domingo, 23 de dezembro de 2007

Robert Plant & Alison Krauss - Raising Sand

7/10
Rounder Records
2007
www.robertplantalisonkrauss.com



O facto de os protagonistas desta dupla virem de órbitas musicais normalmente pouco "conciliáveis" (mesmo em termos ideológicos), alimentou a curiosidade dos melómanos sobre a convergência artística que o "histórico" produtor/compositor da música americana (e das mais finas estirpes da folk do seu país) T. Bone Burnett imaginou e passou à prática. Além de ter operado a improvável aproximação entre Robert Plant, voz dos anais rock com os Led Zeppelin (o colectivo está na iminência de um regresso anunciado), e Alison Krauss, estrela multi-premiada da country/bluegrass, Burnett reuniu à volta deles uma trupe de músicos do escol americano que, entre ele próprio e outros, juntou o seminal artesão de experiências vanguardistas Marc Ribot (colaborador regular de John Zorn), o lendário guitarrista Norman Blake (tocou com gente como Steve Earle, Bob Dylan, June Carter, Joan Baez, Johnny Cash ou Kris Kristofferson), o instrumentista Mike Seeger e o baterista Jay Bellerose.

De Burnett já se conhecia o alento ocasional de pedagogo e historiador das potencialidades da folk, com orgulho nas raízes e, sobretudo, com o firme propósito de inspirar atalhos futuros. Mais do que ser um mero colector ou um reverente admirador/intérprete, o mestre sempre deu mostras de buscar soluções contra qualquer tipo de estagnação criativa no género e, desta vez, nada melhor do que convocar um agrupamento de músicos e vozes para servir uma homenagem à tradição musical americana. Trata-se, afinal, de erguer uma consistente colecção de revisões de canções celebrizadas por Gene Clark, Sam Phillips, Tom Waits, Townes Van Zandt, Roly Salley, Allen Toussaint, os Everly Brothers ou Little Milton. A música é intencionalmente poeirenta e oldie, como bem convém ao melhor estilo blues-country, num registo amplo o suficiente para passar pelo sujo assombramento ("Rich Woman"), pelo romantismo ("Sister Rosetta Goes Before Us") ou pela deriva atmosférica ("Trampled Rose") com a mesmíssima eficácia. Depois, as vozes de Plant e Krauss conseguem, aqui e ali, instantes de pura magia, mormente quando são chamadas a mostrar-se fora dos padrões habituais ou, como no bem sucedido tema de abertura, se ancoram mutuamente. Do delta do Mississipi a New Orleans, do Texas ao Kentucky, Raising Sand é uma interessante síntese da história recente da música americana e, embora nem todas as peças sejam uniformes nos atributos (salve-se dessa incerteza a produção, sempre excelente), não deixa de ser uma oportuníssima declaração.