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segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Ennio Morricone - Crime and Dissonance

Apreciação final: 8/10
Edição: Ipecac Records, Setembro 2005
Género: Instrumental/Banda Sonora
Sítio Oficial: www.enniomorricone.com
www.ipecac.com








A alusão ao nome do compositor Ennio Morricone remete-nos imediatamente para o imaginário dos tempos áureos do spaghetti western, mormente para o clássico O Bom, o Mau e o Vilão (1966), de Sérgio Leone, cuja banda sonora - escrita por Morricone - ascendeu aos anais da música para a sétima arte. Contudo, reduzir o impacto da música do maestro italiano a essa esfera é uma asserção redutora. Com mais de cinco centenas(!) de bandas sonoras escritas, o vínculo de Morricone aos westerns é apenas uma pequena porção do seu trabalho. Dispersas em dezenas de filmes italianos com pouca expressão do início da década de 70 (1969-1974), as composições compiladas neste duplo CD revelam aspectos menos divulgados da música de Morricone. Aqui, a linguagem musical é diferente da combinação rock/clássica avant-garde que revolucionou os filmes de cowboys. Não surpreende que a edição tenha a chancela da etiqueta de Mike Patton (Ipecac). Embora a escolha das faixas seja da responsabilidade de Alan Bishop, a aura sonora deste trabalho traça paralelas com os esquemas experimentais dos ambientes sonoros de Patton. De facto, as trinta composições de Morricone que enchem este Crime and Dissonance fazem apelo a uma atmosfera ambígua, algures entre a inventividade do jazz, o psicadelismo (des)construtor de formalismos e o vigor experimental de Part ou Ligeti. Depois, vagueiam como vigilantes, sobre a orgânica precisa das composições, os vultos de interferências célebres: os ambientes de espionagem James Bond, o groove esporádico de Miles Davis, os orgãos e jogos melódicos do barroco, o laconismo das cordas, as vocalizações esparsas (ora assombradas, ora hedonistas), os efeitos sonoros de requinte.

A sugestão imagética deste álbum percorre as insinuações cinematográficas do terror, do suspense, do sexo e da espionagem. É um disco declaradamente obscuro e lúgubre; rebusca os vectores mais grotescos da música de Morricone e expõe a virtuosa controvérsia do seu génio. Crime and Dissonance é o resumo musicado de uma infinidade de emoções, como uma película que corta e cola os pedaços mais inquietantes de um punhado de filmes e que se vê em fast forward, sem tempo para recuperar o fôlego ou para fugir à constrição claustrofóbica que reduz os hemisférios do cérebro. Ao escutar este Crime and Dissonance apetece fechar os olhos, abraçar a magnitude de cada amostra de sons, perceber a integridade de cada peça e desenhar romanticamente na mente uma fita cinematográfica repleta de vilões vencedores e sem lugar para heróis. Música desta não se ouve. Vê-se e sente-se. De preferência com a porta fechada, não vá aparecer por aí alguma criatura tresmalhada ou um espião desorientado.

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

Ennio Morricone & Dulce Pontes - Focus (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Ennio Morricone é provavelmente o compositor mais falado do século XX, muito por culpa das mais de 500(!) bandas sonoras que compôs. Neste registo, depois de já ter colaborado com a cantora na canção "A Brisa do Coração", para o filme Afirma Pereira, o maestro junta-se à portuguesa Dulce Pontes e recupera alguns dos temas clássicos do seu songbook, aproveitando também temas que fazem parte do património musical de Portugal. De entre as canções retiradas de filmes, destaque para "A Rose Among Thorns" (de A Missão), a arrepiante "Your Love" (de Era Uma Vez No Oeste) e "Cinema Paradiso" (do filme com o mesmo nome).

A orquestração singular deste trabalho, o talento de composição de Morricone, em junção com a voz única da diva Dulce Pontes, conferem a este disco uma grandiosidade ímpar, digna de despertar sumptuosos cenários na nossa mente e fazer recordar momentos esporádicos de magia da sétima arte. Este disco merece ser tratado como um documento solene, um registo soberano da excelência da música, uma ode made in heaven à perfeição da voz. Recomendável, uma obra-prima.