sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Arcade Fire - Reflektor


8,5/10
Merge, 2013

Já passou quase uma década da generalizada aclamação do debute discográfico dos Arcade Fire (Funeral, 2004) e, em virtude de uma inspirada sucessão de discos subsequentes, o fenómeno não esmoreceu e deu origem a uma extensa fileira de admiradores da banda (e à rendição da crítica especializada), dando-lhe a dimensão planetária a que parecia predestinada desde a primeira hora. Por isso mesmo, cada edição da trupe canadiana é antecedida por uma vaga de expectativas e discussões cibernéticas de gente ávida pela novidade vindoura como se do Santo Graal se tratasse. A ajudar ao festim de anunciação deste Reflektor, o quarto registo, a revelação espaçada no tempo de alguns detalhes exponenciou a ansiedade geral, ora por saber-se que James Murphy (do extinto LCD Soundsystem) estaria ao comando da engenharia de sons, ora pela alegada participação de David Bowie - confesso adepto da banda - e do saxofonista Colin Stetson no tema-título, ora pelo facto de vir a tratar-se do primeiro duplo-álbum dos Arcade Fire,  ou ainda, mais recentemente, pela divulgação do vídeo de "Afterlife" com imagens do filme Orfeu Negro, a revisitação de 1959 do mito de Orfeu e Eurídice (na versão de favela carioca de Vinicius). Tudo junto, mais o pormenor de saber-se que o artwork do disco reportava à escultura Orphée et Eurydice de Rodin, os dados estavam lançados: os Arcade Fire teriam em mãos um disco iluminado pelo funéreo mito de Orfeu, o encantador da lira, que acreditou resgatar a amada Eurídice da morte, mas só perecendo veio a reencontrá-la. E se esta contextualização dramática não é estranha à espiritualidade que atravessa a obra de Win Butler e seus pares, faltava apenas saber que veículo sonoro a serviria, se a extravagância barroca de Funeral, se as sombras góticas de Neon Bible ou a efusão pop de The Suburbs.

A resposta não pode ser categórica em face de 75 minutos de música. Há um pouco dos três, sem dúvida; um reset absoluto seria impensável. Contudo, há uma vibração diferente, não apenas por força do sublinhado da electrónica que James Murphy não deixaria de fazer, mas também pelo risco conceptual que isso encerra. Não é um mero golpe de teatro, é uma mexida estrutural que pode, em incautas primeiras audições, insinuar uma clivagem estética que, afinal, não se confirma. Está cá tudo o que é matéria idiossincrática dos Arcade Fire: as melodias em crescendo, o cuidado nos arranjos, a diversidade nas texturas e instrumentos. O balanço é que é diferente, uma paranóia de ritmos, a tirar a percussão e o baixo do fundo (cortesia de Murphy, pois claro), a limpar as vozes, a insinuar espacialidade e dança, sobretudo no primeiro tomo do álbum. O segundo não disfarça o contraste rítmico e move-se em alegorias mais contemplativas e necessariamente menos aceleradas. No final, sobra a sensação de estarmos perante um exercício consequente de reinvenção que, não quebrando as ligações nevrálgicas com o passado, é fuga segura ao comodismo. Fazer isso quando se está no auge comercial/mediático em que estão os Arcade Fire merece todos os louvores. Até esquecemos que o disco talvez seja longo de mais.

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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Foxygen - We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic


8,6/10
Jagjaguwar, 2013

Albergar o trabalho musical do último ano e pico sob o epíteto de embaixadores da paz e da magia para o século XXI é coisa para merecer interpretações várias. Puxar a si um protagonismo tão pomposo tem algo de absurdo porque, ao mesmo tempo, redobra expectativas sobre o disco  - o terceiro de um percurso até aqui praticamente despercebido - e, mais do que isso, anuncia um exercício de regeneração que reporta à saudosa era do make love not war. Não é pouco, de facto. Os co-signatários da proposta dão pelos nomes de Sam France e Jonathan Rado, dois descomplexados californianos que já se conheciam de petizes e que se uniram nesta causa de repescar sons de outros tempos. Estamos a falar do refinamento de uma fórmula que vem trabalhando em cima do fulgor alucinado do rock psicadélico dos 70's, se quisermos das derivações barrocas da pop de então, mas que não havia ainda conseguido espicaçar os círculos de opinião e os melómanos. We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic promete tornar-se o pilar decisivo para mudar o percurso do par americano e seus companheiros de estrada. A partir daqui, nada será igual. E é justo que assim seja, ou não estivéssemos em presença de um disco que consegue fito raro: ser uma manifestação genuinamente vintage e, em simultâneo, soar fresco e actual.

É claro que o referencial estético tem feição de erro cronológico, mas as canções são tão deliciosamente inspiradas que se assemelham a uma colecção de clássicos. Da escrita de Rado e France já se conheciam valências inatacáveis que alguns descuidos (ou desproporções) na produção - assumida pelos próprios Foxygen - deprimiram repetidamente noutras gravações. Desta vez, honras a Richard Swift, outro californiano de renome, que assumiu as rédeas da produção e emprestou rumos pertinentes ao som destes neo-hippies; a engenharia de sons é magnífica e arruma as inúmeras texturas com sentido de detalhe, elegância e proporção, bem longe dos desvarios dos discos anteriores. Retro servido assim, com canções que podiam ter sido resgatadas dos baús da excelência clássica, é do mais moderno a que se pode almejar. Oxímoro trendy, é o que é, e são muito bem-vindos, senhores embaixadores!

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O Quarto Fantasma - A Sombra


7,4/10
Raging Planet, 2013

Não obstante se arrumar orgulhosamente na marginalidade de uma cena musical portuguesa ainda pouca aberta ao experimentalismo ou ao desatino formal, vem-se firmando cá no burgo, aos soluços, um movimento de apóstolos do rock instrumental. Saúdam-se as vontades destes espíritos intrépidos que se insurgem contra o conformismo tipicamente luso e, ao mesmo tempo, se aventuram em quintais sonoros quase virgens e normalmente olhados de lado. O primeiro longa-duração do trio O Quarto Fantasma é outro machado erguido nesta "guerra" de conquista de espaço e, mais do que ser uma mera apresentação circunstancial, promete firmar peugadas para outros seguirem. Claro que esta missão de desbravar terreno é um pau de dois bicos: ou se toca um zénite criativo e não sobrará espaço para as unhas da crítica ou se desbaratam referências e se perde o pé. Neste A Sombra, a corda bamba deixa os lisboetas mais perto da primeira hipótese, segurados numa produção que expurga o melhor das duas guitarras e bateria (sim, é um trio sem baixo), que lhes junta pontualmente algumas impurezas bem-vindas (vozes ou teclas, por exemplo). É, de resto, no curioso jogo de imparidades tonais (leia-se grave vs. agudo) entre as duas guitarras - sublinhado pela ansiedade da bateria - que se acha o leitmotiv sónico do disco: uma digressão suja, densa e vibrante (como se supõe num produto de semente rock) aos esconderijos emocionais mais negros de nós. Dessa divagação introspectiva, dividida em onze episódios, sobram as reverberações próprias de peças em crescendo - o mister pós-rock é isto mesmo - e cujo clímax anunciado se deflagra faustosamente nos trechos mais longos, por oposição àqueles que, com mais urgência, ao tentarem meter o Rossio na Betesga, acabam por soar apressados. E, se essa impaciência penaliza ligeiramente as belíssimas perturbações emocionais que A Sombra hospeda, não é menos verdade que estamos em presença de um documento congruente e de bom recorte. Não apetece acender a luz.

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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Deafheaven - Sunbather


8,4/10
Deathwish, 2013

É um facto que uma fatia significativa dos seguidores do fenómeno musical alternativo continua refém de preconceitos mais ou menos assumidos e que se fecham repetidamente a qualquer manifestação oriunda do universo metal, nas suas milhentas ramificações. Trata-se de um sectarismo instalado - e que também se estende a parte da crítica especializada - e que raramente abre brechas para dar visibilidade a um produto discográfico dessas origens tidas como menores. E se é certo que um quinhão importante desse divisionismo se deve também à natureza de nicho de sonoridades que são vocacionadas para públicos muito específicos e neles se esgotam, não é menos verdade que existem inúmeros exemplos de protagonistas do metal com vistas mais largas e capazes de produzir música que galga essas barreiras conceptuais. O exemplo do segundo álbum dos americanos Deafheaven é paradigmático de duas coisas: o crescimento do conceito estético da banda e, depois, o reconhecimento generalizado (de crítica e público) da fórmula experimentalista com que se recreiam nos ambientes do dark metal. Relativamente ao segundo aspecto, a banalização deste Sunbather nas listas de final de ano será uma certeza.

Quanto ao desenvolvimento artístico da banda, usando a referência do debute (quase incógnito) de há dois anos, mantém-se a curiosa mistura, sem discrepâncias: belíssimas texturas de guitarra pejadas de ambientalismo pós-rock, com acelerações rítmicas importadas do dark metal, as aparições (oportuníssimas) das blastbeats e a erosão agonizante da voz de George Clark. Até aqui, tudo igual, na elegante alternância entre os momentos tétricos, necessariamente carregados de negrura e acidez, e a maravilhosa contraparte de lugares mais serenos, de casta contemplação. A ampliação de Sunbather relativamente ao antecessor prende-se com um cuidado acrescido a tricotar os instrumentais, com uma produção mais refinada (e potenciadora dos contrastes ambientais do disco) e, acima de tudo, um vigor reforçado nas energias emocionais postas em cada peça. Nesse sentido, é um registo mais volumoso e intenso. A ciência oculta dos Deafheaven redimensiona-se na sua própria ambivalência e que Clarke resumiu na mouche em recente entrevista: "é o nosso trabalho mais negro e mais luminoso". E é exactamente isso que dá a este disco a imunidade a qualquer preconceito estético.

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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Márcia - Casulo


7,6/10
EMI, 2013

Não é preciso dedicar muitos minutos à audição deste Casulo para perceber que algo mudou nos horizontes musicais de Márcia Santos. Depois de e sobretudo do muito mediatizado dueto com JP Simões em "A Pele que Há em Mim", a lisboeta saltou para o primeiro plano da música nacional e logo lhe colaram rótulos toscos (alguns pejorativos), todos em volta do conceito de miúda indie e do facto de cantar em português, como se esses fossem universos incompatíveis e sem lugar no burgo. Parecia que, de repente, cantar (bem) sem recorrer ao pragmatismo da pop orelhuda se convertia num qualquer pecadilho que urgia atalhar com venenos. Felizmente, a tal "miúda indie" não só não se deixou contaminar por isso, como soube operar esses contextos em seu favor, pagando-lhes a mais justa indiferença e centrando-se nas coisas essenciais a si (foi mãe durante a idealização do álbum) e à sua música. E a ironia suprema é que, mantendo as premissas estéticas que notabilizaram Márcia no último par de anos, Casulo soa mais maduro, mais equilibrado e não é mera resposta às expectativas. Claro que o núcleo basilar continua a ser o binómio voz/guitarra, mas há oportuníssimas interferências que redimensionam a sobriedade melódica de Márcia, sem somar desordem nem espalhafato, apenas ajudando a desenhar os cenários emocionais das canções. E que belas (e muito charmosas) canções moram aqui.  

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Four Tet - Beautiful Rewind


7,7/10
Text, 2013

Apesar de ser um dos mais seguidos protagonistas do orbe electrónico, Kieran Hebden conseguiu uma coisa rara para os dias de hoje: lançar um compacto novo sem que ninguém o antevisse. Com efeito, Beautiful Rewind apareceu em surdina e logo motivou - sobretudo por força do single "Kool FM" - um (aturdido) tropel de opiniões e curiosidades, como seria expectável quando se trata, como é o caso, de alguém com uma discografia muito sólida e urdida em torno de uma linguagem musical culta na gestão de samples e no experimentalismo electrónico. Além disso, o facto de o primeiro avanço do álbum se apossar do nome da mítica estação de rádio londrina (à data, pirata) que, no começo da década de 90, deu expressão ao movimento jungle, lançou pistas sobre uma incursão Four Tet a esse legado musical. Em teoria, qualquer matéria dançável "encaixa" na inspiração empirista de Hebden e nem as mais anacrónicas ficam fora de órbita. Com efeito, o resgate de fórmulas aparentemente estafadas (veja-se o caso dos Disclosure, por exemplo) parece ter-se tornado moda recente. Old is the new New. Restaria saber como o ordenamento jungle baralharia a ética musical Four Tet, ao trazer-lhe a persistência em breakbeats orgânicos (feitos de manipulações de som real) por oposição às induções sintéticas tão caras a Hebden, ao secundarizar a melodia e, mais do que isso, ao sugerir o discurso hirto dos MC's da época.

A redundância nunca foi problema para Hebden, pelo que conceptualmente não há conflito de interesses, ou não fosse ele um dos artesãos mais hábeis no jogo de samples. O recurso às batidas sampladas também não é elemento crítico; pelo contrário, até se revela um recurso utilíssimo para emprestar uma palpitação diferente ao som Four Tet. É precisamente aí, na veemência da pontuação rítmica, também nas interferências vocais de algumas faixas, que Beautiful Rewind nos desvia do universo pastoral do costume, tornando este o disco mais tenso de Hebden. Os seguidores indefectíveis do londrino podem não ficar rendidos, nem o registo terá a coesão do costume, mas não deixa de ser um tomo de boa música.

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Gaiola Dourada


7,2/10
2013

Ao fazer da emigração portuguesa a matéria principal da sua primeira longa-metragem, o realizador Ruben Alves fez um sincero exercício de introspecção, ou não fosse ele próprio descendente de portugueses radicado em Paris e, portanto, profundo conhecedor de uma realidade que, embora conheça agora um fôlego diferente, teve, sobretudo nos anos oitenta, uma expressão social muito significativa. A trama deste A Gaiola Dourada assenta num núcleo familiar que, como qualquer outro da época, arrastava consigo uma panóplia simbológica típica dos portugueses (o fado, o futebol, o bacalhau) e que veio a favorecer, ano após ano, a construção de estereótipos nem sempre positivos. É também desses preconceitos e das complexidades suburbanas da comunidade lusa que versa o filme, com o olhar imparcial (e necessariamente mais distante) de alguém que, sendo descendente da falange emigrante, soube interpretar as peculiaridades do esforço de integração e - numa das notas mais interessantes do filme - perceber que grande parte da imagem estereotipada foi fomentada por uma certa autoproscrição (inconsciente) da própria comunidade portuguesa, muito fechada em si mesma e apegada às suas crenças, valores e comportamentos. Ruben Alves capta habilmente essa dimensão e fá-lo sem indulgências, apenas insinuando uma curiosa conclusão sociológica, pouco comum numa comédia de costumes: a integração do emigrante português é sempre incompleta. Além disso, a fita promove uma homenagem à perseverança daqueles que partiram de Portugal em busca de conforto material e que, para isso, se sujeitaram a ofícios duros e ao desdém - também ele pousado nos estereótipos - dos privilegiados autóctones que vieram a servir.

Com um bom punhado de representações (Rita Blanco está cada vez mais majestosa), um guião competente e uma interessante cenografia, A Gaiola Dourada é um filme leve, equilibrado e marcado por um humor subtil, com pontes mais ou menos manifestas com a tradição da comédia francesa e os "antigos" clássicos portugueses e sem concessões à caricatura do lugar-comum.

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Vampire Weekend - Modern Vampires of the City


8,0/10
XL, 2013

Não é fácil sobreviver aos arrastões do hype mediático sobretudo porque a mesma voragem acelerada que entroniza (atrapalhadamente) qualquer candidato a next big thing é a que, depois, retira o tapete com proporcional indiferença e cínico desdém. Os nova-iorquinos Vampire Weekend - que alegadamente "nasceram" enquanto fenómeno na blogosfera - vieram a tornar-se uma das evidências mais surpreendentes desse tipo de ascensão imparável, confirmada não só no primeiro registo discográfico (em 2008), mas também na capacidade revelada para superar bem a fasquia crítica do segundo álbum. Agora que chegam ao terceiro registo, estão perfeitamente cientes do êxito e da sua proporção e expõem-se a novo momento de escrutínio, alargando a paleta de cores de uma fórmula que, desde o início, deixou pistas de raro senso de criatividade, de frescura e de percepção das vantagens no cruzamento de géneros. O amadurecimento dessas propensões é o diapasão deste Modern Vampires of the City, um tomo com as mesmíssimas matérias-primas que fizeram dos VW um caso: simplicidade na escrita pop (com tiques africanos) e arranjos/produção de excelência.

As canções são despretensiosas e vêm adornadas com a extensa panóplia de truques orgânicos da banda. É daí que parte a sensação de estarmos em presença de um disco dos VW em discurso directo. E que só podia ser feito por eles. Depois, as canções oscilam entre o latejo e a placidez, a pressa e a contemplação, sempre servidas com conteúdos líricos a que vale a pena atentar. Modern Vampires of the City encerra uma tríade de álbuns que, com altos e baixos, confirmam os Vampire Weekend na incumbência de um dos ensembles mais importantes da cena musical contemporânea, não apenas por terem um discurso espontâneo, vivo e extraordinariamente dinâmico, mas por nos mostrarem que a pop também pode ser elegância, pormenor e pedigree. Essa coisa pejorativa de os considerar um fenómeno descartável da internet já lá vai, estes rapazes são músicos a sério!

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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

The Field - Cupid's Head


7,9/10
Kompakt, 2013

Ao escrever sobre o projecto The Field, alcunha artística do produtor sueco Axel Willner, impõe-se um exercício de incontornável reverência por uma obra que vem progressivamente erguendo uma linguagem electrónica de suprema elegância e consistência, num ciclo que conta já meia dúzia de anos e completa agora um quarteto de compactos. Nesse percurso, muito foi escrito sobre a densidade da sua música, o sentido monolítico de uma estética que, apesar de fechada a concessões, não deixa de ser muito consequente e o carácter magnetizante dos seus trechos. É, de resto, na dualidade entre o domínio das técnicas próprias dos universos IDM mais esfíngicos e a sensibilidade para introduzir invulgaridades "melódicas" nas redundâncias rítmicas que reside a mais-valia que fez de Willner um dos mais bem sucedidos artesãos electrónicos da sua geração.

Nesse particular, Cupid's Head define posições: é simultaneamente o menos melódico (a fazer lembrar outros laboratórios de Willner como Black Fog ou Loops of Your Heart) e o mais tenso dos registos The Field. A coincidência desses factos, a ausência de colaborações instrumentais (que estiveram presentes antes) e a deriva por ambientes negros (a troca do branco pelo preto no artwork não é inocente...) que pauta o álbum fazem dele uma descoberta menos consensual do que outros trabalhos de Willner, a despeito da excelência de algumas composições ("They Won't See Me" ou "No. No...", à cabeça). A escrupulosa feitiçaria de Willner está mais obscura e impenetrável, mas continua apelativa. Sem dúvida, vai longe o tempo em que este homem imaginou uma cover dos The Korgis.


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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Moby - Innocents


6,7/10
Mute, 2013

Talvez por ser um dos mais fleumáticos protagonistas da cena musical, poucos se apercebam que Moby conta já mais de duas décadas de percurso. Os holofotes do mainstream confluíram para ele com Play, opus magno de uma discografia que, depois desse inspirado (e muito rentável) momento de 1999, deu sinais de alguma desorientação estética, seja pelas derivações ostensivamente pop, seja pelas sucessivas tentativas (falhadas) de recuperar o som que o ergueu então a patamares ímpares de sucesso. Em ambas as circunstâncias, a atracção pelo espaço mainstream - que parece, afinal, avesso às matérias essências do som Moby -, veio a depreciar o legado de Play e deixou um lastro de álbuns menos iluminados. Este Innocents, não sendo um registo de suprema elevação criativa, tem tudo para interromper a derrapagem de carreira e crescer como o melhor trabalho do nova-iorquino desde Play. Desde logo, uma das premissas do disco demonstra a consciência autocrítica de Moby, o reconhecimento de que urgia acrescentar à sua fórmula musical alguma matéria diferente: é a primeira vez no seu percurso que acolhe a co-produção de outrem, no caso do britânico Mark "Spike" Spent, notabilizado em trabalhos com Depeche Mode, Muse, Massive Attack, Madonna, Björk, entre muitos outros. Depois, para emprestar diversidade às composições, Moby chamou até si uma insígne trupe de vocalistas: Mark Lanegan, Wayne Coyne  (Flaming Lips), Damien Jurado, Cold Specks, Skylar Grey e Inyang Bassey.

Em termos orgânicos, os ambientes convocados por Innocents não são particularmente originais no cancioneiro Moby, mas parecem arrumados com coerência acrescida, em redor do minimalismo melancólico de outras ocasiões, das cadências arrastadas e da grandiosidade nos arranjos de cordas simulados no sintetizador. Juntando-lhes o dinamismo dos diferentes aportes vocais completa-se o lote de ganhos de substância de um disco que, a despeito de alguns instantes de bom recorte que seguram o cunho Moby, não disfarça a mediania das composições.

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Anna Calvi - One Breath


7,6/10
Domino Records, 2013

Quando se tem um debute discográfico com a amplitude mediática que Anna Calvi conseguiu há dois anos, então merecendo consagração generalizada (e justa) como uma das melhores vozes emergentes da cena musical britânica, não há como evitar a elevação de expectativas para o sempre difícil exercício de urdir um segundo disco à altura da estreia. Essa barreira psicológica onde encalham muitos projectos musicais é também, por norma, elemento separador de águas e revelador de aptidões para futuro. No caso de Calvi, este One Breath mostra-nos ambientes sonoros familiares, conservando grande parte das premissas do antecessor, sobretudo na elegância de uma visão pop sem concessões facilitistas e construída essencialmente à volta de dois argumentos muito valiosos: a voz e a guitarra.

Não obstante a inevitável continuidade desse par no núcleo orgânico das composições - afinal, são matéria quintessencial a Calvi -, da audição do novo trabalho ressalta uma acrescida ambição nas composições e nos arranjos, seja pela adição de outros conteúdos instrumentais, seja pela incursão óbvia em planos de escrita mais extravagantes. E se a aposta resulta em grande parte do disco, dando uma imagem inventiva de Calvi que é óptimo enquadramento para emprestar outra dinâmica ao seu cancioneiro, não é menos verdade que o excesso de ambição acaba por pontualmente tocar extremos desalinhados do seu ideário estético (a fazerem lembrar as agudizações da americana St. Vincent) e a pedirem uma escrita mais solícita.

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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

10 000 Russos - S/T (EP)


8,4/10
Edição de autor, 2013

Nascidos no improvável berço que se tornou o ex-centro comercial Stop no Porto - hoje convertido em viveiro de projectos musicais - e fruto do conhecimento mútuo de competências, Pedro Pestana (o solitário que dá corpo ao excelente laboratório de sons Tren Go! Soundsystem) e João Pimenta (vocalista de ocasião nos ALTO! e nos Green Machine) juntam criatividades sob o epíteto 10 000 Russos, alegadamente sugerido nas divagações de uma noite de copos com amigos. Pondo de parte as esdrúxulas considerações histórico-biográficas com que se apresentam (vale a pena ler o delirante descritivo), anunciam-se ironicamente como "a banda sonora da decadência europeia" e essa alcunha talvez assente na música que professam neste EP de debute. E é bom que se aceite o rótulo dos próprios músicos porque a proposta sonora deles tem tanto de inclassificável como de sedutora.

O que mora nas quatro peças do EP homónimo é um intratável assalto sónico de psicadelismo rock, urdido numa malha alienada e que cruza evocações espíritas dos Spacemen 3, verve experimentalista, percussões cirurgicamente maquinais (mesmo que executadas manualmente), preces distorcidas e um imparável puzzle de corta-e-cola sons, sem destino ou forma definidos. A combinação é um prodigioso ritual tântrico do primeiro ao último segundo: alucina, insinua desvarios, agita, corta a respiração (e, por instantes, parece que os pulsos também...), fere os tímpanos e, depois, serena como um drunfo, dissipa-se deixando no ar uma ressonância inquietante. O que foi isto? Abram alas a esta invasão russa!

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Ty Segall - Sleeper


8,3/10
Drag City, 2013

Para um homem com a raríssima (e desgastante) prolificidade de Ty Segall, há-de haver momentos em que, ao invés de empilhar gravações nos inúmeros projectos e divagar pelo mundo - literalmente, com as extensas digressões europeia e americana de 2012 -, é o mundo que choca com ele, com a veemência circunstancial daqueles factos que alertam para a condição efémera da humanidade. O desaparecimento do pai adoptivo e a ruptura da relação com a mãe coincidiram no tempo e motivaram a confessada necessidade de purga mental que fez nascer este Sleeper. Nesse sentido, e para melhor servir o propósito de depuração emocional, Ty Segall entendeu confinar a sua linguagem musical à contenção de um formato essencialmente acústico, algo que circunscreve a natureza poluída do seu cancioneiro garage rock à medula, dispensando distorções e outros psicadelismos (mesmo vocais). E, pese embora essa redução intimista, as composições conservam o inconfundível cunho Segall, mesmo sem o músculo, o nervo ou a urgência de outros instantes.

Sleeper é um disco que convoca a redenção do descanso, do retiro, como se Ty Segall precisasse de um refúgio da sua própria extravagância rock para encontrar a catarse dos conflitos emocionais interiores. Nesse sentido, é também  um álbum cujos tons de rendição (e de comoção) servem de plataforma regeneradora. Como um belo sonho acústico que põe Segall olhos nos olhos com o desassossego. E de que ele há-de acordar tão eléctrico como antes.

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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Darkside - Psychic


8,4/10
Matador/Other People, 2013

Ele move-se na sombra do mediatismo mais pomposo, mas o que é certo é que poucos artesãos da electrónica terão tido agenda mais preenchida do que Nicolas Jaar, seja na promoção da sua própria música, seja nos inúmeros serviços paralelos que levou a cabo nos últimos anos. Esse voluntarismo permitiu-lhe o contacto com músicos de origens várias, entre eles o guitarrista Dave Harrington com quem formou o conceito Darkside, inaugurado em EP, há sensivelmente dois anos. Já este ano, a parelha - pontualmente rebaptizada Daftside - remisturou (apressadamente) o álbum Random Access Memories, dos Daft Punk, num exercício de puro hedonismo electrónico que passou quase despercebido, mergulhado nas suas próprias bizarrias, mas que lançou premissas conceptuais para o que haveria de seguir-se. Psychic, a verdadeira estreia no formato longa-duração, é a sequência criativa mais ou menos lógica da convergência de ideias entre dois músicos de universos aparentemente díspares.

De um lado, está o sentido melódico levitante de Jaar, feito de notas esparsas e percussões tímidas, em tangências com a electrónica ambiental minimalista; do outro, a orgânica jazz-blues de Harrington e a presença fantasmática da ciência do rock clássico. Talvez por isso, numa declaração recente, Jaar tenha dito que este é o seu disco rock'n'roll. A afirmação é naturalmente hiperbólica: Jaar não é e jamais será um músico rock'n'roll, conquanto se faça óbvia a ingerência rock na habitual texturação minuciosa dos trechos, sobretudo pelos astutos pontilhados de guitarra. Em rigor, são esses inputs que revigoram o exotismo espacial (futurista?) de Jaar, somando-lhe o risco da mundanidade para "prender" o ouvinte. A subtileza da mistura anuncia alguma estranheza no primeiro contacto, é certo, mas acaba por revelar-se, atrás da complexidade orgânica, uma experiência de tensos ambientes nocturnais e de exploração cósmica, um magnífico mutante de sons flutuantes. Psíquico, sem dúvida.

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terça-feira, 8 de outubro de 2013

Oneohtrix Point Never - R Plus Seven


7,7/10
Warp, 2013

Não obstante já andar nestas lides há cerca de seis anos, apenas há dois Daniel Loupatin (o homem atrás do alter ego Oneohtrix Point Never) despontou manifestamente para a primeira linha da música experimental, sobretudo graças à rendição mais ou menos generalizada de crítica e público ao muito discutido Replica, o seu quarto longa-duração. Migrando da Massachussets natal para uma Brooklyn que é cada vez mais um esdrúxulo centro de criatividades musicais sem paralelo nos EUA, aí encontrou o contexto adequado para uma fórmula musical que conjuga, como poucas, o pendor ambiental, a profundidade da electrónica "clássica" (leia-se krautrock) e uma disposição formal verdadeiramente melancólica, servida em redundâncias e acalmia rítmica. De resto, este preceituado foi maturando em cada incursão ao estúdio de gravação, a ponto de subliminarmente ir acolhendo aportes vários e de consolidar, no topo dessa cadeia de experiências, uma relação de afinidade com o ruído que seria matéria decisiva no sucesso de Replica. Esse êxito conceptual converteu-se, no fundo, num ónus para este R Plus Seven, desde logo pela sua condição de sucessor da obra mais impactante de Loupatin, mas também por inaugurar a ligação contratual com a Warp.

A comparação terá tanto de injusta como de inevitável, em face de uma onda de expectativas que, depois do portento criativo que foi Replica, criou uma ânsia gigante de continuação. Separem-se já as águas: R Plus Seven não é segunda parte do seu antecessor, nem tencionou sê-lo. De permeio das sonoridades sombrias e fracturadas que se conheciam (e são menos patentes), até da justaposição obtusa de samples, convocam-se agora as primícias da música digital, matéria tão cara à obra de Loupatin. Nesse sentido, R Plus Seven repesca o experimentalismo progressivo do norte-americano sobre matérias oitentistas que, sendo datadas, encontram aqui reencarnação válida mas que, também por isso, soam mais a experiência de estudo, com a consequente parcimónia, do que propriamente a um exercício especulativo sintonizado com o filão dourado de Replica. Não o desprestigia, é certo, mas fica irremediavelmente aquém.

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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Scout Niblett - It's Up to Emma


7,6/10
Drag City, 2013

O desfile lírico do novo álbum de Scout Niblett não deixa espaço para segundas interpretações: mora nestas entrelinhas uma história de amor corrompido e as suas incontornáveis ondas de choque emocional. Pouco importam as causas e se o agente corruptor é o tempo, as circunstâncias, os momentos ou os delitos de carácter, o que sobra é uma desolação que ensaia, depois, várias formas de catarse, ora vingativa, ora indulgente. Da reunião dessas energias, nasceu um dos mais pessoais registos de Niblett, também um dos mais viscerais e, por isso mesmo, servido sem adornos estéticos, antes laconicamente resumido à guitarra isolada de sempre, com pontuais aparições da percussão a sublinharem a aspereza e a gravidade do discurso. 

Não é facto novo esta confessada inaptidão de Niblett para os relacionamentos emocionais, ela tem feito disso a matéria-prima de um cancioneiro que subscreve, sem se fechar nela, uma noção de canção saudosa do grunge mais depressivo. Nesse particular, embora cáusticas e tensas como antes, as canções de It's Up to Emma são produto de um conforto maior na mágoa, daquela habituação à desilusão a que as convenções sociais chamam envelhecimento. Aos 40 anos, Niblett já somou muitos quilómetros na estrada da vida e a redenção, não obstante continuar a fomentar ilusões, não é já uma obsessão.

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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Linda Martini - Turbo Lento


7,9/10
Universal, 2013

Fez-se senso comum que o "salto" de um músico do circuito perifério das pequenas editoras para uma major, com as exigências mercantis do alargamento da distribuição, tende a tingir-lhe a integridade. A recente migração dos Linda Martini para o catálogo da Universal, companhia magna do espectro editorial, relançou esse debate por antecipação, muito antes da chegada deste Turbo Lento, terceiro longa-duração dos lisboetas. Além da mudança de selo e da natural especulação sobre eventuais ingerências no processo criativo, o álbum tem também sobre si o ónus de suceder a Casa Ocupada que, há três anos, firmou definitivamente a marca do grupo como um dos mais inventivos ensembles do rock alternativo nacional.

Independentemente de considerações comparativas, Turbo Lento é uma catatónica exposição de estados de espírito,  um quadro de pinceladas grossas com rumos esquizofrénicos entre o turbo (a urgência importada do punk) e o lento (a tela pós-rock que serve de base), o sufoco e a placidez. Nesse sentido, o álbum é um puro desassossego Linda Martini, a consequência natural de dez anos de um percurso sereno, sem delírios de grandeza e com a certeza de um código musical que, passadas as hesitações da partida, encontra a derradeira emancipação, sem ter saído da garagem. O mesmo palco de motins que concentra a ferocidade latejante de sempre, o vigor que a regenera e o rescaldo pulsante, em busca de apaziguar. Mas, afinal, é lá que dormem os ratos.

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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Justin Timberlake - The 20/20 Complete Experience


7,4/10
20/20 Experience 1 of 2 8,3
20/20 Experience 2 of 2 6,5
RCA, 2013

Depois de um hiato temporal em que investiu essencialmente na carreira cinematográfica, o regresso discográfico de Justin Timberlake foi tão mediático quanto podia esperar-se de uma figura de proa da cena musical contemporânea, sobretudo depois do anúncio de que esse retorno assumiria a forma ambiciosa de díptico. 20/20 Experience conheceu, assim, primeiro momento em Março e é agora concluído, com o lançamento da segunda parte. Enquanto intérprete e compositor, Timberlake continua a ser um dos mais proeminentes fidalgos da pop, aqui inteligentemente a não almejar a (impossível) réplica do antecessor de há seis anos, antes procurando firmar conceitos de uma filosofia sonora muito própria e sem paralelo. A procura de espaços de convergência entre a pop, o R&B ou o hip-hop, mesclados com raro discernimento, é o pedestal da charada musical de Timberlake, novamente ajudado pelo companheiro de longa data Timbaland. É inconfundível a assinatura da alquimia de um Timbo à procura de regenerar-se, depois de uma muito desgastante omnipresença em quase tudo o que era disco. É certo que a produção pode não soar tão fresca como antes, sobretudo se (injustamente) comparada com o inovador FutureSex/LoveSounds. Mas a escrita de canções está muito acima da média que se encontra nesta família de sons, entre a veneração retro dos clássicos e a modernidade orgânica.

Com Justin Timberlake a pop não é música a  viver na ansiedade do next big hit, nem tem que ser construída nos bacocos preceitos do mainstream radiofónico/televisivo. De resto, o norte-americano manteve sempre uma inteligentíssima relação com os media, cativando-os o suficiente para ter presença assídua e o oportuno destaque da sua música, sem embarcar em qualquer forma de subserviência. 20/20 Experience é mais uma evidência dessa postura e de uma forma de consagrar a música pela música, sem concessões, com respeito pelas raízes e com uma apurada noção de fazer bem. Pena é que a segunda parte do díptico tenha ficado muito aquém da primeira, reforçando assim uma noção de superfluidade que perpassa o alinhamento da proposta mais recente. Vale a excelência do primeiro tomo.

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Tiago Sousa - Samsara


7,8/10
Immune, 2013

A alma musical de Tiago Sousa esteve sempre dividida entre o improviso próprio de um artífice autodidacta, de rédeas livres, e o pragmatismo técnico de um executante culto nos ideários eruditos. Algures entre esses pólos, mora uma linguagem singular, não no sentido de ser particularmente inovadora ou excêntrica, mas sobretudo por revelar um contagiante desassossego, a que não é estranha a tal dicotomia entre técnica e devaneio. Nessa linha, a música de Tiago Sousa tornou-se, com as derivações formais conhecidas (aqui em exercício puramente individual), um veículo das suas próprias convulsões emocionais, vertidas habilmente num discurso de notas pesadas e, por isso mesmo, pejadas de espiritualidade. Era assim também nos trabalhos coadjuvados por outros músicos, mas faz-se mais evidente neste Samsara, um álbum inspirado no esoterismo "importado" da filosofia das migrações das almas das religiões orientais. Essa espiritualidade é uma evidência transversal às quatro peças do disco. O quarteto de composições partilha um vago sentido melódico, assente na já conhecida atonalidade de Tiago Sousa, a mesmíssima matéria de que ele se socorreu noutros trabalhos para nos levar a deflexões melódicas inesperadas e com que, agora, nos volta a aliciar irremediavelmente para um escapismo despojado, contemplativo e só. É de solidão que se trata, a do piano e a nossa, a das notas depositadas minuciosamente no silêncio, em progressão lenta, à procura de livrarem-se da tensão tétrica que as assombra. A luz é uma centelha distante. 

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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Jon Hopkins - Immunity


7,6/10
Domino, 2013

Conquanto já tenha feito de tudo um pouco num percurso sólido nas lides da indústria musical, seja a título próprio ou em colaborações esporádicas em inúmeros projectos, Jon Hopkins chega ao quarto longa-duração pessoal ainda na sombra do anonimato. Ou numa celebridade periférica e confinada aos limites da música dançável mais cerebral, registada nos rodapés dos créditos de muitos discos. Apesar desse desconhecimento mediático, a camaleónica condição de músico, produtor, compositor e até remisturador fizeram do britânico uma figura de rara ubiquidade desde o começo deste século, atraindo-lhe paulatinamente a curiosidade de públicos fora do nicho habitual da chamada IDM. Além disso, as repetidas associações estéticas a Brian Eno - com quem inclusivamente viria a trabalhar - ajudaram a dar incremento à revelação, culminada sobretudo na aclamação mais ou menos generalizada deste Immunity, o capítulo mais recente da evolução criativa do músico.

Com derivações pontuais, Hopkins sempre professou uma electrónica com fito na abstracção - e daí as semelhanças com Eno - embora pareçam já algo distantes os tempos em que as ideias eram formalmente mais arrumadinhas, com a ajuda de orgânicas instrumentais (ou não fosse Hopkins um pianista) que agora são menos presentes na sua música. A aposta passa presentemente por um núcleo de electrónica pura, sem resíduos de outra fonte, ao serviço de composições com o seu quê de "clássicas", mas assentes numa sobreposição de texturas mais abstractas do que antes. Ao mesmo tempo, o mundo de Immunity é tão intrincado e (pode dizer-se?) grave que não será consumo fácil, chegando a parecer um enredo tão claustrofóbico (mesmo abrasivo) de sons, sobretudo na primeira metade do disco, que quase nos desvia da sua própria essência: batidas categóricas, definição sonora equilibrada e melodia. A coisa serena, depois, com trechos mais frágeis, também mais contidos, como que ordenados num exercício de contemplação lavado em químicos. E tudo embrulhado em lentas progressões de sensibilidade cinemática que farão as delícias de alguns e parecerão, a espaços, fora do contexto para outros.

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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Julianna Barwick - Nepenthe


8,3/10
Dead Oceans, 2013

Embora seja precipitadamente colocada no pelotão da música vanguardista mais vezes do que seria prudente, talvez por força da indefinição formal que é comum aos seus discos, a obra da norte-americana Julianna Barwick é, antes, um muito contemporâneo (e tão menos "académico") manifesto de paisagismo sonoro, de formulações musicais assentes sobretudo na invocação do mais escapista preceituário de melodia. Os recursos são simples: um jogo equilibrado de sobreposições vocais angélicas, claramente a apontar a ambientes soniais, e levíssimas interferências de instrumentos, apenas para pontuar e circunscrever as esculturas de sons a métricas mais convencionais. Já era assim em The Magic Place, longa-duração de estreia, que, há dois anos, a trouxe à primeira linha da crítica, então granjeando os louvores generalizados que lhe impulsionaram a carreira. Nesse aspecto técnico, em Nepenthe, Barwick dá continuidade à fórmula e decalca o mesmíssimo sentido de transcendência no uso da voz e, partindo daí, ergue composições tão celestiais como antes e tão alegóricas, ao jeito abstracto de uma prece, que deixam uma reverberação quase perene no ouvido. E na mente sobeja uma imagética alva, suspensa em ares frios, plena de misticismo e quietude.

E esse culto quase psicótico da voz tem nova etapa sublimadora neste Nepenthe, talvez insinuando vizinhanças mais próximas do formato canção e um reforçado quinhão de matérias instrumentais, sem macular a sensibilidade do mágico jardim de sons de Barwick. O refinamento é, portanto, uma mera (e bem-vinda) formalidade. Depois, o facto de o álbum ter sido gravado na Islândia e, pela primeira vez no percurso de Barwick, se abrir à ajuda de terceiros - a saber: Alex Somers (produtor dos islandeses Sigur Rós), o colectivo de cordas Amiina, um coro feminino e Robert Sturla Reynisson (guitarrista dos Múm) - não são pormenores estranhos à construção de atmosferas glaciares, mais expansivas e serenamente cintilantes. Uma das mais belas elegias que podemos ouvir este ano.

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Drake - Nothing Was the Same


7,4/10
OVO Sound, 2013

Desde o início do percurso discográfico do canadiano Drake se percebeu que ele não correspondia à mais canónica figura de rapper, ou não houvesse um mais ou menos óbvio pendor pop nas suas composições. Isso contribuiu para a paulatina afirmação radio-friendly da sua música e para o consequente (e deveras impressivo) êxito comercial, a ponto de, em muitas circunstâncias, se ter inventado mediaticamente uma disputa entre ele e Kanye West (mais virado para 50 Cent) pelo posto de protagonista maior da família pop-rap. Independentemente disso, Drake chegou rapidamente a um El Dorado que lhe trouxe fortuna astronómica e o mediatismo que talvez não esperasse num horizonte temporal tão curto. E são precisamente os reflexos emocionais de ter-se dado de esbarro com um estilo de vida de pressão mediática e de luxo material que iluminam este Nothing Was the Same. No fundo, o disco, o terceiro longa-duração, é uma confissão ambivalente, passa pelo receio de Drake poder desligar-se das raízes, as suas (que foram sempre de classe média-alta, diga-se) e as da música que professa e, ao mesmo tempo, é uma tentativa de resgatar a integridade artística que teme ter perdido no caminho. Em certo sentido, além de ter esses propósitos introspectivos, o disco é um desengano pessoal que Drake partilha com os seguidores, tocando vários aspectos da sua vida, desde uma certa desilusão existencial, às fracturas sentimentais das relações amorosas e às vicissitudes dos vínculos familiares.

Musicalmente, este Nothing Was the Same é um pouco mais fiel à medula rap do que propriamente aos chavões orelhudos que fizeram de Drake uma estrela pop. Em tudo o resto, mantém-se a simplicidade textural que se conhecia, feita de elementos a insinuar dissonâncias mas que se encontram em simbioses improváveis e lentas. Ainda assim, a despeito de um ou outro momento luminoso (por exemplo, "Hold On, We're Going Home"), este é um disco marcado pelas luzes fuscas de uma confissão deprimida e reservada. O que não quer dizer que lhe faltem argumentos sólidos. Aubrey Drake Graham só está acabrunhado e apeteceu-lhe ser auto-indulgente.

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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Peixe:Avião - S/T


8,4/10
PAD, 2013

A bipolaridade da cena musical portuguesa tem qualquer coisa de desconcertante. Por um lado, fez-se discurso generalizado, pelo menos em alguns sectores da crítica, a marcação cerrada a um alegado imobilismo de grande maioria dos projectos musicais nacionais, como se apenas vivessem ancorados às tendências que vêm lá de fora, sem criatividade que se liberte desse pretenso cativeiro estético. É daí que nasce a inevitável (e irritante) sanha rotulista que sempre cola os músicos nacionais a semelhanças com outra qualquer coisa "estrangeira". Ao mesmo tempo, e aí mora o desconchavo, quando algum protagonista se "atreve" a inovar, portanto buscando outras dimensões criativas e linguagens, aqui d'el-rei que está a ser pretensioso e a arvorar-se intelectual. O caso dos bracarenses Peixe:avião é paradigmático dessa indelicadeza com os artistas lusos. Desde as primeiras manifestações, aplicaram-lhes levianamente o dístico de "Radiohead portugueses" - era raríssimo ler um texto sobre eles que não mencionasse Thom Yorke e a sua trupe. E se, numa fase inicial, uma consideração dessas pode ser encómio simpático e motivador, com o tempo vem a tornar-se mais onerosa (e pejorativa) do que propriamente elogiosa. Felizmente, Rolando Fonseca e companhia mantiveram-se à margem de toscas tipificações e prosseguiram um caminho que leva já seis anos e culmina, agora, no terceiro longa-duração.

Ao escutar este álbum homónimo dos Peixe:avião é imediatamente perceptível o crescimento artístico do quinteto luso, sobretudo na maturação das vontades experimentalistas que eram denominador comum das suas criações, mas raramente conheceram a extroversão com que se mostram aqui. Nesse particular, este registo é não só o melhor dos Peixe:avião como é o mais gloriosamente laboratorial, urdido numa linguagem sonora pejada de ruídos e ambientes que, mantendo a medula criativa da banda, a depurou com recurso a químicos e electrónicas (não esquecer que anda por cá o Astroboy, Luís Fernandes). A renovação orgânica faz todo o sentido nesta fase da carreira dos Peixe:avião, sendo a etapa seguinte do crescendo artístico que vêm revelando, e surge precisamente no momento em que havia o risco de estagnarem na fórmula que (bem) os trouxe à primeira linha da música nacional. Ao invés disso, aproveitaram o balanço confiante do trabalho bem feito (até aqui) para serem arrojados e inventivos como nunca, povoando as canções com sublimes excentricidades sonoras e uma interessantíssima incerteza na forma e no rumo. A música é menos imediata, é certo, mas é tanto mais surpreendente e cativante por isso. E este Peixe:Avião, a mutação mais recente da criatura musical bracarense, é um sólido candidato a disco nacional do ano. 

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Nadine Shah - Love Your Dum and Mad


7,9/10
Apollo, 2013

Embora tenha nacionalidade britânica, o seu nome faz adivinhar origens noutras paragens do mundo e a suspeita é confirmada pela ascendência dividida entre o Paquistão (pai) e a Noruega (mãe) e, ainda que residualmente, pela música de Nadine Shah. É no registo vocal que se sentem as reminiscências do ghazal, típico canto paquistanês que ela ouviu amiudadamente na infância, sobretudo na métrica arrastada, quase levitante, das palavras. Essa influência, mesmo que apenas subliminarmente presente, soma uma espiritualidade que serve às mil maravilhas o contexto musical de Shah e do seu debute discográfico, de simples e escura melancolia, de lamento de dias passados, de expurgação de feridas da alma. Por isso mesmo, Love Your Dum and Mad é um registo pesado na sua própria desolação, a despeito da leveza das composições e dos arranjos minimalistas (quase ambientais). A aposta nuclear está no magnetismo vocal de Shah, o mofino cicerone das canções que nos remetem para esconderijos não adivinhados na redundância instrumental. Marcado pelo sentimento de perda de dois amigos que puseram termo à vida durante a composição/produção do disco, um deles o autor da pintura na capa, Love Your Dum and Mad dificilmente deixaria de ter a espessura dramática que tem, servida num registo confessional que lhe rendeu inúmeros cotejos com P.J. Harvey. A comparação é imperfeita por insuficiência, há na voz de Shah alguma coisa de consternação fantasmática que não tem paralelo.

Também incontornável é a produção assinada por Ben Hillier, a envolver a voz de Shah num manto musical pautado por apontamentos incomuns, a fazerem lembrar, ao lado das guitarras, dos pianos e das percussões, um certo barroco quase industrial. Essa muito pertinente e contida extravagância ambienta a fantasia negra em que grassam os lentos tormentos de Shah. E o melhor de tudo é perceber que, audição após audição, mesmo sem uma centelha que aclare um pouco a negrura, este acabrunhado cataclismo se torna tão irresistivelmente apelativo. 

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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Boards of Canada - Tomorrow's Harvest


7,7/10
Warp, 2013

Desde o lançamento do icónico Music Has the Right to Children, no longínquo Setembro de 98, os escoceses Boards of Canada tornaram-se porta-estandartes de um movimento musical que, até esse momento, não havia transposto os limites do anonimato. Nessa edição, Michael Sandison e Marcus Eoin captaram, com os olhos postos na electrónica que ouviam, o bucolismo da Edimburgo natal, apresentando-o ao mundo num cardápio sonoro muito próximo da profusão setentista dos precursores do sintetizador, mas contaminada por uma visão moderna na essência. De então para cá, e mesmo continuando a remeter-se a um isolamento mediático pouco entendível (raras entrevistas e informações), os manos escoceses granjearam uma franja muito significativa de seguidores (melómanos) e discípulos (criadores musicais) da ciência detalhista do seu laboratório de sons e, sobretudo, da dimensão emocional da sua música. Em boa verdade, os BoC são cientistas do som que sempre deram conta de uma afinidade com o pormenor enquanto matéria indispensável à sua álgebra de construção de texturas. É de construção que efectivamente se trata, um labor de justaposição, se quisermos, de lentos crescendos que vão convocando paulatinamente a feliz afluência de detalhes e mais detalhes. Vê-se a partida, não se adivinha o destino.

Tornou-se clássica esta forma de evocar estados de alma - a tal dimensão humana - a partir de substâncias sintéticas e fazê-lo com ponderação e equilíbrio. Nesse particular, Tomorrow's Harvest é irreprensível em dois planos. Num primeiro nível, resgata a linguagem original dos BoC, aquela dos primeiros discos, depurando-a de pequenos detalhes (lá está) algo anacrónicos e recontextualizando-a nos paradigmas estéticos actuais, sem lhe denegrir a identidade, a ponto da baixela BoC se tornar imediatamente reconhecida por qualquer melómano mais atento. Como se não tivessem passado oito anos desde o último longa-duração. A outro nível, o vínculo entre os sons (os detalhes, pois claro) é do mais ambiental que a dupla fez, com a soturna simbiose de elementos do costume, mas com amplitude mais expandida, mais desprendida, quase cinematográfica, a invocar uma miríade de cenas de cinema, deste e doutros tempos, que mais não são do que alçapões emocionais de todos nós. Nessa subjectividade intrínseca, é o ouvinte que escolhe a escapatória deste caleidoscópio. 

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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

WWZ - Guerra Mundial


5,7/10
2013

O recurso ao mito dos zombies como matéria-prima para produtos cinematográficos perde-se no tempo, tal é a miríade de ofertas do género, em diversos formatos e com diferentes prismas, a ponto de pouco espaço sobrar para ideias frescas. Nestas circunstâncias, e aproveitando o embalo mediático do fenómeno televisivo The Walking Dead, surgiu este World War Z que, mesmo antes de chegar às salas, já estava envolto numa trama de polémicas que, alegadamente, chegaram a ameaçar a exibição de uma fita de orçamento gigantesco e sob a pressão resultadista dos estúdios que, inclusivamente, terão levado à substituição de guionistas, à troca do final do filme e a divergências entre Brad Pitt e o realizador Marc Forster. E se as perturbações pré-estreia da fita acabaram por servir-lhe como promoção desmesurada, também animaram uma onda de cepticismo sobre o que viria a ser o produto final, tão notoriamente inquinado pelas ingerências das corporações da indústria do cinema. Num contexto assim, percebe-se que dificilmente este WWZ escaparia a concessões comerciais que viriam a sulcar disparidades entre o resultado final e a visão original de Marc Forster. De resto, tendo na memória o compromisso artístico que marcou uma fase da carreira do realizador germânico - que tem no currículo títulos importantes como Monster's Ball, Finding Neverland ou Stranger than Fiction - fica mais evidente uma deriva mercantilista nos anos mais recentes (007: Quantum of Solace e Machine Gun Preacher) que conhece o auge neste World War Z. E a guinada não parece auspiciosa.

Enquanto artefacto cinematográfico, World War Z é essencialmente um produto visual, como é comum nos blockbusters, em que a narrativa assenta mais na cenografia do que no argumento (distante da obra literária que o inspirou). Além disso, a estafadíssima concentração da história na figura de um deus ex machina, incontornável em qualquer longa-metragem de super-heróis, sublinha as redundâncias de vulgaridade que povoam o filme. O desempenho competente de Brad Pitt não é suficiente para disfarçar a quase absoluta inocuidade de uma cadeia de personagens que se sucedem como meros acessórios. A solidez da narrativa sai diminuída de uma ligeireza dramática que não encontra o imprescindível suporte de personagens bem definidas nem de uma contextualização geográfica mais limitada. Ao situar-se num âmbito mundial súbito, o filme aproxima-se mais de uma aventura apocalíptica de grande dimensão (ao estilo 2012) do que da claustrofóbica constrição das mais felizes películas de zombies (vide 28 Days Later, de Danny Boyle). Com semelhante vagueza conceptual, não chega a perceber-se que filme é este World War Z, nem sequer o que pretendia ser e o que fica são os sobressaltos visuais de bom efeito e pouco mais. O que é o mesmo que dizer que este é apenas mais um filme de zombies.

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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Baths - Obsidian


7,5/10
Dead Oceans, 2013


Já não é surpresa a invulgaridade electrónica de Will Wiesenfeld, ou não tivesse ele gerado um sobressalto significativo por alturas do debute discográfico em 2010, na ocasião com Cerulean. A linguagem musical então apresentada era profusa na exploração de melodias fracturadas, muito próximas dos universos glitch, mas embaladas em ambientes que misturavam habilmente um sopro de negrura depressiva e a luz de electrónicas calorosas. O paradoxo estrutural do primeiro disco do californiano convenceu o orbe musical de que estava em presença de um artífice sabido nas artes da orgânica instrumental, sem dúvida, e muitas vezes a catapultar-se na ironia dos limites da saturação de sons para instilar um magote de estímulos auditivos. O contacto com Baths era, por isso mesmo, uma experiência vivida em desgastante desassossego, como não deixaria de ser qualquer tentativa de decifrar um código sonoro tão pejado de artimanhas estéticas e fundamentos. Ao mesmo tempo, atrás desse hermetismo técnico e de entre as intrincadas e pormenorizadas texturas, levantava-se uma assertividade melódica simples demais para nela se crer à primeira vista. Ora assente na intencional fragilidade vocal do autor, ora poisada nos pedaços mais amistosos de electrónica, sentia-se a alma de canções a emergir da complexidade das máquinas. Três anos volvidos e tendo vencido um grave contratempo bacteriológico que o expôs à debilidade física num passado recente, Wiesenfeld assume mais abertamente o lado negro da sua persona musical.

Se estruturalmente as peças apresentadas neste Obsidian não se demarcam dos princípios (técnicos) identitários de Baths, mormente na definição textural sempre opulenta, não é menos verdade que se revelam mais pessoais e depressivas. O que não é sinónimo de serem menos complexas. A solenidade musical de Obsidian tem par no antecessor, mas serve-se de tons e contextos mais escuros e de um laconismo maior na composição. É aí que se sente verdadeiramente a crueza intimista deste disco, tanto quanto pode sê-lo um produto artístico urdido com tamanha opacidade estética. O tom confessional é de rendição: "I have no eyes, I have no love, I have no hope" escreve Wiesenfeld algures. Aos 24 anos, não é coisa leve de cantar-se.

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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Phosphorescent - Muchacho


8,5/10
Dead Oceans, 2013


O percurso discográfico de Matthew Houck, a alma criativa por detrás da alcunha Phosphorescent, vem demonstrando inspirações cruzadas entre a música country de feição tradicional, muitas vezes servida num finíssimo (quase intangível) recorte psicadélico, e as modernas derivas da música independente americana. Nesse particular, Muchacho é porventura o registo em que mais se sente uma identidade contemporânea, ou pelo menos mais desobrigada das suas heranças; dir-se-ia que, a despeito do indisfarçável legado country que povoa as canções, este disco apura o mesmo ideário do seu antecessor. A caminhada musical de Houck, percebe-se agora, está a converter-se (voluntária ou involuntariamente, fica por saber) numa demanda pela revitalização da country, não no sentido de promover qualquer rendição por um sucedâneo de feição remoçada, mas com o fito claro de abrir-lhe frestas de modernidade e trazer essa frescura com reverência. É por isso que o exercício de Houck, mormente nos anos mais recentes, não pode considerar-se leviano. Afinal, ele respeita a escola musical que o moldou enquanto artista e que faz parte do património essencial do seu país. Que melhor forma de homenageá-la senão esta, a de emprestar-lhe outras amplitudes, a ponto de, sendo-o na alma, jamais poder dizer-se que Muchacho é um disco country?

E não o é, de facto. Além de ser perpassado por uma espiritualidade incomum em sonoridades deste tipo, Muchacho é um opus verdadeiramente exploratório, como se Houck procurasse a emancipação definitiva das referências que lhe colam repetidas vezes. E consegue-o sobretudo graças a uma riqueza textural grandiosa, suportada numa panóplia completíssima de recursos: harmonias vocais, arranjos, pianos, metais e violinos. Este desenvolvimento orgânico é o derradeiro atestado de maturação artística de Houck como Phosphorescent. Se não restavam dúvidas de que ele sempre fora capaz de tecer belas canções, a arrumação de sons deste Muchacho vem somar outro mérito: o de as adornar com raríssima acurácia. E torná-las ainda mais sedutoras com isso.

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sábado, 7 de setembro de 2013

My Bloody Valentine - m b v



8,3/10
Edição de autor, 2013


Pousado que está o imenso pó mediático sacudido pelo retorno dos My Bloody Valentine no início do ano, é hora de olhar este regresso de Kevin Shields e compinchas. A notícia de um novo disco, após vinte e dois anos sem trabalho de estúdio, tomou de surpresa os fiéis correligionários e também aqueles que, mesmo não tendo testemunhado a importância dos irlandeses à época (finais da década de oitenta e princípio dos 90's), depressa engrossaram o contingente de curiosos. Não parece possível dissociar o novo opus do fosso temporário que o separa dos seus antecessores, ou não fosse esta a era do digital e da proliferação copiosa de novas linguagens e projectos musicais que alimentam um consumo tão voraz pela novidade que, na maior parte dos casos, apenas encurta a vida útil de um disco, tornando-o tão rapidamente descartável quanto o tempo até à chegada da next big thing. Nessa sofreguidão, sobretudo nos vínculos cada vez mais disseminados de públicos com artistas, dificilmente os MBV almejariam a replicar o impacto quintessencial que tiveram antes. Lembre-se que eles foram precursores de um género rock que abusava de distorções e reverberações, um som cru e áspero, mas com envolvente sentido melódico a que as convenções colaram alguns rótulos. Shoegazing e noise rock talvez fossem os mais apropriados.

Volvidas duas décadas, o melhor elogio que pode fazer-se a m b v é dizer que o tempo não adulterou o som de Shields e seus pares com modernidades despropositadas. E isso é o mesmo que assumir que, ao escutar este novo registo retendo na memória os antigos, melhor se percebe como estes eram genialmente vanguardistas. As praxes assinadas no intemporal Loveless são repescadas aqui e não sobeja qualquer sensação de anacronismo; afinal, também parece que não existe um intervalo de tempo tão amplo a separar os dois álbuns. É numa confortável contemporaneidade que renasce a identidade dos My Bloody Valentine: m b v é o triunfo do ruído, da densidade guardadora de segredos infindáveis, da guitarra esdrúxula, da androginia das vozes espectrais. Desvendar isto tudo é coisa hercúlea, mas vale o esforço.

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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Chelsea Wolfe - Pain is Beauty



7,6/10
Sargent House, 2013


A californiana Chelsea Wolfe é, hoje, figura de proa de um ideário musical que, à falta de definição menos simplista, se pode apelidar de folk tétrica experimental. Com efeito, é na estruturação tradicionalista da folk que a norte-americana recolhe a cartilha inspiradora de uma fatia muito significativa do seu cancioneiro, no mesmo jeito dos primeiros registos da britânica PJ Harvey, mas com derivações diferentes na substância. No lugar em que Harvey deposita linguagens abertamente rock, Wolfe emprega experimentalismo gótico. É tudo uma questão de interpretação da mesma causa confessional, dos seus fundamentos criativos, e nela se esgotam as simetrias Harvey/Wolfe. Além do mais, este Pain is Beauty é tão assertivo na separação de águas que, não só esbate comparações, como radica Chelsea Wolfe no papel de trovadora do sombrio, definitivamente emancipada do ventre folk. Parecem cada vez mais distantes os tempos de rendição ao minimalismo e a uma noção esqueletal de canção negra; mais do que confiar na fórmula guitarra/voz da colecção acústica que antecedeu este álbum (ou dos primeiros registos), Wolfe matura as canções com ambientes instrumentais que lhes robustecem o pendor gótico, mantendo guitarras medulares, mas quase asfixiadas. Cura para os indefectíveis que não farão júbilo das orquestrações mais expansivas ou das aparições da electrónica. O crescimento artístico não agrada a gregos e troianos.

E é de crescimento que se trata, de facultar valências novas à crueza da sua música sem aviltar o postulado original: a genuína crença no romantismo do sofrimento e na coexistência do bonito com a dor que é transversal à obra de Chelsea Wolfe. Ao mesmo tempo, Pain is Beauty é indiscutivelmente o opus mais acessível do seu cardápio discográfico, o que não quer dizer que haja aqui concessões de qualquer ordem. A música continua a ser uma oportuníssima mescla de fausto e vulnerabilidade, de tensões negras e desalento e é nessa promiscuidade emocional que encontra o seu equilíbrio. Mesmo que com uma excentricidade renovada.

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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Noiserv - A.V.O.



7,4/10
Edição de autor, 2013


Nem o próprio David Santos imaginaria que, volvidos sete anos das primícias do universo Noiserv, a sua identidade musical tivesse o protagonismo mediático que tem, tampouco que se houvesse erguido uma impressionante falange de seguidores, algo bem patente nos inúmeros concertos dados um pouco por todo o país. A coisa ganha contornos mais surpreendentes se tivermos em mente que a música do lisboeta não é matéria mainstream e nunca o poderia ser, de resto. Desde o primeiro momento, o espaço Noiserv está vinculado a uma esfera intimista que não é própria de produtos de massas; há muito de expurgação emocional do indivíduo - do próprio David Santos ou de outro qualquer, numa vertigem quase obsessiva de sublimação do eu, olhando-se a si e olhando os outros (por exemplo, a mesma fatalidade de Francisco Lázaro, o carpinteiro corredor falecido aos 24 anos, depois da maratona olímpica de 1912, que inspirou José Luís Peixoto n' "O Cemitério de Pianos"). O emprego do pronome "I" é eloquente (mais de quarenta vezes, nas dez canções deste A.V.O.) sobre esse propósito, o que não deve confundir-se com egolatria fátua. Pelo contrário, está sempre subjacente uma ânsia de entender o mundo na sua complexidade, partindo do que tem de mais simples para insinuar uma terapia sem artifícios. Tão despida (na essência) como a música de David Santos.

É irrefutável o crescimento artístico neste segundo trabalho (álbum) como Noiserv, em torno do mesmo ideário estético que já se conhecia, com as mesmas singularidades: a guitarra é o edifício principal, o discurso regente. A par dela, os teclados e demais recursos - e sabe-se que David Santos deita a mão a tudo o que tiver teclas! - circunscrevem a melancolia e somam-lhe interjeições de inocência e esperança. Como se a felicidade fosse, afinal, uma coisa tão tangível como estas canções. Por fim, e a despeito da ténue sensação de redundância que perpassa este Almost Visible Orchestra, é impossível não aderir à sua tímida honestidade.


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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Disclosure - Settle


8,1/10
PMR/Island, 2013


Tomada de assalto por uma onda revivalista como há muito não se via, a cena electrónica britânica vem apadrinhando o recrudescimento de uma safra dinâmica de novos protagonistas que tem nos Disclosure, mormente desde o EP The Face do ano transacto, um dos principais estandartes. De então para cá, e no coro talvez precipitado de aclamação que se ergueu desde a publicação deste Settle, os jovens irmãos Howard e Guy Lawrence assistiram à sagração da sua música na primeira linha da tão ansiada renovação. Se ela é efectivamente lançada é discutível e o tempo será testemunha do que há-de vir; bem vistas as coisas, mesmo não se movendo numa linguagem musical estruturalmente inovadora - é a métrica do house que domina no alinhamento -, as úteis reminiscências de outras eras, agora amalgamadas com inputs mais modernos, produzem uma mescla que tem tanto de pop como de cativante na sua própria versatilidade. Ponto forte: a cadência do disco é impactante, a remeter qualquer ouvinte mais informado para a reconversão de sons julgados extintos ou caídos em desuso e que, afinal, não perderam vitalidade. Nesse particular, os Disclosure têm dois méritos. O primeiro, é o de se assumirem - mesmo que na inconsciência da sua tenra idade (19 e 22 anos) - como fiéis depositários de uma doutrina tão cara à música do seu país. O segundo, e ainda mais importante, o de não se limitarem à mera reverência desse património inestimável e se atreverem a devassá-lo  respeitosamente com um fino recorte de modernidade.

É por isso que mesmo nos momentos em que Settle é mais atávico, nunca chega a soar a erro cronológico. E nem é preciso invocar o extenso rol de colaborações (Jesse Ware, Jamie Woon, Sam Smith, Eliza Doolitle, os AlunaGeorge e Ed McFarlane dos Friendly Fires) para perceber a contemporaneidade do disco. Uns chamar-lhe-ão retro, outros verão nas composições um oportunismo resultadista a pensar nas tabelas de vendas, mas a verdade é que um dos discos mais falados do ano. Talvez não seja a obra magna que precocemente tem feito salivar grande parte da crítica especializada, mas é um produto sólido, fresco e cheio de vida.

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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Youth Lagoon - Wondrous Bughouse


8,0/10
Fat Possum, 2013


Muito já se discutiu sobre a importância da capa de um disco enquanto parte indissociável da integridade do produto artístico e, também por isso, uma variável importante na identificação do ouvinte com o conteúdo. Em certa medida o crescendo imparável dos formatos digitais veio a mitigar esse papel e, hoje, muitos consumidores de música prescindem da capa e nem chegam a conhecê-la senão esporadicamente. No caso do segundo registo de Trevor Powers, o norte-americano atrás de Youth Lagoon, a simples observação da capa, sobretudo em comparação com a do antecessor, anunciaria uma fractura qualquer. No lugar da rigidez que era então intuída na imagem austera de uma escarpa tocada por um arco-íris tímido, mora agora, neste Wondrous Bughouse, um delírio esfuziante de cor e surrealismo. Sendo Youth Lagoon uma identidade musical tão carregada de dimensões imagéticas, o contraste estético não seria inocente: é claro que o disco corporiza uma viragem musical, talvez não tão radical quanto as capas apregoavam, mas com cambiantes consideráveis. Quem esperar um tratado minimalista como foi The Year of Hibernation, desengane-se: a música deixou de ser caseira e envergonhada. A expansão é notória, de tal forma que o intimismo é trocado por uma sonoridade de corpo declaradamente psicadélica e bem texturado. De entre as paredes do quarto para o cosmos.

A nota mais curiosa é que, a despeito de serem servidos por uma produção mais enriquecedora e densa do que antes e de terem um propósito essencialmente escapista, os trechos deste Wondrous Bughouse não hipotecam aquela inocência retraída do debute, antes a fazem crescer em metáforas espirituais que se sentem como o bizarro exorcismo de uma alma à procura de redimir-se da sua própria banalidade e de um mundo em que descrê. E essa viagem é desconcertante nas suas multidimensões, ora magicamente pueril, ora de alucinações venosas. E tantas camadas de som e arranjos quantas as imagens que insinuam na mente; produz-se uma contida e maravilhosa insanidade, uma torrente hipnagógica que toma de assalto a mente e não mais a abandona, em inquietante visita ao lado negro. Como a face mais escura de nós consegue ter tanta cor como em Wondrous Bughouse é um mistério que fica por decifrar.

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