quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Midlake - The Trials of Van Occupanther

Apreciação final: 8/10
Edição: Bella Union, Julho 2006
Género: Indie Rock/Art Rock
Sítio Oficial: www.midlake.net








No burburinho underground que precedeu a edição do segundo álbum dos texanos Midlake, dizia-se à boca cheia que eles estavam mais Radiohead, muito por culpa do brilhante avanço do álbum ("Roscoe"). Embora se possa cobrar essa eventual similitude no registo vocal de Tim Smith, algumas vezes lavrado em moldes idênticos aos de Thom Yorke, a proposta musical deste quinteto fixa divergências detectáveis desde as primeiras audições. Ao invés do polimento urbano e modernidade que tão bem assenta nos Radiohead, a música dos Midlake é, as mais das vezes, rústica nos princípios, com subterfúgios dignos de uma écloga musicada, a lembrar paisagens verdes e ensolaradas, de perfumes country, pejadas de insinuações acústicas (o disco é menos electrónico do que o antecessor), guitarras e violinos em diálogo, pianos e flautas a secundar. Aqui e ali, os tímpanos mais lúcidos descobrem, nas recatadas melodias dos Midlake, pulverizações da lírica dos anos 70 (vestígios da devoção a Fleetwood Mac, Jethro Tull e Steely Dan?), coisa que alinha os Midlake com os californianos Grandaddy ou com os também americanos Flaming Lips, com quem, de resto, já partilharam palcos. Aparentemente conceptual, o álbum é uma alegoria sobre a descoberta de si mesmo de Van Occupanther (e, por extensão, a revelação de adágios universais da humanidade), um misantropo campesino ficcionado (século XIX?), suas peripécias e confidências, num conto encriptado numa linguagem nem sempre contínua e de entendimento incerto. Letras à margem, a fracção instrumental é ambiciosa e cheia de cambiantes, fazendo menção de reunir uma multiplicidade de estímulos acústicos, com arranjos superlativos de cordas ou sopros, em apreço pelos cânones do rock clássico. Canções que soam assim são um repto às irrevogáveis sentenças do tempo, afastam-se dos ciclos de modas e costumes instantâneos e tão bem se escutariam nas ondas de uma emissão radiofónica dos anos 70, como são ouvidas presentemente.

Menos psicadélicos que na obra de debute, os Midlake condescendem com as directrizes mais concretas da sua música e, em The Trials of Van Occupanther, buscam um discurso mais focado, também mais delicado e intimista. Talvez por isso, o álbum é mais dream pop do que se presumiria e, em contraponto com a propensão recente do indie rock não está impregnado da pop efusiva dos 60's, tampouco do delirante new wave dos 80's (esses predicados foram investidos no disco de estreia), ambos preteridos, como se escreveu atrás, em favor de uma família menos compreendida, o art rock sombreado da década de 70. Alguns trechos do disco têm menos faculdades mas tivera a máquina sido afinada pelo lamiré de "Young Bride", "Roscoe", "Bandits" e "Head Home", os zénites do disco, e The Trials of Van Occupanther traçaria ilação irrefutável: os 70's poderiam ser no século XXI.

1 comentário:

Eduardo Tadeu disse...

Excelente disco, mesmo!E, engana-se quem acha que Tim Smith é mais um clone de Thom Yorke; pois há muito mais qualidade nas músicas do que isso. Só em "Branches", é que isso passa um pouco perceptível. É uma banda que, com certeza, ainda vai fazer muito mais coisas boas. Bom o seu review também!