quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Philippe de Sousa - Boîte à Petits...

Apreciação final: 7/10
Edição: Audeo, Novembro 2005
Género: Guitarra Portuguesa/Instrumental
Sítio Oficial: www.audeo.co.pt








O guitarrista Philippe de Sousa nasceu em França mas não mascara, nas harmonias da sua música, as raízes da ascendênia portuguesa, mormente na afinidade com a guitarra portuguesa e a escola clássica da canção nacional, o fado. Mas Philippe não é um fadista, a sua arte é uma jornada apátrida pelos quatro cantos do mundo musical. Com o mesmo enternecimento, Philippe acolhe a saudade chorosa do fado tradicional, a cadência do corridinho algarvio, a sedução temperada do tango, o embalo melancólico das canciones de cuna, as mágoas e pesares da América Latina, o floreio estético do klezmer, os aromas do folclore dos Balcãs, o arrojo experimental do jazz e a amplitude sonora da música de câmara. O fraseado instrumental de Phillippe é, assim, desembaraçado e traz a guitarra portuguesa num discurso de vários idiomas musicais, evocando tradições cruzadas com a modernidade, em trejeitos musicais sem bruniduras excessivas. Esta caixinha de Philippe é um caleidoscópio universal que nos descarrega na mente um imaginário perdurável, acordando em nós a suspeita de saudade de coisas que não vivemos ou não conhecemos. Nesse sentido, este disco é a estampa musical de um amanhã sem acanhamento das suas raízes, marcando o desígnio renovador de um instrumentista de eleição, sem adulterar a majestade das suas influências. Elas estão aqui, nas tramas das composições como nas pautas, são testemunhas ajudantes. O resto é de Philippe.

Boîte à Petits... é um documento feito de pedaços instrumentais em que a guitarra portuguesa se rodeia de outros instrumentos (xilofone, contrabaixo, guitarra clássica, violino e alguma percussão) e se (re)inventa, umas vezes num jeito mais técnico (como na notável "Carrossel"), outras num prisma menos lacónico (o tema título). Neste álbum, a fantasia quase pueril das composições torna-se o catalisador de uma viagem sem eixos, também sem peias, a um destino multiangular. E um disco assim é um saboroso convite à ilusão, um exercício prestidigitador que deslumbra, a despeito de algumas porções menos conseguidas, os cantos mais protegidos de qualquer criatura melómana.

3 comentários:

Anónimo disse...

Este album vale muito mais do que 7!!!
Têm de ouvir. É excelente!!!

A.C. disse...

Quanto ao que vale ou não, tudo se resume a uma questão de opinião.

Em relação à qualidade do disco, o artigo que escrevi fala por si.

Saudações.

Anónimo disse...

Este artigo está muito bem escrito e resume bem o ambiente deste album...
Cada um põe a nota que quizer.
Boa continuação para o Philippe...