Dylan Carlson é uma daquelas personagens do mundo musical a que o tempo não fez justiça. Saído do ventre da mesma Seattle que produziu o movimento grunge e deu voz a uma geração de rebeldes descrentes, amigo próximo do malogrado guru e ícone espiritual dessa corrente (Kurt Cobain), Carlson conservou-se placidamente debaixo dos radares do fulgor mediático, embora tenha sido um dos pioneiros mais relevantes da estética drone, logo no começo da década de noventa. Com Matthew "Slim" Moon (fundador dos selos Kill Rock Stars e do entretanto extinto 5 Rue Christine) e Greg Barbior, Carlson criou discretamente os Earth, então subscrevendo um conceito minimalista e especulativo de pegar no rock dos Melvins e, denotando afinidades com as órbitas noise (guitarras afinadas em tons graves, distorções hiperbólicas e acordes prolongados) e com uma certa amorfia e abstracção nas estruturas, inventar-lhe uma feição críptica e cheia de sombras. Não é à toa que os Earth são citados como a luminária decisiva de gente "negra" como Stephen O'Malley (Khanate, Sunn O))), KTL, Lotus Eaters, Ginnungagap), Al Cisneros (Sleep, Om) ou Boris que, hoje por hoje, são os emblemas do drone contemporâneo. Contudo, quem escuta este The Bees Made Honey in the Lion's Skull percebe que Carlson não é um estacionário; se o antecessor, Hex: Or Printing in the Infernal Method (2005), o primeiro título pela Southern Lord, depois de um hiato sabático de alguns anos dos Earth, desvendara uma espécie de ressurreição de Carlson, pela ousadia a desbaratar a habitual impermeabilidade do drone e, assim, permitir saudáveis (e equilibradas) contaminações de arenosa espiritualidade western, quase country-depressivas. Tratava-se, na substância, de um disco de reforçada espiritualidade, já não erguida apenas da redundância de distorções ásperas e lúgubres, mas essencialmente da oportunidade melódica que surgiu do abaixamento de volumes, subida de tons e outro detalhismo na composição.
São também essas as premissas de The Bees Made Honey in the Lion's Skull, um trabalho bem distante das órbitas conceptuais de início de carreira e ilustrativo da sublimação de fórmulas da segunda pele dos Earth (e de Carlson). Os trechos pouco guardam do drone e, sem perderem vigor anestésico (no acepção hipnótica da expressão), apelam ao tal imaginário western, ainda que entrecortado por ambientes de espiritualidade escura. As instrumentações, a despeito de alguns lances mais repetitivos (afinal, essa é uma das deformações próprias de alguém com raízes no drone), são de escol. E, no final, fica a sensação de que este é o melhor álbum da segunda vida dos Earth.
O ano que agora finda não foi particularmente inspirado em termos musicais. Marcado pela recuperação de espaço mediático de algumas das estéticas electrónicas normalmente vetadas pelos grandes públicos e, sobretudo, pela febre dos regressos ao palco de míticas bandas do passado, 2008 trouxe-nos, como sempre acontece, boa música, algumas decepções e outras tantas revelações. Espreitemos, então, os melhores do ano desta casa. A primeira nota de destaque, mormente pelo simbolismo de regeneração da escola de sons mais ou menos “perdida” do rock matemático, é a natural consagração da estreia em disco dos americanos Battles como título máximo do ano. Eles não só deram novo fôlego e expressão a uma feição rock mais angular e técnica como, em paralelo, a apresentaram às novas gerações, garantindo a sobrevivência de um género que, por ser pouco dado a seguidismos e modas de momento, é normalmente posto à margem dos canais de distribuição dominante. Do outro lado do Atlântico, o misterioso Burial fez coisa parecida com o seu segundo álbum e merece a segunda posição do pódio, embora noutra órbita, desvendando dimensões novas do dubstep, assim confirmando virtudes do género bem além do habitat natural underground londrino. No último lugar da trindade de excelência, suplantando por muito pouco o magnífico quarto álbum dos conterrâneos The National – claramente os incontestáveis ganhadores do orbe pop-rock – surge a grande revelação da música americana para este ano, os Yeasayer e um disco de estreia esteticamente ambicioso e voltado para as novas coordenadas da folk.

