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quinta-feira, 24 de maio de 2007

Rafael Toral - Space Solo 1

6/10
Quecksilber
2007
www.rafaeltoral.net/



Depois de alguns anos dedicados à especulação em torno das diversas fonéticas produzidas por uma guitarra eléctrica e a interacção desse discurso tonalmente heterogéneo com o silêncio e o espaço, assim se compondo uma idiomática mais ou menos "ambiental", Rafael Toral divorciou-se das cordas que o acompanharam na (pouco mediática) consagração no espaço vanguardista luso. Space, do ano transacto, foi o preâmbulo de uma ambiciosa redefinição de processos e consequente novo ciclo na vida do músico, apresentando um dialecto sonoro feito de sintagmas electrónicos de ferramentas de construção própria (o amplificador portátil modificado tornou-se imagem de marca de Toral). Além da reformulação sistémica da música (ou como mais convém chamar-lhe, "ensaio de sons"), em réplica ao espírito inquieto de Toral, sempre à procura de limites desconhecidos para as certezas físicas do som, o álbum desvendava outro desassossego: a necessidade de interacção. Para essa permanente (e irrefreável) sondagem de formas de comunicação entre som e espaço, denominador comum ao conjunto da obra de Toral, já não chegava a coerência da união entre músico e instrumento. O segundo capítulo do Space Program prossegue na estruturação dessa originalíssima forma de expressão, com recurso ao feedback e estática que nascem da coreografia instantânea do músico em interacção com os artefactos "instrumentais" que criou. O domínio de Toral (aqui ele está só, não tem ajudas de outros como em Space) sobre os esparsos (porque o silêncio continua a ser uma carta deste baralho) e vibrantes fraseados experimentais é completo e faz de Space Solo 1, ainda que com uma excitação menos robusta do que a do antecessor (organicamente mais preenchido), um consistente exercício prático de um cientista do som em diligências para somar vocábulos originais à semântica quase estagnada dos sons de vanguarda.

Posto de escuta Portable Amplifier

domingo, 8 de outubro de 2006

Rafael Toral - Space

Apreciação final: 7/10
Edição: Staubgold/Flur, Setembro 2006
Género: Electrónica Experimental/Vanguardista
Sítio Oficial: www.rafaeltoral.net








Embora ainda seja uma incógnita para a generalidade do público melómano luso, Rafael Toral é um dos expoentes da arte experimental portuguesa. Dotado de um espírito desassombrado e de um interesse vigilante pelas múltiplas dimensões virgens da música, Toral consagrou as suas jornadas criativas à distensão dos limites do improviso, também à sondagem de novos valores intrínsecos a cada partícula sonora, seja ela ingénita de um instrumento, seja obra de manigâncias digitais ou ainda, recurso peculiarmente incluído na música de Toral, seja inferência de especulações com a estática e o feedback. Especulativo é certamente um adjectivo próprio da música de Toral, como bem se instrui neste Space, primeiro tomo de um ciclo novo do músico dedicado à pesquisa das contingências do som. A tal ofício é incumbido, no papel de agente primaz que fora da guitarra noutros trabalhos, o discurso de um amplificador portátil alterado, cerne gravitante do disco, cuja posição relativa face ao microfone produz uma gama de sons inconstantes, vagabundos do vácuo que talham o silêncio à medida dos gestos periciais de Toral. Não se espera de Toral a lealdade a máximas teóricas; ele é fundamentalmente um artesão do empírico à procura do futuro. Sente-se isso na gestão prudente dos cromas de Space, ora poluídos de irradiações energéticas vibrantes e de feedback processado, ora deixados ao acaso dos contrastes bipolares som/silêncio, sempre vanguardistas e em ambivalência oportuna para o reforço da compleição hipnótica do álbum. O jazz é, como não poderia deixar de ser, uma alusão imponderável, sem formalismos estéticos, poligonal como o de Alvin Lucier ou David Toop, lapidado como o de Fennesz ou Fullerton Whitman, enigmático e fértil como o do austríaco Pita ou dos Jazzkammer. O futuro do jazz diz-se nestes códigos electrónicos.

Space não é tomo para ouvidos preguiçosos ou mentes amestradas. Sem música de cânone, tampouco música em sentido estrito, o novo exercício de Toral transcende qualquer definição de álbum. Não há aqui canções ou estruturas tipificadas, o limite é o espaço sideral. Space é uma viragem cósmica de Toral, depois de uma década e meia a fundir guitarras e electrónica. Agora o sci-fi é a luminária dominante da anfibologia harmónica do disco, sem remates vincados. Esse instinto tantalizador, a par da parcimónia estética do disco, marcam uma consciência diferente de Toral e, em última análise, uma intimidade acrescida entre som e espaço, homem e circunstância, como escreveu Ortega y Gasset. Com Space, Toral somou outra refracção inexorável à máxima do filósofo espanhol: tal como o Homem, a música, ou o som (por extensão conveniente), também se faz de circunstância.

Posto de escutaPart IPart IIPart III