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segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Ali Farka Touré - Savane

Apreciação final: 8/10
Edição: Megamúsica, Julho 2006
Género: World Music/Blues
Sítio Oficial: www.worldcircuit.co.uk








Nascido nas cercanias de Timbuktu, cidade nevrálgica do continente negro e histórico ponto de encontro na África Ocidental dos nómadas do Norte (Tuaregues e Songhais) e das caravanas dos mercantes de sal berberes, árabes e judeus, Ali Farka Touré cresceu num ambiente de tolerância cultural e racial. Único sobrevivente de dez irmãos, facto que haveria de render-lhe o epíteto "Farka" (o burro, animal venerado na sua etnia pelo aferro e insubmissão), Touré encontra nas rudimentares guitarras da cultura songhai, desde tenra idade, a magia e os ritmos que lhe dariam a notoriedade além dos limites do deserto do Sahel, fazendo dele um dos intérpretes mais admirados da comunidade world music. Caminheiro do deserto, agricultor habituado à aridez da savana de África e ao trabalho duro para sustento da família, homem benigno e de sorriso pronto, Touré fez-se tão pertinaz quanto o Níger, de águas resistentes às agruras das longas secas sub-saarianas. Essa rotina obstinada é, de resto, substância indissociável do cardápio sonoro de Ali Farka Touré, com porções iguais de rusticidade instrumental (as njarkas e ngonis, antepassados jurássicos de violinos e banjos, são um dos exemplos enumeráveis) e impressões cruzadas de vários cultos africanos, legado óbvio da tradição de Timbuktu. Quando Touré anunciou, há algum tempo atrás, que desistiria da música para humildemente ser mais útil à sua querida aldeia de Niafunké, já lhe tinha chegado o reconhecimento internacional, com expoente no Grammy pelo mítico Talking Timbuktu (1994), um dos rebentos da sociedade criativa com o americano Ry Cooder. A essa estatueta, Touré juntaria outra, no ano transacto, suspendendo o silêncio com o compacto de In the Heart of the Moon, gravado na companhia do tocador de kora Toumani Diabaté, disco que serviria de suporte para um saudado regresso aos palcos. Seria o último. A enfermidade roubaria Touré à vida em Março deste ano.

Por essa altura, Savane estava já em acabamentos. As primitivas (leia-se genuínas) malhas de guitarra de Touré permanecem intocáveis, a sua música é bamboleante e sedutora como um feitiço de mandinga ou um blues de Hooker com regionalismos raï argelinos ou gwanas de Marrocos e recortes sábios de outras paragens, os bhangras do Punjab, os ritmos crioulos, os huaynos do Perú, os paso dobles dos mariachis. E muitos, muitos blues. Savane é, por essa via, o amor à causa de embaixador da música universal que Touré tão bem defendeu, sem renunciar ao vínculo umbilical com o Mali. Com este álbum, gravado nas derradeiras semanas de vida e com conhecimento da fatalidade incontornável da doença que o apoquentava, o indomável burro deixou-nos a derradeira certeza da sua resistência e teimosia: o silêncio que a morte lhe impôs, não roubará a sua música à eternidade. Savane é, além de um maravilhoso requiem, um fascinante adeus e um acrescento imperdível à discografia essencial de África e do mundo.

segunda-feira, 18 de julho de 2005

4 rapidinhas


Shipping News - Flies the Fields (6/10)
Novo trabalho de um trio comummente associado a sonoridades densas que partem de riffs pós-rock entrecortados pela presença tímida de uma voz sussurrada, em ritmos desafiantes e atmosféricos. Sem grandes brilhantismos, o álbum apresenta instantes organicamente ricos com os graves de um baixo sorumbático, guitarras angulares e percussões intensas.

Espreite a grafonola para escutar o tema "Louven"

(Quarterstick, Março 2005)





Ali Farka Touré & Toumani Diabaté - In the Heart of the Moon (8/10)
Quando se juntam a guitarra mágica de Ali Farka Touré e a kora (harpa de 21 cordas da África Ocidental) enleante de Toumani Diabaté, duas lendas vivas da música do Mali, o resultado só pode ser arrebatador. Um diálogo musical permanente entre a tradição do desert blues de Touré - ligado à culturas songrai e puel - e o elo virtuoso da cultura mandé de Diabaté. As sinergias são óbvias - o disco foi gravado em três tardes consecutivas, sem segundos takes - e confirmam o talento de dois dos maiores expoentes da pátria-mãe do blues e do jazz, (a esse propósito ver Du Mali au Mississipi, documentário assinado por Martin Scorsese), aqui reunidos numa preciosidade da música mundial.

Espreite a grafonola para escutar o tema "Kaira"

(World Circuit, Junho 2005)





Seu Jorge - Cru (7/10)
O Mané "Galinha" do filme Cidade de Deus também é desembaraçado na música e, depois da participação na colectânea Favela Chic e do lançamento do primeiro álbum Samba Esporte Fino(2002), está de regresso com novo trabalho. Seu Jorge é mensageiro de um som que herda a linhagem do mais fino samba, na linha de Zeca Pagodinho, e a cruza virtuosamente com o classicismo de João Gilberto. Deliciosa é a versão á la Waits de "Chatterton", tema original de Serge Gainsbourg. Recentemente lançado no Brasil, depois da aceitação no mercado francês, Cru é um disco sólido e que faz jus ao preceito sublinhado no sítio do artista : "o samba é a nossa verdade, nossa particularidade, nossa medalha de ouro, nosso baluarte, nosso estandarte brasileiro".

Espreite a grafonola para escutar os temas "Tive Razão" e "Chatterton"

(Naïve, Março 2004)





Billy Corgan - TheFutureEmbrace (5/10)
Depois da implosão do projecto Zwan, Corgan partiu em expedições fantasistas pela electrónica, num registo que apresenta o fluido de uns Smashing Pumpkins filtrados num passe-vite, onde as drum machines, os sintetizadores e as guitarras camufladas servem de cartão de visita a uma liturgia auto-indulgente, em rompimento com o passado, mas cujo impacto maior não vai além da insipidez das composições. Salva-se "Mina Loy".

Espreite a grafonola para ouvir o tema "Mina Loy"

(Warner, Junho 2005)