seus demónios mentais e facturas emocionais por pagar é um processo efervescente, dinâmico e indomável e, por isso mesmo, assume inúmeras caras, embalos e ritmos. Do espampanante ao despojado, cabe tudo. Até um disco de baladas. Elas que sempre mereceram espaço na discografia do grupo, como uma variável estrutural indispensável à identidade musical de E., têm aqui tempo de antena por inteiro, sem a máscara da extravagância. E quando um escritor de canções tão versátil deixa de lado os artifícios que, afinal, são parte importante do seu cardápio, expondo-se indefeso ao escrutínio de tantos que se habituaram a senti-lo atrás desses caprichos de produção (ou até da acidez de certos momentos), é como se de uma prova de autenticidade se tratasse: as minhas canções são isto, depois ponho-lhes aquilo. E isto, o que vem em The Cautionary Tales of Mark Oliver Everett, é pessoal e é bom, repescando os sabores conhecidos do som acústico com arranjos de cordas (muitas vezes presentes na discografia dos Eels) e desviando-se da rota adivinhada no eléctrico Wonderful, Glorious, do ano transacto. Não havendo nada de substancialmente novo nesta linguagem musical amadurecida pelo tempo, sobra o conforto da visita a um lugar conhecido. Mesmo quando as luzes garridas cedem lugar ás sombras.

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O caso Fernando: a conjuntura da transnacionalidade


Por uma questão de princípio, sempre torci o nariz à utilização de jogadores naturalizados nas selecções nacionais. Não se trata de ser um patrioteiro bacoco, mas sobretudo de ter presente a definição estrutural que defendo no enquadramento do que deve ser uma selecção nacional. Além da inevitável visão de circunstância, presa às necessidades pontuais de cada momento, entendo que uma selecção nacional deve ser pensada com horizontes temporais largos e alicerçada em lógicas de renovação que permitam manter qualidade ao longo do tempo, ao invés de sucessos passageiros. E ter esta concepção de gestão de uma selecção nacional não é compaginável com a utilização de jogadores naturalizados que, a despeito de adquirirem os direitos legais de cidadania e, por isso, se tornarem elegíveis para jogar, acabam por tapar alguns dos lugares desse processo de renovação. Convém lembrar que um jogador naturalizado não estará em condições de estrear pela selecção do país acolhedor antes dos 25/26 anos (à luz da legislação sobre nacionalidade). Ao chegar ao espaço dos convocáveis, com essa idade, um futebolista naturalizado estará, no limite, a fechar a vaga aos jovens emergentes (na faixa 19-25) e atrasa a renovação que se imporia normalmente, caso não houvesse a alternativa de recurso aos naturalizados. Em simultâneo,  a convocação de naturalizados quase sempre é uma solução de emergência, no intuito de suprir lacunas de momento. Ora, gerir uma selecção nacional nestas premissas conjunturais não é bom caminho. Pode resultar no momento, é verdade, mas dificilmente alumiará rotas de um futuro consolidado, bem preparado e sustentado para o êxito. Abordar um problema estrutural num prisma de momento é iludir em vez de resolver. Imaginemos que Diego Costa tinha nacionalidade portuguesa e, ao invés de jogar pela selecção espanhola, poderia jogar por Portugal. Seria certamente convocado e prefiguraria uma solução imediata para uma posição historicamente deficitária no futebol português. Mas seria isso um contributo para, em momento futuros, não ressurgir o mesmíssimo problema? Ou camuflaria temporariamente a lacuna, fintando a urgência de encontrar uma solução que melhor defendesse os interesses vindouros da selecção?

Não está em causa a aquisição plena de direitos de cidadania por futebolistas naturalizados. Legalmente, são tão portugueses quanto os outros e devem ser tratados como tal. A minha única reserva prende-se com a defesa de um modelo estrutural, pensado para preparar o sucesso continuado, por oposição à busca de soluções de conjuntura.

Todavia, o caso Fernando suscita também considerações de outro nível. A quem interessou apurar junto da FIFA a possibilidade de o jogador do F.C. Porto jogar por Portugal quando resultava claro dos regulamentos que o não podia fazer? A quem aproveitou o arrastamento desta expectativa, sabendo-se que Fernando havia representado o Brasil em jogos oficiais, sem ter dupla nacionalidade, e, em razão disso, jamais poderia representar outro país? Os únicos casos, no orbe futebolístico, em que um jogador representa mais do que um país acontecem apenas em duas circunstâncias:

- ou o jogador já tinha dupla nacionalidade quando representou uma determinada selecção nos escalões mais jovens e pode, noutro momento e em escalão diferente, optar por outra nacionalidade de que seja titular;

- ou o jogador não tinha dupla nacionalidade no momento em que representou uma determinada selecção e fê-lo apenas em jogos não oficiais (amigáveis), podendo depois jogar pela selecção de outra nacionalidade entretanto adquirida (é este o caso de Diego Costa, por exemplo).

Não há qualquer dúvida de que Fernando não podia jogar por Portugal. Os regulamentos são taxativos e absolutamente claros. Quem pediu o esclarecimento da FIFA e em defesa de que interesses? Paulo Bento não esclareceu a questão em recente entrevista à RTP. E o assunto vai morrer como um não-assunto, sem se saberem a fundo quais as suas verdadeiros motivações e meandros.


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domingo, 4 de maio de 2014

Observação de jogadores: Saúl Ñíguez

Saúl Ñíguez (Rayo Vallecano)

Apesar de ter nascido na Comunidade Valenciana (Elche), mudou-se para o Atlético de Madrid antes de completar quatorze anos, depois de uma breve passagem pelos primeiros escalões do Real Madrid. Com um passado consistente na selecção espanhola, tendo sido internacional em todos os escalões, é hoje um regular dos sub-21 e um dos valores mais cobiçados do futebol espanhol. Na temporada 13/14 foi emprestado pelo Atlético de Madrid ao Rayo Vallecano, assumindo-se como uma das referências da equipa. Estará de regresso ao Atleti na próxima estação, mas já se fala da cobiça de grandes emblemas do futebol europeu.

Embora possa ser utilizado no centro da defesa, é no meio-campo que o seu futebol ganha outra dimensão, seja como pivot único ou como médio de segunda linha. Vem-se destacando na posição seis, graças a um sentido posicional apurado, alicerçado em duas características indispensáveis ao médio defensivo moderno: correcta interpretação da dinâmica do jogo e cobertura eficaz da sua zona de acção. É um bom organizador, podendo assumir a incumbência da primeira fase de construção, em razão dos processos simples que aplica, da inteligência a mudar o centro do jogo e em tirar a bola das zonas de pressão. É ágil a decidir e criterioso na hora de entregar a bola. Tem bom toque, gosta de jogar de cabeça levantada e é um pêndulo táctico: não se entusiasma amiúde em incursões ofensivas, preferindo assegurar o equilíbrio posicional da equipa. Um valor seguro do futebol espanhol e que está preparado, depois do tirocínio em Vallecas, para outro nível de exigência. 

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Observação de jogadores: Richairo Zivkovic

Richairo Zivkovic (Groningen)

Oriundo dos escalões de formação do Groningen, rapidamente progrediu até a primeira equipa, por força das impressionantes capacidades físicas e técnicas. Estreou-se pela equipa principal do Groningen em 2012, então com 16 anos e dois meses. Em Agosto de 2013, em encontro da Eredivisie contra o NEC, tornar-se-ia o mais jovem marcador de sempre do clube, com 16 anos e 10 meses, destronando o anterior detentor desse registo, Arjen Robben.

Com apenas dezassete anos (!), é presença regular do onze do Groningen e um dos principais valores emergentes do futebol holandês, titular da selecção de sub-19. Tem raízes na Sérvia e na ilha de Curação, nas Antilhas Holandesas, mas nasceu na Holanda. Apesar do 1,86 mt de altura, é ágil e muito inteligente na desmarcação. Tem bom controlo de bola em velocidade e isso faz dele um avançado móvel, apto nos movimentos de transição e nas rupturas. Dá verticalidade ao jogo, com processos simples, oportunismo e uma invulgar maturidade posicional para a sua idade. Surge quase sempre bem colocado e, não sendo um goleador puro, tem a espontaneidade própria de um bom finalizador. Se evoluir como se espera, pode tornar-se um dos grandes jogadores europeus dos próximos anos. Para já, tem transferência assegurada para o Ajax, a partir de Julho de 2014.

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Sugestão musical

We Have Band
Someone
Movements (2014)

Memórias do cinema

Orson Welles, Charlton Heston
Touch of Evil 
1958

A árvore vermelha

Piet Mondrian
Avond (Evening) : The Red Tree
1910

terça-feira, 29 de abril de 2014

The Afghan Whigs - Do To the Beast


7,6/10
Sub Pop, 2014

Os últimos anos deram-nos inúmeros exemplos de reunião de colectivos icónicos que, não tendo sido esquecidos pelo tempo, foram ultrapassados por ele e sobretudo, na maior parte dos casos, saíram vergados dos choques de egos inflados a ocorrerem no seu seio, com o crescimento mediático. Perceber que o curso dos dias ajuda a curar essas desavenças e a reaproximar pessoas que partilharam ideias musicais durante anos é uma parte da explicação para esta vaga de ressurgimentos que, num nível mais profundo, parece radicar na urgência de regenerar símbolos de outros tempos, precisamente numa era em que a música, salvo raras excepções, parece órfã de protagonistas com passado musical consistente e capazes de aglutinar em si essa responsabilidade regeneradora, ainda que momentaneamente. De facto, estas reuniões dificilmente serão regressos efectivos, mas servirão o propósito de acordar velhos monstros e trazer à cena musical o quinhão de simbolismo histórico que parece faltar-lhe. Os Afghan Whigs juntam agora o seu nome à vaga, depois de dezasseis anos sem gravações e de uma separação alegadamente amistosa em 2001. Descendentes bastardos da onda grunge da década de noventa e nunca efectivamente parte dela, Greg Dulli, Rick McCollum, John Curley e Steve Earle ergueram um dos mais coerentes cancioneiros do rock americano, em que o psicadelismo autodestrutivo, a neurose sexual, a tensão obscura dos amores e algumas excentricidades lúgubres se equilibravam mutuamente e se foram abrindo aos poucos a curiosas afinidades com a soul, culminadas na excelência de 1965, último registo da banda antes do término de operações.

Neste retorno, apenas com Dulli e Curley do quarteto original, a caminhada é retomada onde tinha parado, mas sem nostalgias bacocas. Do To the Beast não acusa os dezasseis anos de silêncio atrás de si, tampouco a causa dos Whigs envelheceu ou perdeu pertinência; a verdade é que o rock contemporâneo tem pouco disto. Há dezasseis anos e depois de tímidas incursões, eles escancararam finalmente as portas da soul à força de guitarras e deram-nos um dos mais inspirados cruzamentos dos dois mundos. Agora, na contagem de espingardas do toque a reunir, pesa um pouco mais o rock, mas mora aqui a mesmíssima relação de afectos de outrora. E é suportada numa produção - aí sim, o toque de modernidade - que reforça o pendor dramático dos mundos mentais de Dulli e posiciona a música dos Whigs nos actuais padrões do consumo melómano, sem lhe beliscar os traços idiossincráticos. E não deve surpreender que a tensão de Do To the Beast fique aquém daquela ensaiada consistentemente no catálogo dos Afghan Whigs; no propósito de esquadrinhar os recantos soturnos da sua alma, Dulli encontrou um homem à porta dos cinquenta anos e longe das trincheiras da revolta do passado. A anestesia do tempo é coisa tramada. As frustrações desistem, já não se viram para fora e convertem-se em despojadas confissões.  E as canções não ficam a perder.

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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Chet Faker - Built on Glass


8,1/10
Future Classic/PIAS, 2014


Vivemos numa era em que se precipitam sucessivamente fenómenos de adoração quase instantânea que, na imensa rede global do hype, erguem heróis tão depressa quanto os substituem por igualmente apressadas sucessões. É uma tendência dos tempos modernos e que, na música, tem gerado inúmeros exemplos, sobretudo suportados na curiosidade dos vídeos "virais", cuja disseminação rápida é um recurso desejado por qualquer aspirante ao sucesso. O australiano Nicholas James Murphy - auto-apelidado de Chet Faker (em jocosa homenagem ao lendário Chet Baker, de quem é confesso admirador) é mais um desses casos paradigmáticos: quando divulgou, em 2011, a sua inventiva revisão de "No Diggity", clássico hip-hop dos 90's dos Blackstreet, estaria longe de imaginar o furor que se seguiria. Daí até à edição do EP  Thinking in Textures, sensivelmente um ano depois, o avanço da curiosidade foi imenso, a ponto de o nome Chet Faker ser suficiente para lotar salas, apenas na sequência da consagração do EP pela crítica e algumas edições avulsas (ouça-se a curiosa desaceleração de "Archangel", original de Burial) sem sequer ter o suporte de um álbum. São assim as venturas do mundo moderno.

Agora que chega o tão esperado disco, já não há segredos por desvendar no código musical de Chet Faker. As composições de Built on Glass, sempre sob o primado dos sons sintéticos, inspiram-se no garbo próprio da soul clássica e completam-no com um muito subtil pendor lounge, embalado em pontilhados rítmicos emprestados por escolas electrónicas contemporâneas. Depois, destaca-se a polivalência da voz de Murphy, cujas flutuações de registo tonal - chegam a pairar sombras de James Blake - facilitam o entendimento dos lugares emocionais do disco, exemplarmente sublinhados pela coerência ambivalente da produção, entre o éden de sonhos pastorais e a depressão urbana (mistura deliciosamente pesada em "Lesson in Patience", por exemplo). O enlevo frágil da melancolia, no final, tem barbas e duas metades: a primeira, mais soul, a segunda, a genuína devoção electrónica. E ambas podem muito bem ser feitas de vidro.

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terça-feira, 22 de abril de 2014

Woods - With Light and With Love


7,8/10
Woodsist, 2014

Para um colectivo que lançou cinco álbuns em outros tantos anos, com uma muitíssimo razoável consistência e qualidade, pode considerar-se que o hiato de sensivelmente um par de anos que nos separa de Bend Beyond, antecessor do novo disco, é um recorde absoluto para os Woods.  Se a gestação mais prolongada seria sinónimo de alguma mudança estrutural, foi a questão debatida ciberneticamente entre fãs nos últimos meses, gerando a normal (e estéril) divisão de opiniões entre os indefectíveis da fidelidade ao património do grupo e aqueles que, respeitando o legado do passado recente, apreciam o investimento em coisas novas. Agora que o disco de mais estes descendentes da prolífica Brooklyn está cá fora, não tardarão a pesar-se argumentos de uma e outra facção, até tudo radicar na incontornável certeza de qualquer disco dos Woods: eles não sabem fazer um disco mau e With Light and With Love é a sexta sólida premissa dessa conclusão.

Atrás deste disco e nestes nove anos de existência, os Woods ergueram uma identidade de verdadeiros animais de estrada, em proximidade com o seu público, erguida em numerosas actuações ao vivo que foram amplificando canções de belíssimo recorte, naquilo que as convenções chamam rock psicadélico e com um cheirinho nostálgico, mas que eram maioritariamente gravadas em orgulhoso (e não menos tosco) lo-fi e aparentemente pouco dadas a outras andanças. Ao mesmo tempo, e por se enquadrarem numa estética em manifesta sobrepopulação nos últimos anos, as más línguas viam neles um discurso musical emprestado e pouco original. A referência era manifestamente injusta e With Light and With Love faz prova do contrário, em ambos os casos. Não apenas as canções dos Woods respiram bem com uma produção mais abrangente (e profissional), revelando até um renovado impacto melódico, como destapam os talentos particulares da banda, tocando várias coordenadas estéticas e afastando qualquer cepticismo sobre a sua originalidade. Pode não ser genial, mas é genuíno. E é bom.

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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Todd Terje - It's Album Time


7,7/10
Olsen, 2014

Mesmo sendo adulado há imenso tempo por uma já considerável falange de seguidores, seja por força de sensivelmente uma década de sucessivas edições avulsas - a maior parte das quais no formato remix -, seja pelo trabalho de produção em alguns discos de gente importante, o norueguês Todd Terje não parecia sentir-se seduzido pela ideia de editar um álbum à séria. Tanto é assim que, ao debruçar-se sobre isso pela primeira vez, e atrás do gigantesco hype que logo se ergueu quando se soube que o ia fazer, saiu-se com uma ironia genial para baptizar o trabalho: It's Album Time. A escolha do título pode até ter sido uma boa forma de brincar com a noção de timing e, ao mesmo tempo, alijar uma parte do ónus da expectativa imensa que se colocou à frente de si e que, em boa verdade, o franco acanhamento de Terje sempre foi rechaçando com razoável sucesso. A despeito disso, ele vem sendo progressivamente entronizado como um dos protagonistas maiores da nostalgia disco na Europa, sobretudo nas latitudes nórdicas, e tardava já o primeiro disco, prenunciado vezes de mais nos últimos anos. De idêntica forma, este longuíssimo tempo de estágio auto-induzido permitiu a público e crítica tirarem as medidas ao som de Terje, a ponto de o primeiro contacto com o disco ser envolvido na inevitável familiaridade entretanto adquirida.

Como não podia deixar de ser, tudo é construído nas energias planantes dos sintetizadores e em demais adornos sintéticos, afinal as matérias quintessenciais do laboratório de Terje.  Depois, há aquela circunspecção faustosa que ele aprendeu a domar como poucos, entre o exotismo espacial, os sons cósmicos e a deriva ecléctica própria de um artesão habituado às celebrações da noite. Nesse sentido, It's Album Time é um exercício de electrónica hedonista porque, atrás da formatação disco-espacial, não tem poiso estético único e aceita com desassombro algumas interferências de estilo (ouçam-se "Svensk Sas" e "Alfonso Muskedunder") e as consequentes variações rítmicas. Essa versatilidade e sobretudo a forma como as peças evoluem sem perder o rumo e o sentido, ora com percussões e texturas mais inflamadas, ora apontando à melancolia (por exemplo, na iluminada versão de "Johnny and Marr"), é um atestado da competência de Terje. Mas esse gosto pela saturação (muito equilibrada) das texturas é um amor antigo. Só lhe faltava o compromisso. Ele aqui está.

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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sensible Soccers - 8


7,9/10
PAD, 2014

Assim que se escutam as primeiras notas de "Nikopol", faixa de abertura do primeiro longa-duração dos vila-condenses Sensible Soccers, se percebe que os laivos de épico assombrado não são mais do que o entusiasmo expansionista que lhes tomou as ideias nos últimos tempos. Deles se conhecia o gosto por encontrar convergências entre um jeito clássico de fazer música ambiental baseada em sintetizadores e o desapego formal daquilo a que as convenções chamam o pós-rock. Algures entre esses dois pólos, foram deixando pistas curiosíssimas, primeiro no EP homónimo de há três anos, forjado num suporte nuclear de guitarras e, depois,  nas edições avulsas de Fornelo Tapes Vol. 1 (2012) e da canção "Sofrendo por Você", do ano transacto, em que os sintetizadores eram voz principal. Esse trajecto evolutivo, no entanto, foi denunciando o refinamento da fórmula e dando mostras de que as pontes entre estilos adquiriam a coerência natural do amadurecimento. E é nesse caminho que surge 8, o remate esperado para o tirocínio do quarteto.

E o disco cumpre exemplarmente a missão de depurar o diálogo sintetizador/guitarra. O presumível primado do sintetizador, afinal o código essencial das últimas manifestações dos Sensible Soccers, não monopoliza o espaço das composições; a guitarra é um dos catetos (o outro é o baixo) indispensáveis a essa hipotenusa, como eloquentemente demonstra o crescendo da soberba "AFG" (herdeira de "Fernanda", tema icónico do grupo). E o álbum revela-se, então, um prodigioso exercício da melhor música instrumental, necessariamente maquinal e matemático (escola alemã?), mas com um finíssimo sentido de proporção e equilíbrio, como um vislumbre do infinito espacial sem tirar o pé do chão. Chame-se-lhe psicadelismo.  Ao mesmo tempo, as audições sucessivas de 8 permitem descobrir-lhe outro condão, o de fazer linguagens antigas do sintetizador soarem tão novas e sedutoras como as tendências mais recentes. É como os gráficos de 8-bits do jogo dos anos 90 que inspirou o nome da banda: datados, mas ainda assim tremendamente aditivos.

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quarta-feira, 16 de abril de 2014

EMA - The Future's Void


7,3/10
Matador, 2014

Foi por ocasião do segundo registo (Life Martyred Saints, 2011) que Erika M. Anderson se colocou ao alcance dos radares mediáticos. É certo que, atrás disso, a norte-americana contou alguns anos de préstimos vocais no quase incógnito (e já extinto) quarteto Gowns, mas a emancipação de uma linguagem musical muito própria (e individual) veio a merecer reconhecimento da crítica e originou um fenómeno de culto de dimensão bastante razóavel e que culminou precisamente no êxito de há três anos. De então para cá, o natural crescimento de expectativas para a sucessão do disco foi alimentado pelo lançamento intervalado de singles, nos últimos meses. As reacções foram mistas, dada a natureza aparentemente paradoxal entre as canções divulgadas e que denunciavam continuidade (na abrasiva "Satellites") e ruptura (no ensimesmamento de "3 Jane"), ao mesmo tempo. E o  último exemplo constituiu evidência de novos alentos de EMA, fora da órbita de desconstrução e de sons inconvencionais que tão bem haviam servido o segundo disco. Faltava saber se essas novas inspirações tinham cabimento no cardápio EMA.

E The Future's Void acaba por promover novos equilíbrios no cancioneiro de EMA, sem destronar os princípios adquiridos, antes moldando-os a uma forma de sentir diferente. Onde existia uma deriva escapista sem forma definida (e que ganhava coerência na desconstrução) e ligada à beleza da imperfeição, com as sensações de suores frios da claustrofobia, há agora uma clara conformação com os fantasmas exorcizados. Essa moderação - e até introspecção -, sem perder o espírito recalcitrante, assenta como uma luva às valências de voz de EMA, entre o delicado e o agreste, mas sempre intensa. Pena é que a produção rudimentar do disco funcione melhor a convocar afinidades industriais óbvias do que a acomodar a ambivalência emocional das canções ("When She Comes" é exemplo notório). Mas essa é precisamente a imperfeição de que EMA gosta, mesmo quando está menos inquieta.

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terça-feira, 15 de abril de 2014

Bruno Pernadas - How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge?


8,2/10
Pataca Discos, 2014

É verdade que Bruno Pernadas conhece agora primeiro capítulo discográfico a solo e, por isso mesmo, o seu nome pouco significará para a maioria dos melómanos, mas o que é facto é que o lisboeta, músico de formação do Hot Clube e da Escola Superior de Música, vem trilhando, nos últimos anos, um interessante percurso, ora nas lides musicais, emprestando arranjos e composições a gente como o Real Combo Lisbonense ou os colectivos When We Left Paris e Julie & The Carjackers, ora associando-se a alguns projectos de artes paralelas. Seja como for, esse lotado background artístico muniu-o de uma elasticidade musical pouco comum, por abraçar estéticas tão díspares como o jazz contemporâneo, o improviso, as escolas progressivas, a folk, a electrónica de ambiente e outras coisas mais e haveria de, tarde ou cedo, motivar uma edição em nome próprio. Tendo isso em mente, não é estranho que How Can We Be Joyful in a World Full oh Knowledge? se revele um frutuoso caleidoscópio de estilos. Não se trata apenas de  ter um alinhamento que, em simultâneo, se acerca de inúmeras referências musicais aparentemente sem paralelo entre si, mas também de perceber que a evolução dos trechos é tão imprevisível  que o desfecho, em cada um deles, mesmo quando o percurso é rápido, é quase sempre distante das premissas iniciais. Trocado por miúdos, a coisa nunca acaba como começa o que é o mesmo que dizer que Bruno Pernadas é um espírito livre, sem filiação ou família musical. Para ele, tudo vale, desde que tenha sentido. E é precisamente assim que se sente o universo do disco. Excêntrico, mas com sentido. É jazz, é rock, é electrónica, é folk, é tribal.

Ao mesmo tempo, percebe-se que atrás desse desdobramento estético - que não deve confundir-se com incongruência - há o cuidado matemático com o detalhe que só um cientista dos sons pode dar. As construções melódicas acolhem inúmeros pedaços de música com um critério que denuncia horas de trabalho a fio. No final, sobeja um interessantíssimo jogo de emoções e sugestões cénicas, algures entre o devaneio espacial e a lógica. Utopia e razão, num delicado mano a mano. E Bruno Pernadas, discreto, consequente e inspirado, vai aos comandos da nave de sonhos. Belíssima viagem, esta que aqui está!

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terça-feira, 1 de abril de 2014

Cloud Nothings - Here and Nowhere Else

 
8,1/10
Carpark Records, 2014

Colocado no mapa mediático pelo muito louvado Attack on Memory (2012), o projecto Cloud Nothings viu a sua música subitamente exposta ao exame da curiosidade generalizada. Se, na ocasião, a destacada intervenção de Steve Albini na produção ajudou a exponenciar o fenómeno, foi a música de Dylan Baldi (o mentor do conceito) que granjeou o reconhecimento geral, dando mostras de uma maturidade que não havia sido antecipada nas primeiras manifestações, sobretudo quando gravava sozinho na cave dos pais. De resto, essa energia primitiva e o espírito individual foi-se mantendo precisamente até ao disco de há dois anos, em que são creditados os restantes integrantes - já companheiros de estrada (TJ Duke, baixo, Joe Boyer, guitarra, entretanto e Jayson Gerycz, bateria) - pela primeira vez. A coincidência temporal do facto de passarem a ter corpo de banda devidamente emancipada da rusticidade caseira, com a interferência de Albini, ajudaram a redimensionar a música de Baldi, a ponto de o disco marcar um clivagem estrutural com os dois antecessores, sobretudo nos domínios da composição (mais assertiva) e da produção, a reanimar-lhe o pendor abrasivo.

Sob estas premissas, Here and Nowhere Else teria sempre à frente um escrutínio apertado, mais ainda depois de ser apresentado, pelo próprio Baldi, como um disco menos quezilento. Sabendo-se que era precisamente esse espírito de motim uma das causas motrizes do disco, o desvio anunciado pareceu um anátema lançado por Baldi ao novo álbum, com o natural efeito de alimentar vagas de curiosidade ainda maiores. Jogada intencional ou não, a verdade é que não se sente essa mudança "emocional". A produção - agora a cargo de John Congleton (Swans, St. Vincent, Bill Callahan, Xiu Xiu) - segue os trilhos de Albini, alumiando a acidez das guitarras e da voz de Baldi e trazendo a percussão (excelente!) à primeira linha. Em tudo o resto, a música é fiel ao niilismo-com-o-seu-quê-de-punk-austero de outros trabalhos, muito física e directa, sobrecarregada e bem escrita, a meio termo entre o furor incontinente e a melodia rock. Um digno sucessor de Attack on Memory, portanto.

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quinta-feira, 27 de março de 2014

Liars - Mess


6,7/10
Mute/PIAS, 2014

Mesmo com o sexteto de álbuns anteriores a este a servirem de luminária, continua a ser impossível etiquetar a música dos Liars. Se no começo de carreira, o trio nova-iorquino acabou por ser alinhado com o então emergente saudosismo do pós-punk - o que até fazia sentido dada a excentricidade rock que professavam -, cedo se percebeu que a profusão de ideias de Angus Andrew e seus pares jamais caberia num rótulo só. Fosse pela afinidade com coordenadas rítmicas desvairadas e sem correspondência nos manuais convencionais, fosse pela tendência para as combinar com texturas muitas vezes no limite do tolerável enquanto produto "musical", os Liars impuseram-se como umas das unidades mais aberrantes (no sentido desviante) do espectro da música americana. E essa aberração foi crescendo, entre paixões e ódios de estimação, ora abeirando-se da electrónica ácida, ora desenhando tangências com o krautrock e até com as órbitas noise e o mais primal experimentalismo. Essa deriva teve ponto alto com Drum's Not Dead (2006), terceiro álbum e um dos mais icónicos (e, ironicamente, um dos mais dissonantes) produtos do laboratório de sons do grupo, também a menos turbulenta das suas gravações. O lastro de acalmia foi, afinal, um acto de purga nada acidental que coincidiu com a paz entre experiência e melodia e veio a prolongar-se nas edições seguintes do grupo, provocando inclusivamente o distanciamento de parte dos seus fãs, sob o pretexto de traição ao ideário original da banda.

A primeira sensção que Mess transmite é a de reconciliação dos Liars com uma parte importante do seu universo. Não há uma renúncia vincada do pendor espacial em que estabilizaram a sua música nos últimos anos, nem fazia sentido romper com essa "evolução", mas sente-se algum do colapso nervoso dos primórdios. Nesse sentido, o disco é uma emboscada imprevista: aborda-nos exactamente onde não víamos os Liars há anos. Em comparação com os últimos discos, o compasso é mais rápido, mas a electrónica, apesar de ser a matéria dominante (onde param as guitarras?) é menos exploratória. Na prática, este é o disco mais conciso dos Liars, um álbum de canções dançáveis, no sentido convencional do termo. O que, olhando o passado dos Liars, dificilmente pode ser visto como um elogio. Indícios de uma nova vida? As guitarras foram-se há muito, o experimentalismo espacial também, resta agora uma electrónica pseudo-industrial sem nada de especialmente substancial.

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terça-feira, 25 de março de 2014

Real Estate - Atlas


7,1/10
PIAS, 2014

Propor-se fazer a canção pop perfeita sem ceder às tipificações do mainstream estupidificante é causa que poucos podem orgulhar-se de ter defendido, com consistência, durante um percurso que conte um punhado de anos. Chegar a escrevê-la ou não, é conta para outro rosário, mas o propósito de per si não é feito de somenos, sobretudo num meio musical que se deixa progressivamente colonizar pela boçalidade e o erotismo bacoco. O exemplo dos Real Estate é paradigmático da tal consistência em torno de um ideário pop elegante, tranquilo e, ainda assim, genuinamente suburbano e sedutor. Oriundos de New Jersey, vêm imprimindo a sua marca há sensivelmente cinco anos, sempre com muito razoáveis resultados comerciais e o reconhecimento da crítica especializada.

Atlas é o terceiro título da discografia e alicerça-se na assinatura distintiva de Martin Courtney e companhia, a mesmíssima proposta musical que é toscamente arrumada - por ser muito mais do que isso - sob o epíteto de surf rock. Não há como negar que há um sopro de Verão neste álbum, como nos que o antecederam, mas agora levado por uma produção mais limpa, com menos manobras artificiais. Esse detalhe enobrece o já eloquente melodismo das canções, apoiado na simplicidade estrutural das guitarras, na precisão do baixo e no equilíbrio tímido da percussão. Depois, a fidelidade ao refinado bom gosto das melodias, mesmo nos instantes de pura melancolia, dá ao disco a identidade Real Estate. Não vai reinventar a roda, é certo, mas é suficientemente bom para saudar a chegada do sol, sem ceder às autoplagiadas tonterias da pop mainstream.

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segunda-feira, 24 de março de 2014

Dead Combo
A Bunch of Meninos



7,8/10
Universal, 2014

Se há mérito reconhecível nos Dead Combo, ele é o de terem erguido, com solidez e consistência, um discurso musical muito pessoal. A música de Pedro Gonçalves e Tó Trips é um planeta de sons deles e que nem as sucessivas imiscuições registadas por vários convidados, numa discografia que abraça sensivelmente uma década, vieram deturpar. E isso nem sequer é sinónimo de imobilismo, já que, nesse caminho, foi tornando-se óbvio o pulsar nómada de uma música que começou por ser genuinamente portuguesa na alma e que cresceu bem além da formatação emocional que lhe esteve na origem. A Bunch of Meninos, quinto registo de estúdio da dupla, segue o rasto dos que o antecederam e fá-lo sob as certezas de uma linguagem que o tempo aprimorou e que, mesmo não contendo novidades na estrutura, é sempre capaz de insinuar uma sensualidade renovada.

Como não podia deixar de ser num disco dos Dead Combo, A Bunch of Meninos acata a mesma súmula de legados musicais que abençoou o casamento da guitarra de Tó Trips com o contrabaixo de Pedro Gonçalves (e todas as demais matérias que a eles se juntam...) e que vão da cultura poeirenta dos westerns ao desalento fadista, da  rusticidade rock ao saracoteio latino. A mistura é, como se suspeitava, equilibradíssima e só tem cabimento no universo sem par dos Dead Combo, com composições que colhem inspiração na diversidade e que, também por isso, são incrivelmente férteis a conceber ambientes e cenários. Música com este calibre cenográfico não se faz todos os dias, sobretudo cá no burgo. E entreter-se com as tradições lusas, ir buscar coisas a toda a parte do mundo e, no final, soar tão naturalmente português, não é coisa para ser feita por meninos...

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quinta-feira, 6 de março de 2014

Sunn O))) + Ulver - Terrestrials


6,7/10
Southern Lord, 2014

A inflexão estética que os noruegueses Ulver foram gradativamente ensaiando acabou por trazê-los a cenários que dificilmente se anteveriam quando, no começo do seu percurso, se viram inscritos - em contraponto com a vontade manifestada pela banda que sempre repudiou o rótulo - no povoadíssimo orbe do metal escandinavo, por força de uma afamada trilogia de álbuns que, a despeito das incongruências entre si, os situava num registo a meio termo entre o misticismo/fantasia da folk barroca do norte da Europa e as cadências musculadas e angustiantes do death metal. De então para cá, num trajecto de cerca de uma década de edições, o colectivo rechaçou definitivamente a colagem a um género estanque, dando mostras de um fôlego experimentalista assinalável e da vontade de crescer além de qualquer fronteira estética, vincando uma indisfarçável (e confortável) aproximação a outras órbitas, desde a especulação com o ruído à electrónica ambiental e do sinfonismo à música de câmara. Essa deriva ecléctica não faria adivinhar convergência com as paisagens de catastrofismo grave e arrastado dos Sunn O))), espaço monolítico em que Stephen O'Malley e Greg Anderson debitam progressões lentas e graves de guitarras em baixíssima frequência (chamam-lhe doom).

Gravado num encontro de uma noite entre os músicos em 2008, Terrestrials testa o nexo impossível entre dois universos díspares: a inventividade sem forma dos Ulver e o dramatismo monocórdico dos Sunn O))). O produto final é um híbrido com tanto de interessante como de inconsequente. O idiossincrático fatalismo dos Sunn O))) é convertido numa mera bússola de graves (como se fora o baixo das peças), camuflada pelas texturas tonalmente mais opulentas dos Ulver e pela panóplia de cordas e metais que elas convocam. E nem é pecadilho haver mais de Ulver do que de Sunn O))) na mistura, afinal a música professada pelos noruegueses tem espírito de motim e nunca deixaria de tomar de assalto a languidez da negrura de O'Malley e Anderson; o problema é que, por revolver-se na sua própria vagueza e sobretudo por não encontrar um clímax no infinito adorno que constrói, a música de Terrestrials se resume a um mero circunstancialismo sem orientação.

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terça-feira, 4 de março de 2014

St. Vincent - St. Vincent


8,2/10
Loma Vista, 2014

Uma verve tão inventiva quanto a de Annie Erin Clark dificilmente sossegaria sem encontrar o seu próprio quintal no universo musical. Depois de alguns anos passados na numerosa trupe dos The Polyphonic Spree e emprestando a sua guitarra a digressões de Sufjan Stevens, a emancipação artística sob o epíteto St. Vincent foi a óbvia evolução.  De então para cá, deu-se a progressiva maturação de uma linguagem musical marcada por uma finíssima excentricidade sonora e o uso inteligente da palavra, definida pela própria como a "sublimação musical de um ataque de pânico ou de uma crise de ansiedade".  Salvo o natural exagero, essa pode, de facto, ser a melhor definição da estética de St. Vincent, um verdadeiro caleidoscópio de emoções passadas à forma de música sob vários filtros instrumentais (guitarra, electrónica, violinos, trompetes, violoncelos, clarinetes, e outros) e com uma voz adaptável a múltiplos registos. Com uma mistura assim polivalente e imprevisível, qualquer rótulo é inevitavelmente imperfeito, sobretudo por estarmos em presença de uma das intérpretes mais engenhosas da conjuntura musical contemporânea que, com três discos editados em nome próprio e o interessante trabalho partilhado com David Byrne, há dois anos (Love This Giant), pode não ter a frescura da novidade de outrora, mas mantém uma incrível fertilidade.

St. Vincent é mais um capítulo da construção do cosmos sonoro muito particular que Annie Erin Clark ergueu para esvaziar-se das inquietudes próprias de um espírito consciente de si, desiludido pelas suas fragilidades e pela ansiedade de sentir-se parte da experiência maior da existência humana. Partindo dessas certezas, o nervo destas novas canções abre um optimismo inesperado, igualmente ansioso, é certo, mas mais luminoso - o que não é avanço pequeno para St. Vincent. No resto, as canções assentam em dois esteios idiossincráticos de Annie Erin Clark: as texturas meticulosamente trabalhadas em cima de fantasias sonoras e artifícios pirotécnicos que tendem para o supérfluo - que lhe têm valido inúmeras críticas de pretensiosismo - e os conteúdos líricos não menos extravagantes. Um gosto adquirido, portanto. E com música do quilate deste St. Vincent a polarização prosseguirá: o que uns adorarão, outros olharão com desdém. E é a própria Annie Erin Clark que volta a acertar na definição inscrita no press release: "um disco festivo que pode tocar-se num funeral". Mais palavras para quê?

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