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quarta-feira, 13 de abril de 2005

Fantômas - Suspended Animation

Apreciação final: 8/10
Edição: Ipecac, Março 2005
Género: Metal Experimental







O anterior registo dos Fantômas, Delirium Cordia (2004), era uma extravagância ominosa de metal experimental, com uma única faixa de 74 minutos e virava do avesso a consciência do auditor, expondo-o à atmosfera sombria dos filmes de terror e à grotesca face negra do medo. Pois bem, o super-grupo liderado por Mike Patton está de volta. Ao longo de trinta faixas, intituladas segundo os dias de Abril, Patton, Osborne, Dunn e Lombardo promovem uma ousada (des)construção do universo dos desenhos animados, através de uma re-intrepretação do legado dos lendários compositores dos cartoons da Warner, Carl Stalling, Milt Franklin, Raymond Scott e dos efeitos sonoros de Treg Brown. Suspended Animation integra alguns samples antigos dos Looney Tunes que servem de pretexto à catarse macabra e negra dos Fantômas. Partindo daí, as composições fazem colagens onomatopaicas que juntam o timbre encantatório das animações à excêntrica e intrincada demência sónica típica dos Fantômas, com as vocalizações indecifráveis de Patton, os acordes triturantes de Osborne, o baixo assombroso de Dunn e a frenética percussão de Lombardo. A esta combinação improvável, afinal o elemento magnetizador do disco, acresce a aptidão pragmática do quarteto para metamorfosear abruptamente o seu registo, variando das texturas evocativas e ambientais para o speed metal ou o jazz.

Suspended Animation é uma edição desarmante, um exercício contorcionista de aglutinação de géneros, uma visão polissémica do conceito música. Aparentemente desconexo e caótico, o álbum mantém uma incomum coerência orgânica, num estilo bizarro, semelhante a Fantômas (1999), mas com ideias remoçadas. Suspended Animation é um oxímoro que mistura candura e insanidade, um registo imperdível para os amantes da imprevisibilidade na música e do cada vez mais confirmado génio louco de Mike Patton.

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

Fantômas - Delirium Corda (CD, 2004)

Apreciação final: 8/10

Estamos acostumados aos reptos ambíguos dos Fantômas. A sua música é criativa, procura novos trilhos sonoros, percorre mares nunca dantes navegados. Desta vez, a proposta é um disco com apenas uma faixa, cerca de setenta e cinco minutos contínuos no mesmo tema! O inédito é também maravilhosamente excêntrico: de loucura ou genialidade?

Antes de escutar o disco, perscrutei o booklet e avistei inúmeras imagens de actos médico-cirúrgicos. Qual o sentido? Com o disco a rodar, sente-se a agitação convulsiva de uma atmosfera cinematográfica que nos remete para o imaginário dos filmes de terror. Aqui, ficamos rendidos por setenta e cinco minutos, não há escapatória possível, a redenção passa pela afronta ao medo. O assomo é demais veemente, aprisiona-nos em feitiços encantatórios, o fascínio do oculto seduz-nos a seguir o escuro. E os Fantômas levam-nos numa incursão por mundos ignotos, perdidos nos esconsos do sonho, feitos realidade em sequências melódicas coesas, que integram com apuro os dislates geniais do grupo. A tensão é permanente, o arrebatamento atroz reside até ao fim do disco e fica em suspenso, em espasmos maravilhados, sem destino definido. Tudo termina numa hesitante agulha, pousada num vinil, incessantemente debitando a ânsia de continuar.

Além das instrumentalizações normais de uma banda de metal, os Fantômas recorrem a pitadas esparsas de sons dissimulados, a correrem no fundo, como demónios observadores.

O disco é mais um excelso trabalho do quarteto Fantômas. Mike Patton (ex-Faith No More), Buzz Osborne (Melvins), Dave Lombardo (Slayer) e Trevor Dunn (Mr. Bungle) volam a traçar rumos distintos: Delirium Corda é a pintura musical dos medos ansiosos e dos suores frios da alma. E toca-nos profundamente. Delirium Corda é um tomo fundamental do experimentalismo sinistro e funéreo dos Fantômas.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Fantômas - Fantômas (CD, 1999)

Apreciação final: 7/10

O projecto Fantômas é mais uma das inúmeras metamorfoses de Mike Patton. Aqui, o cantor faz-se acompanhar por Buzz Osborne (guitarrista dos Melvins), Trevor Dunn (baixista dos Mr. Bungle) e Dave Lombardo (baterista dos Slayer). Este trabalho, de título homónimo, foi o primeiro deste quarteto de luxo e é um disco apóstata, renegador das convenções do rock moderno. Antes de ouvirem este registo, esqueçam tudo o que escutaram até hoje. Preparem-se para um experiência sem igual, durante os quarenta e três minutos duma suposta banda sonora original, inteiramente composta por Patton, para uma história de banda desenhada, pseudo-intulada "Amenaza Al Mundo". O alinhamento contém 30 mini-faixas, numeradas pelas páginas imaginárias do comic book.

Fantômas é um trabalho completamente original, satiricamente não convencional, em que Patton usa a voz como um instrumento, vociferando sílabas indecifráveis, num estilo onomatopaico. O talento dos quatro músicos é a nota dominante, o produto final é magnífico e diabolicamente arrebatador.

Se esperam algo na linha dos Faith No More ou dos Mr. Bungle, esqueçam. Mas se são suficientemente open-minded para receber a suprema inovação, preparem-se para idolatrar Fantômas.