segunda-feira, 24 de março de 2014

Dead Combo
A Bunch of Meninos



7,8/10
Universal, 2014

Se há mérito reconhecível nos Dead Combo, ele é o de terem erguido, com solidez e consistência, um discurso musical muito pessoal. A música de Pedro Gonçalves e Tó Trips é um planeta de sons deles e que nem as sucessivas imiscuições registadas por vários convidados, numa discografia que abraça sensivelmente uma década, vieram deturpar. E isso nem sequer é sinónimo de imobilismo, já que, nesse caminho, foi tornando-se óbvio o pulsar nómada de uma música que começou por ser genuinamente portuguesa na alma e que cresceu bem além da formatação emocional que lhe esteve na origem. A Bunch of Meninos, quinto registo de estúdio da dupla, segue o rasto dos que o antecederam e fá-lo sob as certezas de uma linguagem que o tempo aprimorou e que, mesmo não contendo novidades na estrutura, é sempre capaz de insinuar uma sensualidade renovada.

Como não podia deixar de ser num disco dos Dead Combo, A Bunch of Meninos acata a mesma súmula de legados musicais que abençoou o casamento da guitarra de Tó Trips com o contrabaixo de Pedro Gonçalves (e todas as demais matérias que a eles se juntam...) e que vão da cultura poeirenta dos westerns ao desalento fadista, da  rusticidade rock ao saracoteio latino. A mistura é, como se suspeitava, equilibradíssima e só tem cabimento no universo sem par dos Dead Combo, com composições que colhem inspiração na diversidade e que, também por isso, são incrivelmente férteis a conceber ambientes e cenários. Música com este calibre cenográfico não se faz todos os dias, sobretudo cá no burgo. E entreter-se com as tradições lusas, ir buscar coisas a toda a parte do mundo e, no final, soar tão naturalmente português, não é coisa para ser feita por meninos...

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quinta-feira, 6 de março de 2014

Sunn O))) + Ulver - Terrestrials


6,7/10
Southern Lord, 2014

A inflexão estética que os noruegueses Ulver foram gradativamente ensaiando acabou por trazê-los a cenários que dificilmente se anteveriam quando, no começo do seu percurso, se viram inscritos - em contraponto com a vontade manifestada pela banda que sempre repudiou o rótulo - no povoadíssimo orbe do metal escandinavo, por força de uma afamada trilogia de álbuns que, a despeito das incongruências entre si, os situava num registo a meio termo entre o misticismo/fantasia da folk barroca do norte da Europa e as cadências musculadas e angustiantes do death metal. De então para cá, num trajecto de cerca de uma década de edições, o colectivo rechaçou definitivamente a colagem a um género estanque, dando mostras de um fôlego experimentalista assinalável e da vontade de crescer além de qualquer fronteira estética, vincando uma indisfarçável (e confortável) aproximação a outras órbitas, desde a especulação com o ruído à electrónica ambiental e do sinfonismo à música de câmara. Essa deriva ecléctica não faria adivinhar convergência com as paisagens de catastrofismo grave e arrastado dos Sunn O))), espaço monolítico em que Stephen O'Malley e Greg Anderson debitam progressões lentas e graves de guitarras em baixíssima frequência (chamam-lhe doom).

Gravado num encontro de uma noite entre os músicos em 2008, Terrestrials testa o nexo impossível entre dois universos díspares: a inventividade sem forma dos Ulver e o dramatismo monocórdico dos Sunn O))). O produto final é um híbrido com tanto de interessante como de inconsequente. O idiossincrático fatalismo dos Sunn O))) é convertido numa mera bússola de graves (como se fora o baixo das peças), camuflada pelas texturas tonalmente mais opulentas dos Ulver e pela panóplia de cordas e metais que elas convocam. E nem é pecadilho haver mais de Ulver do que de Sunn O))) na mistura, afinal a música professada pelos noruegueses tem espírito de motim e nunca deixaria de tomar de assalto a languidez da negrura de O'Malley e Anderson; o problema é que, por revolver-se na sua própria vagueza e sobretudo por não encontrar um clímax no infinito adorno que constrói, a música de Terrestrials se resume a um mero circunstancialismo sem orientação.

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terça-feira, 4 de março de 2014

St. Vincent - St. Vincent


8,2/10
Loma Vista, 2014

Uma verve tão inventiva quanto a de Annie Erin Clark dificilmente sossegaria sem encontrar o seu próprio quintal no universo musical. Depois de alguns anos passados na numerosa trupe dos The Polyphonic Spree e emprestando a sua guitarra a digressões de Sufjan Stevens, a emancipação artística sob o epíteto St. Vincent foi a óbvia evolução.  De então para cá, deu-se a progressiva maturação de uma linguagem musical marcada por uma finíssima excentricidade sonora e o uso inteligente da palavra, definida pela própria como a "sublimação musical de um ataque de pânico ou de uma crise de ansiedade".  Salvo o natural exagero, essa pode, de facto, ser a melhor definição da estética de St. Vincent, um verdadeiro caleidoscópio de emoções passadas à forma de música sob vários filtros instrumentais (guitarra, electrónica, violinos, trompetes, violoncelos, clarinetes, e outros) e com uma voz adaptável a múltiplos registos. Com uma mistura assim polivalente e imprevisível, qualquer rótulo é inevitavelmente imperfeito, sobretudo por estarmos em presença de uma das intérpretes mais engenhosas da conjuntura musical contemporânea que, com três discos editados em nome próprio e o interessante trabalho partilhado com David Byrne, há dois anos (Love This Giant), pode não ter a frescura da novidade de outrora, mas mantém uma incrível fertilidade.

St. Vincent é mais um capítulo da construção do cosmos sonoro muito particular que Annie Erin Clark ergueu para esvaziar-se das inquietudes próprias de um espírito consciente de si, desiludido pelas suas fragilidades e pela ansiedade de sentir-se parte da experiência maior da existência humana. Partindo dessas certezas, o nervo destas novas canções abre um optimismo inesperado, igualmente ansioso, é certo, mas mais luminoso - o que não é avanço pequeno para St. Vincent. No resto, as canções assentam em dois esteios idiossincráticos de Annie Erin Clark: as texturas meticulosamente trabalhadas em cima de fantasias sonoras e artifícios pirotécnicos que tendem para o supérfluo - que lhe têm valido inúmeras críticas de pretensiosismo - e os conteúdos líricos não menos extravagantes. Um gosto adquirido, portanto. E com música do quilate deste St. Vincent a polarização prosseguirá: o que uns adorarão, outros olharão com desdém. E é a própria Annie Erin Clark que volta a acertar na definição inscrita no press release: "um disco festivo que pode tocar-se num funeral". Mais palavras para quê?

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Angel Olsen - Burn Your Fire For No Witness


8,5/10
Jagjaguwar, 2014

A americana Angel Olsen não tem atrás de si uma marca imediatamente reconhecível, a despeito de contar já alguns anos nestas lides da música. Tenha sido como parte integrante (voz de suporte e guitarra) dos The Cairo Gang, do californiano Emmett Kelly, ou, depois, em esporádicas colaborações com Bonnie "Prince" Billy e Marissa Nadler e gente também estabelecida em Chicago como LeRoy Bach (Wilco) e Tim Kinsella, Olsen vem paulatinamente puxando as luzes da ribalta alternativa para si. A título próprio e antes deste Burn Your Fire For No Witness, registou discretamente a sua música num EP (Strange Cacti, 2010) e num álbum (Half Way Home, 2012). Em ambos os casos, abria-se um universo de revelações intimistas e pessoais, suportado numa voz de belíssimo porte e amplitude, tão confortável em cima da música "caseira" do EP como na produção mais académica do álbum. Independentemente das formas circunstanciais desses veículos musicais, o discurso de Olsen, a só com a guitarra ou acompanhada, foi sempre um transmissor das emoções de um espírito inquieto e instável nas suas próprias inseguranças. É por isso mesmo que cada canção de Olsen soa a protótipo de uma catarse virtualmente impossível, de uma alma ansiosa por revelar-se, ora rendida aos ácidos que dissecam episódios da sua própria vida, ora envolvida no sossego de uma mera confissão.

Burn Your Fire For No Witness é um exemplo acabado de como cada canção num álbum pode ser um estado de alma e de como todos concorrem para um sentido maior. No fundo, nem sequer há nada de substancialmente original nestas canções. Mas desvenda-se a força de alguém que, no vislumbre do vertiginoso precipício emocional em que se supunha, se olha como quem abre uma janela  para a luz entrar ("Won't you open a window sometime / What's so wrong with the light?", canta Olsen em "Windows", a fechar o disco). Claro que um disco assim sincero sobre as encruzilhadas da solidão, a resignação nas relações e a remissão da dependência emocional dificilmente seria povoado de luzes; é cru, é intenso (tanto nos instantes minimalistas - guitarra e voz -, como nos mais expansivos (em que bateria e baixo se juntam) e, acima de tudo, é tocante. Música assim não se ouve, sente-se como quem manda os desamores às malvas.

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sun Kil Moon - Benji


8,4/10
Caldo Verde/Popstock, 2014

O fino recorte da música de Mark Kozelek é, hoje, uma firme instituição do que vale a folk americana de feição intimista. O exercício recorrente de revisitação da sua própria intimidade pessoal, tangencialmente abordada nas personas musicais que vem subscrevendo desde o começo do percurso musical, é um fio condutor reconhecido pela crítica e por imensos melómanos que lhe são fiéis. Depois de terminada a  experiência de mais de uma década com os Red House Painters - que, de resto, lhe deu alento para aventurar-se a solo e redescobrir a dimensão misantrópica da guitarra acústica -, a caminhada individual escancarou dois pilares nucleares à significância da sua música: a tradução moderna da Americana e essa ansiedade autoconsciente de personalizar musicalmente o seu baú de pequenos dramas. Também por isso, a sua música foi sempre muito pessoal, mesmo quando repescou material de outros (AC/DC, Modest Mouse, entre outros) e o fez seu, no registo imediatamente reconhecível de confissão assombrada. A fundação dos Sun Kil Moon, no rescaldo dos Red House Painters e com alguns desses companheiros de estrada, permitiu-lhe a alternativa de, aqui e ali, emprestar às suas ideias a orgânica que a solo não produzia, embora se tenham, depois, baralhado caminhos, a ponto de, mesmo como Sun Kil Moon, ter gravado música a solo. Seja como for, a extensa discografia de Kozelek assenta nessa transversalidade e Benji é o sexto trabalho cunhado como Sun Kil Moon.

E é feito da mesma transparência céptica que transformou Kozelek num poeta do pragmatismo e da adversidade, aqui claramente levada a extremismos conceptuais, ou não estivesse o álbum pejado de histórias de luto, de vidas sangradas e de almas desafortunadas no limite. E, no meio desse negrume planante, mora uma estranha luz, uma redenção inesperada e silente. Esse raro assomo de esperança - que nunca deixa de ser pragmática, bem entendido - faz de Benji um dos discos mais negros e simultaneamente mais luminosos de Kozelek. Há nessa ambivalência uma certeza: mais do que olhar para dentro de si, o cantautor do Ohio, reconhece os caracteres que o rodeiam, as suas histórias, os seus desalentos e as vitórias que se escondem nas sombras da vida. Com quarenta e sete anos, Kozelek fez as pazes com o universo. E deu-nos alguma da sua melhor música. Adivinha-se um sorriso tímido atrás da melancolia.

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

San Fermin - San Fermin


7,9/10
Downtown Music/PIAS, 2014

Atrás do epíteto tomado das extravagantes corridas taurinas de Pamplona, reside a inspiração de um músico de cátedra, recém-formado em Yale, que agora se aventura nas lides discográficas a só, depois de alguns anos na peugada de Nico Mulhy. A preparação técnica (e teórica) que Ellis Ludwig-Leone - é ele este San Fermin -  colheu nesses anos de convergência com Muhly, também no treino clássico da sua formação, são as sensibilidades essenciais de uma proposta musical que demonstra um sentido artístico apurado, com as complexidades próprias do refinamento de conceitos pop quando expostos a formatações importadas da clássica contemporânea (lá está, Mulhy), da música de câmara ou mesmo do jazz erudito e experimental. Ao mesmo tempo, e dentro dessa identidade estrutural e da densa sobreposição de camadas de som, cabe o azimute melódico que dá sentido a tudo, em genuínas equações pop. Em certo sentido, acabam por traçar-se paralelos de circunstância com os universos a preto-e-branco dos The National (ouça-se a belíssima "Methuselah"), por exemplo, ou até com os momentos mais lúgubres de Nick Cave. Boas coordenadas, portanto.

As canções são, depois, vocalmente servidas por Allen Tate - tem sido recorrentemente comparado, com razoável acerto, a Matt Berninger -, nos registos mais graves, e por Holly Laessig e Jess Wolfe ("emprestadas" pelo quinteto nova-iorquino Lucius), nos tons mais doces. A diversidade vocal imprime uma dinâmica interessante e que ajuda a preencher (e definir) as múltiplas dimensões induzidas pelas teceduras instrumentais de finíssimo recorte. Ouça-se, a título de exemplo, a excentricidade de "The Count", peça de obtusa decoração modernista, com as vozes a apontarem os pontos cardeais. No final, percebe-se que o disco pode ser mais do que o barroco de vanguarda que supunha a primeira impressão e, afinal, mora nele, entre os ornatos da erudição técnica, uma sinceridade pop que tem tanto de eloquente como de cândido melodrama.

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Capitão Fausto - Pesar o Sol


8,0/10
Sony Music, 2014

A massa sonora que enche a canção de abertura de Pesar o Sol suscita imediatamente a certeza da deriva psicadélica em que os Capitão Fausto encontraram embalo, em manifesta evolução da formatação imediatista de Gazela. Nesse álbum, mais do que ensaiarem qualquer especulação rock, Tomás e companhia acolhiam  a cartilha convencional do que deve ser um primeiro disco, a apontar ao refrão certeiro, sob a definição precisa de uma canção sem desvios. Ainda assim, no meio desse formulismo cabiam breves assomos de devaneio provando que havia espaço para crescer e partir ao encontro da liberdade criativa destes rapazes que dificilmente atingiria a plenitude do seu potencial, se amputada desse ímpeto inconformado. Como não podia deixar de ser, depois dos atilhos de Gazela, este Pesar o Sol tinha que escancarar vias alternativas para escoar as volumosas emanações de criatividade da trupe, remetendo-as para os namoros antigos com o psicadelismo e, por inerência, premiando a ânsia expansiva que a música deles reclamava. É disso que trata este álbum, de abrir inúmeras saídas de emergência nos mesmíssismos sítios onde outrora as canções travavam a fundo, em nome de serem apenas isso mesmo, canções certinhas, com versos e refrães matematicamente ordenados.

Neste Pesar o Sol, a primazia é dada (e bem) à incerteza em que melhor se abrem os ângulos das guitarras, às escapatórias estruturais que introduzem o factor surpresa e que privam as composições das vestes de simples canção e lhes emprestam a feição de produto musical nascido da real gana. Autenticidade, portanto. Há aqui reflexos óbvios de uma musculatura firmada em palco e que trouxe ao quinteto uma consciência mais apurada da sua própria identidade e do seu lugar entre as referências estéticas, algures na maré nostálgica que, à escala global, deu ao velhinho rock psicadélico a medida de culto moderno. E o refrão orelhudo torna-se matéria secundária e prescindida em favor da irreverência instrumental, sem artíficios ou petulância. Pouca importa o destino quando a viagem deste Pesar o Sol, sob o comando do Capitão Fausto, é tão pródiga em fintar a monotonia. 

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sábado, 25 de janeiro de 2014

Warpaint - Warpaint


6,4/10
Rough Trade, 2014

Quando as Warpaint se apresentaram editorialmente ao orbe musical, então pela mão produtora de John Frusciante no EP Exquisite Corpse, de 2008, viram apontar-se-lhes quase automaticamente a atenção de uma legião de curiosos para a qual nem sequer estariam preparadas. Na ocasião, as repercussões do EP ecoaram pelas vias cibernéticas, multiplicando a projecção mediática de um colectivo que, pouco tempo antes, se havia reunido num mero assomo de diletantismo. A proposta do quarteto de Los Angeles nem era propriamente inovadora, mas movia-se num art-rock mais ou menos ensimesmado e com laivos ligeiros de psicadelismo tímido, com o baixo e a secção rítmica a darem coordenadas para invocar estados de alma muito pessoais. Num certo sentido, era música quase confessional, voltada para dentro e contida no seu próprio marasmo emocional. A coisa tornou-se mais monótona no primeiro compacto, The Fool, dois anos depois, a ponto de parecer que as Warpaint tinham desbaratado irremediavelmente o impacto da estreia, amordaçando-o numa roupagem musical monocórdica e que hipotecava as energias motrizes a uma produção baça e sem chispa.

Talvez por isso, este álbum homónimo exibe um som mais aberto e mais consciente dos seus pontos fortes. O que é o mesmo que dizer que é mais eficazmente disfarçado o fio-de-prumo que dá conforto às Warpaint - e de que teimam em pouco ou nada desviar-se -  e sai resgatada uma orgânica mais assertiva na percussão e no uso do baixo, tão caros às Warpaint. Ainda assim, a reordenação de recursos não chega para diminuir a distância entre ouvinte e matéria ouvida e esse foi sempre o seu óbice maior. A música das Warpaint é assim mesmo, uma insinuação distante e introvertida, enclausurada numa redoma muito própria e intocável. E esse egocentrismo será intolerável para melómanos que gostam de sentir-se parte daquilo que ouvem. 

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sábado, 18 de janeiro de 2014

Mogwai - Rave Tapes


6,8/10
Rock Action/PIAS, 2014

A fidelidade à sua própria fórmula musical fez dos escoceses Mogwai uma verdadeira instituição do pós-rock que, de uma ou de outra forma, serviu de foco inspirador a imensos projectos musicais na mesma órbita estética. Mesmo tratando-se de uma família sonora relativamente estanque e pouco dada a evoluções, os Mogwai souberam erguer uma discografia que, a despeito desse formulismo tantas vezes criticado, sempre deu mostras de expandir-se até onde era possível para, depois, se reinventar com o viço próprio de uma ideia que, não o sendo, tinha contornos de nova. Sem esse pendor reversivo, a música dos Mogwai ter-se-ia tornado tão banal como a de alguns dos seus pares. Ao invés disso, ainda que apenas ensaiando jeitos diferentes de baralhar as mesmíssimas cartas, os Mogwai deram a si mesmos uma licença para (sobre)viver na primeira linha do pós-rock, volvidas sensivelmente duas décadas desde que se reuniram em Glasgow pela primeira vez.

Nesse recorrente exercício de auto-análise, Rave Tapes, oitavo capítulo do percurso de estúdio, renova a aposta numa sonoridade arrastada, a invocar estados de alma de rendição contemplativa e pouco mais. É música para espíritos acomodados num qualquer refúgio abstracto que é, afinal, a tal zona de conforto dos Mogwai e, nesse sentido, dificilmente coleccionará seguidores novos, mesmo com uma roupagem decididamente mais electrónica e menos eléctrica do que outras manifestações da trupe escocesa. Aqui e ali, parece faltar o nervo útil para sacudir o estado planante que a música tão bem insinua e levá-la ao choque de uma qualquer cambalhota pirotécnica, uma convulsão que se espera em crescendo, mas não chega. A coisa torna-se tão inócua quanto uma anedota sem punchline e mesmo nos momentos bons, não se chega a passar do serviço mínimo. O que, no caso dos Mogwai, pode muito bem ser a passagem para um novo estado derivante de tocar a melancolia. 

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You Can't Win, Charlie Brown - Diffraction/Refraction


7,4/10
Pataca Discos, 2014

É um dos temas mais discutidos por melómanos, críticos e quaisquer outros seguidores do fenómeno musical: o momento definidor que deriva da edição de um segundo álbum, sobretudo quando a estreia deixou atrás de si sementes de curiosidade suficientes para, em porções iguais, germinar expectativas e exigência. A experimentar essas energias ambivalentes estão os You Can't Win, Charlie Brown. Quando há um par de anos se aventuraram a dar corpo a Chromatic, seguindo a bem sucedida peugada do EP de introdução do ano anterior, os lisboetas assumiram a incumbência de apresentar a espontaneidade de uma fórmula musical que, a despeito de revestir-se de precisão e maturidade, dava então mostras de brotar com a jovialidade própria de um produto improvisado. Era, de resto, essa a força maior da sua identidade, o natural desenvolvimento de ideias avulsas de um sexteto de talentos vários que, ao confluírem, erguiam curiosos (e muitas vezes inesperados) equilíbrios. Onde Chromatic era um exercício de intuição, Diffraction/Refraction é, com os mesmos pressupostos do primogénito, menos selvagem. A razão é uma coisa tramada, mas estes rapazes sabem domá-la e pô-la ao serviço de música que nunca poderia deixar de ser experimental. E é-o, de facto.

Pairam sobre o disco inúmeras referências, ora da folk mais comprometida no seu retiro, ora de uma qualquer espécie de rock quase épico, mas de escala paradoxalmente pequena e, como recurso incontornável, o sublinhado subliminar do psicadelismo (e a electrónica?). Sobram depois os arranjos e o trabalho de vozes, cirurgicamente certeiros e uns furos acima de Chromatic. Mérito maior: as canções são bem mais densas - e até, num ou noutro momento, se demarcam da típica estrutura verso/refrão - e, ainda assim, soam incrivelmente leves e sedutoras. É assim que Diffraction/Refraction faz soçobrar qualquer cepticismo e confirma os You Can't Win, Charlie Brown como uma dos mais estáveis bandeiras do roteiro musical luso, sobretudo depois dos argumentos que esgrimiram neste desafio do segundo álbum. A casa de sons deste inventivo sexteto é, afinal, a mesma. Só melhorou a decoração de interiores. Ou talvez seja do jogo de luzes. Difracções e refracções, lá está.

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Stephen Malkmus & The Jicks - Wig Out at Jagbags


7,2/10
Matador, 2014

Se há coisa a encher a motivação de Stephen Malkmus para continuar a fazer música a solo, depois do papel nuclear que teve no recrudescimento de uma facção muito própria do rock alternativo, de que os seus Pavement foram porta-estandarte, é precisamente a missão de resgatar-se da falência dessa trupe e permitir a sobrevivência de uma linguagem musical em que acredita piamente. De resto, essa crença foi insistentemente colocada em cheque, senão apenas pelo crivo ácido da crítica que, em muitas circunstâncias, via nele apenas um escombro do movimento que ajudou a criar e que o tempo ultrapassou irremediavelmente, mas sobretudo pela desconfiança suscitada por um ritmo acelerado de edições, primeiro com os Silver Jews e, depois, com o colectivo The Jicks, quase sempre pautadas por uma mediania generalizada que cimentou cepticismos quanto à pertinência e actualidade da sua proposta sonora. O ónus da dúvida parece assombrá-lo e renasce a cada edição, também neste Wig Out at Jagbags, a fechar um sexteto de gravações com os The Jicks.

E, se não parece justo dizer que o filão se esgotou com os Pavement - até porque não há nenhum exercício verdadeiramente medíocre na discografia de Malkmus -, também não é menos verdade que aclamações como a rendição generalizada ao seminal Slanted & Enchanted se tornam uma miragem cada vez mais distante. E Wig Out at Jagbags confirma aquilo que cada vez mais parece um percurso copista em piloto automático, que tem refúgio em zonas de conforto inscritas na resposta agridoce que o património Pavement deu ao grunge, tudo feito com competência, é certo, mas agora sem o rasgo de outrora, a despeito de um cuidado mais acrescido com o detalhe. Não se nega que há muito cérebro e sofisticação na música de Malkmus - exactamente aquilo que sempre dividiu opiniões entre pretensiosismo ou fórmula artística - e que a mediania dele é melhor do que o auge de outros, mas mora nestas canções uma desconfortável sensação de repetição que, se não afastará adeptos incondicionais (o que não é coisa pouca), dificilmente recrutará gente nova. A questão é se Malkmus (e a fina excentricidade da sua guitarra) precisa de mais alguém. Pela confiança e honestidade que põe na sua música, dir-se-ia que ele se está a borrifar para o que dele pensam. Bem vistas as coisas, foi assim que vingaram os Pavement.

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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

BEST OF 2013



Já está publicada a escolha de melhores discos de 2013. É só seguir o ligação na barra lateral.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Logos - Cold Mission


8,1/10
Keysound, 2013

Segundo rezam as crónicas, o perfeccionismo de James Parker levou-o a apurar as fórmulas da sua música durante bastante tempo até se sentir seguro do material que inscreveu neste Cold Mission para se apresentar ao universo musical. O britânico é um dos protagonistas da revitalização contemporânea do grime, género com mais de uma década de existência e que, agora, com o recurso às mais modernas tecnologias, parece ressurgir em ondas de entusiasmo e adesão. No fundo, a nova vaga corresponde, em essência, à renovação de uma linguagem sonora marginal que nasceu no começo do século nas rádios piratas londrinas e que, então, dava corpo musical a um certo inconformismo de algumas mentes com pouca vontade de se vergarem às opressões do cosmopolitismo desregrado. Hoje, essa premissa continua tão ou mais válida, haja gente para levar à prática a demanda por um código musical que ofereça aos desassossegados as chances de catarse que anseiam. Neste contexto, o projecto Logos apresenta um som não tão saturado quanto se esperaria de um herdeiro grime, o que sugere a exploração de coordenadas que vão além do legado e denunciam a intenção de uma desconstrução ambiciosa. Declarado o jogo de intenções estéticas, importa descodificar o produto final.

Desde as primeiras notas de Cold Mission se percebe que não se trata de um puro-sangue grime, mesmo partindo de substâncias que imediatamente o associam ao género, como o discurso disruptivo, os padrões rítmicos, a pujança das batidas. Ainda assim, no lugar das texturas saturadas que seriam expectáveis, mora uma curiosíssima interacção triangular entre espasmos sónicos de várias ordens, espacialidade e silêncio (ouça-se "Stasis Jam", por exemplo). Desse triângulo, resulta "música" em estado de suspensão e sem objectivo definido. É como se cada trecho houvesse resultado de pegar avulsamente em inúmeros objectos sonoros (vidros a partir, apitos, pistolas laser, ruídos robóticos, xilofones, ondas do mar, todos processados electronicamente), também no discurso ecoante de MCS e nos ambientes cinemáticos, virá-los do avesso, arremessá-los ao ar e aproveitando a inspiração da sua arrumação casual no espaço, juntar percussões desvairadas de requintado Eskibeat. A coisa nunca será consensual, há-de ser adorada ou detestada. Uns dirão que é uma esquizofrenia inconsequente, outros verão nisto o Santo Graal da electrónica moderna. Não será uma coisa nem outra, mas faz prova de que há território virgem para desbravar nos domínios grime e que Cold Mission pode ser um passo decisivo para o desbravar. E isso não é coisa pouca.

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Arctic Monkeys - AM


8,5/10
Domino, 2013

Tendo sido um dos mais consistentes fenómenos da vaga de projectos musicais que aproveitaram o boom da disseminação musical na internet na segunda metade da década 00, os Arctic Monkeys cedo viram colar-lhes responsabilidades de várias ordens e que, em última análise, redundavam no propósito de regenerar uma cena rock britânica estagnada e carente de heróis novos. A par dos escoceses Franz Ferdinand, embora num registo substancialmente diferente mesmo que nascido dos mesmos instintos, os jovens de Sheffield encarnaram o espírito dessa missão (indesejada) e superaram sucessivos testes de resiliência, quer naquilo que lhes era exigido comercialmente, acumulando prémios e distinções, quer na bitola altíssima que as circunstâncias impuseram às suas actuações em palco. Em qualquer dos casos, a fórmula sonora virada para o rock vitaminado, de batimento célere e refrão fácil revelou-se inatamente adequada para as grandes arenas, garantindo-lhes presença em tudo o que era certame ou festival de referência. O epicentro do imparável crescimento mediático veio com a actuação na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres. É natural que, com sensivelmente uma década de actividade e um quarteto de álbuns gravados e sobretudo em razão da conjuntura do seu percurso, Alex Turner e companhia tenham sentido o apelo da mudança. E não se trata apenas da mudança natural (e inevitável) do crescimento etário que, mais tarde ou mais cedo, os afastaria da urgência juvenil que os trouxe à ribalta. É algo mais profundo do que isso.

Em certo sentido, AM rasga com a regularidade gloriosa que o antecede e é um corajoso exercício de evolução, senão nas matérias, ao menos na forma de as utilizar. Imediatamente se percebe que a música é menos "física" e mais centrada na construção de virtudes melódicas e ambientes (sinistros?) não explorados até aqui. Se quisermos, AM é uma extensão do experimentalismo de Humbug (2009) - que havia inaugurado a proximidade, agora prosseguida, com Josh Homme - levando mais além a demanda por um som menos nervoso. É como se a luminosa (e inconsciente)  festividade do quarteto se tivesse convertido na nova idiossincrasia de um jogo de luzes graves e mais escuras, com baixos assertivos e beats, riffs Led Zeppelin e muito, muito groove. No todo, estamos em presença do mais íntegro capítulo da existência dos Arctic Monkeys e da confirmação da maioridade criativa. Agora sim, eles estão à altura das responsabilidades que lhes puseram nos ombros há meia dúzia de anos.  

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Billie Joe + Norah - Foreverly


7,6/10
Reprise/Warner, 2013

Apesar de o universo musical ser naturalmente pródigo em colaborações entre os seus protagonistas, há momentos em que a confluência pontual produz surpresas inesperadas. Poucos teriam antevisto um casamento artístico entre Billie Joe Armstrong, voz punk dos Green Day, e Norah Jones, estrela do jazz-pop mais experimentada nestas coisas de conspirar com outros pares. A matéria que inspirou a união improvável é do mais americano que pode haver, vem do cancioneiro tradicional country e reporta a Songs Our Daddy Taught Us, recolha de canções editada em 1958 e que constitui um dos momentos altos da história dos Everly Brothers. O legado de simplicidade quase angelical que os manos Everly deixaram é, aqui, tratado com a civilidade própria de dois músicos cientes da importância daquilo que tinham em mãos e de que a melhor prova de admiração/reconhecimento passaria por não mudar a essência melódica riquíssima das canções. O vector decisivo destas (re)gravações é a desafectação com que Billie Joe e Norah se entregam à tarefa, sem mimetismos que seriam impossíveis, mas investindo em registos vocais próximos do original. Essa aproximação afasta ambos (sobretudo Billie Joe) do conforto do habitat natural e o facto de resultar tão bem (uns pontos acima do ensaio de Bonnie "Prince" Billy e Dawn McCarthy sob uma premissa parecida, vide What the Brothers Sang) joga em favor do disco e dos intérpretes.

É também por isso que Foreverly, a despeito da adição de respeitosos arranjos que fundamentam a sempre necessária nota de modernidade, soa tão natural que vence qualquer cepticismo de partida. No todo, este tributo servirá o propósito de redescobrir canções perdidas no tempo, mas presentes no imaginário colectivo da música americana, homenageando uma dupla que deixou o seu cunho nessa história. Don e Phil, hoje recatados septuagenários, não podem deixar de gostar. Em simultâneo, Foreverly acaba por tornar-se também uma das melhores manifestações artísticas de Bille Joe e de Norah nos últimos tempos, mesmo apartados da electricidade e do piano onírico que os notabilizaram individualmente.  

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Ermo - Vem por Aqui


8,2/10
Optimus Discos, 2013

É inegável o dinamismo da cena musical portuguesa que vem gerando, nos últimos anos, uma plêiade de projectos oriundos das mais variadas famílias estéticas que fazem prova de uma vitalidade que não era típica cá no burgo. Atrás disso, há um movimento crescente de emancipação em relação às grandes editoras e germinam (imensas) pequenas iniciativas editoriais que dão espaço a protagonistas que não encaixam nos cânones. É o caso do duo Ermo, mais uns descendentes da fervilhante orbe musical bracarense e que, agora, se estreiam no formato longa-duração, depois de se terem dado a conhecer, há um par de anos, no volume quatro da colecção "À Sombra de Deus" e, depois, no EP homónimo do ano transacto (em edição de autor). Quem ainda não teve qualquer contacto com o universo dos Ermo, prepare-se para a inquietante surpresa de uma proposta sonora que põe, em cima de electrónicas de abstracção minimalista, textos orados de genuína portugalidade. Em termos mais concretos, estamos em presença de uma exaltação intuída ao imaginário secular luso, na crueza poética dos textos e, sobretudo, num canto que tanto pode ser de devoção religiosa como de paganismo declarado. De resto, essa versatilidade camaleónica na voz de António Costa segue as métricas do laboratório de sons de Bernardo Barbosa. Da mistura, brotam pedaços de todos nós, de todos os tempos e geografias de Portugal, de cantos gregorianos, de rifões populares, da placidez das canções telúricas e do sufoco da urbanidade, de hoje e de outrora. O cruzamento da tradição e da modernidade não é senão um anseio catártico (quase sacro), uma quimera visceral (lúgubre?) sem fim anunciado (o mito do sebastianismo) e que acolhe vénia e subversão sob o mesmo manto de ecos e sons.

Vem por Aqui torna-se, nas suas peculiaridades, um dos melhores retratos do que é o lusitanismo que nos envolve a alma, entre o apego sanguíneo aos símbolos e história da nação e a derrocada fatalista do descontentamento (o fado?). Somos isso tudo e isso tudo é também a música dos Ermo. Sem pretender ser um grito de alerta ou um manifesto moralista, é difícil dizer que estamos perante uma forma hodierna de música de intervenção. Talvez sim, talvez não. O dado absoluto é este: o disco é um documento imperdível. 

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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Son Lux - Lanterns


7,7/10
Joyful Noise Recordings, 2013

Nesta altura do campeonato, poucos duvidarão de que atrás do epíteto Son Lux, mora um inventor movido pela curiosidade. Já na ocasião do debute discográfico, há sensivelmente cinco anos, o quase desconhecido Ryan Lott havia acumulado uma série de trabalhos avulsos, sobretudo no domínio da música para anúncios. Foram, de resto, esses exercícios "encomendados" que instigaram a descoberta de outras motivações e a demanda por causas maiores de expressão artística. O facto de a coisa ter sido apadrinhada pela Anticon, laboratório de desconstrução das causas hip hop e viveiro de algumas linguagens musicais verdadeiramente reformistas, corroborou a ideia de estarmos em presença de um músico sem medo do risco e ansioso por firmar um discurso próprio. Nessa primeira manifestação (At War With Walls & Mazes, 2008), sentia-se ainda o pendor "cénico" nas composições e, mais do que isso, a insegurança de canções a ensaiarem os primeiros passos numa corda bamba entre a formatação pop madura e um espírito de motim estético. We Are Rising apagou dúvidas, três anos depois, fazendo prova de que o espaço Son Lux encontrara evolução, sem abdicar da idiossincrasia experimental que tem nos genes, nos costumes mais eruditos de uma lógica pop seduzida pela música contemporânea. De então para cá, Lott foi a todas: fundou o trio S / S / S, com Sufjan Stevens e David Cohn (Serengeti), fez música para cinema, produziu álbuns para a Anticon, tocou um pouco por toda a parte e assinou pela Joyful Noise Recordings (onde mora gente como os Deerhoof, Dinosaur Jr., Sebadoh, Why? ou Akron/Family, por exemplo).

Lanterns é, então, o terceiro registo como Son Lux e assenta no mesmo experimentalismo do antecessor. Mantém-se a proximidade estrutural com a sofisticação da música contemporânea. O trabalho de pormenor vem depois, na construção das canções a partir de inúmeros aportes, sejam eles "clássicos" (como os metais e as cordas), sejam eles electrónicos (a maior parte). A convivência desses elementos não agradará aos puristas dos dois universos de per si, mas é útil à orientação melancólica do discurso e, a despeito de um ou outro instante de menor simbiose, resulta bem. Ryan Lott vinca definitivamente que é possível transcender os limites entre os mundos pop e erudito, sem desconexão. No resto, as canções de Lott cativam pela imprevisibilidade própria de algo que foi construído a partir da gravação isolada dos instrumentos, seguida de um engenhoso trabalho de sobreposição e colagem, até chegar à forma de uma canção, quando as convenções ditariam a fórmula inversa - ter uma ideia de canção e usar, depois, os instrumentos para a revestir. E esse factor surpresa faz toda a diferença, mesmo nas peças menos inspiradas.

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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Putas Bêbadas - Jovem Excelso Happy


8,0/10
Cafetra Records, 2013

Já se tinha percebido que a Cafetra se viria a tornar um genuíno antro de delinquência musical, um espaço editorial que acolheria algumas das mais desafiantes expressões artísticas do panorama nacional. Em sensivelmente cinco anos desde a sua criação, a etiqueta atirou aos leões projectos musicais que, noutros tempos, dificilmente veriam reconhecida a sua libertinagem estética, o inconformismo e a predisposição para derrubar preconceitos. O caso do quarteto Putas Bêbadas tornou-se emblemático da filosofia editorial do selo lisboeta, sobretudo por tratar-se de um projecto surgido das sinergias entre os elementos mais desvairados do roster da Cafetra. Miguel Abras (voz, baixo), João Dória (o Nória, guitarra d' Os Passos em Volta), Hugo Cortez (guitarra dos Kimo Ameba) e Leonardo Bindilatti (bateria, também dos Kimo Ameba) são nomes a reter para o futuro próximo, especialmente depois do inesperado reconhecimento de Julian Cope, um dos insignes senadores do mundo alternativo que certamente voltará holofotes internacionais para as trupes doidivanas da Cafetra. E para este Jovem Excelso Happy, primeiro exercício do quarteto.

Trata-se de um disco formalmente desarrumado, ainda que assente num extremismo punk imediatamente percebido no galope de percussões e guitarras e na urgência dos trechos. Mas é muito mais do que isso. Além de uma noção de construção que tem mais afinidades com o caos do que com quaisquer amarras conceptuais - a título de exemplo, ouça-se a esquizofrenia rítmica, o acelera-desacelera de "Abras" -, há lugar para ruído corrosivo, seja nas distorções ou no feedback sem bússola. A voz faz-se matéria psicadélica, vem camuflada atrás de inúmeras fantasias de estúdio, em linha com o ambiente "sujo" e de baixa fidelidade que norteia o disco (e é comum ao catálogo da Cafetra). E quando a irreverência natural de quem faz música simplesmente porque sim se confunde com incontinência (no sentido de absoluto e delirante desgoverno) dificilmente deixaria de tornar-se uma de duas coisas: infantilidade ou cacofonia. E, em boa verdade, Jovem Excelso Happy - porque é deliciosamente imprudente - tem o melhor das duas coisas. É (intencionalmente) pueril na aspereza da produção, mais interessada em expôr impurezas e dar-lhes tribuna do que em tapá-las, e é cacofónico nas ingerências do ruído, no abuso das distorções e até na relação transgressiva entre os vários conteúdos instrumentais. No fundo, é um disco primoroso nas suas entropias e imperfeições (que se chegue à frente o primeiro que perceber as letras todas do disco) e faz prova de que há no burgo gente capaz de rasgos de criatividade tão lunática que é impossível ficar indiferente, ame-se ou odeie-se. Não é um conselho que se dê aos filhos, mas vamos seguir estas putas, bêbadas ou não, estejam onde estiverem!

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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Blood Orange - Cupid Deluxe


7,5/10
Domino, 2013

Mesmo tendo tido um papel nada despiciendo na cena musical britânica dos últimos anos, sobretudo em razão dos serviços de escrita prestados a gente como Chemical Brothers, Basement Jaxx ou Florence and the Machine, Devonté Hynes não granjeou ainda a afirmação a título próprio que muitos lhe antecipavam há anos. Apesar disso, a assinatura dele tem revelado impressionante ubiquidade, seja em bandas-sonoras, seja em livros ou seja nas (mais habituais) colaborações com artistas de reconhecido calibre mediático. A título de exemplo, fez recentemente furor a confissão pública, no Twitter, de que nenhuma das suas criações para o disco de Britney Spears (a lançar nos próximos dias) faria parte do alinhamento final. Seja como for, com o heterónimo indie-pop Lightspeed Champion em hibernação há sensivelmente três anos, Hynes deitou mãos à continuidade do seu alterego mais new wave/soul/funk, de que não havia novidades desde o debute discográfico, no Verão de 2011.

Da sua escrita, sempre se soube ser um reflexo humanista e relativamente cru de experiências pessoais em que o denominador comum é a angústia de um desfavorecido, de alguém que era frequentemente maltratado na escola e que cresceu envolto na desigualdade social e no lado mau da vida. Não surpreende, portanto, que este Cupid Deluxe se dimensione em volta desses princípios de consciência social e verse o submundo dos desalojados dos subúrbios de Nova Iorque, mormente o fenómeno crescente da prostituição gay e transgénero.

Tecnicamente, o álbum não se limita a recalcar as pisadas do antecessor Coastal Grooves, indo mais longe no privilégio das  electrónicas enquanto matéria soul/funk. Claro que essa investida abre a paleta a orientações de várias escolas, perdendo-se um pouco o norte estético do registo. A despeito disso, a profusão de contributos vocais e técnicos introduz uma dinâmica interessante. Do elenco fazem parte David Longstreth (Dirty Projectors), Adam Bainbridge (Kindness), Mike Volpe (produtor que assina como Clams Casino), o rapper Despot, Samantha Urbani (Friends), Skepta, Caroline Polachek (Chairlift), entre outros. Muita gente, como conviria a uma mente aberta (e ecléctica) como a de Hynes. E, bem vistas as coisas, a aparente vagueza do disco não é sinónimo de desleixo, nem sequer de falta de rumo. Nesta viagem de Cupid Deluxe não é sequer o destino que importa; o trajecto, esse sim, mesmo que vacilante, é a recompensa. Vale a pena fazer trinta por uma linha para chegar a boas canções pop.
 
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Pharmakon - Abandon


7,8/10
Sacred Bones, 2013

O grito agudo que inaugura a audição do álbum não deixa dúvidas sobre a expressão artística extrema que se segue. É efectivamente o extremismo noise o terreno sónico em que se move o projecto Pharmakon, espaço sinuoso da nova-iorquina Margaret Chardiet. Isso nem é novidade para quem já conhecia os seus rituais de palco em que, qual fantasma abandonado entre fumos e máquinas, se rende a possessões estranhamente serenas, levando-as para o meio do público, olhos nos olhos, como se buscasse o exílio da demonização que transporta na voz agonizante. É assim mesmo a implosão musical de Chardiet, uma massa densa de diatribes vocais, ruídos em loop e feedback e com aportes claros da música industrial e de ambientes ácidos como os dos Wolf Eyes. Em essência, a proposta não é absolutamente inovadora, tem até tangências estéticas óbvias com o legado power electronics dos pioneiros Whitehouse, mas há em Abandon singularidades que importa esmiuçar.

Ao contrário de muitos produtos da órbita noise, mormente os de feição mais radical em que é comum perceber-se o apoio no improviso e no factor surpresa, Chardiet prefere, mesmo ao vivo, laborar em cima de certezas para firmar a agressão e o choque. O cuidado na temporização dos loops e na sua alternância é prova disso mesmo, assentando num formulismo quase "matemático". Esse trabalho de precisão funciona como um importantíssimo fio-de-prumo para a voz. Se não há surpresa nas texturas - o álbum seria terrivelmente "chato" se fosse instrumental -, é na exploração de um espectro invulgar de registos vocais que Chardiet marca pontos. Em suplício estridente ("Milkweed/It Hangs Heavy" e "Ache"), em preces apocalípticas à Diamanda Galás ("Pitted") ou atrás do Auto-Tune ("Crawling on Bruised Knees"), a voz é invariavelmente um portento de terror sulfúreo, capaz de resistir às montanhas de ruído, apoiada em conteúdos líricos obcecados com a atrofia corporal, a doença e a definhamento físico. Dir-se-ia que Pharmakon (e este Abandon) é produto da "insanidade" explícita de alguém que, aos vinte e dois anos, convive com o desassossego da autodescoberta e da revelação dos demónios que lhe lambem as  feridas. A catarse é tão agressiva e desgastante que se torna um sortilégio de arcanjo negro. Escutai, senti a dor sacrificial e vergai-vos, ó espíritos decadentes!

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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Filho da Mãe - Cabeça


8,3/10
Edição de autor, 2013

Talvez seja a honestidade orgânica que apregoa, ou até a visceralidade emocional com que soa, a atrair, aqui e ali, músicos adestrados na electricidade para a guitarra acústica. Esse percurso de um universo sónico pautado pelo peso dos décibeis para a nudez orgânica do exercício músico/guitarra envolve uma depuração de espírito que não está ao alcance de qualquer protagonista. Além da reconversão técnica que evidentemente se impõe, no sentido de "tirar" da guitarra acústica a plenitude da sua expressão enquanto instrumento intrinsecamente minimalista, a transição para esse acto solitário depende de um apuradíssimo sentido de equilíbrio na composição e na definição harmónica. Essa condição sine qua none para a robustez do som acústico vem sendo devidamente ensaiada por Rui Carvalho, o homem por detrás do epíteto Filho da Mãe. O "estágio" no orbe tonitruante dos If Lucy Fell deu-lhe as ferramentas todas para, hoje, ter um entendimento cabal das valências e limites de electricidade e acústica e, sobretudo, de como ambas as linguagens se adequam a propósitos diferentes. Nesse particular, o primeiro tomo a solo (Palácio, 2011) demarcou fronteiras estéticas, estabelecendo o Filho da Mãe como uma verdadeira entidade acústica, embora ainda à procura de domar (ou recontextualizar) a acelerada sanha rock que lhe morava na medula.

Dois anos depois, Cabeça é um documento mais sereno, sem ser menos copioso em ideias. Mas não se pense que a aparente serenidade trouxe sangue frio à música de Rui Carvalho, é intensíssima a entrega ao instrumento, tanto nos momentos em que recorre à endiabrada ansiedade do antecessor e parece despejar o peso do mundo nas cordas da guitarra, como naqueles em que alinha com a brandura e nos guia a ambientes mais introspectivos. Em qualquer deles, a música de Cabeça torna-se o sobrevivente de um redemoinho de emoções ao rubro e em conflito entre si. Ao mesmo tempo, essa energia arfante (importada do rock?) é posta ao serviço de composições multidimensionais, ora próximas da alma musical genuinamente portuguesa (leia-se Carlos Paredes), ora voltadas para outras latitudes e influências (as cadências aceleradas do punk, os contrastes entre o silêncio e o drone e os loops como ajudantes, por exemplo). E é exactamente aí, na exigência da gestão dessa mistura, que se percebe o equilíbrio do disco e o crescimento da relação de Rui Carvalho com o discurso acústico. Tem Cabeça, é certo, mas é feita de ímpeto e coração. Que mais é preciso para arrebatar?

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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Death Grips - Government Plates


8,5/10
Edição de autor, 2013

Desde a sua génese, o trio Death Grips parecia ter um encontro marcado com um destino iconoclasta, não apenas por estar assente numa formação aparentemente pouco convencional - dadas as proveniências estéticas dos integrantes -, mas sobretudo por não se anteciparem simbioses estéticas pacíficas entre os mesteres de cada um deles. Zach Hill é um terrorista da percussão (também produtor) que já trabalhou com meio mundo, de Mike Patton aos Hella, de Omar-Rodriguez Lopez aos Boredom;  Stefan "MC Ride" Burnett é um dos mais estrondeantes mic man do momento; Andy "Flatlander" Morin é um alquimista das teclas e da programação. Com premissas deste calibre e tendo em conta a militância intrépida do grupo em nome de causas mais ou menos "polémicas", todas a redundarem no combate ao preconceito, não admira que a música do trio de Sacramento já tenha merecido adjectivos e rótulos de toda a espécie, sempre em volta do ideário rap. Em boa verdade, a música que produzem continua a ser virtualmente inclassificável, mesmo depois de dois álbuns e algumas edições avulsas.

Na abordagem à paleta de sons deste Government Plates aconselha-se prudência, como não podia deixar de ser. É sabido que este trio é radical, gosta do confronto e do choque e verte essas afinidades na sua música. Música à parte de convenções, de preconceitos, de regras, de padrões. Alguém inspiradamente chamou a isto hip-hop satânico e se a definição peca é por defeito. Aqui há toneladas de sujidade electrónica, em várias formas e andamentos, percussões com cadências mutantes (entre o tecnho, a música industrial, o underground e outra coisa qualquer) e a voz panfletária, cortante. Tudo junto, é puro caos insano e devaneio de três mentes indiscutivelmente empenadas. E o destino bombástico cumpre-se na íntegra. E apetece dizer: Holy-fuckin'-shit! Is this what you're lookin' for, Kanye?


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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Laurel Halo - Chance of Rain


8,3/10
Hyperdub, 2013

Antes do debute discográfico do ano transacto pela Hyperdub - o muito bem recebido Quarantine - Laurel Halo já havia acumulado episodicamente, em várias editoras e sob nomes diferentes (além do nome próprio ela também assinou como King Felix), uma quantidade razoável de gravações que engrossaram um currículo versado em múltiplas métricas do universo electrónico e que, apenas no primeiro álbum, encontrou a linguagem certa para unificar e dar coerência a essa disparidade de estímulos. Esse momento de afinação estética correspondeu, em concreto, à identificação de uma matriz sonora que "arrumou" a casa das máquinas de Halo e dispensou incongruências. A coisa tem justa sucessão neste Chance of Rain, novo atestado da mesmíssima esquizofrenia electrónica e da ciência desconstrutiva que se conheceu no antecessor. Como antes, embora estas matérias possam ser dançáveis, não estamos em presença de um disco feito para as pistas convencionais. Cada trecho resulta de uma relação pouco amistosa entre ritmo e texturas, em busca da improvável simbiose que há-de nascer da dissonância (escute-se o tema-título, por exemplo). Nesse sentido, Chance of Rain é um álbum de equilíbrios ténues: desafia-se a si mesmo em cada segundo, tentando obsessivamente encontrar os frágeis pontos de contacto entre esses dois mundos. Mas é essa aparente fragilidade, essa proximidade vertiginosa do caos completo e a sufocante percepção dessa curta distância para a cacofonia intragável, a sua força maior. Sentimo-nos seduzidos pela ruína anunciada na amálgama espessa de sons, o compasso faz-se disruptivo, os ritmos esbarram subitamente em gigantes paredes de som grave e esvaecem-se. Fogo-fátuo a brotar da negrura.

Mas Chance of Rain tem outro leitmotiv. É, também, um disco pressionado pela incerteza, onde não há lugar para formalismos estéticos (techno de vanguarda?, reverência kraut?, experimentalismo?, engodo de música ambiental?), nem definições melódicas. O jogo está em tentar adivinhar o que vem depois, qual a variação que se segue. Psicadelismo, pois claro, e sem esconjuro - Halo abre guerra ao ouvinte e não desperdiça munições no risco de extenuar quem escuta. A norte-americana não faz a coisa por menos, aponta descaradamente à disfuncionalidade e acerta na mouche, com sarcasmo. Afinal, música assim fragmentada e abrasiva é um puro exercício de tantalização, uma porta aberta para a miríade de prazeres roboticamente garatujados na mente, mas sem presença física. Um amor platónico.

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

The Astroboy - Flow My Tears


7,7/10
PAD, 2013

Fez-se consensual a assunção de que as linguagens mais especulativas do universo musical são electrónicas e esse paradigma foi construído sobretudo em razão de duas valências reconhecidas ao género: a elasticidade formal e a expressividade. De facto, a música electrónica - mormente aquela mais experimental - é, em certo sentido, um produto anárquico por excelência, ao permitir-se uma liberdade de forma sem paralelo na música convencional e, através dela, veicular códigos de som (e respectivas dimensões emocionais) que, não só desafiam a mente, como a expõem a cenários e enigmas. Esse pendor figurativo é, de resto, a justificação para o chavão "cinematográfico" muitas vezes colado a edições da electrónica de laboratório.

O rótulo deve ser usado com cautela quando se aborda o mundo de Luís Fernandes, o cérebro por detrás de The Astroboy. Resumir-se a proposta sonora do bracarense a esse nicho seria não perceber que, completado agora um quarteto de álbuns, aqui não mora simplicidade estrutural, tampouco o "melodismo" de amplitude larga como um ecrã de cinema. Flow My Tears não renuncia às repercussões cénicas que nascem dos sintetizadores, é claro, mas não é, de todo, esse tipo de música. Estamos em presença de uma obra que, além de inspirar-se na narrativa (e no cenário, lá está) futurista e claustrofóbica de Flow My Tears, the Policeman Said (Vazio Infinito, em Portugal), de Phillip K. Dick,  reflecte a maturação de um conceito sonoro que vem sendo trabalhado nos últimos anos e que explora habilmente a desmultiplicação dos sintetizadores no espaço e os conceitos de crescendo e redundância, com indisfarçáveis referências ao movimento da kosmiche musik (vide as participações de Hans-Joachim Roedelius, símbolo do experimentalismo germânico dos últimos quarenta anos, e dos seus Qluster no disco). Música abstracta, portanto. Nesse sentido, Flow My Tears é tão técnico quanto se esperaria e, por isso mesmo, nunca seria de absorção rápida. Além disso, é talvez o registo mais sombreado de Luís Fernandes, marcado por uma tensão pungente e necessariamente menos luminosa do que noutros trabalhos. E é nos ecos cósmicos do disco, nas planantes reverberações de cada um dos seus oito trechos que abstracção e introspecção confluem num delicado equilíbrio. O cosmo distópico de Phillip K. Dick está em boas mãos. Outra vez.

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sábado, 9 de novembro de 2013

Sky Ferreira - Night Time, My Time


7,4/10
Capitol, 2013

É um curioso statement de emancipação que uma personagem musical de tenros 21 anos diga que teve que debater-se pela integridade do som que imaginava para o seu disco de debute. A regra comum no universo pop é a de não cedência das oligarquias editoriais naquilo que se instituiu como o normativo de construção de um ícone e isso envolve, naturalmente, um certo condicionamento das suas opções estéticas. São as regras mercantilistas do mundo moderno e a elas não escapa a grandíssima maioria dos artistas sem estatuto no orbe musical e que optam por veicular a sua música nos canais "tradicionais" das majors. O caso da americana Sky Ferreira é excepção a essa regra; a jovem assinou contrato discográfico ainda na adolescência (aos 15 anos) e, de então para cá, dedicou-se à construção solitária de uma colecção considerável de canções que, agora, encontram resumo neste Night Time, My Time, depois de sucessivamente não passarem o crivo editorial, até este ano. No decurso deste processo de rejeições consecutivas, o facto de alguma da sua obra ter sido tornada pública, com algum êxito, na forma de singles  ou EPs, contribuiu para a manter sob os radares da crítica especializada e aguçar a curiosidade para a chegada do tão aguardado longa-duração. Com o mediatismo dos seus trabalhos de manequim e de alguns episódios embaraçosos com drogas estava lançada a controvérsia: estaríamos perante alguém que cabia no rótulo de músico ou apenas uma pseudo-estrela de expectativas goradas?

Agora que o disco está finalmente editado, percebe-se que não estamos em presença de uma proposta pop inteiramente convencional, no sentido de não abraçar o ideário contemporâneo. Assim se entende porque ela teve que defender este trabalho perante a desconfiança da Capitol. Há um fundo electrónico de sintetizadores oitentistas ("24 Hours" é exemplo emblemático desse pendor) a percorrer o alinhamento de uma ponta à outra e que insinua um certo anacronismo que, como é bom de ver, não encheu as medidas da editora. O que até já se adivinhava em "Everything is Embarassing", impactante single de 2012 (não presente no disco). Mas a coisa não se fecha nos sintetizadores; moram aqui indiscutíveis matérias pop-rock (ouçam-se "Omanko", a mais "deslocada" faixa do disco, "You're Not the One" ou "I Will") que apontam a outros horizontes estéticos. Uma nota para a produção que mergulha os momentos mais efusivos - e, portanto, mais próximos do resvalo para a banalidade - num curioso (e cheio) nevoeiro de sons que lhes acrescenta vigor, sem sufocar o registo vocal. Além disso, e como convém a um disco pop estão cá os indispensáveis instantes orelhudos, aqueles que supostamente virão a alimentar as tabelas de vendas. No final, sobram sensações mistas, a de se saudar o recurso a referências musicais interessantes, assim fintando a "chata" padronização da pop contemporânea e, também, a de perceber a mediania de alguns trechos. A exposição na capa, em fotografia do realizador argentino Gaspar Noé, também deu celeuma mas, bem vistas as coisas, atrás da aparente intenção de mostrar candura, o que se vê é apenas mais um capítulo da crescente (e dispensável) tendência das estrelas pop confundirem sensualidade com exibicionismo bacoco.

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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Júlio Resende - Amália por Júlio Resende


7,3/10
Valentim de Carvalho, 2013

A aproximação recente do pianista Júlio Resende ao universo do fado, mormente na colaboração com alguns protagonistas do meio, fazia antever que, mais ou ter mais cedo, o músico se entregaria a um trabalho nessa estética. Para inaugurar esse percurso anunciado, Resende entendeu prestar um tributo ao riquíssimo legado de Amália Rodrigues e promoveu uma revisitação, na glória delicada do piano, de onze das suas mais emblemáticas canções. E é disso mesmo que se trata, de uma revisitação, uma vez que o intérprete não se coíbe de imprimir o cunho da sua linguagem musical, com ligeiras nuances de improviso que, sem melindrarem minimamente a integridade destas canções, lhes emprestam uma aura diferente na substância, mas não na carga emotiva. No fundo, a única forma de dar às notas de piano a intemporal intensidade vocal de Amália passaria por convertê-las no mais sentido exercício de devoção, tal como aqui se apresenta. Pôr o piano "a cantar" é um serviço de alma, de sentimento e, nesse particular, o disco é também um manifesto muito pessoal de Júlio Resende, uma expurgação da mais fina alma lusitana que mora na sua verve, tradicionalmente mais voltada para as especulações criativas do jazz. O melhor que pode dizer-se é que Amália por Júlio Resende não é uma intervenção revolucionária ou uma qualquer empreitada de reconstrução; desenganem-se aqueles que vêm à procura de um disco que vira do avesso um património musical "sagrado" como é o de Amália. O que mora nesta obra é, isso sim, o preito cortês de um músico que, nas sombras da memória e nas teclas do piano, se embrenhou nas memórias colectivas de Amália e se muniu da elegância do seu discurso para simplesmente dizer obrigado. E nós com ele.

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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Matt Kivel - Double Exposure


7,9/10
Olde English Spelling Bee, 2013

Aparte alguns projectos experimentais em que esteve envolvido, o facto de ser filho de um actor de segunda linha (Barry Kivel) e de ter sido baixista em algumas bandas (Princeton, Sleeping Bags) e guitarrista noutra (Gap Dream), pouco se sabe sobre Matt Kivel. O rapaz vive em Los Angeles e estreia-se agora a título pessoal, recolhendo em disco dez temas compostos no último par de anos e que a crítica vem aproximando do legado de Nick Drake. Essa proximidade não é completamente descabida, sobretudo porque o pendor acústico e intimista deste Double Exposure reporta ao mesmo imaginário do britânico, embora servido num minimalismo de substâncias diferentes. Aqui, além do indispensável recurso aos dedilhados da guitarra acústica (o baixo dificilmente seria ingrediente primeiro), Kivel apoia-se em electrónicas ambientais que preenchem pontualmente o espaço do silêncio e constroem um elegantíssimo jogo de contrastes com a delicadeza acústica das canções. De resto, os arranjos (e a voz) são tão subtis que não maculam a belíssima fragilidade das composições e, mais do que isso, emprestam-lhes a leveza certa para planarem na mente. Num ou noutro instante, particularmente na peça instrumental "Kes" ou no tema-título, percebem-se devaneios psicadélicos que, mais do que surpreenderem no conceito, são um agradável acrescento ao conceito do disco, ao invés de soarem deslocados como teoricamente pareceriam. Pelo contrário, é a passagem por essas surpresas, também por pontuais elementos de contraste estético, que ajuda a situar melhor os ambientes emocionais que Matt Kivel aqui explora. Double Exposure é, em essência, um manifesto de serenidade, de alguém que esquadrinha sem assombro as várias dimensões do ente humano e encontra a paz de saber-se conformado consigo mesmo. E música assim, murmurada com esta fineza, deixa-nos a flutuar nas nossas próprias inquietações.

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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Juana Molina - Wed 21


8,4/10
Crammed Discs, 2013

Apesar de se ter sido como comediante que se tornou figura mediática nas latitudes hispânicas da América Latina, Juana Molina vem trilhando um trajecto consistente nas lides musicais. Embora possa ser pouco mais do que uma incógnita para muitos, Molina completa agora um sexteto de compactos iniciado em 1996. Nessa colecção de discos, mesmo não tendo ainda erguido uma verdadeira obra-prima, a compositora e instrumentista desvendou uma sólida e curiosa relação com a invulgaridade. A música de Juana Molina não é convencional, nem sequer tenciona sê-lo. Buscando convergências orgânicas entre a música ambiental, as sugestões electrónicas de vanguarda e a música de cantautor, Molina fundou um espaço sonoro muito próprio e que lhe rendeu, em algumas ocasiões, comparações com Björk. E há, de facto, algumas simetrias entre o seu universo de sons e o da islandesa, embora na estrutura estejamos a falar de matérias substancialmente diferentes. Tomando como exemplo este Wed 21, as composições partem de um esqueleto de loops a que se somam, depois, o pulsar pontual de percussões em várias formas e cadências, a aleatoriedade de electrónicas ruidosas e até alguns acrescentos instrumentais. Da mistura, acaba por sobrar uma interessantíssima relação de afinidades entre orgânica, voz e ruído, mesmo nos instantes em que um se sobrepõe aos outros, a caminho da confluência que lhes dá o sentido final. Trata-se, portanto, de música construída com conhecimento da importância do detalhe e dos malabarismos necessários à moldagem dos loops, sem cair na banalidade. E, nesse particular, o álbum resulta muito bem enquanto produto que finta a redundância, com proporção nos elementos e a dose certa contenção. Torna-se familiar (não confundir com previsível) na estranheza, por soar tão robótico, estranho, psicótico e delirante. É já indiscutível que Juana Molina possui uma visão musical praticamente sem paralelo na música experimental contemporânea e cada disco seu é um ingresso para um mundo extraordinário. E este Wed 21 pode muito bem ser o melhor que ela nos deu até hoje.  

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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

M.I.A. - Matangi


7,6/10
Interscope, 2013

Golpe de marketing ou não, correu o rumor de que os recorrentes adiamentos no lançamento do mais recente trabalho de M.I.A. se prendiam com discordâncias conceptuais entre a britânica e a Interscope. Ao que parece, a editora americana manteve-se renitente, durante cerca de um ano e até ao último minuto, em dar cobertura a um disco de pendor "demasiado positivo". A cantora manifestou publicamente o seu descontentamento em diversas ocasiões, expondo-se ela própria à pressão pública sobre a Interscope e ameaçando vir a optar, em momento futuros, por outras formas de distribuição da sua música. Deixando de lado essas considerações de lana caprina, o disco está aí e nunca seria acontecimento despercebido, ou não fosse M.I.A. um ícone ímpar no universo musical, seja pela frescura com que conseguiu sobrepôr a sua linguagem inovadora ao conformismo pop, seja por se assumir abertamente como alguém com gosto pela polémica panfletária que, mesmo com alguma dose de fantasia de permeio, não tem medo de afrontar poderes instituídos, tenham a forma que tiverem. De resto, esse espírito militante, umas vezes mais cáustico do que noutras, é um dos conteúdos que marca a sua música desde as primeiras manifestações e que não podia deixar de estar presente neste Matangi, quarto compacto de estúdio.

Este é também um documento desregrado como outros de M.I.A., com um tal sentido de mestiçagem estética que torna quase impossível situar referências sem que elas se confundam entre si, fora e na obra da inglesa. Deve dizer-se que a voz e a percussão continuam a ser o núcleo energético das composições; ao par, junta-se depois uma implosiva carga de interferências e ritmos. Em ambos os aportes, sente-se a óbvia actualização da contemporaneidade e, mais do que isso, um cunho ecléctico que toca pólos tão distantes quanto a pop amistosa e a electrónica de absorção lenta. Pelo meio, há passagens camufladas pela Índia, há insinuações incontornáveis aos patrimónios mutantes do hip hop - cultura sempre presente - e escalas rítmicas por outras tendências em voga (até o kuduro aqui aparece). Um verdadeiro caleidoscópio, a resgatar os momentos mais inspirados de M.I.A., depois do auto-admitido flop criativo que foi Maya, há três anos. Matangi é um trabalho de colagens tão pejado de tensão que chega a tornar-se desgastante, sobretudo se ouvido de um trago só. Não esqueçamos que, além da querela com a Interscope, M.I.A. enfrentou recentemente uma dura batalha judicial pela custódia do filho e está a braços com a intimição da NFL por gestos impróprios durante a actuação no Superbowl. Mas como se percebe neste Matangi, a adversidade serve-lhe de inspiração. Em alguns momentos da incontinente guerra tribal de ritmos e estéticas que é o disco, há alguma da melhor música que M.I.A. nos deu, sem dúvida, mas só no dia em que ela domar as convulsivas energias que lhe habitam a verve é que nascerá a obra-prima que se vai adivinhando na sua mente.  

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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

La Chanson Noire - Macumba Stereo


7,3/10
Necrosymphonic Entertainment, 2013

Só o mais hipócrita puritanismo pode explicar porque é que o projecto La Chanson Noire nunca passou da marginalidade da cena musical nacional e chegou ao fim sem merecer honras de um espaço mediático a que o seu património musical teria legitimamente direito. Assumindo-se como um "manifesto artístico de música impopular portuguesa", o espaço criativo de Charles Sangnoir professou, durante meia-dúzia de anos de actividade, um mosaico musical assente numa curiosa miscigenação de géneros próximos da decadência humana, ora na sua vertente gótico-depressiva (e portanto carregada de negrume), ora nas máximas do hedonismo e do deboche. Em termos estéticos, nunca se chegou a perceber poiso firme - tal a alternância entre o rock (pequeno e grande, lento e rápido) e o cabaret, o mantra sombrio e a áspera crítica panfletária, o kitsch e a elegância. O que é o mesmo que dizer que a iconoclastia dos La Chanson Noire era um dos mais desafiantes conceitos anti-estilos da música nacional. Depois, a escrita desabrida (em português ou inglês) e sem tabus chocava sistematicamente com convenções, instituições e símbolos, expondo-se ao escrutínio pouco complacente dos melómanos cá do burgo, amestrados pelo conformismo e nada benévolos perante títulos tão sugestivos como "Ode a Satã", "Pura Merda" ou "Bordel de Lúcifer". Depois de dois EPs (incluídos no alinhamento) e dois compactos (Música para os Mortos, 2010, e Cabaret Portugal, 2012), chega este Macumba Stereo, requiem compilatório de algumas faixas emblemáticas do grupo (com roupagem nova) e outras que ficaram por editar e nasceram nos primórdios do projecto. O documento não é um best of e é necessariamente menos coeso do que um álbum de corpo inteiro, mas acaba por servir o propósito de apresentar a teatralidade poética dos La Chanson Noire a quem (ainda) não conhece.

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Arcade Fire - Reflektor


8,5/10
Merge, 2013

Já passou quase uma década da generalizada aclamação do debute discográfico dos Arcade Fire (Funeral, 2004) e, em virtude de uma inspirada sucessão de discos subsequentes, o fenómeno não esmoreceu e deu origem a uma extensa fileira de admiradores da banda (e à rendição da crítica especializada), dando-lhe a dimensão planetária a que parecia predestinada desde a primeira hora. Por isso mesmo, cada edição da trupe canadiana é antecedida por uma vaga de expectativas e discussões cibernéticas de gente ávida pela novidade vindoura como se do Santo Graal se tratasse. A ajudar ao festim de anunciação deste Reflektor, o quarto registo, a revelação espaçada no tempo de alguns detalhes exponenciou a ansiedade geral, ora por saber-se que James Murphy (do extinto LCD Soundsystem) estaria ao comando da engenharia de sons, ora pela alegada participação de David Bowie - confesso adepto da banda - e do saxofonista Colin Stetson no tema-título, ora pelo facto de vir a tratar-se do primeiro duplo-álbum dos Arcade Fire,  ou ainda, mais recentemente, pela divulgação do vídeo de "Afterlife" com imagens do filme Orfeu Negro, a revisitação de 1959 do mito de Orfeu e Eurídice (na versão de favela carioca de Vinicius). Tudo junto, mais o pormenor de saber-se que o artwork do disco reportava à escultura Orphée et Eurydice de Rodin, os dados estavam lançados: os Arcade Fire teriam em mãos um disco iluminado pelo funéreo mito de Orfeu, o encantador da lira, que acreditou resgatar a amada Eurídice da morte, mas só perecendo veio a reencontrá-la. E se esta contextualização dramática não é estranha à espiritualidade que atravessa a obra de Win Butler e seus pares, faltava apenas saber que veículo sonoro a serviria, se a extravagância barroca de Funeral, se as sombras góticas de Neon Bible ou a efusão pop de The Suburbs.

A resposta não pode ser categórica em face de 75 minutos de música. Há um pouco dos três, sem dúvida; um reset absoluto seria impensável. Contudo, há uma vibração diferente, não apenas por força do sublinhado da electrónica que James Murphy não deixaria de fazer, mas também pelo risco conceptual que isso encerra. Não é um mero golpe de teatro, é uma mexida estrutural que pode, em incautas primeiras audições, insinuar uma clivagem estética que, afinal, não se confirma. Está cá tudo o que é matéria idiossincrática dos Arcade Fire: as melodias em crescendo, o cuidado nos arranjos, a diversidade nas texturas e instrumentos. O balanço é que é diferente, uma paranóia de ritmos, a tirar a percussão e o baixo do fundo (cortesia de Murphy, pois claro), a limpar as vozes, a insinuar espacialidade e dança, sobretudo no primeiro tomo do álbum. O segundo não disfarça o contraste rítmico e move-se em alegorias mais contemplativas e necessariamente menos aceleradas. No final, sobra a sensação de estarmos perante um exercício consequente de reinvenção que, não quebrando as ligações nevrálgicas com o passado, é fuga segura ao comodismo. Fazer isso quando se está no auge comercial/mediático em que estão os Arcade Fire merece todos os louvores. Até esquecemos que o disco talvez seja longo de mais.

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