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sábado, 31 de maio de 2008

Ladytron - Velocifero




A electrónica do novo século, se alguma coisa somou à sua própria renovação geracional, foi o alastramento de uma vaga de convicções que apontam sobretudo para o transbordo de fronteiras estéticas, quer "internas" (entre os seus diversos estilos rítmicos e orgânicas), quer exteriores, ao acolher ensinamentos doutrinários de outros estilos. Os britânicos Ladytron são, nas suas maneiras esdrúxulas, um dos vértices europeus desse entusiasmo pela redescoberta das valências da música electrónica e da mestiçagem com outros géneros. Arrumado num curiosíssimo plano estético algures entre o capricho do glam rock, as sombras do industrial, a electrónica independente e o melodismo onírico do synth pop, o quarteto chega ao quarto registo do seu percurso com o discernimento e os passos seguros de quem encontrou uma cunhagem própria. Velocifero mostra-nos a habitual propensão melódica dos Ladytron - nisso eles já não têm segredos - e os não menos idiossincráticos desassossego e excentricidade orgânica das composições. A música não deixa de ser pop, é directa e contém refrões de assimilação rápida, mas é também uma multiplicação esquizofrénica (muitas vezes ambivalente) de dimensões emocionais, capazes de soar, no mesmo trecho, a sonho atmosférico, a embevecimento, a claustrofobia e a inquietude. Assim se entendem melhor as permutas entre o fio melódico das vozes (Mira Aroyo e Helen Marnie parecem, cada vez mais, as duas metades de uma entidade una superior a elas) e a miríade de interferências nas texturas, ora tangentes de impurezas sintéticas, distorções e ruídos, ora mais próximas de tecidos convencionais, sejam eles rock (aqui menos do que no antecessor) ou pura electrónica. No apuro dessa mistura feita de contrastes, acontece mais vezes a convergência do que propriamente o conflito, assim se afirmando a coesão do disco e a validade da assinatura Ladytron. E isso é o mesmo que dizer que, também na electrónica, não é irreversível a distância entre preto e branco, entre o escuro depressivo e a esperança da luz, entre recato e excitação, entre conforto e nervo, entre gótico e utópico. E que é precisamente nesses intervalos de indecisão, nessas áreas de cinzento, que os Ladytron encontram o sétimo céu.

sábado, 29 de outubro de 2005

Ladytron - Witching Hour

Apreciação final: 7/10
Edição: Rykodisc/Universal, Outubro 2005
Género: Electrónica/Dream Pop
Sítio Oficial: www.ladytron.com








O terceiro registo de originais da carreira do quarteto Ladytron (no caminho ainda encontraram tempo para um disco de versões) é o mais preenchido cartão de visita de Helen Marnie, Mira Aroyo, Daniel Hunt e Reuben Wu. A asserção musical é análoga aos outros discos do colectivo britânico e assenta fundamentalmente numa mescla equilibrada de matérias sintéticas, sons instrumentais crus e vozes (femininas) num tom identicamente lamentoso e alucinado. A cadência vertiginosa das composições, ao jeito de uma espiral electrónica sem tempo ou espaço, apoia-se na afeição mesmeriana das vocalizações; o resto provém da devoção a algumas referências musicais do grupo - a música electrónica das duas últimas décadas (a disco incluída), a proposta new wave, house, techno e a porção certa de experimentalismo - e do trejeito costumeiro da sua assinatura. Há ainda um abeiramento prudente a um discurso dream pop que não cai mal nas formas dos Ladytron e que dilata o alcance melodramático e negro das composições, tornando-as mais complexas, sem prejuízo do seu flanco encantatório.

Witching Hour é a resposta a um hiato de três anos sem gravações e afirma um som virente (e convincente) na altura mais própria. Se é coisa certa que este disco estaria exposto, noutra conjuntura, a desconfianças e ao rótulo de datado, com a renascença da electroclash,Witching Hour adquire um sentido de oportunidade extra e destaca devidamente a valia desta banda. A bem da cena musical electrónica, a gestação prolongada deste álbum parece também ter trazido (com surpresa?) aos Ladytron um remate válido para os trabalhos manuais na mesa de mistura, acrescentando carne, sangue e casta à fórmula esqueletal do passado. Agora os Ladytron têm pedigree. E, mesmo sem inovações maiúsculas em Witching Hour, nós agradecemos.