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terça-feira, 4 de março de 2014

St. Vincent - St. Vincent


8,2/10
Loma Vista, 2014

Uma verve tão inventiva quanto a de Annie Erin Clark dificilmente sossegaria sem encontrar o seu próprio quintal no universo musical. Depois de alguns anos passados na numerosa trupe dos The Polyphonic Spree e emprestando a sua guitarra a digressões de Sufjan Stevens, a emancipação artística sob o epíteto St. Vincent foi a óbvia evolução.  De então para cá, deu-se a progressiva maturação de uma linguagem musical marcada por uma finíssima excentricidade sonora e o uso inteligente da palavra, definida pela própria como a "sublimação musical de um ataque de pânico ou de uma crise de ansiedade".  Salvo o natural exagero, essa pode, de facto, ser a melhor definição da estética de St. Vincent, um verdadeiro caleidoscópio de emoções passadas à forma de música sob vários filtros instrumentais (guitarra, electrónica, violinos, trompetes, violoncelos, clarinetes, e outros) e com uma voz adaptável a múltiplos registos. Com uma mistura assim polivalente e imprevisível, qualquer rótulo é inevitavelmente imperfeito, sobretudo por estarmos em presença de uma das intérpretes mais engenhosas da conjuntura musical contemporânea que, com três discos editados em nome próprio e o interessante trabalho partilhado com David Byrne, há dois anos (Love This Giant), pode não ter a frescura da novidade de outrora, mas mantém uma incrível fertilidade.

St. Vincent é mais um capítulo da construção do cosmos sonoro muito particular que Annie Erin Clark ergueu para esvaziar-se das inquietudes próprias de um espírito consciente de si, desiludido pelas suas fragilidades e pela ansiedade de sentir-se parte da experiência maior da existência humana. Partindo dessas certezas, o nervo destas novas canções abre um optimismo inesperado, igualmente ansioso, é certo, mas mais luminoso - o que não é avanço pequeno para St. Vincent. No resto, as canções assentam em dois esteios idiossincráticos de Annie Erin Clark: as texturas meticulosamente trabalhadas em cima de fantasias sonoras e artifícios pirotécnicos que tendem para o supérfluo - que lhe têm valido inúmeras críticas de pretensiosismo - e os conteúdos líricos não menos extravagantes. Um gosto adquirido, portanto. E com música do quilate deste St. Vincent a polarização prosseguirá: o que uns adorarão, outros olharão com desdém. E é a própria Annie Erin Clark que volta a acertar na definição inscrita no press release: "um disco festivo que pode tocar-se num funeral". Mais palavras para quê?

PODE LER ESTE E OUTROS CONTEÚDOS EM WWW.ACPINTO.COM

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

St. Vincent - Marry Me

8/10
Beggar's Banquet
2007
www.ilovestvincent.com



Embora faça com este disco o seu debute discográfico a solo, Annie Clark vem fruindo, nos últimos anos, da fertilíssima experiência de partilhar palcos (e públicos) com personagens relevantes do meio musical contemporâneo. Senão, veja-se: ela empresta habitualmente a sua guitarra ao numeroso combo dos Polyphonic Spree e, em palco, também integrou a banda de suporte das digressões do mediático Sufjan Stevens e, mais recentemente, tocou com os Arcade Fire. Dito isto, não é surpresa que este Marry Me desvende um jogo de estilos indie pop bastante diversificado, com gradações suficientemente suaves e equilibradas para não causar atropelos estéticos no alinhamento e, sobretudo, para definir uma linguagem própria. Depois, as composições, mesmo partindo de uma base acústica de construções mais ou menos "típicas" da guitarra ou do piano, estão recheadas de condimentos que as desviam das convenções, ora introduzidos pelos arranjos de cordas que envolvem os trechos, ora chamados pelo uso sensato de electrónicas em fundo. A mistura irrepreensível - suportada por uma voz harmoniosa (e elástica) como poucas, algures entre o registo colorido de Leslie Feist e as contrições de Beth Gibbons - insinua uma majestade orgânica (e instrumental) que, afinal, não pretende atingir e esse é o encanto de Marry Me. Num exercício quase tântrico, Annie Clark vai manobrando, com sapiência, meras sugestões e lampejos dessa grandeza, construindo um tomo orquestral mas intimista e com os contrastes emocionais certos para enredar o ouvinte numa teia de seduções. E fazer um disco assim, um prodígio romântico e ácido no mesmo fôlego, não é para todos.