domingo, 13 de agosto de 2006

Jurassic 5 - Feedback

Apreciação final: 5/10
Edição: JVC Victor/Interscope, Julho 2006
Género: Hip Hop/Underground Rap
Sítio Oficial: www.jurassic5.com








Com a deserção recente do produtor Cut Chemist (à procura de evolução em nome próprio), a equipa mais astuta do rap underground do Bronx tornou-se, agora sim, um quinteto. A partida de Chemist, prospector versado nos postulados do diggin', é um desalinho mais do que numérico nos Jurassic 5. Ele é, a par de Dj Shadow (com os seus Quannum), um dos obreiros da cartilha básica do hip hop de combustível funk, em busca das origens do género, com pioneiros como Afrika Bambaataa, os Sugarhill Gang (a quem é atribuída a primeira gravação hip hop), Kool Herc ou, um pouco mais tarde, os Crash Crew ou os Treacherous Three. E aí que estão as raízes arcanas do hip hop, a verdadeira old school, muito antes dos Wu-Tang Clan, Gang Starr ou dos Beastie Boys. Para esse trabalho missionário de uma década a recuperar a estética esquecida e as técnicas beats desusadas (em tempos até se gravavam em tempo real), é difícil desligar os Jurassic 5 do espírito retro de Chemist. A química essencial do disco é agora incumbência de Dj Nu-Mark, também ele destro na procura da batida certa. Contudo, a despeito da competência técnica e da regularidade funcional que o disco apresenta, mormente nas sinergias vocais do costume e numa ou outra beat carismática, a escuta de Feedback ressalta algumas anomalias. A muito radio-friendly "Brown Girl" existiria com Chemist? Chame-se-lhe amadurecimento ou afeição mercantilista, Feedback não é vinheta da história dos J5. O afinco deles nas causas anti-comerciais jamais faria adivinhar que um dia, por força das ironias do destino - o tempo fez do underground uma vaga de primeira linha - ou do anseio pelo êxito, os J5 fariam concessões arriscadas (insensatas?) ao lado mais circense do hip hop. Cansados do anonimato do underground? Dave Matthews é convidado (até nem é muito estranho, Nelly Furtado já emprestara a voz em Power in Numbers), Scott Scorch dá uma ajuda nas batidas, Mos Def é rato no porão.

Mais do que serenar o discurso panfletário dos J5, ainda preocupados em salvar o mundo hip hop dos dominadores clichés MTV em que o recurso visual maior são moças de formas generosas e uma atitude pimp despudorada, Feedback dá mostras de algum cansaço no malabarismo das fórmulas old school e, pior do que isso, de descrença na importância de manter activa a integridade da arte e sobrepô-la ao império dos dólares. Não basta proclamar, com sensação, que se é salvador. Para o ser, há que obrar uns quantos milagres ou actos de redenção. E Feedback, quatro anos depois do último disco, está mais perto de ser o negócio com o belzebu que os J5 sempre rejeitaram.

3 comentários:

membio disse...

eu até gostei do "power in numbers", mas pelas tuas palavras vejo que a banda começou a percorrer outros caminhos indesejáveis...

A.C. disse...

Isto é tudo uma questão de opiniões. Há quem ache este disco um trabalho digno do percurso dos J5. Eu, pelo contrário, fiquei bastante decepcionado e quando os pretensos salvadores do hip-hop soam a Black Eyed Peas (escuta "Brown Girl") ou, a outro nível, a melhor música do álbum é uma joint venture com Dave Matthews, penso que não há muito mais a dizer...

CHAGAS disse...

para mim é um dos melhores discos que ouvi nos últimos tempos!
fiquei apaixonado e já ouvi o disco uma data de vezes!

é pena não concordar convosco mas cada um tem as suas opniões!

um abraço,
antónioCHAGAS