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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Boards of Canada - Tomorrow's Harvest


7,7/10
Warp, 2013

Desde o lançamento do icónico Music Has the Right to Children, no longínquo Setembro de 98, os escoceses Boards of Canada tornaram-se porta-estandartes de um movimento musical que, até esse momento, não havia transposto os limites do anonimato. Nessa edição, Michael Sandison e Marcus Eoin captaram, com os olhos postos na electrónica que ouviam, o bucolismo da Edimburgo natal, apresentando-o ao mundo num cardápio sonoro muito próximo da profusão setentista dos precursores do sintetizador, mas contaminada por uma visão moderna na essência. De então para cá, e mesmo continuando a remeter-se a um isolamento mediático pouco entendível (raras entrevistas e informações), os manos escoceses granjearam uma franja muito significativa de seguidores (melómanos) e discípulos (criadores musicais) da ciência detalhista do seu laboratório de sons e, sobretudo, da dimensão emocional da sua música. Em boa verdade, os BoC são cientistas do som que sempre deram conta de uma afinidade com o pormenor enquanto matéria indispensável à sua álgebra de construção de texturas. É de construção que efectivamente se trata, um labor de justaposição, se quisermos, de lentos crescendos que vão convocando paulatinamente a feliz afluência de detalhes e mais detalhes. Vê-se a partida, não se adivinha o destino.

Tornou-se clássica esta forma de evocar estados de alma - a tal dimensão humana - a partir de substâncias sintéticas e fazê-lo com ponderação e equilíbrio. Nesse particular, Tomorrow's Harvest é irreprensível em dois planos. Num primeiro nível, resgata a linguagem original dos BoC, aquela dos primeiros discos, depurando-a de pequenos detalhes (lá está) algo anacrónicos e recontextualizando-a nos paradigmas estéticos actuais, sem lhe denegrir a identidade, a ponto da baixela BoC se tornar imediatamente reconhecida por qualquer melómano mais atento. Como se não tivessem passado oito anos desde o último longa-duração. A outro nível, o vínculo entre os sons (os detalhes, pois claro) é do mais ambiental que a dupla fez, com a soturna simbiose de elementos do costume, mas com amplitude mais expandida, mais desprendida, quase cinematográfica, a invocar uma miríade de cenas de cinema, deste e doutros tempos, que mais não são do que alçapões emocionais de todos nós. Nessa subjectividade intrínseca, é o ouvinte que escolhe a escapatória deste caleidoscópio. 

PODE LER ESTE E OUTROS CONTEÚDOS EM WWW.ACPINTO.COM

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Boards of Canada - The Campfire Headphase

Apreciação final: 7/10
Edição: Warp, Outubro 2005
Género: IDM/Electrónica Experimental/Ambiente
Sítio Oficial: www.boardsofcanada.com








O universo da electrónica experimental, mais propriamente o sub-género a que se convencionou chamar IDM (Intelligent Dance Music), é normalmente confinado ao anonimato e poucos são os projectos musicais que escapam a essa regra. Entre os nomes mais reputados, ao lado de Aphex Twin, Autechre, Mouse on Mars ou Carl Craig, figura a dupla escocesa Boards of Canada. Michael Sandison e Marcus Eoin, depois dos aclamados Music Has the Right to Children (1998) e Geogaddi (2002), apresentam-nos o terceiro longa-duração do seu percurso, o segundo lançado pela Warp. O disco segue na peugada dos antecessores, seduzindo o ouvinte a arriscar-se em labirintos sonoros e, com a mesma plenitude subtil, joga com o subconsciente, expondo reminiscências da face mais íntima da alma. Nesse sentido, é um disco atmosférico e contemplativo e, como seria de esperar dos Boards of Canada, remete-nos para a quase-hipnose de uma noite de Outono e a interioridade despegada da melancolia. The Campfire Headphase é soturno mas não depressivo e exprime-se em texturas electrónicas elaboradas com a minúcia costumeira da dupla. O requinte e a completude das composições - traves-mestras do discurso dos Boards of Canada - não deslustram o passado do grupo, mesmo sem disfarçarem, aqui e ali, alguns atributos dejá vu. Nota de inovação merecem as aparições da guitarra que, incorporadas na orgânica electrónica do disco, não mais se escondem em habilidades de estúdio e se afirmam mais cruas e assertivas (ouça-se a faixa "Chromakey Dreamcoat", um dos pontos altos do álbum).

A The Campfire Headphase parece faltar apenas um vínculo mais veemente com o arrojo; é certo que o par escocês aprimorou a retórica do seu som ambiental e sinistro e desse refinamento estilístico continuam a nascer composições impressivas mas sem lugar para o imprevisto. Sandison e Eoin têm predilecção por lances seguros e não expõem as fórmulas da praxe ao crivo da reinvenção, acabando por se mover nas raias do auto-plágio. É certo que eles são bons no que fazem mas não é chegado o ensejo de forjar conceitos novos?

Procure na grafonola as faixas "Chromakey Dreamcoat" e "Davyan Cowboy"