sábado, 29 de março de 2008

Meshuggah - ObZen

7/10
Nuclear Blast
2008
www.meshuggah.net



Se há coisa que os suecos Meshuggah refinaram com o tempo - e eles já estão nestas andanças há mais de vinte anos - é uma inventiva aptidão para melhorarem o seu registo sonoro a cada momento discográfico, movendo-se entre os inúmeros estímulos que o universo metal tem para oferecer. Nesse particular, assumem especial protagonismo o líder criativo da banda, Fredrik Thordendal, notabilizado pelo recurso a guitarras de oito cordas para concatenar sequências de acordes únicas e definidoras de múltiplas identidades, e Tomas Haake, maestro da secção rítmica, cujas descargas e desabamentos da bateria arrumam as várias "caras" dos Meshuggah num determinado contexto estético. Desde as primeiras manifestações destes escandinavos se percebeu a prevalência pelo investimento em causas pouco convencionais, no fundo uma saudável convicção de que nas margens dos paradigmas de estilo e, sobretudo, nos espaços comuns entre as diversas "escolas" metal, subsistem muitos vectores de inspiração. Assim, tornou-se notada a forma como os Meshuggah paulatinamente cresceram, mormente a partir da obra-prima Destroy Erase Improve (1995), para um magnífico híbrido entre as urgências monstruosas do trash, a estruturação com coordenadas progressivas, os ambientes quase-industriais e a inconstância rítmica do math metal. Dir-se-ia que a maturação de Thordendal, Haake e seus pares subjugou o preconceito histórico de que qualquer produto metal seria um exercício de boçalidade e, por inerência, jamais se permitiria qualquer veleidade intelectualista. Eles, não só serviram máquinas musicais de quilate novo, claramente elevando níveis face à concorrência, como redesenharam o panorama metal ao inscreverem-se num género próprio, sem fronteiras e esteticamente muito sólido e coerente. Inclusivamente, tiveram a argúcia de agitar as águas quando parecia instalar-se um certo formulismo, renovando a temporização das suas canções, primeiro no EP I, de 2004, com uma peça única de vinte e um minutos e, depois, no álbum Catch Thirty-Three (2005), onde dividiram quase aleatoriamente, em treze pedaços, uma composição una de quarenta e sete minutos.

ObZen, sexto registo, abre com as detonações trash de "Combustion", desviando o foco para o vigor e potência, ao lado do costumeiro contorcionismo rítmico da banda. A tendência espalha-se ao restante alinhamento, num registo porventura mais directo, frenético e maquinal do que noutros capítulos dos Meshuggah, mas não menos técnico e preciso. "Bleed", terceiro trecho do disco, é sintomático do dinamismo asfixiante - escute-se a singular dimensão do enlace entre guitarras e percussão (aqui sem os fetichismos electrónicos do álbum anterior) - e da declaração de ferocidade imprimida neste trabalho. Ao mesmo tempo, a despeito de ser um disco estruturalmente mais "tradicionalista" - há menos espaço para a desconstrução de formas e, aí, o álbum pode deprimir algumas ilusões dos indefectíveis da banda - a marca única dos Meshuggah é-lhe transversal, seja nas aparições pontuais de experimentalismo melódico ou nas secções progressivas das composições. E, sendo um Meshuggah, não há assunto sem emoções fortes.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Foals - Antidotes

8/10
Transgressive Records
Sub Pop
2008
www.wearefoals.com



Depois de se ter apresentado ao mundo discográfico com uma tríade sólida de singles ("Hummer", "Mathletics" e "Balloons", apenas o último está no alinhamento do álbum), no ano transacto, e de fazer furor no mítico festival de Reading - onde, actuando num palco secundário e sem música editada, cativou a atenção da crítica - o quinteto inglês Foals apresenta, em disco de estreia, a sua transgressão musical, um generoso híbrido que faz conjugar as tendências contemporâneas do rock britânico (leia-se Arctic Monkeys, Klaxons ou Franz Ferdinand), o pulso acelerado de composições feitas para dançar e uma certa angularidade importada das escolas "matemáticas" de rock. De semelhante mistura, facilmente se adivinharia o semblante festivo do disco, sublinhado pela singular confluência entre a secção rítmica, com cadências muitas vezes a roçar a agitação techno, e as guitarras. Nestas, sobretudo na apetência pela circularidade e pela repetição (também em paralelo com a tal afinidade pelo math), se percebe porque é que a banda aponta Steve Reich como uma fonte de inspiração. Em tudo o mais, o experimentalismo de Antidotes traveste-se de disco pop não convencional, mormente nos trejeitos vocais mais "previsíveis" de Yannis Philippakis (pastiche de Kele Okereke?) que, por vezes, desviam as canções para órbitas assimétricas com o som cifrado da parte instrumental. Trata-se, afinal, de afirmar uma postura não ortodoxa, quase "académica", de erigir canções, ao jeito dos produtos concentrados dos americanos Battles, e somar-lhe, depois, o magnetismo da melodia ligeira (esse é o jogo de Philippakis) e sem segredos. E, no fim, o distinto debute de Antidotes vem provar que há nos Foals potencial para combinar técnica, forma e musicalidade com resultados de excepção.

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quarta-feira, 26 de março de 2008

Suspiros de metralhadora...

Em dia de regresso a Portugal - estão hoje no Porto e amanhã em Lisboa - aqui fica a apresentação do novo álbum dos britânicos Portishead, Third, a pouco mais de meio mês da sua chegada aos escaparates. Chama-se "Machine Gun" e desvenda o mesmo fôlego claustrofóbico e angustiado que celebrizou Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley, aqui servido num interessantíssimo pendor minimalista e sem elementos acústicos. E o resto do álbum - que terá nota de destaque proximamente no apARTES - não deve nada a este primeiro avanço. Suculento...

segunda-feira, 24 de março de 2008

Why? - Alopecia




Se inicialmente a sigla Why? era apenas a máscara mediática do prolífico Yoni Wolf (um dos fundadores do selo Anticon, da California, e protagonista de incontáveis parcerias artísticas), o conceito foi progressivamente abraçando um alinhamento regular de músicos, vindo a tornar-se uma banda de corpo inteiro no segundo longa-duração (Elephant Eyelash, de 2005), com Josiah Wolf (irmão de Yoni, bateria), Doug McDiarmid (multi-instrumentalista) e Matt Meldon (guitarra). Não raras vezes, o laço umbilical de Yoni à Anticon (ou ao colectivo cLOUDDEAD) trouxe ao quarteto californiano rotulações equívocas, mormente aquelas que os agregaram à turba do underground rap - afinal, o grosso do catálogo Anticon vem dessa órbita - quando, na essência, o conceito Why? nunca deixou de ser um projecto verdadeiramente indie, com alguns destinos de vanguardismo rap (ou mesmo spoken word), é certo, mas com outras substâncias somadas de permeio. A verdade é que, mesmo tratando-se de um som normalmente pouco cifrado (e, consequentemente, acessível), a música dos Why? é um híbrido de difícil catalogação, um batel navegando nas águas incertas da experimentação em linguagens indie-rock, com miradas a um certo intimismo melódico tangente dos paradigmas pop-folk ("Fatalist Palmistry" é o melhor exemplo disso), ou incursões por uma espécie de intelectualismo hip-hop.

O resultado, particularmente na galeria de imagens deste Alopecia, é ambivalente: ora harmónico, íntimo e sonhador ("Song of the Sad Assassin"), ora abstracto, inquieto e desafiante ("Good Friday", auge do disco, ou "The Hollows"), ou as duas coisas ao mesmo tempo (escute-se, a esse nível, a belíssima "Simeon's Dilemma"). Em todo o caso, a despeito das inconsistências e obliquidades que, bem vistas as coisas, compõem a entidade Why? (por essas e por outras, uma personalidade musical assim porosa nunca terá um disco genial), o disco revela ápices de encanto que dificilmente encontram paralelo noutros actos da cena artística actual. E esse mérito não pode tirar-se às paixões camaleónicas de Yoni Wolf.

The Vicious Five - Sounds Like Trouble

7/10
Edição de autor
Lisboagência
2008



Depois de um início de percurso algo titubeante - dir-se-ia que próprio de quem sorvia com alguma desordem as coordenadas da cartilha punk de predilecção - os The Vicious Five apresentam, ao terceiro disco, uma incontornável maturação de princípios. Desde os primeiros acordes de Sounds Like Trouble se percebe que, sem prejuízo da sua visceralidade intrínseca, o rock destes intrépidos lisboetas desvenda amplitudes diferentes, não só por se pautar por uma estruturação distante da urgência rudimentar do punk, mas sobretudo por arriscar as medidas do rock de massas, necessariamente musculado e com um pendor melódico ligeiramente mais angular. Para o estádio. Isso não quer dizer que a trupe de Joaquim Albergaria faça concessões a qualquer facilitismo; será, antes, evidência do natural crescimento da banda, da consequente depuração do processo criativo, da dispensa de impurezas e, no final, de uma crueza diferente. Até a voz de Albergaria aceitou esse crivo de amadurecimento e, no lugar do desenfreado brado de outrora, surge agora um registo igualmente intenso mas mais seguro e consistente, como quem percebeu que para ser insurgente não tem que se berrar por dá cá aquela palha. E não é por isso que Sounds Like Trouble deixa de ser um frenético (e suado) porta-voz de uma geração desencantada consigo mesma, mas com o sarcástico alento para fazer disso uma festa a resvalar para a imoderação. Com um sorriso de escárnio, o convite fica feito. Requisito único: saltar até moer o esqueleto...

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domingo, 23 de março de 2008

Hercules and Love Affair - Hercules and Love Affair




Se o panorama actual da música de Brooklyn se tem notabilizado pelo recrudescimento de uma impressionante colheita de novos projectos de rock independente, isso não quer dizer que, nas sombras desse movimento afirmador da vitalidade criativa da cidade, não caibam outros géneros musicais. Prova disso mesmo é o fresquíssimo entusiasmo em torno do projecto Hercules and Love Affair, de Andrew Butler. Ele é um DJ e promotor de eventos que, antes de chegar ao conhecimento de Tim Goldsworthy, um dos "patrões" da DFA, tinha já um caminho percorrido na culture club nova-iorquina. Entre inúmeras festas e mostras da sua actividade de DJ, Butler foi abrindo espaço a criações originais que, agora, chegam à forma de disco, depois de um par de singles editados. Se, inicialmente, o vinil 12" Classique #2/Roar, empoladamente lançado pela DFA, no final do ano transacto, como produto de uma estética "euphoric disco", passou praticamente despercebido aos públicos fora do orbe da música de dança, foi com "Blind", vocalizado por Antony Hegarty (ele mesmo, dos Antony and the Johnsons), que o conceito Hercules and Love Affair veio a merecer a curiosidade de mais gente. A servir de aperitivo para o álbum que agora nos chega, a canção desvendava genuínos sabores retro, com as batidas cíclicas da disco e discursos de sintetizador e um registo de Antony arrumado num cenário bem diferente daqueles que dera a conhecer antes, ou a título pessoal ou nas inúmeras parcerias que assinou nos últimos anos (Lou Reed, CocoRosie, Joan as a Police Woman, Rufus Wainwright, Current 93). Terá sido, de resto, o facto de Antony emprestar a sua voz a metade dos trechos do alinhamento da homónima estreia em disco de Hercules and Love Affair que aproximou deste disco, além dos adeptos incondicionais da música electrónica e de dança, uma falange de curiosos e habituais consumidores de outras estéticas. Depois, o pormenor do disco ser apadrinhado pela DFA, um dos mais entusiasmantes poisos de artistas da actualidade, ajudou a exponenciar curiosidades sobre as reais virtudes das criações de Andy Butler quando passadas à forma de álbum.

A esse propósito, Hercules and Love Affair não esconde fundações genéticas de clara nostalgia disco, recuperando uma moldura estética mal-amada no seu tempo mas que, fruto de fôlegos regeneradores pontuais, não só nunca deixou de contaminar as criações electrónicas de cada época, como ciclicamente renovou a sua actualidade. Percebendo a oportunidade de usar a nostalgia por essa estética e reinventá-la com um upgrade de minudências técnicas e, sobretudo, uma proveitosa inclinação pop, Butler confere ao projecto Hercules & Love Affair a ambivalente condição de juntar saudosismo e contemporaneidade. Se juntarmos a essa inesperada dinâmica, a capacidade mutante que as composições revelam (sempre no formato disco) e as mudanças de registo vocal (além de Antony, a heroína da nova soul Nomi e Kim Ann Foxman também cantam), Hercules and Love Affair tem todos os condimentos para saciar melómanos de qualquer quadrante. Mesmo aqueles que franzem o nariz aos sons disco...

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sábado, 22 de março de 2008

Devotchka - A Mad & Faithful Telling

7/10
Anti
2008
www.devotchka.net



Quem ouve a excêntrica charanga instrumental dos Devotchka pela primeira vez, dificilmente os associa aos sumptuosos cenários rochosos do Colorado, tal é a aparente incongruência estética entre a nacionalidade do quarteto e a fórmula musical que subscrevem. Seja pela versatilidade da formação musical de cada um dos integrantes do grupo - cada um deles se expressa em mais do que um instrumento - ou pelas improváveis afinidades com o folclore gitano dos Balcãs, a música eslava, a festividade mariachi, a canção grega de câmara, ou mesmo as distantes descendências da folk americana, a verdade é que a música dos Devotchka não tem rótulo único. Mediatizados sobretudo depois do convite para musicarem o filme Little Miss Sunshine (no mercado luso, Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos, de 2006), os arrojados americanos viram crescer à sua volta um mini-fenómeno de culto que, não só buscou os discos anteriormente editados (com especial enfoque no impressivo How it Ends (2004), quarto título do seu percurso), como ergueu paulatinamente uma interessante onda de expectativas face a um novo álbum. Depois de aguçarem apetites com um EP de covers (Curse Your Little Heart, de há dois anos), os Devotchka mostram-se, neste A Mad & Faithfull Telling, fiéis a si mesmos e à sua verve única. Além deles, talvez apenas Eugene Hütz e os seus burlescos Gogol Bordello, prestem, com raízes em terras americanas, tão verosímil homenagem à universalidade da música e ao interesse em deixar o acto de criação musical ser polinizado por quaisquer estímulos e afinidades, mesmo que eles venham de culturas e heranças sociais remotas.

A Mad & Faithfull Telling é, portanto, novo capítulo sem centro geográfico, tão nómada quanto a música cigana que é a sua luminária primaz, e onde as canções bebem pontualmente das influências étnicas que mais a preenchem, desde as melancolias da pop "clássica" grega, do colorido instrumental das brass bands e do klezmer do sudeste europeu, da musette francesa, do spaghetti western, da singeleza acústica dos fantasmáticos olores folk. No final, escutado mais este périplo aventureiro e sem grandes cuidados formais dos Devotchka, percebe-se que o trabalho pioneiro de gente como Ry Cooder, Peter Gabriel, Jah Wobble ou David Byrne - eles foram, afinal, dos primeiros a fazer escalas musicais noutros pontos do Globo - continua a ter seguidores e protagonistas nas novas gerações. E que as ondulações da magnífica secção de cordas e as medidas cinematográficas dos Devotchka são, hoje por hoje, uma das melhores e mais apaixonadas fontes de "música do mundo" feita nos E.U.A.. Da balada confessional ao paradoxo de uma pândega quase ébria, tudo cabe no ideário de A Mad & Faithfull Telling. Os melómanos agradecem a sinceridade.

terça-feira, 18 de março de 2008

Rita Redshoes - Golden Era

7/10
Anjo da Guarda
iPlay
2008
www.rainbowmaker.blogspot.com



Quando se apresentou aos grandes públicos em passinhos de lã, com o interessante cartão de visita que foi "Dream On Girl", poucos se lembrariam do "estágio" de Rita Pereira nos entretanto esquecidos (e discretos) Atomic Bees e alguns tê-la-iam já visto ao piano, nos mesmos palcos de David Fonseca. Para trás estavam também anos de tirocínio artístico e um laboratório de episódicos capítulos noutros projectos musicais, a sustentaram a maturação (e consequente afirmação no espaço mediático) de uma identidade que se mostra como Rita Redshoes. Trata-se, sobretudo, de um alter-ego a que os anos de concertos e estúdios conferiram uma definição musical sem presunções nem pedantismo e onde se manifestam "deformações" académicas (o gosto pelo piano é uma delas) na hora de escrever, um cuidado no detalhe das formas (a produção é luminosa) e uma genuína assinatura de intimidade e realismo. A rematar esse compromisso de subjectividade do disco (leia-se, centragem na consciência), Rita empresta às canções uma voz que faz melodia de histórias do quotidiano e de múltiplas imagens do amor. O resto é-nos dado pela viveza das composições, melhores na musicalidade do que nas letras - a esterilidade pontual de alguns lugares comuns é um ponto em desfavor - mas essencialmente demonstrativas de um frescor pouco comum cá no burgo, um misto de candura folk feminina, fragrâncias rock, quimeras de coros pastorais e orquestras de bolso. No final, sobra um estilo pessoal que, mesmo não ficando a salvo de um ou outro cliché, estabelece Rita Redshoes como uma das mais suculentas revelações lusas para este ano. E Golden Era como um muito competente registo de debute.

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segunda-feira, 17 de março de 2008

Autechre - Quaristice

6/10
Warp
2008
www.autechre.ws



Embora nas edições mais recentes do selo Warp se encontrem alguns mediáticos desvios estéticos (!!!, Battles, Maxïmo Park ou Jamie Lidell, por exemplo) ao seu corpo editorial "tradicional" - no que pode ser visto como uma segunda página do cardápio, claramente sem o sublinhado das electrónicas - a verdade é que o grosso dos lançamentos da editora inglesa continua a abrir espaço para ousadias de experimentalismo electrónico, com o mesmo espírito pioneiro dos primeiros dias. Com quase vinte anos de ímpar afirmação junto de uma extensa legião de melómanos devotos das linguagens sintéticas mais eruditas e excêntricas, a Warp viria a tornar-se o berço desbastador da criatividade de muitos artífices que têm hoje (ou tiveram) "peso" no universo da electrónica, casos de Richard David James (Aphex Twin, AFX, GAK, Q-Chastic), Dj EASE (Nightmares on Wax), Mark Bell (LFO), Mike Golding e Steve Rutter (ambos no conceito B12), Richie Hawtin, Alex Paterson (The Orb), Andrew Weatherall (The Sabers of Paradise, Two Lone Swordsmen), Tom Jenkinson (Squarepusher), Scott Herren (Prefuse 73, Savath & Savalas), os Antipop Consortium, os Black Dog, entre muitos outros. Dessa extensa lista constam também os nomes de Rob Brown e Sean Booth, parceiros criativos da dupla Autechre (fundada em 1987), dois dos mais sonantes intérpretes da esfera IDM (Intelligent Dance Music) e da electrónica abstracta.

Quaristice, nono registo da dupla de Rochdale, encontra-os na segurança de um som apurado ao longo dos anos, assente sobretudo em estruturas rítmicas de alguma complexidade, no devaneio de alheamento sci-fi do costume e no desprendimento formal (ou desconstrução?) que os torna inconfundíveis. Sem agravo da eficácia do disco, há sombras de um saudável revivalismo, de nostalgia do tempo em que a música para mexer os neurónios pouco mais era do que um mero produto especulativo, clandestino e pessoal. Nesse particular, os Autechre guardam uma irrepreensível fidelidade à sondagem de novos limites para a experimentação electrónica (depois de uma génese essencialmente vocacionada para a techno), erguendo-se como uma das mais dinâmicas forças da electrónica para ouvir e pensar. Assim também Quaristice se faz em visitas demoradas e pausadas, pese embora a invulgar (na discografia Autechre) urgência dos trechos, poucas vezes acima dos quatro minutos, e a extensão do alinhamento (duas dezenas de faixas!). Danos na coesão? É verdade que sim, mesmo olhando à definição pouco consensual de harmonia dos Autechre. Em tudo o mais, o álbum é nervoso, agitado, convulsivo e embaraça-se, aqui e ali, em indecisões de fôlego e pulso. Aquilo que fora a mágica arte do sublime Tri-Repetae (1995), obra magna da dupla, assemelha-se aqui a um espelho de hesitações, onde se reflectem fragmentos menos magros do que parecem à primeira audição mas, ainda assim, marcados pelo desconforto de fins abruptos ou de divagações sem rumo. Mais melódicas e amplas, também menos cifradas na construção, as faixas de Quaristice deixam à produção a incumbência de disfarçar prolixidades, incertezas e desarmonias do alinhamento. E embora a coisa até saia muito bem camuflada atrás de algumas vinhetas bem urdidas ("Altibzz", "Rale" e "Tankakern" são as novas bandeiras do vanguardismo "típico" de Brown e Booth), não se chega a ouvir o disco que, vencidos três anos de silêncio, se esperava dos Autechre.

Posto de escuta AltibzzIRaleITankakern

sexta-feira, 14 de março de 2008

The Kills - Midnight Boom

7/10
Domino
2008
www.thekills.tv



Se questionarmos racionalmente as potencialidades criativas que se podem extrair do trinómio voz/guitarra/máquina de beats e, sobretudo, a longevidade de uma fórmula musical que se alimenta apenas dessas substâncias, impõe-se creditar ao par anglo-americano The Kills o reconhecimento da sua persistência. Justiça lhes seja feita, então: Jamie "Hotel" Hince e Alison "VV" Mosshart não só se têm mantido fiéis a uma cartilha punk blues minimalista e de garagem, como têm sido capazes de contornar as limitações estéticas da sua própria composição instrumental ao assegurarem um substrato de originalidade e insurreição em cada disco. Em paralelo com a rebeldia demonstrada na hora de escrever canções, o duo assumiu repetidamente uma postura de confrontação face àquilo a que chamaram o corporativismo editorial e às normas "protocolares" de comportamento de um artista. Não se estranha, portanto que, ao terceiro título do seu percurso, os The Kills sejam ainda orgulhosos enfants terribles do orbe rock, pouco dados a entrevistas e ao contacto com os públicos, bem como a conflituosa convivência que vêm mantendo com a comunidade crítica, alimentado ódios de estimação e namoros pontuais.

Em termos estritamente musicais, Midnight Boom desvenda uma certa inflexão de estilo, especialmente se comparado com o seu antecessor - e mais monocromático disco da dupla - No Wow. No novo opus detecta-se, desde logo, um cuidado acrescido na produção: por detrás do habitual registo "sujo" dos The Kills, há lugar para vozes mais trabalhadas, para a introdução pontual de palmas e percussões com mais estrutura e isso empresta às composições outro corpo e, sem dúvida, um alento para experimentar órbitas estéticas novas. Na essência, ainda que Midnight Boom não perca de vista paridades com o histórico rock insurgente, sexy e visceral de VV e Hotel, acaba por decifrar prioridades distintas, onde as máquinas e os sons de síntese dobram as guitarras, sob o pano de polir. É assim, mais urbano e de sanhas domadas, que se faz o novo álbum. E nesse registo simultaneamente mais suculento (os tais pormenores da produção) e mais vocacionado para redesenhar a firmeza das canções, reside, afinal, a alma que os The Kills sempre tiveram: as afinidades com a urgência punk e os blues primários, os amores platónicos com o noise, a sedução da pista de dança (Armani XXXchange, produtor dos emergentes Spank Rock, plastifica as beats do disco) e doutrinas de hedonismo. E com altivas construções como a dançante "Cheap and Cheerful", a pop ímpia de "Tape Song", a minimalista "Black Balloon" ou a sensual "U.R.A. Fever", nem é preciso subir os dBs do amplificador para descobrir que a verve instável dos The Kills não depende da forma. Tem vida própria.

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quinta-feira, 13 de março de 2008

MGMT - Oracular Spectacular

7/10
Red Ink
Columbia
2008
www.whoismgmt.com



Começa a ser motivo para teses sociológicas o aparecimento de uma linhagem contemporânea (e crescente) de músicos em Brooklyn, a maior parte dos quais fiéis a compromissos estéticos presos a coisa nenhuma e marcados, sobretudo, pela definição de novas amplitudes para a expressão indie. Centro nevrálgico de alguns dos mais estimulantes conceitos da música nova-iorquina actual (Yeasayer, Animal Collective, Vampire Weekend, Au Revoir Simone ou The Cloud Room, por exemplo), o condado de Brooklyn é também a casa "emprestada" dos MGMT (acrónimo de management), conceito artístico que Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden iniciaram há cerca de seis anos e que, saltou para o mediatismo, com o lançamento do EP Time to Pretend, no início de 2005. De então para cá, a afirmação dos MGMT foi imparável: concertos de abertura para os Of Montreal, contrato discográfico com a Columbia, reconhecimento de algumas das publicações mais relevantes do mundo jornalístico ligado à música, álbum de estreia - precisamente este Oracular Spectacular (lançado digitalmente no final de 2007) - generalizadamente aclamado. E o que tem o álbum destes rapazes de tão especial para gozar entronização tão súbita?

Em linha com algumas das tendências mais recentes de Nova Iorque, os MGMT demonstram vontade de não barrar, ao acto de criação musical, qualquer subterfúgio estético. Dir-se-ia que, a esse propósito, aquilo que Goldwasser e VanWyngarden tão prosaicamente embrulham no trio de palavras que dá rótulo à sua música (vide Myspace) - Surf, Jungle, Country - não é mais do que a jocosa tentativa de abreviar uma massa sonora tão deliciosamente livre e completa que dificilmente qualquer classificação deixaria de ser redutora. De facto, Oracular Spectacular começa por deliciar pela luminosidade que põe na mescla de rock espacial e psicadélico (as guitarras são o trunfo), com pitadas dos melhores momentos do glam e da pop sintética e colorida (aqui valem os sintetizadores). É aí que se centra o nervo do disco, a ele se juntando o equilíbrio das réguas da produção de Dave Fridmann, a trazer ao álbum o mesmíssimo (e igualmente imparável) caleidoscópio sinfónico que emprestara aos Flaming Lips, um meio-termo entre o devaneio futurista de infantes com ilusões megalómanas e a nostalgia retro de conhecedores. Em todo o caso, o álbum sai bem da aposta numa genética simples para as canções: melodias breves, redondas e sem complexidades, ambientes com a urgência e desconforto próprios de juvenis e espírito inventivo. Nessa tentativa de, tal como outros conterrâneos da mesma geração, desenharem uma rejuvenescida arquitectura para a pop contemporânea, os MGMT desvendam em Oracular Spectacular a dose de criatividade que pode precipitá-los para as preferências de muitos melómanos não conformistas. O começo é indiscutivelmente bom, a despeito de alguns equívocos pontuais. Esperemos que nem estes, nem o sucesso instantâneo, venham a confundi-los em próximos capítulos...

segunda-feira, 10 de março de 2008

Bauhaus - Go Away White

5/10
Cooking Vinyl
Edel
2008
www.bauhausmusik.com



Chega agora aos escaparates mais uma das expressões de revivalismo que, nos últimos tempos, tomaram a orbe rock. Trata-se do regresso discográfico dos míticos Bauhaus, quase um quarto de século volvido desde o último registo de estúdio, Burning From the Inside (1983). Durante a curta primeira vida (1978-83) do colectivo liderado por Peter Murphy, a banda editou um quarteto de álbuns onde vincou decisivamente ao que vinha. Apostando em assumir uma descendência negra do glam-rock, Murphy e companhia colheram, a despeito de uma não muito pacífica relação com a crítica especializada, a simpatia de uma considerável legião de fãs de várias tribos e identidades. Dos adeptos da urgência e electricidade punk aos sorumbáticos góticos, dos devotos de Bowie aos experimentalistas do rock industrial, poucos foram aqueles que não sentiram o fim dos Bauhaus, mesmo com a ininterrupta (e discreta) actividade a solo de Peter Murphy ou dos restantes três Bauhaus (Daniel Ash, David J e Kevin Haskins), reunidos como Love & Rockets. De então para cá, com a excepção mais ou menos óbvia de Trent Reznor (Nine Inch Nails), poucos projectos musicais conseguiram somar algo ao vazio deixado pelo termo dos Bauhaus e, em última análise, isso atribuiu uma carga quase mitológica ao legado do quarteto britânico. O muito saudado segundo regresso aos palcos - depois de uma digressão pontual, há coisa de dez anos - com o alinhamento original da banda, já em 2006, fez crescer nostalgia e expectativas quanto a um novo trabalho que, nas palavras de Murphy, será o requiem definitivo dos Bauhaus, o canto do cisne.

Musicalmente, Go Away White não tem surpresas e quase soa anacrónico, tal a fidelidade com que decalca os postulados que celebrizaram a banda no passado, inspirando-se na densidade emocional de um rock cru, de essência minimalista e a invocar uma certa teatralidade lúgubre. Nesse sentido, o álbum é, mesmo com o intervalo de vinte e cinco anos, um sucessor natural de Burning From the Inside, com uma diferença muito penalizadora: a inspiração, aqui, é mínima. Tirando um ou outro momento que sacia saudades do passado, mormente nas composições mais sombrias (como a interessante "The Dog's a Vapour"), Go Away White resume-se a fórmulas gastas, mesmo cristalizadas, e poucos fôlegos cativantes. Se estas vão ser, de facto, as últimas manifestações dos Bauhaus - nestas coisas da música, um adeus nem sempre é para ser tomado como um fim - mais vale recordá-los na fase 1978-83. E deixar que a memória preencha os vazios que Go Away White não remedeia...

Stephen Malkmus & The Jicks - Real Emotional Trash


6/10
Domino
Edel
2008
www.stephenmalkmus.com



Desde a cessação dos Pavement, o californiano Stephen Malkmus protagonizou um percurso solitário em que soube erguer uma identidade própria, fazendo uso do espírito independente que herdou ao leme do colectivo mas, ao mesmo tempo, sendo capaz de demarcar-se da "pesada" sombra de um legado artístico reconhecido e, sobretudo, do perigo de se limitar ao decalque de conceitos. Três álbuns depois, Real Emotional Trash vê a luz do dia sob suspeitas de que a febre das reuniões de bandas desintegradas venha a tocar também os Pavement. E a onda especulativa parece ter contaminado a escrita de Malkmus, ou não fosse este, do quarteto de álbuns em nome próprio, aquele que mais revela proximidades com o seu próprio passado criativo. Percebe-se, tão claramente como se sentia em alguns momentos dos Pavement, o gosto em procurar órbitas fora das convenções e, assim, desenhar canções sem compromisso formal, mas com destino definido. Depois, atrás dessa liberdade (libertinagem?) criativa, vêm afinidades com o lado mais emocional do rock progressivo (o exemplo mais notório mora no tema-título) e uma predisposição para desmontar as estruturas que os primeiros acordes de cada composição anunciam. Nesse particular, Real Emotional Trash mostra um sensível desembaraço de estúdio, muitas vezes derivando para aquilo que parece mais ser o registo de uma sessão de improviso ou de um ensaio do que propriamente uma obra terminada.

Nada a opôr a essa matriz (des)construtiva, não fosse o problema de, na maior parte desses instantes, se instalar um ligeiro desgoverno que, podendo vir a deliciar adeptos de música livre, acaba por ofuscar propósitos e sentidos finais de cada peça e, no lugar destes, instalar a repetição ou, em alguns casos, a indefinição. Ainda assim, como não podia deixar de ser num disco de Malkmus, há trechos que recompensam a indulgência do ouvinte face ao enigmático psicadelismo e à flacidez do alinhamento: "Baltimore" é um alienado exercício de rock progressivo (onde se desvenda a utilíssima ajuda da nova membro dos The Jicks, Janet Weiss, voz e percussão das Sleater Kinney), "Gardenia" e "We Can't Help You" são o contraponto de luminosidade, "Dragonfly Pie" é um curioso mosaico rock. E assim se sublinham as ambivalências de Real Emotional Trash. Não espanta que ele suscite opiniões contrastantes que, goste-se ou não do resultado, certificam a autoridade de Malkmus como compositor a quem poucos ficam indiferentes.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Vampire Weekend - Vampire Weekend




O último acontecimento musical do cada vez mais produtivo filão nova-iorquino e, antes disso, do fenómeno corrente das blog bands (foi na plataforma da blogosfera que o entusiasmo em torno da banda se sedimentou), é o quarteto Vampire Weekend. Se o final do ano passado, com um par de singles ("Cape Cod Kwassa Kwassa", primeiro, e a deliciosa "Mansard Roof" depois) de impressiva frescura pop, nos mostrou indícios primeiros de confirmação da valia que, para estes rapazes, era anunciada (e entronizada) num generalizado burburinho cibernético, o álbum homónimo de estreia está aí para pôr à prova todas as considerações. As primeiras audições do disco, além de afirmarem categoricamente a viciante sedução das canções, descodificam parcialmente o enigmático rótulo estético em que a banda se auto-arruma, com pompa de novidade: "Upper West Side Soweto". Em partes iguais, atrás dessa expressão, revelam-se afinidades indisfarçáveis com as descendências experimentais do new wave, não necessariamente nova-iorquino (os Talking Heads ou a fase "africana" de Paul Simon parecem um luminária mais ou menos presente), e uma muito curiosa proximidade com ritmos e trejeitos instrumentais africanos (a kwassa kwassa do Congo até baptiza uma das canções). Desconhecem-se as causas dessas relações de contacto dos Vampire Weekend com a música africana, mas a verdade é que a fórmula resulta muito bem, com o entusiasmo quase naïf do anúncio de uma nova descoberta. Depois, as composições, mesmo quando se refugiam em minimalismo recatado, irradiam atitude positiva: as guitarras maquilham-se de festim afro, as percussões pulsam compassos dançantes, as teclas emprestam cores e serpentinas, os arranjos enchem o ambiente de luzes multi-coloridas e a voz de Ezra Koenig é uma fulgurante chama de optimismo. No final, depois de escutado vezes sem conta, sobra a sensação de que dificilmente o debute discográfico dos Vampire Weekend poderia ser melhor. E que se trata de um registo imperdível de pop simples, tocante, melódica, sem recursos técnicos desnecessários e apaixonante. Não é a isso que se deve chamar novidade?

terça-feira, 4 de março de 2008

Evangelista - Hello, Voyager

8/10
Constellation
2008
www.evangelistasounds.com



Com um início de trajecto artístico disseminado por inúmeros projectos musicais e um sem-número de colaborações paralelas, a nova-iorquina Carla Bozulich tardou a conquistar o seu próprio lugar na convulsa cena musical americana. A comprovar os múltiplos desdobramentos e identidades da compositora, o seu primeiro registo a solo seria editado apenas em 2003 (Red Hearted Stranger), quase uma vintena de anos depois de ter experimentado os primeiros passos, na altura ao lado de Gary Kail. Defensora de uma concepção de arte que não se fecha apenas nas manifestações musicais, abrindo a verve à escrita e a casuais expressões na arte ilustrativa, Bozulich aderiu recentemente à "família" da Constellation, selo canadiano conhecido pelas sinergias entre os integrantes do seu catálogo, pelo que não se estranha o auxílio instrumental de grande parte dos Thee Silver Mt. Zion nas gravações deste Hello, Voyager. Ao deixar cair o seu próprio nome e rebaptizar o novel conceito musical (Evangelista) num formato de banda, Bozulich terá tentado estabilizar um alinhamento de músicos e, ao mesmo tempo, reconhecer a relevância do contributo de dois parceiros dos últimos anos: a baixista Tara Barnes (Eno, Business Lady) e o baterista Shahzad Ismaily (Secret Chiefs 3).

Em termos estritamente musicais, Hello, Voyager não mostra diferenças muito salientes face à tríade de álbuns atrás de si. Se estes eram marcados, sobretudo, por uma visão muito peculiar das diversas gamas e ambientes minimalistas da country-folk, quase constantemente apresentados com revestimentos de experimentalismo negro e alguma espiritualidade, o novo registo acolhe semelhante modelo estético. O disco repisa a simplicidade estrutural de outrora, apostando essencialmente na purificação emocional, ora buscando uma certa teatralidade sombria (os acrescentos de cordas são preciosos nesse particular), ora preferindo deflagrar pontualmente ruídos próximos da música industrial. Em qualquer dos casos, o pano de fundo é dado por construções melódicas pouco complexas, no limite da desconstrução (ouça-se a exemplar coda de encerramento do álbum), com a inconfundível voz cicerone de Bozulich (às vezes lembra Kristin Hersh) a levar-nos por entre abstracções de caos gótico e bizarros mantras ou confissões de catarse. Há qualquer coisa de entrópico na música da nova-iorquina e é precisamente no meio do desregramento que nasce uma lógica cativante, a sedução pelo choque, a atracção no confronto. E aí, Hello, Voyager desvenda o raro refinamento de uma linguagem que, tendo sido aperfeiçoada gradualmente, chega agora a um belíssimo equilíbrio entre a plácida melodia pastoral e a esquizofrénica experiência rock com ruídos.

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segunda-feira, 3 de março de 2008

Nick Cave & The Bad Seeds - Dig!!! Lazarus Dig!!!




Depois de alguns desvios criativos recentes, mormente com o projecto Grinderman e algumas composições para a sétima arte - a mais notada em partilha com Warren Ellis (também integrou os Grinderman) para O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford, de Andrew Dominik - Nick Cave retoma o percurso que divide com os Bad Seeds há mais de duas décadas. Se o isolado exercício homónimo dos Grinderman, editado no ano transacto, desvendava uma certa nostalgia dos ambientes poeirentos e nervosos da garagem, a recordar os tempos distantes dos Birthday Party, o novo Dig!!! Lazarus Dig!!! recupera parte desse propósito estético, não se coibindo de buscar o conforto de registos "sujos" e, ao mesmo tempo, temperá-los com uma belíssima produção e um ou outro extravio experimental (ouça-se, como exemplo, a soturna "Night of the Lotus Eaters"). Mas mais do que meramente demonstrar qualquer espécie de continuidade (nunca foi esse o cunho de Cave!), o álbum é, acima de tudo, um teste ao gozo do desassossegado australiano na escrita de música e uma revisitação às várias métricas e conceitos de uma carreira que o tempo ajudou a definir como duradoura e incontestável.

Cabem aqui as já usadas competências de explorador de profecias, mitos e crenças religiosas - a evocação do emblema bíblico da ressuscitação, Lázaro, é a mais recente adição à "colecção" - mas também os instintos idiossincráticos (e enigmáticos) de Cave, sempre sublinhados por uma refinadíssima ironia: as mulheres amantes, o hedonismo e a morte que marcha ao nosso lado. Musicalmente, Dig!!! Lazarus Dig!!! é tão vernáculo quanto pode ser um disco de Cave, necessariamente poroso (haverá certamente quem o considere pouco "coeso"), por vezes de uma simplicidade técnica desarmante (a estrutura mínima de acordes de "More News From Nowhere" ou de "Night of the Lotus Eaters" é um paradigma disso), mas sempre pontuado por poemas subversivos, bem escritos e humorados e uma verve que não cessa de efervescer. Mais uma oportuna lição do cinquentão do rock aussie...

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

American Music Club - The Golden Age

7/10
Merge Records
2008
www.american-music-club.com



Poucos serão aqueles que não reconhecem na figura de Mark Eitzel uma das mais peremptórias âncoras do universo indie americano. Por inerência, os American Music Club, colectivo que lidera há cerca de vintena e meia de anos (com um hiato sabático de uma década pelo meio), merecem ser reconhecidos na exacta medida em que a sua música desbravou consciências, mesclando num jeito único os arquétipos da folk americana e a complexidade intimista de um compositor muito cuidadoso na hora de reflectir sobre cenários pessoais e circunstâncias sociais à sua volta. O produto musical dos AMC tornou-se, assim, não apenas um harmónico cancioneiro das várias dimensões e descendências da música americana (de cariz essencialmente acústico e cadência pausada), como também uma obra recheada, em partes iguais, de letras de introspecção e de consciência político-social, quase sempre pautadas por um romantismo negro e pureza sentimental. Neste segunda manifestação depois do "regresso" (Love Songs For Patriots, de 2004, interrompera o tal interregno de dez anos), os AMC não desiludem e reafirmam a validade de uma linguagem musical singular, gentil e delicada, na primeira impressão, mas com um substrato de espírito observador desinquieto a revelar-se gradualmente. The Golden Age é, portanto, um disco que faz uso das melancolias de Eitzel, aqui e ali ousando escapar-se do conforto de um discurso cimentado ao longo de anos, mas sem um rasgo decisivo de novidade. O que, no caso dos AMC, não é necessariamente negativo, ou não estivéssemos perante um dos ensembles americanos de maior eloquência artística e com um discurso suficientemente emancipado para ter fôlego próprio e méritos peculiares. E para valer, em si mesmo, um muito competente desempenho na composição.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Alinhar pelo presente...

Com chegada prevista para o final de Março, o novo (e sexto) disco dos britânicos Supergrass marca o regresso do quarteto, agora alinhado com as descendências mais recentes do rock do Reino Unido. "Diamond Hoo Ha Man", primeiro avanço do álbum homónimo, está aí para demonstrar o distanciamento da banda face às suas raízes pop-punk (quem não se lembra da celebérrima "Alright", de 1995?), rumo a um discurso rock 'n' roll mais directo e imediato, também mais cru mas, como bem confirma esta canção, não menos entusiasmante. Com ou sem cedências fruto da contemporaneidade e da necessidade de não cair no esquecimento...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

E a Europa ali tão perto...


Marion Cotillard, imprevisto emblema da entrega dos Óscares, esta madrugada, foi a surpreendente (e surpreendida) distinguida na categoria de representação feminina, figurando ao lado do mais que previsto Daniel Day-Lewis (arrecadou a terceira estatueta da sua carreira) e dos irmãos Coen - levaram para casa os prémios mais cobiçados: Melhor Filme e Realização (Este País Não é Para Velhos). Nos desempenhos de suporte, Javier Bardem e Tilda Swinton confirmaram uma regra curiosa: as categorias de representação distinguiram exclusivamente actores europeus. Irónicos sinais dos tempos, numa indústria cinematográfica de grande escala que, independentemente da presença plutocrática dos mastodônticos estúdios de Hollywood e suas estruturas tentaculares na sétima arte, não deixa de desvendar um espaço mediático cada vez maior para actores não americanos.

A lista completa de vencedores pode ser consultada aqui.

Goldfrapp - Seventh Tree

6/10
Mute Records
EMI
2008
www.goldfrapp.co.uk



Depois de uma trindade de registos vocacionados essencialmente para perscrutar as potencialidades hedonistas da electrónica de grande consumo, Alison Goldfrapp ter-se-á cansado do quotidiano de estrela generalizadamente consagrada nesse orbe. Não se deve estranhar, portanto, que Seventh Tree seja uma espécie de volte-face e prescinda de parte significativa do cardápio costumeiro, pondo de lado a efusão sintética de outros discos, as camadas sobrepostas de sintetizadores, os efeitos vocais ou as guitarras angulares. No lugar dessa panóplia "artificial", as composições reservam, agora, espaço para um compromisso de estruturas acústicas, voz maioritariamente livre de maquilhagem e uma inesperada sensibilidade (e desafectação) pop. Nesse aspecto, as canções desvendam um curioso jogo de introspecções mais pessoais, ao sublinharem intimismo e densidade ambiental, no mesmo jeito do distante Felt Mountain, de 2000. Não obstante essa aproximação ao melhor passado de Goldfrapp e a consequente viragem acústica, Seventh Tree não chega a privar-se em absoluto das valências dos sintetizadores, acabando por usá-los como pontual escapatória de emergência, essencialmente no preenchimento dos ambientes acústicos. E é nessa irresolução, no estranho limbo entre o dançante urbano e a folk quase pastoral do início de percurso (aqui apenas reminiscente...), que se perde Seventh Tree. A despeito de um ou outro momento de maior assombro (a minimalista "Clowns" é paradigma) - a provar a validade segura da aliança Alison Goldfrapp/Will Gregory - o disco fica refém das suas próprias premissas, divagando medianamente entre uma proposta de pop surrealista e de abstracção (que imporia uma escrita com outro apuro) e a reciclagem cheia de impurezas dos vícios dançantes dos últimos registos. E acaba por não ser nem uma coisa nem outra.

Posto de escuta ClownsIHappinessIA&E

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Dengue Fever - Venus on Earth




Se há colectivo musical que reflecte directamente os efeitos da miscigenação cultural a que pomposamente se atribui o substantivo chavão da globalização, ele está nos californianos Dengue Fever. Alegadamente formados depois de uma avulsa expedição do teclista Ethan Holtzman ao Cambodja, onde descobriu o rock sessentista local - então desvendando improváveis afinidades com a estética do rock psicadélico "clássico" (a presença notória do órgão e das guitarras distorcidas) e pontos de contacto com o imaginário do cinema indiano - os Dengue Fever começaram por ser um espaço de veneração desses sons. Com uma formação inicial que, além de Ethan contava com o irmão Zac Holtzman (voz/guitarra), o saxofonista David Ralicke, o baterista Paul Smith e o baixista Senon Williams (dos Radar Bros.), os Dengue Fever começaram por ser uma banda de versões, usando material do legado cambodjiano trazido para os E.U.A. por Ethan. Não tardou até que o quinteto sentisse o impulso de escrever originais; a revelação de Chhom Nimol, cantora emigrante em Los Angeles e descendente de uma família artisticamente célebre no Cambodja, trouxe à música dos Dengue Fever o carisma procurado: verbalizações em língua khmer.

Com um discreto debute essencialmente feito de versões e um segundo álbum a emancipar a escrita própria, o sexteto aprimora fórmulas no terceiro capítulo. Venus on Earth vai um pouco mais além na mescla entre o exotismo importado da Indochina e coordenadas diversas das brass bands (tão caras ao universo asiático) e, sobretudo, do rock nostálgico. Nesse particular, é curiosa (e muito apropriada, diga-se) a menção, no MySpace dos Dengue Fever, aos Mutantes como influência primária. Há, de facto, qualquer coisa neste colectivo da bizarria progressiva e da verve sulcadora de consciências que os brasileiros tiveram no final da década de sessenta. O único senão é que, a despeito de a banda se revelar mais "solta" aqui do que em tomos anteriores, parecem sair esbanjadas algumas boas ideias desse desembaraço. E isso quer dizer que, salvo um punhado de excepções ("Seeing Hands", "Laugh Track" e "Mr. Orange"), Venus on Earth fica aquém da diversidade que os Dengue Fever prometem.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Nova Balla em Março

No final do próximo mês, chegará às lojas Resumo, nova compilação da Chiado Records e SonyBMG dos principais êxitos do projecto Balla, de Armando Teixeira. A colecção cobrirá os três álbuns do autor sob esse epíteto e vem apresentada pelo novo single "Tudo (Em Queda Livre)". A canção está disponível para escuta no sítio oficial da editora. Basta clicar aqui.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Novos sons de Brooklyn

Embora tenha sido lançado no mercado americano já no final do ano transacto, o álbum de estreia dos nova-iorquinos MGMT tem chegada à Europa prevista para Março. Eles são o novo dueto-sensação da hiper-activa Brooklyn e "Time to Pretend", primeiro avanço do disco, faz alarde uma electro-pop esdrúxula e subliminarmente psicadélica, cheia de cores, com um punhado de referências nostálgicas e com um entendimento melódico verdadeiramente enleante. Coisa para fazer lembrar o que de melhor brotou da fonte Flaming Lips. Nem de propósito: Dave Fridmann, alquimista habitual do som dos FL, produz Andrew Vanwyngarden e Ben Goldwasser neste debute. Deguste-se, pois então.

Em actuação no David Letterman Show:


Para ver o vídeo oficial da canção em alta resolução, clique aqui

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Earth - The Bees Made Honey in the Lion's Skull

7/10
Southern Lord
2008
www.thronesanddominions.com



Dylan Carlson é uma daquelas personagens do mundo musical a que o tempo não fez justiça. Saído do ventre da mesma Seattle que produziu o movimento grunge e deu voz a uma geração de rebeldes descrentes, amigo próximo do malogrado guru e ícone espiritual dessa corrente (Kurt Cobain), Carlson conservou-se placidamente debaixo dos radares do fulgor mediático, embora tenha sido um dos pioneiros mais relevantes da estética drone, logo no começo da década de noventa. Com Matthew "Slim" Moon (fundador dos selos Kill Rock Stars e do entretanto extinto 5 Rue Christine) e Greg Barbior, Carlson criou discretamente os Earth, então subscrevendo um conceito minimalista e especulativo de pegar no rock dos Melvins e, denotando afinidades com as órbitas noise (guitarras afinadas em tons graves, distorções hiperbólicas e acordes prolongados) e com uma certa amorfia e abstracção nas estruturas, inventar-lhe uma feição críptica e cheia de sombras. Não é à toa que os Earth são citados como a luminária decisiva de gente "negra" como Stephen O'Malley (Khanate, Sunn O))), KTL, Lotus Eaters, Ginnungagap), Al Cisneros (Sleep, Om) ou Boris que, hoje por hoje, são os emblemas do drone contemporâneo. Contudo, quem escuta este The Bees Made Honey in the Lion's Skull percebe que Carlson não é um estacionário; se o antecessor, Hex: Or Printing in the Infernal Method (2005), o primeiro título pela Southern Lord, depois de um hiato sabático de alguns anos dos Earth, desvendara uma espécie de ressurreição de Carlson, pela ousadia a desbaratar a habitual impermeabilidade do drone e, assim, permitir saudáveis (e equilibradas) contaminações de arenosa espiritualidade western, quase country-depressivas. Tratava-se, na substância, de um disco de reforçada espiritualidade, já não erguida apenas da redundância de distorções ásperas e lúgubres, mas essencialmente da oportunidade melódica que surgiu do abaixamento de volumes, subida de tons e outro detalhismo na composição.

São também essas as premissas de The Bees Made Honey in the Lion's Skull, um trabalho bem distante das órbitas conceptuais de início de carreira e ilustrativo da sublimação de fórmulas da segunda pele dos Earth (e de Carlson). Os trechos pouco guardam do drone e, sem perderem vigor anestésico (no acepção hipnótica da expressão), apelam ao tal imaginário western, ainda que entrecortado por ambientes de espiritualidade escura. As instrumentações, a despeito de alguns lances mais repetitivos (afinal, essa é uma das deformações próprias de alguém com raízes no drone), são de escol. E, no final, fica a sensação de que este é o melhor álbum da segunda vida dos Earth.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

DJ Dolores - 1 Real

8/10
Ziriguiboom
2008
www.crammed.be



Quase três anos decorreram desde que Aparelhagem deu ao sergipano Hélder Aragão (aka DJ Dolores) visibilidade internacional, além das fronteiras do Brasil. Esse trabalho desvendava uma curiosíssima mescla de variáveis tradicionais da música do Recife - sobretudo os embalos contagiantes do maracatu (ele próprio um produto híbrido das culturas afro-indígenas) - com elementos de síntese e as programações, breakbeats e samples. A mistura é recuperada neste 1 Real (não nos deixemos enganar pelo título aparentemente prosaico), um disco povoado por ambientes festivos, genuinamente dançantes e muito bem arrumados. Há lugar para um certo tribalismo com sabores de África ou da Jamaica (o reggae-dub é luminária repetida), para a sedução latina e para métricas da embolada, do afoxé, do carimbó e do caboclinho guerreiro, também para toadas de funk e rock maquilhados, violinos (belos arranjos!) e guitarras, baixos trance, pandeiros e batuques, acordeões, metais, ocarinas, ferrinhos... Ao lado desses ingredientes imprescindíveis a qualquer festa ou charanga do Nordeste, desfila um manifesto de modernidade, tanto no recurso a samples e composições de várias órbitas estéticas (são exemplo a vénia à chanson française - com a voz de Marion Del'eite - em "Shakespeare" ou o protótipo tango-dub de "Números"), como nas magníficas construções rítmicas que são o garante de coesão e harmonia do disco. 1 Real resgata a voz de Isaar (já tinha colaborado com Aragão no álbum anterior) e junta-lhe Hugh Cornwell (dos Stranglers) e os conterrâneos nordestinos Silvério Pessoa, Mónica Feijó, Cláudia Beija e Tiné, vocalista da Academia da Berlinda. Tudo junto, o registo torna-se um belíssimo exercício de exportação da cultura nordestina - Aragão está habituado a maiores encómios além-fronteiras do que "em casa" - e, mais do que isso, soma virtudes às do antecessor, confirmando DJ Dolores como um dos ícones mais sólidos da música brasileira consumida no resto do planeta.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

If Lucy Fell - Zebra Dance

7/10
Rastilho
2008
www.iflucyfell.com



Depois de se terem apresentado ao universo musical com um muito competente - e generalizadamente bem acolhido - álbum de estreia (You Make Me Nervous, de 2005), então desvendando um rock tenso e musculado, pautado por um certo nervo experimentalista e, sobretudo, por uma identidade quase artesanal na hora de domar energias e dispô-las em "canções" corrosivas e esquizofrénicas, os lisbonenses If Lucy Fell chegam ao crítico (e sempre empolado) momento do segundo disco. A matriz técnica de Zebra Dance não difere substancialmente do antecessor, todavia percebe-se uma amplitude maior das composições, mormente na forma como crescem além do metalcore - afinal, é aí que moram as fundações da banda e o começo do percurso artístico dos seus integrantes - e definem uma linguagem mais refinada. E isso, neste caso, pode ser sinónimo de cadências aqui e ali menos ofegantes, de uma melhor estruturação dos enlaces instrumentais, de um desempenho vocal mais firme e, inclusivamente, de composições menos previsíveis e com pausas para descanso. Nesse particular, Zebra Dance acaba por criar a ilusão de ser um disco menos duro mas, ao invés disso, sob essa fantasia de aparente abrandamento, descobre-se música tão pujante e visceral quanto antes. A diferença está na "massa", decididamente menos difusa (a adição das teclas de "Shela" Pereira, dos Riding Panico não é fenómeno estranho a isso), com tiques mais próximos de outras órbitas, como sejam alguns breves ensaios progressivos e, mais evidentes ainda, outros números contaminados por afinidades (bem disfarçadas atrás da extática farra de electricidade e distorção) com o laconismo técnico dos cânones math.

Em qualquer um desses revestimentos, sobressai o ímpeto contestatário e a excitante inflamação da música dos If Lucy Fell e, sobretudo, a verve cada vez mais pulsante do grupo, bem ao jeito de um turbilhão de ideias suficientemente rico para poder atrever-se a mutações de estilo - e, também às oportuníssimas interferências de Joaquim Albergaria (a voz dos Vicious Five faz uma perninha em "La Decadence") e dos Dead Combo (na sublime coda do álbum, a críptica "She Dies") - sem perder o quinhão mais importante da sua identidade. E se, no mundo animal, a dança das zebras não é mais do que um atávico ardil para enganar olhos predadores, a Zebra Dance destes intrépidos lisboetas está aí para despir camuflagens humanas. Somos todos presas e predadores. Mas ao ouvir os If Lucy Fell e o seu imparável banzé, hoje por hoje uma das mais entusiasmantes manifestações musicais da Lusitânia, não é difícil sentir-se um apelo voraz e primário pela caçada. Por mais que a zebra dance para confundir...

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Sascha Funke - Mango

7/10
Bpitch Control
2008
www.myspace.com/
saschafunke



Depois de um álbum de estreia que o apresentou discretamente à cena electrónica berlinense (Bravo, de 2003), Sascha Funke viu crescer o seu reconhecimento artístico à custa de intensa actividade em remisturas e inúmeras edições avulsas em formato 12''. Tendo, portanto, granjeado elogios mais ou menos generalizados da crítica especializada, mormente pela sua natural apetência para conjugar o lado mais técnico e estruturado da techno minimalista com talhes de fino recorte ambiental/pop, não é estranho que se tenha erguido uma exigente vaga de expectativas em torno do segundo tomo. Se o debute anunciara vincado equilíbrio entre a frieza das cadências rítmicas - repetitivas, como convém ao género - e uma curiosa noção de melodias e ambientes mais emocionais (nesse particular, o recurso ao sintetizador como indutor de melancolias "suspensas" marcou pontos), o sucessor sublinha fórmulas e redesenha a profundidade das atmosferas. Mango é, sobretudo, um exercício de continuidade face ao antecessor e, nesse sentido, encerra poucas novidades identitárias. Estão cá o mesmo minimalismo rítmico, os mesmos coloridos do sintetizador e das programações e um sentido de work-in-progress - uma intencional e genuína incompletude - que, se é comum às várias descendências da escola berlinense e fez escola, no caso de Mango chega a confundir-se com menor arrumo e precisão nos arranjos, em manifesto prejuízo da coesão do álbum. Ainda assim, o segundo longa-duração de Sascha Funke tem alguns motivos de interesse ("Mango", "Double Checked" e "Chemin des Figons" fazem a tríade de eleição) e que comprovam os méritos do músico como um dos intérpretes mais relevantes da electrónica europeia contemporânea.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Novembro - À Deriva

7/10
Lisboa Records
2008
www.novembro.com.pt



O primeiro disco dos Novembro confirma as premissas que se conheciam da música do quarteto lisboeta, mormente desde a magnífica antecipação que foi "Solidão a Dois", assombrado cartão de visita do álbum que agora nos chega. O manancial inspirador do colectivo tem raízes no tradicionalismo e na cultura popular da música nacional, no fado da guitarra portuguesa, nas derivações esdrúxulas de um António Variações ou da Sétima Legião (aparentemente a referência estética mais notada) e, em simultâneo, em sabores de genuína contemporaneidade, como as programações e uma produção manifestamente actual. Trata-se, sobretudo, de um belíssimo casamento entre alentos artísticos modernizadores de um legado de que Miguel Filipe (o "líder" conceptual do projecto) gosta e a vénia indispensável a essa afeição. Por isso, À Deriva não tem pejo de combinar - e fá-lo sempre com um sentido de coesão bastante significativo - o choro da guitarra portuguesa e a urbanidade depressiva da eléctrica (ouça-se o excelente exemplo de "Plenitude") ou uma secção rítmica com qualquer coisa de costume folclórico e discretos sons de síntese. A mescla resulta quase sempre hipnótica e envolvente e, em complemento do substrato musical algo místico, vem apoiada em letras pontuadas por um imaginário densamente poético. No final, embora ressalte a sensação de que o álbum sairia beneficiado com um alinhamento mais curto, sobram argumentos para considerar os Novembro um dos candidatos mais sólidos a revelação do ano na música lusa. E À Deriva, na linha do que, por exemplo, vêm fazendo os A Naifa, é produto de uma geração de novos músicos preparados para coser um futuro com linhas de ontem. E, mesmo com algumas cisões, isso não se faz sem nostalgia.

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Dead Meadow - Old Growth

7/10
Matador
2008
www.deadmeadow.com



Embora esteja em actividade há mais de uma década e, inclusivamente, tenha figurado numa das famosas sessões do saudoso radialista John Peel, o trio americano Dead Meadow mantém-se um dos segredos mais bem guardados do stoner rock psicadélico. É verdade que esse género não é muito dado a grandes feitos mediáticos ou a públicos de grande escala e, em virtude disso, talvez se perceba como ainda tão pouca gente reparou neles, sendo este o quinto registo de uma discografia de surpreendente consistência, ora a piscar o olho aos cânones labirínticos e místicos do rock psicadélico dos 70's, ora a buscar ímpetos e desejos melódicos em referências mais actuais. Ao escutar a argúcia deste Old Growth - e, nele, desvendar todas as premissas da essência dos Dead Meadow - menos sentido faz o quase anonimato de Jason Simon e seus pares. As composições revelam um equilíbrio intocável entre construções melódicas e afinidades com o rock progressivo (os crescendos instrumentais são substância recorrente), entre fraseados vocais e instrumentais, entre a primazia da guitarra e a escora firme da percussão. Depois, não há nos Dead Meadow o despropositado sentido de urgência do stoner tradicional; eles descolam-se desse paradigma conceptual e preferem construir visando o detalhe, a contemplação, a auto-consciência do cultivo de uma certa fidalguia rock e, sobretudo, a noção de que a técnica não deve ser obstáculo à simplicidade estrutural das composições. E é essa a virtude maior de Old Growth, mostrar-nos música visceralmente simples, genuína na circunspecção e melancolia (nisso importa ânimos dos blues) mas, ainda assim, pejada de deliciosas minudências técnicas, servidas entre camadas de distorção ritmicamente estruturadas e doses infalíveis de solos. O instinto e a técnica a par, portanto, assim nos números musculados como nos momentos de maior placidez acústica. Um disco e uma banda dignos de francos encómios e que, em razão da sua completude, coerência e atributos, merecem ser resgatados dos baús do esquecimento e trazidos ao conhecimento da imensa legião de prosélitos do rock enquanto produto musical evoluído e sem espartilhos formais.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Bob Mould - District Line

5/10
Anti
2008
www.bobmould.com



O nova-iorquino Bob Mould fez nome como frontman dos Hüsker Dü, seminal colectivo do pós-punk americano da década de oitenta e, desde a dissolução do projecto, esteve ainda envolvido nas fundações dos Sugar (entretanto extintos) e em edições regulares em nome próprio. Esse percurso individual conheceu três fases: uma primeira, de natural e vigorosa descendência rock dos Hüsker Dü, a que se seguiram, numa segunda etapa, breves incursões pela música experimental e electrónica (o álbum Modulate, de 2002 é o paradigma dessa mudança), para, num terceiro acto, se registar o reencontro com a persona dominante do seu conceito musical, o rocker pensativo e eléctrico. Depois de Body of Song, de há três anos, ter recuperado esses confortos antigos, District Line é a continuidade lógica de um processo que, trazendo o músico/compositor ao seu habitat ingénito, acaba também por expô-lo ao risco de conformismo e previsibilidade. E é, de resto, essa a mácula do novo opus, um registo competente - como outros na discografia de Mould - mas sem grandes rasgos de renovação de princípios criativos. Ao invés disso, o alinhamento do álbum resvala, aqui e ali, para os terrenos deslizantes do mainstream e segue previsível, e muitas vezes confrangedor, como uma ociosa manobra em piloto automático. E isso são coisas pouco conformes com o seu passado icónico. Mas não deixa de ser curioso escutar Mould na máscara disco de "Shelter Me".

Hot Chip - Made in the Dark

6/10
DFA
EMI
2008
www.hotchip.co.uk



Tendo-se tornado um dos mais bem sucedidos exemplos de projecto musical que transborda as funções de produção/remistura e se torna um conceito musical emancipado e com identidade própria, o quinteto londrino Hot Chip evoluiu paulatinamente de uma fórmula musical com raízes na face mais esdrúxula da electrónica (esse substrato persiste na música que assinam hoje) para qualquer coisa que, à falta de melhor definição, se pode descrever como uma visão curiosa da electro-pop. Nesse particular, o colectivo inglês marcou pontos com o segundo álbum The Warning, chegado às lojas em 2006, então desvendando uma muito interessante gestão das bizarrias electrónicas de início de percurso, em prol de uma escrita escorreita, amiga do ouvido, de traço bem definido e claramente apostada na aprovação pela culture club. "Ready For the Floor", single de antecipação do novo disco, já dera mostras desse firme propósito, anunciando uma vivacidade pop que, todavia, pouca correspondência encontra nas demais composições do alinhamento. Pena que essa contagiante identidade acabe por se diluir na aparente sumptuosidade sonora do disco; de facto, atrás da cosmética e das mais ou menos notórias concessões a assuntos pop óbvios, existem momentos de menor inspiração, quase perdidos sob meias-luzes neón de cabaré em fim de noite. É o caso sintomático do tema-título (e não só), pseudo-balada downtempo, em manifesta incongruência com o fulgor de outros momentos do disco. É, afinal, nos instantes em que as energias criativas se libertam mais efusivamente que este Made in the Dark vinca a sua personalidade electro-pop e melhor convence, aí assegurando empatias imediatas com os incondicionais da banda que, ainda assim, não deixam de encontrar aqui matérias para torcer o nariz. Não se tratando de um exercício fracassado - o quarteto "Ready for the Floor", "Shake a Fist" (com um sample de Todd Rundgren), "One Pure Thought" e "Don't Dance" salva a honra do convento - Made in the Dark fica bem aquém do que se esperava dos inventivos Hot Chip.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

These New Puritans - Beat Pyramid




O ano transacto trouxe-nos, com impacto mediático mais ou menos generalizado, uma nova geração de descendentes britânicos dos movimentos rave do final da década de oitenta, com os londrinos Klaxons a assumirem o protagonismo liderante desse fôlego renovador, então dando azo ao rótulo de nu-rave (alegadamente, a expressão terá sido mesmo sugerida por Jamie Reynolds, alma criativa dos Klaxons). Embora não esteja ainda afastada a hipótese dessa nova corrente não corresponder a mais do que uma moda conjuntural e, consequentemente, a um passageiro frenesim de edições, continuam a surgir novas filiações. Os membros mais recentes da família nu-rave são os These New Puritans, bizarro quarteto de Southend que, além do citado enquadramento contemporâneo, se fazem às heranças dos saudosos The Fall, por exemplo, e as mesclam com finos recortes de electrónica de embalo dançante. Beat Pyramid, debute discográfico produzido por James Ford (dos Simian Mobile Disco), é definitivamente um trabalho enraizado também nas tendências pós-punk, com um interessantíssimo jogo de anti-melodias (aí quase trazem à memória coisas dos Joy Division) e uma postura irreverente e experimental, por vezes a roçar um pretensiosismo que, a bem da banda, se deve confundir com alguma ingenuidade artística. Em todo o caso, a fórmula aparentemente ainda descoordenada e algo excêntrica com que abordam a tarefa de compor música acaba por produzir alguns momentos de bom efeito ("Numerology aka Numbers", "Swords of Truth", "Infinity Ytinifni" ou "Elvis") a despeito da super-abundância de ideias que, aqui e ali, parece perturbar a afirmação de um discurso mais objectivo. Mesmo assim, uma estreia bastante interessante de uma banda a ter debaixo de olho para o futuro. Se os conceitos algo "brutos" (no sentido de púberes) que aqui desvendam conhecerem a maturação natural que é de esperar com o crescimento do colectivo, podemos estar em presença de uma banda cuja ambição desmedida pode encontrar feitos proporcionais. Por enquanto, ficam as boas indicações.

Posto de escuta MySpace

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Sons & Daughters - This Gift




A curta carreira dos escoceses Sons & Daughters, se ainda não permite ilações muito extensas sobre os feitos a que este quarteto poderá almejar no futuro, abre espaço para uma interessante inferência: há nesta banda um vigor curioso e, seguramente, uma energia que os afasta de familiaridades com outros conterrâneos (como os plácidos Belle & Sebastian). Decisiva para esse distanciamento, é a voz (e a postura) de Adele Bethel, descendente mais ou menos assumida das linhagens poeirentas de riot girls, com aquele jeito próprio de quem, com a mesma genuinidade, adoça fantasias e crava garras. Nesse particular, depois do interessante Repulsion Box com que debutaram nos mercados internacionais pela mão da Domino, notam-se agora sinais de depuração de fórmulas, tanto no domínio das energias difusas da voz de Adele - claramente mais ajustadas às composições - como na maturação da matriz pop eléctrica que o grupo subscreve. E é de pop que se trata aqui, sem cosméticas desnecessárias, sem desperdícios e, sobretudo, com um contagiante impulso dançante que, à partida, não pareceria casar muito bem com texturas eléctricas e pouco polidas. A verdade é que, não sendo uma obra magna, o disco acaba por revelar méritos escondidos nas primeiras audições e torna-se uma interessante audição, a despeito da aparente (e, em alguns casos, real) previsibilidade que envolve algumas faixas do alinhamento. Assim os Sons & Daughters sejam capazes de alinhar pelas sugestões do suculento avanço "Guilt Complex" e, certamente, teremos banda para "rebentar" proximamente.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

British Sea Power - Do You Like Rock Music?

7/10
Rough Trade
2008
www.britishseapower.co.uk



Subscritores de um tipo de rock de subliminar excentricidade e, sobretudo, com medidas largas na amplitude, coisa a que as convenções costumam chamar de "orquestral" - não pela dimensão instrumental proposta mas pela projecção que o composto música/arranjos insinua (aí, chegam a merecer comparações distantes com os Arcade Fire) - os ingleses British Sea Power chegam ao terceiro registo da sua carreira seguros dos ensinamentos dos capítulos anteriores. Não é que o som deles seja uma novidade extasiante. Não o é, de facto, mas ressalta de Do You Like Rock Music? uma tendência já conhecida deste intrépido quarteto: a predisposição para cerrar fileiras em volta de um ideário próprio e, ao que parece, cada vez mais imune a modas passageiras e manifestações de conjuntura. Além dessa (muito) salutar vontade de afirmar, aos poucos, um discurso pessoal (e intransmissível), os British Sea Power dão, aqui, uma belíssima demonstração do apuro a que essa linguagem própria chegou em matéria de composição. Se já lhes eram reconhecidos méritos de espontaneidade e melodismo, mesmo que em feições muitas vezes pouco convencionais, parece agora clara a aposta num rock mais pujante e enérgico, a recordar a herança tensa dos Echo & The Bunnymen (talvez a referência mais notória) que, retendo o genoma melódico do grupo, abre espaço para renovar a personalidade das vocalizações (e das canções) e, com isso, erguer peças mais vigorosas e com outra pompa. E, depois de escutar Do You Like Rock Music? não parece apenas retórica a pergunta que os quatro de Brighton escolheram para baptizar o disco. Afinal, o próprio álbum é uma cabal resposta do que pode valer o rock contemporâneo, marcando nítida clivagem com muitas das coisas que se vão fazendo hoje e, com isso, mostrando que é de gente como os British Sea Power que nasce um rock genuíno, sem compromissos de época e talentoso.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Black Mountain - In the Future

7/10
Jagjaguwar
2008
www.blackmountainarmy.com



Depois de um debute discográfico pouco mais do que discreto há três anos (com álbum homónimo), então desvendando claríssima propensão nostálgica do rock canónico dos anos setenta, sobretudo uma libertina admiração pelos psicadelismos Led Zeppelin e suas descendências, os Black Mountain estão de volta. Se o primeiro opus funcionara como anúncio de um propósito estético da (então) dupla canadiana (Stephen McBean e Amber Webber) - embora os outros poisos de McBean (Pink Mountaintops, Jerk With a Bomb) pudessem servir de referência prévia - este In the Future parece somar outras cambiantes e andamentos ao cardápio Black Mountain. Ao invés de meramente dar seguimento às sugestões previsíveis e a um certo laconismo conceptual que marcava o antecessor, o novo trabalho eleva a fasquia técnica, ao sublinhar renovadas ambições progressivas (chegando, inclusivamente, a trazer à memória o brilho virgem com que os sintetizadores tomaram o rock dos 70's) e, depois, manifesta um muito saudável sentido apocalíptico de ritmo e estilo. As sucessivas gradações do alinhamento (e mesmo em cada faixa) de momentos timidamente crepitantes e íntimos para as detonações e/ou ambientes mais expansivos não só confirmam a consistência do disco como o tornam bastante apelativo. E com um dinamismo que não existia no primeiro álbum. Mais do que isso, mesmo com um ou outro desvio na inspiração, percebe-se agora que a nostalgia do primeiro registo não era mais do que um imprescindível tirocínio para desenhar um futuro próprio que começa agora. E que vai numa firme passada de crescimento.