terça-feira, 21 de março de 2006

Calexico - Garden Ruin

Apreciação final: 6/10
Edição: City Slang/Edel, Março 2006
Género: Country Alternativo/Pop
Sítio Oficial: www.casadecalexico.com








Não é que a voz fique deslocada no universo sonoro dos Calexico, mas é quase intuitivo aprender a gostar mais deles nos registos menos cantados, especialmente pelas particularidades eclécticas das composições, à procura de espaços de convergência entre a musicalidade americana, nas suas várias ramificações, e diversas influências de origem ímpar, como os tons western (a trazer à memória o mestre Morricone), a música nutrida por guitarras acústicas, mesmo o jazz e alguns laivos da América Latina. Foi assim que Joey Burns e John Convertino adubaram as fórmulas do projecto, dando origem a um country árido - não fossem eles do Arizona - muitas vezes instrumental e rico em reproduções de cenários com cowboys, desertos, cactos sedentos e veredas de pó. Garden Ruin aceita isso tudo sem resmungar, mas lança um sopro que embacia algumas dessas substâncias e, por troca, aceita visitas mais prolongadas da voz. As composições adornam-se como canções, com tempos medidos, versos e refrões. Tudo tão certinho que até parece que Burns e Convertino se estão a armar ao pingarelho e trocam a largura de vistas musicais que era expediente costumeiro por um disfarce de songwriter. Mesmo assim, a parte musical das faixas conserva alguns dos ingredientes da quintessência do grupo, ainda que condensados o suficiente para caberem nos manuais pop. Porque pop é o código de Garden Ruin que nem a diversidade instrumental do disco consegue dissimular.

Garden Ruin é o modelo light dos Calexico. Embora tecnicamente irrepreensível, a incursão pelo espaço da pop mais orelhuda hipoteca uma parte significativa da musicalidade e das fantasias do grupo. Dos fragmentos que restam do passado, não se esboçam as mesmas paisagens, antes se decretam pactos com a mediania. Talvez assim, com estas derivações comerciais, os Calexico finalmente venham a colher as honras que fizeram por merecer até aqui. O preço do mediatismo pode ser o adeus às areias do deserto. No caso deles, lamenta-se que a fuga às origens traga atrelada uma reacção alérgica: o ocaso criativo.

1 comentário:

Kraak/Peixinho disse...

Gosto bastante de "Letter to Bowie Knife" :)