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domingo, 14 de outubro de 2007

The Fiery Furnaces - Widow City

7/10
Thrill Jockey
Dwitza
2007
www.thefieryfurnaces.com



Por esta altura, não é crível que os manos Friedberger sejam ainda surpresa para qualquer melómano atento a estas coisas dos sons mais alternativos. Afinal, eles são protagonistas de primeira linha da moderna música americana, em razão da generosa discografia que vêm erguendo em volta de um conceito musical pródigo na mescla de estilos. Apesar da indisfarçável sobreposição do rock, com interessantíssimas insinuações importadas das escalas progressivas (com qualquer coisa do kraut), a música de Matthew e Eleanor vale também pelo apurado sentido de arrumação das diversas camadas do órgão, do piano, da percussão, da guitarra e, mais notoriamente, das linhas melódicas verbalizadas por Eleanor. São, de resto, as expressões vocais que fazem o contraponto "sensato" à aparente esquizofrenia do turbilhão de instrumentais que desfilam por trás, coisa particularmente evidente neste Widow City. Os arranjos somam caos e projecção, desmontando qualquer convenção do que deve ser uma canção pop, seja por força das arritmias que aparecem no instante menos esperado, seja pela parafernália de ingredientes que se juntam à charanga, aqui e ali. Bizarria à prova de banalidade, portanto. Ainda assim, não sendo disco de consumo imediato - dificilmente sairá música superficial da sociedade destes irmãos - Widow City encerra algumas das composições mais acessíveis e enérgicas do cancioneiro Fiery Furnaces. E isso não quer dizer que a dinâmica experimentalista não more aqui. A charada é inteira e parece rebuscar os vigores de início de carreira. O que, no caso dos Friedberger, depois de um ou outro episódio mais desfocado, é um óptimo desígnio.

terça-feira, 1 de novembro de 2005

The Fiery Furnaces - Rehearsing My Choir

Apreciação final: 5/10
Edição: Rough Trade, Outubro 2005
Género: Indie Rock/Experimental/Spoken Word
Sítio Oficial: www.thefieryfurnaces.com








É suposto que uma reunião familiar redunde no reforço da empatia e dos vínculos pessoais dos membros de um clã, se se trata de uma família sem disfunções. Aparentemente é esse o caso dos Friedberger, afinal os irmãos Matthew e Eleanor andam a par, nestas coisas da música, há um punhado de anos. Pelo caminho, escreveram dois álbuns (e um EP) que delinearam um perfil musical inventivo e algo revivalista. Neste terceiro trabalho, os manos quiseram (ou assim parece...) construir um álbum conceptual, partindo precisamente da afinidade musical e da ascendência da avó, Olga Sarantos, antiga directora do côro de uma igreja ortodoxa grega, algures no Illinois. À senhora é reservado o ensejo de figurar entre as vocalizações deste Rehearsing My Choir - também tem honras de capa - e de partilhar com o ouvinte algumas memórias da Chicago dos anos 50, através do registo musical nada banal dos netos. E se a banalidade nunca esteve nos trabalhos anteriores dos Fiery Furnaces, que dizer deste terceiro álbum? O fundo musical é declaradamente mais experimental, não abdica dos inevitáveis picotados a piano e dos vultos desenhados a guitarra mas embrulha-os numa dimensão teatral, a vibrar entre a exuberância e o recato, em flutuações dispensadas de compromisso. Rehearsing My Choir é assim mesmo, um disco sem ajuste a vínculos, sem preconceitos e com a vitalidade própria de canções emancipadas. Serão mesmo canções? Neste trabalho, o discurso sobrepõe-se à melodia, como que se desobrigando dela com astúcia. As vozes de neta e avó fazem um jogo, são peões mensageiros que confundem o tempo, numa conversa sardónica (nem sempre simbiótica) entre passado e presente que se empoleira em alicerces musicais prolixos e quase cacofónicos, cortesia da produção versátil de Matthew.

Rehearsing My Choir é um álbum bizarro e é corrompido pelas suas incongruências: as breves ocasiões de esplendor musical são ofuscadas por um registo spoken word que, na voz andrógina e profunda de Sarantos, chega a tornar-se maçador e corrompe a performance de Eleanor. A dinâmica musical do disco é controversa, parecerá bem aos adeptos da originalidade e do abstraccionismo mas decepcionará os indefectíveis dos The Fiery Furnaces que, percebendo em Rehearsing My Choir a espontaneidade e o virtuosismo de outros títulos, não descobrirão neste disco a insinuante tentação das canções da dupla Friedberger. Porque Rehearsing My Choir assume a perversão e o arrojo experimental de as não ter. Aqui, a proposta musical é como o ensaio tosco de uma trupe de teatro de rua, de trovadores de histórias musicadas com o secreto sonho de um dia verem a luz da Broadway. E, trazendo à memória outros álbuns, não deve ser isso que os The Fiery Furnaces procuram...

domingo, 30 de janeiro de 2005

The Fiery Furnaces - EP

Apreciação final: 7/10
Edição: Janeiro 2005
Género: Rock Revivalista/Indie Rock



Os irmãos Friedberger estão de volta, depois do aclamado The Blueberry Boat (2004). O mais recente registo do colectivo americano é uma generosa colecção de B-Sides. Contudo, reduzir este mini-álbum a esse estatuto não é fazer-lhe justiça. EP tem o seu espaço sónico próprio, complementando a oferta dos dois álbuns do grupo. Os cenários acústicos deste trabalho são pontuados pela criatividade quase teatral dos Fiery Furnaces e exibem sem reservas a confiança com que o grupo funde habilmente a sua inclinação pop com os ímpetos do experimentalismo.

EP não é um típico EP, é um tomo prolífico e energético. Versátil, também. Os supostos B-Sides são afinal composições com personalidade própria, revelam-se aptidões das fraquezas. Este não é um EP só para admiradores do grupo: EP é um quase ingénuo documento denunciador das raízes do espectro musical de um duo promissor e que ocupa posição de privilégio na linha da frente da nova música americana. Uma vez mais, os Friedberger afirmam, através de melodias repletas de pitadas electrónicas e guitarras intervenientes, o seu estatuto de banda de culto. Som fresco, a esmurrar o convencionalismo reinante e uma impressiva aptidão reformadora fazem dos The Fiery Furnaces um dos mais justamente elogiados projectos musicais do momento e, em paralelo, uma das mais consistentes apostas de qualquer melómano que se preze.