domingo, 10 de fevereiro de 2008

Novembro - À Deriva

7/10
Lisboa Records
2008
www.novembro.com.pt



O primeiro disco dos Novembro confirma as premissas que se conheciam da música do quarteto lisboeta, mormente desde a magnífica antecipação que foi "Solidão a Dois", assombrado cartão de visita do álbum que agora nos chega. O manancial inspirador do colectivo tem raízes no tradicionalismo e na cultura popular da música nacional, no fado da guitarra portuguesa, nas derivações esdrúxulas de um António Variações ou da Sétima Legião (aparentemente a referência estética mais notada) e, em simultâneo, em sabores de genuína contemporaneidade, como as programações e uma produção manifestamente actual. Trata-se, sobretudo, de um belíssimo casamento entre alentos artísticos modernizadores de um legado de que Miguel Filipe (o "líder" conceptual do projecto) gosta e a vénia indispensável a essa afeição. Por isso, À Deriva não tem pejo de combinar - e fá-lo sempre com um sentido de coesão bastante significativo - o choro da guitarra portuguesa e a urbanidade depressiva da eléctrica (ouça-se o excelente exemplo de "Plenitude") ou uma secção rítmica com qualquer coisa de costume folclórico e discretos sons de síntese. A mescla resulta quase sempre hipnótica e envolvente e, em complemento do substrato musical algo místico, vem apoiada em letras pontuadas por um imaginário densamente poético. No final, embora ressalte a sensação de que o álbum sairia beneficiado com um alinhamento mais curto, sobram argumentos para considerar os Novembro um dos candidatos mais sólidos a revelação do ano na música lusa. E À Deriva, na linha do que, por exemplo, vêm fazendo os A Naifa, é produto de uma geração de novos músicos preparados para coser um futuro com linhas de ontem. E, mesmo com algumas cisões, isso não se faz sem nostalgia.

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