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segunda-feira, 28 de março de 2005

George Orwell - 1984

Este é provavelmente o mais célebre romance de George Orwell tendo sido publicado pela primeira vez em 1949. Foi projectado pelo autor desde 1943, mas, no entanto só pôde ser redigido entre 1947 e 1948 em plena eclosão da tuberculose que haveria de ser responsável pela sua morte.

Através de uma engenhosa alegoria o escritor elabora uma previsão satírica e pessimista do mundo em que a repressão e o controlo constituem os alicerces da sociedade totalitária vigente em 1984. Retrata o paroxismo de um sistema ditatorial caracterizado por um evidente avanço tecnológico no qual não há lugar à improvisação, tendo todos os elementos da engrenagem o dever inexorável de cumprir o seu papel conforme os trâmites instituídos. Mediante um sistema de vigilância contínua e uma propaganda manipuladora observa-se uma obediência cega ao Big Brother, a figura central da tirania e aquele que tudo vê, inculcando o medo nas populações.

Uma obra perfeitamente actual apesar de ter sido escrita há mais de meio século. Se entendida como uma profecia pode ser inquietante mas se percebida como apenas uma crítica mordaz criada no clima de instabilidade do pós-guerra é apenas mais um bom livro que, como qualquer outro bom livro, dá que pensar.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

Albert Camus - A Peste

Na década de 40, em Orão, milhares de ratos disseminam a peste. Neste livro, Camus enfatiza as consequências da peste muito para além das enfermidades e mortes que ela provoca.

O escritor transmite ao leitor o conjunto de reacções e sentimentos que normalmente se evidenciam numa situação trágica como a retratada. Por conseguinte, a peste acarreta o exílio castrador, a solidão obsidiante e o medo despoletado pela consciência da proximidade da morte. Há aqueles que reagem com absoluta indiferença enquanto outros compreendem-na como um castigo divino.

Num cenário de desgraça a solidariedade emerge, inevitavelmente. Mas de que vale ela para lutar contra a morte? A peste é isso mesmo, uma metáfora da morte, simbolizando a luta contra a peste a peleja patética do ser humano por forma a evitar o inexpugnável fim.

Com Camus o Homem é frágil, ridículo e, por vezes, um espaventoso sofredor.

A Peste é um dos marcos mais significativos da bibliografia do autor. "Um grande escritor sempre traz consigo o seu mundo e a sua prédica". Se os quiser conhecer terá obrigatoriamente que ler o livro em análise. O convite está feito, não quererá ter a amabilidade de o aceitar?

"Nada é mais escandaloso do que a morte de uma criança e nada é mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel’’. E foi assim que morreu o filósofo do absurdo...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde é um dos mais sonantes nomes da poesia portuguesa, isto apesar da sua breve existência (morreu com apenas 31 anos) e da sua curta obra. No seu legado poético percebemos o enorme talento descritivo, que eclodiu, provavelmente, por culpa das suas deambulações pelas ruas de Lisboa. O poeta recria a realidade, captando o essencial da representação do real.

Neste livro, que apenas foi editado por Silva Pinto, um amigo, após a sua morte, apercebemo-nos da predilecção do poeta pelos ambientes citadinos, mas sem nunca repudiar um certo fascínio que nutria pelos ambientes campestres. Há um enorme rigor na sua escrita denotando-se uma preferência pela quadra. Ele é um poeta-pintor já que de si mesmo disse: "pinto quadros por letras, por sinais".

Ele foi sempre um comercial e a poesia era uma ocupação das horas vagas ("Eu nunca dediquei poemas às fortunas,/Mas sim, por deferência, a amigos ou artistas").

A ambivalência existente entre o comerciante e o poeta, que o levaria a evitar os literatos, por ser comerciante, e o afastava da classe comercial, por ser poeta, faz-nos perceber a soturnidade do seu carácter que se reflecte no sentimento de solidão presente em alguns dos seus poemas.

Da obra de Cesário Verde destaca-se, inexoravelmente, o genial O Sentimento de um Ocidental.

"E eu que medito um livro que exacerbe, / Quisera que o real e a análise mo dessem". E esse livro foi - O Livro de Cesário Verde.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

Franz Kafka - O Processo

Kafka é o mestre das perturbações, dos transtornos e da desconfiança. Em O Processo a estranheza é iniciada logo com o nome da personagem principal: Josef K.. K.? Será uma transposição da sua pessoa e K. será sinónimo de Kafka? Não se sabe. As dúvidas com Kafka não acabam quando terminamos de ler os seus livros.

Neste romance K. é vítima de uma perseguição absurda da qual parece impossível a fuga. É criada uma atmosfera claustrofóbica e inquietante que nos vicia do princípio ao fim do livro.

A narrativa tem o ambiente típico de um argumento cinematográfico fazendo-nos lembrar em certos aspectos os filmes de David Lynch.

Sabe-se pouco da personagem principal ou da situação angustiante em que se vê envolvido, mas, por via disso, o livro faz-nos perceber o modo como se sentiria alguém que fosse vítima de um esquema obsidiante semelhante, residindo aí, no indeterminável, o seu manifesto interesse.

Kafka consegue imiscuir-se nas entranhas do ser humano revelando a eclosão da solidão pelo medo.
Disso não tenho dúvidas de que é culpado.

terça-feira, 25 de janeiro de 2005

Fiódor Dostoiévski - Crime e Castigo

"Havia caracteres profundos, belos e que alegria eu experimentava ao descobrir o ouro sob a casca grossa! E não apenas um, nem dois, mas vários. Encontravam-se ali alguns que era impossível respeitar, outros eram excelentes em toda a acepção da palavra". Estas foram palavras que Dostoiévski proferiu após o cumprimento de pena de 4 anos num campo de trabalhos forçados na Sibéria. E como elas traduzem o que o autor viveu e que nós também poderemos sentir por cada vez que lermos os seus livros! Essa experiência permitiu-lhe perceber que nem todo o ser humano é, no âmago, bom. E isso foi fielmente transposto para os seus romances. Em Crime e Castigo o escritor retira o véu que atavia o Homem e que encobre a sua faceta mais obscura. O cinismo, a vileza e o egoísmo são-nos patenteados assiduamente na medida em que constituem características vincadas de algumas das suas personagens. As máscaras caem e a heterogeneidade e imperfeição emergem.

A história retrata a forma banal como pode surgir a motivação para um crime e de que modo esse acto pode afectar quem o comete. Por conseguinte, é enfatizado um dos sentimentos mais naturais e humanos que existem: a culpa.

Raskolnikov é o protagonista, um niilista que se considera um eleito para o qual não existe lei, essa só se aplica àqueles que nasceram para obedecer e que constituem o rebanho submisso. Errante, acometido pela dúvida, travará uma luta interior constante na procura do caminho adequado a seguir mesmo que para tal seja rebatida a sua doutrina.

Dostoiévski é fiel a si mesmo, oferece-nos o ser humano por inteiro, sem lenitivos. E quem é que se atreve a recusar esta oferta?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

Vladimir Nabokov - Lolita

Lolita é indubitavelmente a obra mais célebre de Nabokov. É a história sobejamente conhecida da relação amorosa entre um intelectual de meia-idade e uma menina caprichosa de 12 anos. A partir desta sinopse poder-se-ia pensar que assim que se conhece o fio condutor da história esta fica desprovida de interesse. Puro engano. Ela é composta por uma riqueza narrativa inefável que não é mais do que o produto da mestria e do domínio de linguagem do escritor russo. A história, apesar de nunca evidenciar grandes reviravoltas ou uma sucessão de acontecimentos apaixonantes,
acaba por nos prender dada a inegostável panóplia de recursos que Nabokov possui. O romance centra-se na figura de Humbert Humbert, um indivíduo grotesco, abjecto e insólito e, por isso mesmo, uma das personagens mais marcantes da literatura universal. As suas idiossincrasias e os tumultos que o assolam são-nos revelados como se o próprio Humbert Humbert fosse uma personagem real e não de ficção.
A sátira aparece furtivamente ao longo desta obra mas engrandece-a. É um livro obrigatório que nos imerge na voragem das suas linhas mas que só será realmente apelativo para os que acham a leitura um acto imensamente prazente e que se deliciam ao absorver a arte da escrita subjacente neste romance.

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Mário Vargas Llosa - A Festa do Chibo (Livro, 2000)

Avaliação final: 8/10

Neste livro, o escritor peruano recobra uma tradição da literatura da América Latina, a do romance sobre o despotismo, retratando a situação política da República Dominicana dos anos 60 e o conluio urdido para assassinar o tirano Rafael Trujillo, morto em 1961.

O inegável talento de Mário Vargas Llosa desponta a cada linha, a tensão está invariavelmente presente, as descrições são quase tangíveis e denunciam as motivações humanas dissimuladas por detrás dos factos históricos. Uma governação tenaz e implacável, apoiada pelos E.U.A., sob o presságio do espectro comunista, a viragem no amparo americano, a frustração política ulterior e a espiral de vexame e perseguição sobre os seus séquitos, foram as faces torpes do chibo, as caras da ditadura de Trujillo. Llosa propõe-nos o relato do último ciclo do regime, do decaimento derradeiro.

O romance converte-se num testemunho poderoso das contendas, das tensões, dos símbolos históricos - aqui expostos com minúcia e densidade psicológica - e arroga-se como um dos melhores livros deste autor. Mais do que uma reflexão política sobre o despotismo exacerbado e respectivas deformações sociais e históricas, trata-se de um exímio documento literário, merecedor de justos encómios, de um dos melhores escritores do nosso tempo.