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terça-feira, 14 de novembro de 2006

Joanna Newsom - Ys

Apreciação final: 9/10
Edição: Drag City, Novembro 2006
Género: Pop Erudita
Sítio Oficial: www.dragcity.com








O debute de há dois anos, com o singelo mas mágico Milk-Eyed Mender, mostrara-nos uma voz de doçura angelical em canções feitas para encantar almas virgens. Candura em quimeras de criança, assim nos tocava Newsom com inocência. No desafio do segundo disco, a harpista coloca-se oportunamente um desafio maior: fazer crescer as suas composições, sem lhes subtrair a mais preciosa matéria, a castidade. Para esse encargo, Newsom convoca uma assembleia instrumental ambiciosa, com mais de trinta instrumentistas, entregando os arranjos orquestrais a Van Dyke Parks (esteve, recentemente, com Brian Wilson em Smile), a voz e a harpa à produção do omnipresente e cru Steve Albini e a arrumação final a Jim O'Rourke. Em boas mãos, portanto. Se o amparo de tão numerosa trupe de acompanhantes faria supor, antes da audição do disco, o risco de se corromper a magia (minimalista) do primeiro tomo, Ys desmente essa premissa de raciocínio. As cordas de Newsom, as vocais e as da harpa, prosseguem o magnífico pacto do trabalho prévio, preservando o miolo de candura da sua música. Elástica e prestes a flutuar da tremura tímida dos (não muito) graves sussurrados ao desabafo mais entusiasta dos agudos doces, Newsom canta como poucas, quase lembrando os inesquecíveis vaivéns de Nina Simone, de mel rouco, ou uma Björk dos dias menos ácidos à conversa com Kate Bush. Ou outra coisa qualquer, um anjo-criança fora das eventualidades do tempo e do espaço, um enlevante arrepio à prova de desarranjos ou do bulício. A harpa, jogo de cordas que melhor veste o adjectivo etéreo, é acólito e confidente das orações, delineando os contornos das melodias, com tons suaves como uma brisa de Verão. Depois, vêm os arranjos de orquestra, ora corpulentos ora minúsculos, a dotarem as canções com um impressivo toque clássico, nunca domando os solistas (voz de Newsom e Harpa), antes avivando-lhes o critério e o rumo. Este soberbo enlace com os esquemas barrocos da orquestra leva as composições a modulações mais próprias de uma suite e, em última análise, afasta-as da formatação mais tosca da estreia. Aqui, as peças formam uma rapsódia em cinco trechos, todos em elipses além dos sete minutos e sem refrões. Dédalos sedutores do cérebro.

Ys. é daqueles discos que não cabem em nenhuma família musical. Ambivalente na contemporaneidade das melodias, com algo de progressivo, e na militância renascentista de Newsom (veja-se, inclusive, a capa do álbum), o novo opus não é de êxtases imediatos. As melodias conduzem-nos a destinos sem previsão possível, as orquestrações são o efeito de sonho e as histórias cantadas de Newsom fazem de guia-intérprete numa jornada por novos mundos. Coisas assim originais (e sinceras) não se ouvem todos os dias, são fábulas musicadas para escutar, absorver lentamente, e perceber que, depois de tomadas na plenitude, se fazem causa imprescindível da alma.

domingo, 23 de janeiro de 2005

Joanna Newsom - The Milk-Eyed Mender

Apreciação final: 8/10
Edição: Março 2004
Género: Indie-Rock/Folk



Há cantos que enlevam pela ternura, que prometem a doçura com uma candura quase inocente. Joanna Newsom faz isso com uma castidade encantatória, pelo avanço de uma voz com fragilidade de infância em convites graciosos para cenários sem inquietações ou adulterações de qualquer espécie. Em The Milk-Eyed Mender tudo se reduz à voz de Newsom e a texturas sónicas minimalistas de berços fingidos nas cordas de uma guitarra. O embalo é irresistível, apela-nos à imaginação, nas formas mais fantasiadas de fascínio.

The Milk-Eyed Mender é o melhor conto de fadas musical dos últimos tempos, leva-nos a olvidar as impugnações que a existência nos impõe e a criar com um prazer sem igual um admirável mundo novo, onde apenas há lugar para as mais inconscientes e belas desordens coloridas das crianças, sem mediações além da música, sem embargos além dos limites do sonho. O disco é tão puro que comove, tão sincero que enternece os ouvidos mais duros, tão tocante e verdadeiro que parece não existir: será uma fabricação da mente desenganada pelo mundo real?

Joanna Newsom acredita e faz-nos sonhar. Afinal ainda há coisas mágicas na vida, daquelas que não se fazem, antes brotam de nenhures, de um estado de existência genuíno...talvez não o tenhamos percebido mas The Milk-Eye Mender sempre esteve em nós, Joanna Newsom apenas o indicou.