quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Sérgio Godinho - Ligação Directa

Apreciação final: 7/10
Edição: EMI, Outubro 2006
Género: Pop/Música Popular
Sítio Oficial: www.sergiogodinho.com








Seis anos sem ouvir a palavra autorizada dos originais de Sérgio Godinho, um dos consagrados nomes da respeitosa reserva de qualidade do cancioneiro luso, é um silêncio importante. Prosseguindo o propósito de reconciliação do seu som com as causas modernas, ritual anti-estagnação de Godinho já começado no magnífico Domingo no Mundo (1997) e continuado, com menor fulgor, em Lupa (2000), Ligação Directa é uma firme colecção de canções e vem confirmar essa propensão reformista de um dos melhores compositores portugueses, coisa vista recorrentemente ao longo do seu percurso. O que não quer dizer que Godinho seja homem de modas, nunca o foi, mas também não é artesão que aferrolhe a sua música às oscilações temporais. A sua obra tem uma ciência privada, com o inconfundível tacto no uso da língua nacional, com humor e amor(es), metáforas e ironia e uma estética e identidade muito próprias, firmadas em mais de três décadas de canções. É aí, na essência identitária, que os sinais marcantes de Godinho nunca se perdem no (e com o) tempo, aceitando-o como mero salvo-conduto ou mecanismo de sugestões tonais e de arranjos, nunca como interrupção de um fluxo criativo genuíno e sólido, cuja continuidade não aceita onerar-se com tendências. É assim que as canções de Ligação Directa nos contagiam, na simultaneidade do embalo moderno, mormente na excelência dos arranjos, e dos distintos traços estruturais da música de Godinho, recheada de predicados intrínsecos à música de feição popular. Das sátiras nascem mais alguns verbetes para a caderneta de pitorescos retratos da sociedade lusa que o músico vem construindo: "O Rei do Zum-Zum" troça da futilidade de um país viciado em reality shows e ídolos vácuos; "No Circo Monteiro Nunca Chove" fala-nos de um Portugal de duas caras, presumido e vaidoso (novo-rico), mas endividado e indigente; "O Às da Negação" (com música de Nuno Rafael) é a efígie humorada de um desporto nacional do português, a recusa de responsabilidades; "Só Neste País" mostra-nos um país de dois pólos que se confundem, o encrespado pela crise e pessimista e, ao mesmo tempo, o convencido de si mesmo.

Em entrevista recente, Sérgio Godinho definiu Ligação Directa como um disco "meigo e cáustico". De facto, a ternura das canções de amor divide o espaço do disco com a crítica de certos padrões sociais, com o humanismo do costume. E sem clivagens. Sobretudo, há em Ligação Directa uma mensagem redentora, um bónus de confiança no português descrente. Musicalmente, o último trabalho de Sérgio Godinho, mesmo sem chegar à transcendência de outros momentos, é um fôlego de continuidade e traz-nos estampas sonoras de um país real, com deformidades reconhecidas (e pouco contrariadas), que as metáforas de Godinho pintam com erudição ímpar.

2 comentários:

Joao Cabrita disse...

Excelente comentário.
Só um reparo: o site oficial do Sérgio passou a www.sergiogodinho.com
Abraços

A.C. disse...

Obrigado pelo reparo.
A correcção está feita.