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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Fuck Buttons - Slow Focus

6,8/10
ATP Recordings
2013




É a tenacidade de gente indomável como Andrew Hung e Benjamin John Power, as duas metades dos Fuck Buttons, que faz expandir os cânones do mundo musical e leva a invulgaridade a públicos maiores e mentes mais preguiçosas. Da sua identidade musical, já se sabia, sobeja a sensação de uma demanda perfeccionista, como se quisessem sempre somar alguma coisa ao que foi feito. É, de resto, essa aparente intuição de incompletude o seu maior paradoxo: sendo tão plena de artifícios parece sempre possível acrescentar alguma coisa às composições. Assim cresce a obra dos Fuck Buttons, disco a disco, quiçá à procura de, num qualquer dia do porvir distante, eles poderem vislumbrar no que gravaram um edifício sonoro monolítico. Por agora, o que têm em mãos é o trajecto para lá chegar e, para se acercarem desse fito, vão ter que arriscar a densidade sonora que apregoam convictamente. Ou, no mínimo, continuar a promover a sua maturação. Este Slow Focus, terceiro manifesto da empreitada, não é de consumo fácil, tão abarrotado está de estímulos e pormenores. Mas nessa amálgama, não há lugar para confusões, alguns sons vagabundos encaixam perfeitamente numa máquina electrónica afinadíssima, cheia de texturas e pontilhados.

O mais curioso é que uma música tão “matemática” consiga subliminarmente prender-nos no domínio das emoções – quase sempre escuras -, quando ela própria respira técnica, regra e método. Número versus coração, está bom de ver. Não mora em Slow Focus matéria dançável, nem é esse o propósito de Hung e Power. Chamar a isto psicadelismo, parece arriscado porque, afinal, a música é contida, sabe para onde vai e recolhe-se nos limites formais desse objectivo, como uma introversão consciente e tão pomposa e organicamente preenchida quanto possível. Ainda assim, não é um formalismo de vistas curtas, é antes um atalho cirúrgico para o escapismo estético que os Fuck Buttons perseguem. O fatalismo anunciado – e de que tanto gostam Hung e Power - encontra remissão em cada faixa, mas não é prolixo demais?

PODE LER ESTE E OUTROS CONTEÚDOS EM WWW.ACPINTO.COM

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Fuck Buttons - Street Horrrsing




Assim que se escutam as primeiras notas de Street Horrrsing se percebe que há qualquer coisa de paradoxal na fantasia musical do projecto Fuck Buttons. Do instantâneo contra-senso cénico entre a toada virginal do background pastoral de "Sweet Love for Planet Earth" e a companhia esquizofrénica (e assombrosamente espessa) do feedback, primeiro, e de vociferações incontinentes e descontroladas, depois, se pode inferir que a persona musical de Andrew Hung e Benjamin John Power é tudo menos um lugar sereno. Chega a ser cínica a maneira como os dois britânicos exibem a inevitável incongruência de uma criatividade conturbada, cuja personalidade múltipla (ou despudorada desinibição) é capaz de revelar um substrato de romantismo e placidez sensorial para, logo de seguida, atear sobre ele uma incrível labareda de electrónica atípica, a desafiar os limites da dissonância. Tal é o tropel gigântico das impurezas e dos ruídos que, a dado passo, quase deixa de vislumbrar-se o tutano melódico das composições, "esmagado" pelo motim descoordenado de acidentes sónicos (vindos, por exemplo, de ressonantes guitarras em desvario, em quase transcrição dos ideários drone) que o sobrepujam. A mistura é perturbadora na sua obtusidade e pode cansar por confiar demasiado na repetição ("Race You to My Bedroom/Spirit Rise" é notório manifesto) e, por isso mesmo, nunca chegará a consagrações mainstream. O que não quer dizer que Street Horrrsing não mereça vénia pelo virtuosismo com que nos dá um engulho inesperado, ao reinventar o nicho impenetrável da música fundada no noise, refundindo métricas e substâncias (a adição de um subliminar tribalismo é uma pequena maravilha!) e, sobretudo, emprestando às construções um valioso jogo de dissidências estéticas (o apogeu mora na coda do álbum, a sublime "Colours Move"). E é precisamente nos ápices em que essas discrepâncias se fazem mais inteligíveis - quando o ruído não monopoliza o oxigénio das faixas - e o contraste entre os fragores e as teclas melancólicas tomam os comandos do álbum que se declara a verdadeira identidade dos Fuck Buttons. Sinuosa e psiquicamente confusa, é certo, mas não menos desafiante por isso. Assim é Street Horrrsing, um gomo de algodão embebido em ácido.