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sábado, 16 de setembro de 2006

The Mars Volta - Amputechture

Apreciação final: 7/10
Edição: Universal, Setembro 2006
Género: Rock Experimental/Progressivo
Sítio Oficial: www.themarsvolta.com








Os Mars Volta são um daqueles ensembles acostumados a estar na voga. Sem esquecer o passado nos At the Drive-In, o indiscutível bom gosto e o diâmetro artístico dos dois registos anteriores a este vieram a acomodá-los a uma certa sacralização da comunidade indie e, nessa conjuntura, guindaram a exigência a níveis normalmente não acessíveis aos vulgares mortais. É esse o fado incontornável dos special ones (não só Mourinho!), o de serem escrutinados por ouvidos de fina têmpera, já diz o adágio do povo que depois de ter-se cavalgado um puro sangue não volta a montar-se uma mula. Amputechture, terceiro capítulo de Omar Rodriguez e Cedric Zavala, chega a nós envolto nessa vaga de expectações agravadas, ou não fosse cada lance dos Mars Volta um exame solene. Musicalmente falando, eles já não encobrem mistério nenhum, continuam a vascolejar o universo rock clássico, com impressões mais ou menos intuitivas dos King Crimson (o enlace guitarra-saxofone), mormente no formulário de guitarras, aqui e ali também reminiscente dos Led Zeppelin, algo que Rodriguez e Zavala baralham subtilmente com laivos de um Zappa em dias menos audaciosos. Tudo isto embrulhado num concentrado harmónico a fazer escalas no rock progressivo (Pink Floyd in the house) e na música latina, com margem para o recurso aos deslumbramentos da experimentação, umas vezes pertinho do jazz isento de regulamentos, e, noutros turnos, nos arredores do psicadélico. A empatia com os Red Hot Chilli Peppers, na sequência da recente digressão conjunta, é prosseguida em Amputechture, com John Frusciante a emprestar a expressão realista da sua guitarra à maioria das faixas do álbum.

Amputechture não causa o espanto dos antecessores, especialmente o insofismável tomo de debute, mas conserva as faculdades de uma das bandas americanas de maior competência. As letras são impenetráveis como um desafio esfíngico, coisa costumeira nos Mars Volta, e orbitam em reflexos góticos da metafísica, plenos de misticismo e intriga. E que melhor serviço musical para esses textos do que as maquinações iconoclastas de Rodriguez e Zavala? Cada trecho é um choque visceral distinto, um dínamo de virtuosismos inesperados e ângulos tensos e uma miríade de ideias confluentes. Contudo, se cada peça é quimicamente coesa, a fluidez do conjunto encrava pontualmente, redundando num registo global menos monolítico do que se esperaria. Ainda assim, Amputechture capta as matérias essenciais dos Mars Volta e, só por isso, seria sempre uma escuta compensatória. A recompensa é que não é a esplêndida filigrana do costume.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

The Mars Volta - Frances The Mute

Apreciação final: 8/10
Edição: Março 2005
Género: Pós-Rock/Rock Experimental/Art Rock



Provindo das cinzas dos At The Drive-In, o projecto The Mars Volta apresenta um conceito rock ambicioso, com o desígnio de afirmar novas fronteiras, sob a convicção de que o hardcore, o improviso extravagante e o psicadelismo são fontes primárias. Partindo desse preceito, o colectivo concebe um género rock não generalista, inspirado na arte progressiva. Frances The Mute é intenso e paranóico; tem uma orgânica complexa, em tangência com uma inquietante e volátil sensação de ansiedade. O disco é aprimorado no detalhe e aventura-se no exigente desafio de (des)construir a rigidez do rock, indo além do antecessor De-loused In The Comatorium (2003) na inclusão de influências sónicas variadas: há aqui flamenco, emo, free jazz e rock progressivo. O alinhamento de Frances The Mute contempla cinco faixas, cada uma junta pedaços de composições, na criação de um documento maior, um supremo exercício de criatividade e génio. Para o auditor, Frances The Mute é uma jornada sensacional, sem destino definido, um arroubo que apetece aceitar sem reflectir, um repto impreterível de ritmos descontínuos. Mais do que um disco, Frances The Mute é uma peça de arte angélica e dissonante, derriba todos os preconceitos musicais e torna-se uma alucinante definição do auge de uma nova família musical.

Não há como negar: Frances The Mute é um disco soberbo. Rock crescido, alienado e genial para mentes evoluídas. Não é um tomo imediatamente acessível, deve ser lentamente ruminado, até que se lhe degustem todos os travos sónicos. E uma vez completada a prova, é irreprimível o desejo de repetir muitas e muitas vezes.