sábado, 19 de julho de 2014

Buraka Som Sistema - Buraka

6,2/10
Enchufada/Universal, 2014

Não era difícil adivinhar que o colectivo Buraka Som Sistema se veria, num momento qualquer de um percurso de crescimento impressionante, a mãos com um debate filosófico (e até estético) entre a suburbanidade de origens radicadas  nas inúmeras derivações rítmicas da música africana e tropical para pistas de dança, e a tentação pelas sonoridades de escala maior que naturalmente emergiria. De um fenómeno alimentado por essas culturas de nicho até tornar-se marca global foi um curto passo, graças ao reconhecimento generalizado de uma criatividade que, perto do perigoso precipício da banalidade, soube sempre manter-se viva, irreverente e fresca, celebrando afinidades originais entre ritmos (o kuduro, pois claro, e o moombahton, o bondoro, o tuki, o kizomba ou o zouk bass, por exemplo) com o hedonismo próprio de malta que se quer divertir. Esse desprendimento formal era, de resto, um ponto de honra do grupo, não apenas como enquadramento estético, mas como rastilho oportuníssimo da explosão criativa de cada composição. Foi assim que tomaram de surpresa o orbe musical nacional, primeiro, e transbordaram rapidamente para o exterior, depois, na tal internacionalização que se tornou um desafio identitário.

É precisamente nesse contexto que nos chega Buraka, terceiro tomo de um percurso que cresceu até aos grandes festivais e, por isso mesmo, chegou a públicos cada vez maiores e a novas exigências. Desse inevitável redimensionamento, parece ter sobrado a acomodação do colectivo à consagração passada e, com ela, o risco do desleixo desenhava-se no horizonte. Desde o primeiro avanço ("Stoopid"), a léguas do impacto de outros, se prenunciava a estagnação criativa que o álbum veio confirmar. Parecendo mais um recalque mecânico dos antecessores (Komba (2011) à cabeça) do que propriamente um novo capítulo, o fulgor de Buraka esgota-se num ápice, como uma ideia gasta e sem a surpresa de outrora e, aqui e ali, com a simplicidade grosseira de criações em piloto automático ("Bumbum", "Vuvuzela (Carnaval)" ou "Van Damme" são gritantes exemplos). Restam meras sombras do portentoso motor de beats que nos lembrava a feição mais abrasiva da jungle (salva-se "Parede"), ao serviço da panóplia de influência rítmicas do grupo; a hipersensibilidade de levar as electrónicas a raiar a fúria descontrolada e sem perder o norte é  uma miragem. No final, por quererem fazer jus à originalidade que os colocou na linha da frente e ter um som que ninguém tem, os Buraka Som Sistema acabam por soar demais a si mesmos.

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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mundial 2014 : Portugal dos pequenitos


É inquietante perceber que, no rescaldo de uma participação medíocre no Campeonato do Mundo, parecem não haver consequências para ninguém. Mesmo admitindo que a fasquia das expectativas foi elevada acima do que aconselhava o juízo mais ponderado, o saldo apurado nos três jogos é francamente negativo e coloca-nos perante uma reflexão incontornável: como preparar o futuro da selecção? Respaldado no silêncio complacente da F.P.F., Paulo Bento esgueira-se entre os pingos da chuva e sente-se capaz de tomar em mãos o encargo de renovar o grupo e preparar o ciclo seguinte de grandes competições, a começar já em Setembro, com a qualificação para o Euro 2016. Em face do se viu no Brasil, a união do grupo não é mais do que a ruína que a fase de qualificação denunciou e o playoff com a Suécia apenas disfarçou. Ao mesmo tempo, o apagão competitivo de alguns elementos nucleares na equipa e a inacreditável sequência de problemas físicos, puseram a nu as fragilidades de uma preparação deficiente e de uma convocatória questionável. Também nesses domínios, a culpa vai morrer solteira. E espera-se que seja esta mesmíssima estrutura federativa e o actual corpo técnico a revigorarem o grupo, a reinventarem o espaço das selecções nacionais e a prepararem a nova geração para a próxima década dos AA's? Não estará Paulo Bento refém das suas próprias ideias e da fidelidade ao vínculo de gratidão construído com alguns futebolistas nos últimos anos?

Nas circunstâncias actuais, a renovação de quadros na selecção é uma inevitabilidade e não pode ser condicionada por privilégios pessoais que, se nunca se justificaram, agora têm ainda menos sentido. Pior do que isso, os mentideros trazem relatos de episódios de ingerência na escolha da equipa, da interferência de patrocinadores e empresários a vários níveis e, inclusivamente, de algum mal-estar entre jogadores. Com estas condicionantes, não se adivinha um processo pacífico de renovação e é legítimo questionar-se se os actuais protagonistas, tanto directivos como técnicos, são as pessoas certas para o conduzir e levar a bom porto. O espaço dos sub-21 tem que ser aberto paulatinamente aos AA's já na qualificação para o Euro 2016. Não há outra via. Mesmo respeitando o trajecto feito ao serviço da selecção, não pode iludir-se o facto de que urge "refrescar" o ambiente da equipa de todos nós. Chamar à equipa novas caras e novas ambições tem que ser a prioridade, sob pena de perder-se o timing dessa renovação e cavar-se um vazio geracional. E esse caminho de mudança tem que ser suportado num princípio basilar que respeite não outra coisa senão o momento de forma: os melhores para cada posição. No Brasil, ficou clara a capitulação desse princípio. E, aparentemente, o balanço que importava fazer não é feito, passa-se uma esponja sobre os episódios Brasil 2014 e o mundo luso segue no laxismo do costume, como se nada fosse, como se não tivesse existido o Campeonato do Mundo. Fingir que não há um problema é o primeiro passo para o ver crescer.

E depois, a questão de sempre: Cristiano Ronaldo. Ícone aglutinador de paixões, o capitão português é o pólo que agrega quase todas as atenções, numa lógica de subvalorização do colectivo que até os colegas parecem aceitar com bizarra submissão. Primeiro, foi a "novela" em torno da lesão, também embalada pelos companheiros em diversas ocasiões; depois, a sequência desconchavada de declarações públicas, em contradição entre si e sem norte. Finalmente, a pobreza inacreditável das suas prestações desportivas, algo comum a todas as grandes competições de selecções em que participou. Como aqui escrevi, julgava que o capitão português tinha atingido um patamar de maturidade emocional consentâneo com a sua posição no grupo. A realidade dos factos desmente-o categoricamente. Continua mimado, birrento e a considerar-se muito superior à selecção, como se fossem os colegas a causa do insucesso dele. E este estado de coisas tem que ser questionado, não podem permitir-se prima-donas numa representação nacional e alguém tem que ter a frontalidade de o dizer abertamente. A comunicação social nacional continua a embalar o egocentrismo insuportável de CR7 e a alimentar um fenómeno mediático que inibe os próprios colegas, mesmo que eles involuntariamente o aceitem. Ronaldo é um futebolista de eleição, é um facto, mas isso não pode dar-lhe o estatuto de nobre vaidoso entre plebeus. Haja quem afronte essa evidência com mão disciplinadora e sem medos.  Mas isso só será possível se a liderança, a todos os níveis, não estiver conotada com nenhuma cadeia de poder ou interesse paralelo, nem comprometida com outra coisa que não seja uma filosofia de renovação e de vitória. Esse tipo de independência jamais surgirá sem mudanças estruturais. E elas têm que começar na F.P.F., desde o banco de suplentes à hierarquia federativa. Iludir este facto é fingir que não existe um problema. 

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Ben Frost - A U R O R A

8,3/10
Mute/Bedroom Community, 2014

Da indisfarçável devoção do australiano Ben Frost às múltiplas dimensões formais da música ambiente não restam dúvidas. Afinal, ele vem erguendo uma discografia consistente e que, embora seja absolutamente incontornável no género, transbordou fronteiras estéticas e tocou pontos cardeais que não se adivinhavam na origem. A mudança para a Islândia - onde está radicado presentemente - ajudou a esse processo de expansão (e afinidade com os extremos) e à construção de uma linguagem sonora que não conhece paralelo no universo musical. Em certo sentido, esse radicalismo de Frost é transversal à sua obra e confunde habilmente escalas de trabalho: inclina-se, alternadamente e sem atropelos, entre a pequena escala de um detalhismo quase microscópico e as medidas volumosas de um bombardeamento intenso e abrasivo. Seja como for, essa aparente indefinição de escala nunca colocou em cheque a visceralidade da música do australiano, nem a forma como faz do ruído um ornato perverso e imprescindível. Assim acontece neste A U R O R A, quinto capítulo da sua discografia, que leva mais além as premissas desconstrutivas que vêm tomando o laboratório de sons de Frost.

Longe de ser um opus "clássico" de música ambiente, A U R O R A desmonta esse paradigma com noise vanguardista, denso e experimental. A sobreposição de camadas de sintetizadores dá-nos uma massa sonora do mais espesso e asfixiante Frost que ouvimos, ao jeito de uma apocalíptica lavagem cerebral, nem sempre de absorção fácil, mas sublimemente secundada pelas percussões orgânicas de Thorr Harris (Swans) e especialmente Greg Fox (ex-baterista do ensemble black metal nova-iorquino Liturgy, hoje nos Guardian Alien). Mais corpo e mais peso, portanto ("Diphenyl Oxalate" podia ser a abertura de um álbum dos Liturgy). Junte-se-lhe o multi-instrumentalismo de Shahzad Ismaily, que já produziu e tocou com meio mundo (Laurie Anderson, Bonnie "Prince" Billy, Eyvind Kang, Secret Chiefs 3, Martha Wainwright, entre outros), e estão lançadas as premissas para um disco de Ben Frost que tem um inesperado dom: contendo tudo o que faz a sua quintessência, partindo dela, esquadrinhando-a e desmontando-a, não soa a nada que ele já tenha feito. E, ainda assim, semeia no ouvinte a familiaridade própria de um puro Frost, um grandíssimo recontro entre minimalismo e maximalismo. Atrevam-se os tímpanos!

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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Mão Morta - Pelo Meu Relógio São Horas de Matar

8,1/10
Nortesul, 2014

A obra dos bracarenses Mão Morta é transversalmente atravessada pela concepção do indivíduo enquanto parte ínfima de uma imensa (e opressiva) engrenagem universal que é, afinal, a sua mãe original e o seu capataz. Para materializar essa reflexão existencialista, Adolfo Luxúria Canibal e seus pares colocaram-se no centro de um paradigma estilístico muito pessoal, com um pé no surrealismo negro como metáfora da decadência humana e outro na distorcida redenção de um bizarro escapismo hedonista. A mistura deu-nos momentos de ácida descrença no animal humano, servidos em órbitas estéticas que, partindo de um sedimento rock, conheceram algumas derivações pontuais por outras concepções. Em todo o caso, foi precisamente quando as ideias poisaram na distorção incisiva das guitarras que nasceram alguns dos momentos mais inspirados do grupo.

Quis a evolução dos factos que, volvidos trinta anos de carreira, os Mão Morta encontrassem na circunstância da pátria lusa um terreiro apropriado como nunca para desdobrarem o panfleto do seu pessimismo. A crise financeira é aguda, o país agoniza, a contestação subiu a níveis pouco vistos. Voluntariamente, os Mão Morta juntam a sua voz à coluna dos contestatários neste Pelo Meu Relógio São Horas de Matar. Esquecida a desproporção populista do vídeo de promoção do primeiro single ("Horas de Matar") - que, atrás do sensacionalismo inevitável, presta o pior serviço aos propósitos do disco - o álbum é um monólito de coesão rock, com um alcance político em que a poesia de Adolfo Luxúria Canibal é lapidar:  "enxovalhado no trabalho / maltratado na doença / humilhado no salário / aviltado na dignidade/ resta pouco para gostar de mim / e ainda menos para amar" ouve-se na crua "Hipótese de Suícidio".  Depois, em "Nuvens Bárbaras", uma dose par: "o futuro já não é uma fonte de esperança / só nos resta a indigência / ou morrer de morte certa / como heróis de pechisbeque / neste grande fogaréu / de aparato e opulência / em que farra o capital". Palavras assim pesadas para música com músculo não são mais do que canções de intervenção, mas passadas pelo crivo tétrico dos Mão Morta. E no Portugal minguado e acomodado em que vivemos, erguer-se um disco destes tem dois méritos: firmar, em cunho rock, a independência intelectual e o arrojo dos Mão Morta - as traves mestras de um percurso consistente e sem concessões - e, en passant, atirar-nos à cara a incómoda verdade de continuarmos a ser, no melhor e no pior, um povo de brandos costumes.

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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Prins Thomas - III

7,5/10
Full Pupp, 2014

Se há coisa que pode ser imputada a Thomas Moen Hermansen - o sujeito por detrás da alcunha Prins Thomas - é a responsabilidade de ter sido um dos reinventores das temáticas disco de escala europeia. Sozinho, ou com o compincha Lindström, deu visibilidade a um conjunto de produtos musicais que vieram a reposicionar a forma de sentir (e ouvir) a electrónica, cruzando a tal escola disco com inúmeras referências históricas e condimentos especiais que, em conjunto, compunham um conglomerado interessantíssimo e quase sem paralelo. E foi assim mesmo que os radares do mediatismo o descobriram, a mãos com o aprimoramento de um fórmula que tinha tudo para vingar, sobretudo por revelar sinais de consistência e um invulgar sentido de equilíbrio nas arriscadas sobreposições entre o tradicional e a novidade, sem favorecer um ou outra. Chamar-lhe space disco - a referência estética que colaram à ética de trabalho de Prins Thomas -, talvez não lhe fizesse justiça, como resulta evidente da discografia já editada e que dá mostras de uma verve que, acompanhando o pressuposto de remexer no suporte estrutural da disco, não se detém apenas nessas coordenadas.

III vem na sequência do díptico lançado com Lindström e que mereceu ampla aclamação, sobretudo por assentar nessa aliança com o património disco, mas moldando-o a um discurso menos apontado às pistas de dança e mais interessado em aventurar-se nas improváveis convergências com outras dimensões musicais. O pendor progressivo-espacial das composições reforçou, então, a legitimidade do epíteto space disco. Este III, mesmo sem a companhia de Lindström (dá-se a coincidência de também ser o terceiro registo em nome próprio), retoma essa relaxada peregrinação por paragens inexploradas da disco, indo mais além nas abstracções que constroem cada peça ("Arabisk Natt" é uma brincadeira deliciosa) e dando azo a um curiosíssimo contraste: talvez este seja o mais hedonista dos discos de Prins Thomas - no sentido de ser aquele que mais se borrifa em regras - e, ainda assim, será o menos dançável de todos. E cada audição escancara a inevitável evolução de paradigma de Prins Thomas: a disco não é já senão uma luminária distante e difusa, um cicerone de métricas e pouco mais. Tudo o resto é o produto de anos de destilação de uma linguagem que, hoje, tem mais certezas na sua própria especulação pelos sons cósmicos, pelo krautrock, pelo dub e até pelo psicadelismo, acolhendo todos e não destacando nenhum.  Chama-se a isso savoir faire.

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sábado, 24 de maio de 2014

Sugestão musical

Mac DeMarco
Passing Out Pieces
Salad Days (2014)

A Náiade

John William Waterhouse
The Naiad
1893

Observação de jogadores: Youri Tielemans

Youri Tielemans (Anderlecht)

No exigente quadro do futebol moderno, não é comum ver-se um médio defensivo afirmar-se ainda antes da maioridade, mas é isso que tem acontecido com Youri Tielemans. Produto da formação do Anderlecht - único clube que representou até à data - vem firmando o seu espaço no emblema belga, a ponto de ter-se tornado o mais jovem estreante do seu país na Champions, apenas com 16 anos. De então para cá, cresceu nas equipas de jovens do Anderlecht e chegou com naturalidade ao plantel principal. 

Apesar da tenra idade, surpreende a leitura espacial que faz do jogo e a sua maturidade táctica. Tem um comportamento posicional muito evoluído, com a exacta noção de onde tem que estar para garantir os equilíbrios tácticos da sua equipa. Depois, e porque é um centro-campista completo, é apto em todos os momentos do jogo: sabe recuperar a bola, assume a primeira fase de construção com critério e lança bem o momento ofensivo, em razão da excelência do passe e da visão de jogo apurada. Alia capacidade técnica acima da média com potência física, o que faz dele um médio com desembaraço, cultura de posse da bola, inteligência na transição (ofensiva e defensiva) e sentido utilitário do jogo. É comum encontrar a solução de passe mais eficiente para soltar a equipa para a frente, ora ao primeiro toque, ora depois de driblar adversários para libertar-se da zona de pressão e mudar o centro do jogo. Fala-se do interesse de grandes emblemas nele e, se evoluir consistentemente (acabou de completar dezassete anos e já joga nos sub-21 da Bélgica), tem tudo para tornar-se um médio de excelência para os próximos anos do futebol europeu.

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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Observação de jogadores: Karol Linetty

Karol Linetty (Lech Poznan)

Desde os dez anos nos escalões de formação do Lech Poznan, o centro-campista Karol Linetty integrou as várias selecções nacionais do seu país, chegando prematuramente à equipa principal, em virtude do reconhecimento dos seus predicados técnicos e da maturidade táctica que foi capaz de demonstrar desde cedo. Debutou, com 18 anos, em 18 de Janeiro de 2014, na selecção maior da Polónia.

É um médio perfeitamente adaptado às características e exigências do futebol moderno e com a capacidade de, no corredor central, interpretar bem qualquer posição do meio-campo. Embora já tenha sido utilizado como pivot defensivo, é como médio de segunda linha que o seu futebol melhor respira, seja pela apetência inata para construção de jogo, seja pela naturalidade com que solta a equipa para o espaço ofensivo, com excelente controlo de bola, bom drible e a oportuníssima descoberta de soluções desequilibrantes, ora no passe de ruptura, ora recorrendo ao remate de meia distância. Tem bom toque de bola e uma chegada criteriosa à zona de finalização e, se evoluir consistentemente, pode tornar-se um genuíno médio box-to-box. Fala-se do interesse de grandes emblemas europeus no seu concurso. Deverá integrar a esquadra polaca no próximo campeonato do Mundo.

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sábado, 17 de maio de 2014

Observação de jogadores: Matthias Ginter

Matthias Ginter (Freiburg)

Natural de Freiburg, é hoje um dos principais activos do maior clube local, depois dos primeiros anos de formação terem sido passados no SV March. É presença regular na primeira equipa desde a temporada 2012/13 e desde aí tem sido sistematicamente convocado para as selecções jovens do seu país, somando já internacionalizações pela Mannschaft em 2014. 

Com formação de defesa central, pode jogar em qualquer um dos lados do centro da defesa e é aí que vem solidificando o seu estatuto, embora já tenha sido pontualmente utilizado como médio defensivo. É dextro e, mesmo não sendo muito elegante na condução da bola, gosta de sair a jogar. É muito forte na antecipação porque lê bem o jogo, é culto nas movimentações defensivas e tem excelente timing no desarme. Competente no jogo aéreo e com a bola na relva, tem todas as características de um defesa central moderno: agilidade, rapidez e simplicidade de processos e bom sentido posicional. Quando tem oportunidade, gosta de lançar a bola em profundidade, podendo ser uma arma importante num colectivo especializado em transições rápidas. É um dos nomes mais falados da nova geração alemã e está pronto para o salto para um emblema com outra ambição.

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sexta-feira, 16 de maio de 2014

A cigana de Musca

Pablo Picasso
Gypsy in front of Musca
1900

Memórias do cinema

Morgan Freeman, Tim Robbins
The Shawshank Redemption
1994

Swans - To Be Kind


9,0/10
Young God Records, 2014

Quando Michael Gira decidiu ressuscitar os Swans, poucos previriam que aquela que outrora fora uma força ímpar do mais sombrio rock alternativo americano, após uma dúzia de anos de retiro (1998-2010), fosse capaz de motivar a consagração generalizada que veio a agraciar The Seer (2012). Mesmo com Jarboe apenas "emprestada" (a teclista vive a tempo inteiro o seu projecto solo), o colectivo pôs de pé um dos mais ambiciosos opus da sua extensa discografia e mereceu rasgados elogios de todos os quadrantes, recolocando Gira e seus pares em órbita relevante, deixado para trás um esquecimento que não fazia justiça ao quilate da discografia guardada nos armários da memória. Reparada a amnésia e reposto o equilíbrio universal, os Swans reafirmaram uma linguagem musical que domam como poucos e que Gira tinha posto de parte quando aos comandos dos melódicos Angels of Light. Mas a índole esdrúxula do  californiano não se aquietaria facilmente nas canções de sombras mais certinhas dos Angels; a nostalgia do gótico e do experimentalismo mais escuro viriam acima como o azeite em água. E só os Swans para responderem a esse apelo.

Esse disco de há dois anos era uma verdadeira megalomania de especulação rock, tão grande e tentativo (leia-se experimental) quanto equilibrado entre o minimalismo de um poema negro e o épico de uma ópera rock distorcida, situando as expectativas num plano de exigência que vergaria qualquer comum mortal. Mas Gira e companheiros não são gente para se render e investiram neste To Be Kind as mesmas ambições. O cunho grotesco que tão bem servira o antecessor, afinal a sublimação que o tempo trouxe aos sedimentos gótico-industriais da banda, tem sucessão certeira aqui, a ponto de já poder afirmar-se que esta nova vida dos Swans nunca quis ser um mimo nostálgico para fãs, antes a construção de um dialecto sonoro consistente e novo, apoiado no património deixado para trás na primeira vida, é certo, mas sem verdadeiramente se deter nele. Tão emocionalmente inquietantes como os longos mantras apocalípticos de The Seer, as peças deste To Be Kind anunciam uma catarse menos fatalista (o que não quer dizer menos negra, bem entendido). Além do monólito rock que se propunha triturar quase tudo à marretada (como se revê na entrada de "Bring the Sun/Toussaint L'Overture"), há aqui espaço para microscópicos trabalhos de acupunctura e orações. Destruição em golpes mais pequenos e mais fundos e sempre desconcertantes. Oremos.

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