terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Cidade de Deus

Apreciação final: 8/10
Edição: 2002
Género: Drama/Thriller/Policial


Cidade de Deus é uma favela do Rio de Janeiro que, durante os anos 80, se tornou um dos maiores focos de violência do Brasil. O enredo deste filme aborda a vida quotidiana dos delinquentes da Cidade de Deus, cujas vidas de alguma forma se intersectam. O narrador é um jovem aspirante a fotógrafo que tenta fugir ao destino fora-da-lei da favela. Ele é o elemento de humanidade que desponta da violência e da miséria humana da Cidade de Deus.

Cidade de Deus é um excelente documento cinematográfico, com uma realização sublime de Fernando Meirelles, um argumento inteligente e uma montagem perfeita. Sem dúvida, um dos melhores filmes dos últimos anos.

2 comentários:

Anónimo disse...

se é um dos melhores filmes dos últimos anos só 8/10? n percebo..

eugenio rodrigues disse...

Cidade de Deus...trata-se de uma excelente produção brasileira, com actores amadores na sua quase totalidade e que mais não é do que um retrato inesquecível da vida numa favela.
“Buscapé” só queria ser fotografo de jornal.
“Buscapé” é a alcunha de um jovem negro, que nasce numa favela chamada Cidade de Deus, e cujo trajecto de vida vamos acompanhando, deliciados com os seus círculos paralelos de amizades e conhecimentos. Faz lembrar, de certo modo, “Era uma vez na América”, esse épico cinéfilo dos anos 80 que juntou De Niro, Al Paccino e James Woods. Com frequentes flashbacks, com referências constantes em voz off do narrador omnipresente, à medida que vamos conhecendo as personagens e as teias que o filme faz, vamos percebendo que uma favela é um micro mundo, uma espécie de tubo de ensaio, onde, de uma forma intensa e concentrada, temos o que move este mundo, isto é, a luta constante entre o bem e o mal.
“Buscapé só queria ser alguém sem precisar “matar”.
Sem manicaísmos bacocos e contrastantes, pois nenhum mal é inteiramente mau nem nenhum bem é absolutamente bom, vamos constatando o frágil equilíbrio entre os bons e os maus, onde até “Buscapé” se vê tentado a procurar o respeito ou algo com que pudesse comprar a distinção, através de uma arma. A Cidade de Deus vive de dois mitos, o “Zé Pequeno” que é a regra que anula a excepção e o “Mané Galinha”, a excepção que confirma a regra. O primeiro, alguém que em pequeno se habituou a matar e cujo amigo, “Bédé”, qual consciência, lhe vai temperando o instinto assassino. O segundo, que se converteu à Lei da Bala por uma fatalidade, e que apesar de não querer matar inocentes, cedo se apercebe que, neste mundo, se deixar os inimigos para trás e lhes virar as costas no leito da morte, em breve estes lhes saltarão à garganta. E de que maneira...
Numa favela, a justiça tem o peso de uma bala e o Bem sempre perde para o Mal pois este joga com um aliado de peso, a Sociedade, que estrangula e asfixia quem não quer seguir este caminho.
“Buscapé” só queria perder a virgindade.
Na favela, estes dois mitos são a Lei, são Deus, são o Tribunal, são a doutrina de que a Vingança e a Arma são uma só. São o axioma incontornável de que na favela só existe inferno e purgatório. Inferno daqueles que matam para vingarem um estalo, purgatório dos outros cujo crime os espera como um certo e fatal destino. Toda a gente vive directo do berço para a idade adulta. Toda a gente aprende às suas custas e normalmente da pior forma, da forma mais violenta, dura e brutal. Na favela vale tudo menos ser bom. Na favela ser culto é conseguir ler as imagens de um jornal. Na favela ser religioso é rezar antes de assaltar para que tudo corra pelo melhor.
Cidade de Deus tem planos incríveis e ângulos verdadeiramente excepcionais que aportam fielmente a expressão das personagens, a dinâmica do filme, e a velocidade a que a vida sempre passa.
“Buscapé” só queria ser Wilson Rodrigues, alguém com mais do que uma alcunha.

Eugénio Rodrigues