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domingo, 18 de fevereiro de 2007

Deerhoof - Friend Opportunity

8/10
Kill Rock Stars
2007
www.myspace.com/deerhoof



Oferecer aos tímpanos um novo opus dos Deerhoof é sempre um acto revelador. Apesar de eles já contarem mais de uma década de existência, a sua música é tão plausivelmente viçosa que, mesmo sem mudar na essência a disposição dos ingredientes, nunca deixa de causar algum espanto. No fundo, o som deles é hermético nos seus próprios postulados e fórmulas e cria uma invulgar imunidade a influências externas. Por inerência, aquilo que, noutros casos, se converteria num perigoso imobilismo, no caso dos Deerhoof - porque o filão privado de conceitos é riquíssimo e nem chega a abrir espaço para o mero corta-cola - é sinal de inconformismo com o seu "eu" e, consequentemente, de reinvenção constante, sob o mesmo paradigma. Friend Opportunity não foge a essa tendência recorrente do seu percurso e, associando composições de aparente superficialidade pop, pelo menos tão pop quanto se pode ser no cosmos Deerhoof, a outros momentos de maior embevecimento experimentalista (com menos ruído) e desejo descontrutivo, comprova a exímia arte do (agora) trio em imprimir características diferentes à sua personalidade sónica, mesmo quando ela se mostra no mais imediato dos seus registos. Efeito colateral óbvio: Friend Opportunity pode tornar-se um caso sério de sedução.

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Deerhoof - The Runners Four

Apreciação final: 7/10
Edição: Kill Rock Stars, Outubro 2005
Género: Noise Rock/Experimental/Pós-Rock
Sítio Oficial: http://deerhoof.killrockstars.com








O entusiasmo pela experimentação, os esquemas do noise, um sentido melódico invulgar e uma voz de colegial perversa são os ingredientes substanciais do pandemónio dos Deerhoof. Desta vez, porém, o grupo de São Francisco decidiu serenar um pouco e concebeu um disco que se desvia da intensidade apaixonada de outros trabalhos, focando a exuberância sonora numa toada mais pausada, menos rebelde e, sobretudo, procurando uma abordagem mais subtil ao tradicional desalinho de ideias. Das estruturas caóticas e do ruído noise rock resta pouco neste The Runners Four, ainda que a dinâmica inconstante e as variações continuadas nas melodias revelem o traço usual do colectivo americano. A criatividade sai incólume do processo de desaceleração de ritmos, ao ponto de a banda apresentar um dos seus desempenhos mais eclécticos, trocando o grotesco pelo sensível, numa evocação catártica das anomalias do amor. The Runners Four é um álbum contextualmente sentimental e, ao invés de confiar na imprevisibilidade do som típico do quarteto, refugia-se no conforto de uma extensão mais convencional para captar o regozijo inato destes músicos e moldá-lo a um oferecimento menos efusivo. Mas não menos inspirado. Em boa verdade, as canções (se assim se podem chamar) são menos extremistas mas não deixam de acrescentar outros traços à marca sonora dos Deerhoof. O quilate dos predicados pop de Satomi e companhia é exibido num jeito simples, mostrando um segmento menos revelado na banda, sem espasmos, sem contracções, sem explosões de adrenalina.

The Runners Four sacrifica os devaneios experimentais do grupo e abeira-se do trato das convenções pop, com composições a rondarem os três minutos e a encaixarem em métricas melódicas mais acessíveis. O lado espásmico e multidimensional do rock parece ter sido vencido por um jogo musical mais aberto, de maquinações mais subtis e menor risco. Ainda assim, The Runners Four é um tomo de canções que (a)prova as aptidões dos Deerhoof em terrenos pouco explorados (por eles). Contudo, se os Deerhoof querem introduzir novidades num universo abundante em tresvarios e o fazem à custa da aproximação a convenções que habitualmente rejeitam, o gesto torna-se destemido. Mas a verdade é que eles o fazem com distinção e ainda afrontam ironicamente o auditor ao fecharem o disco com "Rrrrrrright", uma composição no melhor estilo Deerhoof, como que afirmando o efectivo móbil de The Runners Four: tomem lá um álbum pop que a gente já volta!

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

5 rapidinhas


Deerhoof - Green Cosmos EP (7/10)

A babel dos Deerhoof está de volta. 15 minutos de genuinidade visceral, de contrastes sónicos, de delírios harmónicos e de (es)pasmo ímpar. As melodias obscuras da praxe surgem, aqui, revestidas num invólucro de arranjos orquestrais mais sumptuosos (mesmo ruidosos...) do que é usual, ajudando à concepção de micro-sinfonias em desvario. À quase cacofonia das composições junta-se a voz delicada e pueril de Satomi Matsuzaki, aventurando-se a cantar em japonês. Aparentemente desconexas e sem fluência, as estruturas melódicas invulgares revelam o oposto em traços de criatividade refrescante, num verdadeiro carrossel suspenso de esquizofrenia e doçura, cheio de surpresas. Sem rótulos, o cosmos (e a música) dos Deerhoof é isso mesmo: um universo cândido e bucólico onde se agitam freneticamente as chamas de excentricidades lunáticas e se cruzam, em cópulas pomposas, o eros e o tanatos. Afinal, monstros e criancinhas podem partilhar brincadeiras no mesmo espaço cósmico...ou não.
(Toad/Menlo Park, Junho 2005)

Procure na grafonola as faixas "Byun" e "Come See the Duck"






Brazilian Girls (7/10)

Quarteto sediado em Nova Iorque, os Brazilian Girls apresentam-se no sítio oficial como uma mistura festiva de Grace Jones, Blondie, The Sugar Cubes e Astrud Gilberto. A voz da poliglota Sabina Sciubba e uma versátil palete de efeitos electrónicos conduzem as composições por sedutores percursos de trip-hop e lounge, com ligeiros toques de funk, reggae, ska e dub. Confuso? O som de vibrações cosmopolitas do grupo distingue-se pela variedade, embora resvale para certos clichés de Bebel Gilberto, Thievery Corporation, Suba ou Zero7. Ainda assim, o registo leva o auditor numa viagem musical apelativa que percorre a tradição do Brasil (a bossa nova), de Manhattan, de Berlim, de Paris (o ambiente film noir), de Nova Iorque...sem sair do conforto do sofá da sala.
(Verve, Fevereiro 2005)








Mayday - Bushido Karaoke (8/10)

O terceiro álbum da banda do taciturno crooner Ted Stevens coloca a angústia existencial ao serviço do rock'n'roll. Bushido Karaoke é uma jornada musical declaradamente americana que, com o suporte do piano, do banjo e do violino, compõe cenários de melancolia e nostalgia, com texturas de harmonia rock 50's. Os arranjos são de excelente nível e sublinham a condição rústica da abordagem de Stevens a destinos transcendentais e diversificados, relembrando Nick Cave. A sonoridade resulta enigmática e profusa, conferindo um espaço próprio a cada instrumento, sem minorar a opulência a opulência instrumental de cada peça, num registo polido e transparente. Ouvir Bushido Karaoke é descobrir que uma canção saudosista e triste também pode ser uma grande canção.
(Saddle Creek, Junho 2005)








Turin Brakes - JackInABox (5/10)

Depois do alcance do álbum Ether Songs (2003), Olly Knights e Gale Paridjanian tinham pela frente um encargo custoso: não deslustrar a excelência do disco anterior. Pois bem, num registo mais pop e menos folk, o duo britânico propõe, no seu novo trabalho, um som limpo e certinho, simpaticamente convencional, com bons arranjos, num tom solarengo e fluente mas que não foge aos lugares comuns e à mediania. Do alinhamento de JackInABox, além de "Asleep With the Fireflies" e "Over and Over", nada parecer escapar à condição frívola de uma pop insípida, inconsequente e, mais do que isso, quase sem propósito. Um passo atrás.
(Astralwerks, Junho 2005)







The Russian Futurists - Our Thickness (6/10)

Terceiro longa-duração da one man band do canadiano Matthew Hart, Our Thickness acolhe uma sonoridade que evoca os Magnetic Fields ou os Flaming Lips, graças ao recurso a ornamentos electrónicos para embelezar melodias pop. As composições são sólidas e a sobre-produção de algumas pistas do alinhamento torna o disco um festim exuberante de pop majestosa e consciente da sua dimensão eufónica. O mosaico de Our Thickness é saturado de ingredientes engenhosos e atraentes, mas com sentido desiquilibrado de proporção. Hipérbolico, multifacetado, revigorante e paradoxal, o último trabalho de Hart é um enigma que se resolve seguindo uma de duas soluções: gosta-se ou não. Em qualquer dos casos, "Paul Simon" é canção para ressoar nos tímpanos durante algum tempo.
(Upper Class, Maio 2005)